Meu final feliz
13 Capítulo 13
Num espaço atemporal...
— O senhor está definidamente brincando comigo! Quer que eu concorde em abandonar todos os nossos compradores, para atender a um pedido daquela...daquela...mulher?
— Ela é a viúva do rei, meu querido. Temos o nosso alvará porque ela permite que trabalhemos em suas terras.
— Todos os aldeões pagam impostos, pai! Ela não faz isso por ser bondosa! Ela quer manter a riqueza e precisa de todos os trabalhadores daqui! – o oleiro começa a limpar as mãos. – Não consigo acreditar que o senhor aceitou metade do pagamento!
O homem mais velho observa a bolsa com as moedas de ouro.
— O soldado de areia veio até nossa casa, Dashiel. Ele me entregou o bilhete e o alforje. Depois partiu, tão assustador quanto chegou. O que eu poderia fazer?
— Nada, pai. Peço desculpas pela minha arrogância. – ele dá de ombros. – Estamos todos atados aos desmandos dela, mesmo. A deformidade dela não está apenas no corpo, mas naquela podridão que chama de alma.
Os dois homens observam uma mulher jovem entrar na oficina. Pela expressão do rosto, não estava muito animada.
— Estamos vinculados à Rainha Fera?
— Não falem assim de nossa Governadora. A mulher já sofreu muito com a deformidade pelas queimaduras, para ainda ser chamada assim. – o homem mais velho não gosta dos comentários e retira-se da oficina, mas grita de longe. – Comecem a trabalhar nos pedidos! Teremos duas semanas até a entrega!
Dashiel olha para jovem e os dois se espantam.
— Duas semanas? Ela quer essas monstruosidades em duas semanas? Com esse tempo úmido?
— E com nossa boa vontade? – a jovem começa a rir. – Vamos criar as gárgulas?
O oleiro esboça um pequeno sorriso.
— Nosso pai cedeu rápido demais ao pedido dela. Não é a primeira vez que a Rainha Fera faz pedidos e ele não os recusa. Será que ele está escondendo algo sobre as dívidas de jogos?
— Para o bem de todos da nossa família, espero que nosso pai esteja falando a verdade. – a jovem olha na direção da porta. – Espero que nosso pai não tenha feito acordo algum com a Governadora. Mas em caso de dúvida, vamos começar a trabalhar nas encomendas.
Os dias vão passando e o trabalho se intensifica devido ao clima úmido que não estava ajudando na confecção dos dois imensos vasos encomendados pela Governadora. Mesmo trabalhando muitas horas do dia e da noite, os irmãos não estavam exitosos na realização da tarefa. Os vasos não resistiam e eram afetados pela qualidade do material e pela umidade excessiva do ar.
— Não sei mais o que posso fazer. Minhas técnicas estão falhando e o trabalho não flui. – Dashiel se senta à mesa e come com avidez. Estava em jejum desde as primeiras horas da manhã. – Estive pensando em ir até o pântano e colher argila por lá. A qualidade é diferente do material que temos aqui.
— O pântano é um lugar perigoso, filho. Além disso, é muito próximo às terras da casa de campo da Governadora...para entrar lá precisamos de autorização...
— Desde quando? – Dashiel para de comer e encara o pai.
— Eu ouvi rumores no marcado da cidade. A Rainha está restringindo a trajeto dos aldeões.
Dashiel observa a irmã se sentar à mesa também.
— Você sabia que a Rainha Fera está querendo controlar o direito de ir e vir dos aldeões? Preciso de argila do pântano e não posso mais ir até lá!
— Não sabia disso, não. Em breve decretará que teremos de usar coleiras? Ou irá autorizar os macacos voadores a entrarem em nossas casas? – a moça começa a comer.
— Eu já negociei com ela, então, eu vou buscar a argila. Você deve ficar aqui e proteger suas mãos...não deve machucá-las e o pântano é cheio de surpresar ruins. – o homem mais velho se levanta, apanha sua capa e uma arma. Saindo rapidamente da casa, deixando os filhos desconfiados.
