Meu final feliz
14 Capítulo 14
Dashiel e a irmã observavam o pai choroso e desesperado, em sua luta alucinada contra o ouro que o circulava pelo chão da casa. Sentado no soalho, o homem empurrava as moedas para longe, mas elas voltavam rolando para junto dele. Moedas vivas.
— Ele vendeu a alma para a Rainha Fera e vendeu o meu corpo como complemento do acordo. – Dashiel se volta para a irmã e segura seu rosto entre as mãos. – Clara, quero que vá à torre da igreja abandona e abra o nicho onde guarde minhas economias. Apanhe tudo e embarque no primeiro navio que zarpar desta cidade. Caso você faça isso na primeira hora do sol, a Rainha Fera e a irmã dela não perceberão. Vá embora daqui, porque nosso pai está ensandecido e...bom, e eu não sairei vivo daquele castelo maldito.
Quando primeira noite de lua cheia se levanta no céu, Dashiel apeia do cavalo e observa a proximidade do bosque que dava acesso às terras ao redor do castelo da Rainha Regina. Árvores altas cruzavam-se em suas copas e formavam uma alameda triste e ainda mais assustadora durante as noites azuladas de lua cheia. Ele ajeita a capa sobre os ombros e acaricia o focinho do animal.
— Volte para casa, Dalas. Vá cuidar do nosso pai.
Como se entendesse o pedido, o animal dá meia volta e retorna para aldeia, deixando seu dono sozinho. Tomando coragem, o oleiro começa a caminhar na direção do imenso castelo verde, com aspecto abandonado e assombrado.
Os portões são abertos por dois soldados de areia. Eram apenas uniformes cheios de areia e de falsa vida a serviço da Rainha Fera. Não possuíam alma ou sentimentos e apenas obedeciam a todas as ordens dadas pela Governadora.
Tudo ali parecia estar morto. Nem mesmo o vento suave que soprava lá fora, queria fazer parte daquele cenário e deixava sua função para um estranho sopro que vinha das paredes, para refrescar o ambiente.
Dashiel observa a decoração do lugar e sente arrepios, tendo a sensação de que muitos olhos o vigiavam. Estátuas pareciam ser vivas e até as figuras em alto relevo nas paredes moviam seus olhos para desnudar o visitante. Mas o que o repugna é a visão de várias estátuas de sátiros em posições horrendas de cópula com animais e outras estátuas exibicionistas com pênis gigantes e eretos.
Várias telas em pintura a óleo representavam a beleza e o auge de Regina, antes do fatídico incêndio que a havia deformado e levado embora a vida do amado rei. Depois do acidente, a Rainha deixara de ser a doce mulher de sorriso farto vindo do coração, para ser uma criatura escura, de hábitos cruéis e nutridos pelo desprezo aos seres humanos. O medo era o sobrenome de todos os aldeões, conhecedores dos poderes adquiridos pela governante, depois que seu rosto ficara desfigurado. Ela havia perdido a capacidade de amar, depois que seu amado marido fora traído pelos Conselheiros e preso ao lado dela, num quarto que fora incendiado.
Muitos falavam que para salvar a si, tomada pela agonia da dor, Regina pactuara com alguma criatura sombria e entregara a irmã Zelena como moeda de troca. Havia conseguido poderes, mais riqueza, temor, mas o que havia tanto desejado não lhe fora dado: a beleza de volta.
E era naquele cenário que Dashiel iria viver. Ter como companheira, uma criatura com rosto deformado e alma corrompida pelas sombras. Sabia que seria sempre vigiado pelos olhos de Zelena, por meio de todos os espelhos da casa e pelos objetos assustadoramente animados, que pareciam esconder seres humanos dentro de si.
As luzes das luminárias iam se acendendo à medida que ele caminhava pelo corredor longo e silencioso. Apoiando uma das mãos em um dos móveis, ele se surpreende ao sentir a madeira acariciar sua pele, eriçando seus pelos.
— Dashiel de Moncaliere. – a voz abafada de Regina é ouvida. Ela estava em algum ponto escuro daquele mausoléu.
— Vim por conta do acordo que meu pai fez com a senhora, Majestade. – mesmo curioso, ele não a procura.
— Simples, com roupas surradas e pela queimada pelo sol da lavoura, você ainda é um dos homens mais belos que meus olhos já viram. Você sabe ler, Dashiel?
— Um pouco, Senhora.
— Eu tenho uma biblioteca e gostaria que você se sentisse à vontade para ocupar seus dias com leitura e informação. – o som da voz dela vai ficando cada vez mais perto. Ela para em pé atrás do visitante. – Você tem conhecimento de que agora me pertence, certo?
— Sim, senhora.
— Amei o seu gesto em pedir que sua irmã fugisse da insanidade de seu pai. – Regina percebe o sobressalto. – Saiba que nada pode passar incólume aos meus conhecimentos, meu lindo Dashiel. Portanto, quero que saiba que Clara foi à igreja abandonada, sim. Ela apanhou suas moedas, comprou lindos vestidos, enfeites e tornou-se sócia de um mercador de rum e melado. Sabe, eu tenho pena do que irá acontecer ao homem, quando ele descobrir com quem se associou.
Dashiel permanece em silêncio, aguardando ser interpolado para manifestar-se. Não ousaria contrariar aquela mulher-fera.
— Você sabe que deverá ficar ao meu lado e atender os meus desejos, não sabe?
— Sim, minha senhora, porém...- ele se volta para olhar a mulher com quem conversava e ela imediatamente lhe vira as costas. – O que realmente a senhora deseja de mim? Escravidão? Como poderei servi-la à altura dos jovens consortes que passaram por aqui?
Regina rosna como se fosse um cão raivoso e num gesto rápido e potente, desfere um golpe contra o rosto do oleiro. Ele despenda no chão e ali permanece.
Alguém acha graça na cena.
— Precisa controlar sua raiva quando lhe fazem perguntas, irmãzinha. – a imagem de Zelena surge num espelho qualquer na parede. – O homem é muito bonito para ser desfigurado. Quer que ele tenha as mesmas cicatrizes que você tem na pele e na alma?
— Não gosto de ser questionada!
— Controle a sua raiva de cachorro, queridinha. Olhe para o que você acabou de ganhar! Acredita que ele irá tolerar suas grosserias, apenas por ser a Governadora? Um amontoado de merda enfeitada com joias é o que você é. Precisa provar que há uma dama dentro dessa coisa contorcida que é seu rosto, caso queira conseguir pelo menos um sorriso deste homem de boca bonita.
Zelena desaparece daquele espelho e surge em outro mais adiante.
— Mas será obvio que ele sentirá medo e nojo por sua aparência. Afinal, é tudo o que consegue despertar nas pessoas. Assim como os outros, ele fugirá quando o efeito da luz do sol entrar pela janela do seu quarto e minha magia devolver toda a monstruosidade para seu rosto.
Regina olha o homem caído no chão.
— Não basta ser feia? Precisa ser cruel, assassina e assustadora? Por que não tenta conquistá-lo usando sua inteligência, seu apreço por poemas e por música. Peça que ele lhe ensine a dançar e sugiro que tente ser civilizada, pelo menos.
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