Depois de muitas horas de caminhada, o homem decide deixar seu cavalo fora das terras pantaneiras. O local era muito perigoso e o animal poderia ficar atolado e sem salvação. Caminha mais algumas horas e quando finalmente chega à beirada de um lago escuro e coberto por folhas e galhos mortos, começa a observar ao redor. Quando jovem, costumava vir ali com seu pai em busca da melhor argila da região. Um material escuro e poderoso em sua moldura.
— Vamos terminar logo com isso, Dashiel. Precisamos do pagamento e da paz de espírito. – ele apanha seu material de coleta e inicia o seu trabalho, iluminado por um pequeno candeeiro.
Ali, distraído em seu trabalho, o velho se esquece do que havia a redor e perde-se em seus pensamentos, seus problemas e seu desespero em conseguir ouro o suficiente para o pagamento de suas dívidas. Temia ter de entregar sua filha caçula para um casamento com seu credor, além de ter de entregar suas terras e seus animais como parte da dívida. Aquele trabalho para a Governadora seria a salvação de sua família.
Mas antes que conseguisse entender o que estava acontecendo com aqueles guinchos e barulhos em sua volta, ele sente ser erguido do chão por garras poderosas e levado para longe dali. E pior: por cima das árvores.
Zonzo e dolorido, ele fecha os olhos durante o trajeto e torce para não despencar daquela altura e ferir ou perder a vida. Mas seus captores são cuidados e o levam para o alto da colina onde ficava o castelo verde e assustador, tomado pelos musgos e rodeado pelas árvores vivas: a residência oficial da Governadora e Rainha de Oz.
Uma imensa janela está aberta e é por ela, que o homem é atirado dentro do salão. Ele rola pelo chão e acredita que tenha quebrado todos os seus ossos. E os que ficaram inteiros, seriam quebrados pela Rainha. Depois de algum tempo, consegue se ajoelhar e ficar pé.
— Olá, meu caro Amaro! Por que está tão sujo de lama? O que estava fazendo naquele pântano?
— Majestade...eu...estava coletando material...meus filhos n-não co-conseguem...
— Não conseguem terminar ou estão boicotando o meu pedido? – ela permanece de costas para o homem. Quando se vira, a fria máscara de porcelana está sobre seu rosto, escondendo a deformidade das queimaduras. Mesmo elegante em seus vestidos escuros e coberta por joias, a mulher causava medo. – Por que estava coletando argila em meu pântano? Sabia que aquelas terras foram deixadas pelo meu finado marido como herança, não sabia?
— S-sim...eu e t-todos os aldeões...são suas terras...m-mas a argila resiste à umidade e meu filho Dashiel sugeriu que...
Um riso gutural é ouvido.
— Seu filho Dashiel? E por que ele não veio coletar o material?
— Pedi a ele p-para não sair de c-casa...ele... as mãos...ele é o melhor... – o homem abaixa a cabeça.
A Rainha desce os degraus do local onde ficava seu trono e caminha até Amaro. Sorri ao ver que o homem tremia, mas ninguém percebe a mudança no rosto.
— Espero que o ouro que lhe dei como parte do pagamento, tenha sanado boa parte de suas dívidas de jogo. Estou certa ou devo imaginar que você usou o dinheiro para fazer novas apostas?
Amaro treme ainda mais. A Rainha sabia de tudo. Sua irmã aprisionada no espelho conseguia vigiar todo o reino e informava os passos de quem interessava a soberana.
— Eu usei o di-dinheiro...a dívida...não pude...
Regina sorri por baixo da máscara e o som sai abafado. Era a réplica perfeita de seu belo rosto antes do incêndio. Mas agora era a representação da Máscara da Morte, fria, sem expressão e devastadora.
— Seu filho não consegue terminar os vasos, porque eu não estou permitindo, Amaro. Ele poderá trabalhar por mil e uma noites, mas jamais conseguirá findar, porque não estou interessada em vasos.
Amaro abaixa ainda mais a cabeça e aperta o chapéu entre as mãos. Ele sente Regina se inclinar em sua direção.
— Eu serei misericordiosa com você, velho tolo. – num gesto, ela joga inúmeras moedas de ouro aos pés do homem, que se ajoelha e apanha todas elas. Quanto mais ele apanhava, mais moedas surgiam. – Pague suas dívidas, compre mais terras, mais animais, faça uma oficina maior e cuide de sua família como ela merece.
O homem fica encegueirado pela quantidade de moedas que conseguia guardar em seu alforje.
— Idiota! – com outro gesto, Regina reúne as moedas e entrega o alforje para as mãos gulosas de Amaro. – Sabia que a febre do ouro é mais poderosa e fatal que a febre da Máscara da Morte Escarlate?
Controlando sua ansiedade, Amaro consegue olhar para a máscara de porcelana da Rainha.
— Diga que aceita o ouro que estou entregando a você, meu amigo. Nada me deixaria mais feliz que saber que mais um de meus súditos está feliz.
O homem abraça o alforje e sorri como se estivesse alucinado.
— O ouro será bem-vindo para minha família. Vou poder investir nas terras vizinhas, aumentar minha casa e comprar belas roupas para minha filha. Irei construir uma bela oficina para meu filho Dashiel e conseguirei enviar meu filho mais novo para a escola religiosa.
— Poderá ter muito ouro, de maneira que você e ele irão se confundir. – o som abafado do riso é ouvido. – Tem muito mais de onde esse saiu. Você o quer?
— Ouro é sempre bom, Majestade!
Regina observa e diverte-se com a ganância cega do aldeão. As mãos do homem tremiam e quanto mais ele guardava moedas na bolsa, mais moedas surgiam para seu delírio.
— Quer apenas que diga em voz alta, que este ouro é seu. Diga-me que ele será importante para sua vida e que ele precisa continuar em suas mãos.
Amaro gargalha histérico.
— Este ouro é meu e precisa continuar em minhas mãos! Eu preciso dele e é importante para mim!
Avançando um pouco mais, Regina desfere um golpe no alforje do aldeão. Moedas se espalham pelo soalho e rapidamente se reúnem sozinhas, retornando para o controle de Amaro. O homem não percebe isso.
— Eu lhe presenteei com algo valioso, meu velho amigo. Agora, quero que retribua a sua gratidão. O que tem para mim?
Os olhos preocupados de Amaro fitam a máscara sem vida.
— O que um aldeão, um humilde oleiro e lavrador teria de valor para agradar a Governadora, a Soberana e a Rainha de Oz?
— Eu lhe dei moedas de ouro em troca de vasos. Você gastou o pagamento e não me entregou a encomenda e mesmo assim, fui generosa. – ela segura o queixo do homem. – Quero algo que não possa ser medido em valor.
O que seria? O homem pensa em suas terras, seus poucos animais, sua vida árdua e em seus filhos, vivendo aprisionados naquele território sem ter sequer o direito de seguirem suas vidas além do mar.
— Minha vida, Senhora. É o que posso entregar à senhora. Torno-me seu escravo e em troca a senhora protegeria os meus filhos...
Regina chuta o homem e ele cai sentado.
— Vá embora! Não o quero mais em meu castelo! Você é horrendo e preciso ficar rodeada de beleza para não me lembrar do que sou! Agora saia!
Ela observa o homem caminhando para a saída da sala, lutando contra o peso do alforje repleto de moedas de ouro.
— Amaro, meu velho amigo!
Voltando-se para atender ao chamado da Soberana, o homem se sente intimidado e incomodado ao vê-la retirando a máscara e exibindo o rosto que estava debaixo da farsa.
— Eu lhe ordeno que envie o seu filho Dashiel para fazer-me companhia. Dei-lhe todo o ouro que poderia carregar e em troca quero seu filho mais velho. É isso que desejo!
— Meu filho? Não vendi meu filho! – ele derruba a bolsa, mas antes que pudesse entender, a bolsa está em seu ombro outra vez. E mesmo tentando livrar-se dela por diversos momentos, ela sempre acabava junto ao seu corpo. – Pare com isso!! O que está fazendo??
A mulher não responde. Apenas esboça o que poderia ser um sorriso horrendo.
— Você se apropriou do meu valioso ouro. Por isso estou me apropriando do seu valioso filho. Eu o quero em meu castelo na próxima lua cheia, ou irei até sua casa para dizimar toda a sua família e tomar Dashiel à força. Diga a ele que o quero no lugar do ouro que você está levando. – Regina gesticula a retoma a máscara, cobrindo sua face deformada. – Posso ser muito cruel, quando sou contrariada. Agora saia de minha casa!
Fale com o autor