Na mansão de Regina, todos já haviam se recolhido. Tudo estava parcialmente silencioso, exceto pelo som melodioso da chuva e do vento.

Deitado sobre os seios de Regina, o modelo dormia de maneira intranquila, com pequenos sobressaltos, causados pelo incômodo vivido pela tarde. Velando o sono dele, Regina acaricia os cabelos castanhos, brincando com a imensidão de cachos generosamente dados pela natureza.

— O que nossa mãe passou em você durante seus banhos quando bebê? Como você consegue os homens com quem namorou?

Regina se assusta com a presença tão próxima de Zelena.

— O que você quer?

— O Dr. Victor me disse que Daniel era um belo homem...vi fotos do xerife Graham e concordo que o cara era bem comestível...depois veio Robin e não havia como não se apaixonar por ele. E posso apostar meus dedinhos verdes, que você também carimbou o passaporte do pirata peludo. – ela sorri maliciosa e perversa. – Ah! Ia me esquecendo do Rumple! Pode não ter o rosto do pirata, mas é muito charmoso.

— Zelena, saia daqui! Não quero que incomode Dashiel!

— Ah, e esse Dashiel! É uma criatura linda! De onde saiu?

Regina se move com cautela, mas mesmo assim desperta o homem, que se senta imediatamente sobre o colchão. Ele ajeita o roupão para esconder-se dos olhos grandes de Zelena.

— O que houve?

— Minha irmã quer ter uma reunião em família e... – Regina ia empurrando Zelena para fora do quarto, quando a ruiva se desvencilha e entra no cômodo.

— Eu estava apenas perguntando o que ela faz, para conseguir sempre os homens mais bonitos das histórias. Como ela o conquistou?

Dashiel olha rapidamente para Regina. Não tinha como ter uma saída honrosa daquela situação, porque nem roupas secas tinha para vestir. Havia saído correndo de casa, vestindo apenas uma calça jeans. Como agir, senão ficar por ali mesmo?

— Quer que eu saia para que...

— Não! – as duas mulheres gritam ao mesmo tempo e sendo inteligente, Dashiel deveria atender.

Zelena se inclina para frente e sorri ao exibir o apanhador de sonhos, com as memórias tiradas do homem. Num movimento rápido, Regina tenta roubar o objeto usando sua magia, mas Zelena o aponta para Dashiel, devolvendo-lhe as lembranças da noite em que supostamente Regina o atacara como se fosse uma fera.

Apavorado, acuado e horrorizado, ele salta da cama e encurrala-se entre as mulheres e a parede do quarto. Olha-as com tanto medo e receio de fazer algo por sentir-se ameaçado. As duas mulheres possuíam domínio sobre algo intimidador e amedrontador, conseguindo explicar a perturbação em sua alma. Regina o havia atacado em forma de monstro e roubara suas memórias com aquele objeto, para que sentisse apenas aquele incômodo irracional. Estava explicado o motivo de seu pavor repentino por sua amante.

Regina se sente furiosa e não pensa, enviando uma onda de choque e fazendo Zelena ir estabacar-se contra a parede. Urra pela raiva e avança para a irmã, conseguindo o apanhador de sonhos, mas o objeto era apenas um amontoado de linhas e arames trançados e sem conteúdo.

— Imbecil!! O que você fez??

— Devolvi as lembranças do que você fez a ele naquela noite, sua besta fera!! Quer se livrar das lembranças para que ele não saiba sobre o monstro que você é?? – Zelena se levanta e gargalha, sumindo em uma nuvem de fumaça verde.

Quando Regina se volta para Dashiel, ele está praticamente voando pela janela irracionalmente, desafiando a lei da gravidade. Num gesto rápido, ela o resgata para que não se ferisse ao cair de tantos metros de altura. Tenta acalmá-lo, porém, os dois travam uma luta física, finalizada com truque simples do arsenal de Regina. Ele apaga como se fosse nocauteado por um boxeador.

Já em sua casa na colina, Zelena observa Robin em seu berço. Não conseguia amar a menina, mais do que meia hora por dia. E como aquela garota o irritava, mas desfazer-se dela, seria perder a chance de ter Robin por perto, quando ele retornasse do buraco negro onde se encontrava. Mas não conseguia ficar muito tempo longe daquela coisinha frágil e forte ao mesmo tempo. Será que não a amava mesmo?

— Sua tia não terá o final feliz que ela deseja! Eu não vou permitir porque tudo me foi negado! Nem mãe, nem pai, nem família, nem reino e nem amor! Por que tenho de ser boazinha agora e aceitar que Regina lute pelo seu final feliz? Por que tenho de ceder você para que ela crie a família perfeita ao lado do homem que aprendi a amar?

Zelena rosna e sua pele começa a apresentar manchas verdes. Precisava controlar-se ou ficaria horrorosa.

— Acalme-se. Zelena...- ela fala de sai para si e inspira profundamente. – Pelo menos joguei merda no ventilador da mansão de Regina. Como ela fará? Vai tirar as lembranças do infeliz de novo? Serei obrigada a criar algo mais sombrio, mas os dois não vão ficar juntos.

Precisava organizar seus pensamentos e não pôr tudo a perder. Não poderia apenas agir por impulsividade, sobretudo, agora que havia confessado a sua “cagada” para Regina. Deveria ter se controlado um pouco mais e somente revelado quando tudo estivesse pronto para ser resolvido. Infelizmente, teria de antecipar as coisas.

Era manhã, quando Killian chega à casa de Regina e a encontra aflita com uma caneca imensa de café, nas mãos. Andava de um lado a outro pela cozinha.

— Por favor, Killian! Preciso que me ajude a encontrar Zelena!

— A Verdinha fugiu?

— Ela não somente fugiu, como devolveu as memórias para Dashiel. Encontrou o apanhador de sonhos e despertou as memórias que adormeci. Como ela está ensandecida, preciso manter Dashiel sob minha proteção e não posso deixá-lo aqui sem proteção e muito menos deixá-lo retornar para casa.

— Estive na casa dele ontem à noite e senti a presença de algo sobrenatural por lá. Pude ver também alguém se esgueirando até o andar inferior, mas como não me sinto preparado, não quis me expor. Pensei que poderia ser Zelena, porém, era mais forte que ela.

— Conclui que a agente de Dashiel é a pessoa que o protege e que provavelmente o trouxe pelo portal.

Killian se aproxima do balcão e tamborila a superfície com os dedos.

— Você deve deixar Dashiel em paz, Majestade. Ele não precisa de sua proteção porque já tem alguém que faz isso e que talvez esteja vendo você como inimiga. Devolva-o à vida dele, antes que a pessoa que o protege, comece a ver você e Zelena como perigos.

Estreitando as sobrancelhas, Regina olha o pirata com curiosidade.

— Dashiel não pertence a você, então, deixe-o em paz. Não volte a vê-lo e nem se atreva a apaixonar-se por ele. Sua irmã não vai tolerar ver o seu final feliz e acredito que você possa ter provocado alguém mais. Concluí com provas de que Dashiel é o príncipe proibido do Reino de Moncaliere, de um conto que não tem final porque foi modificado pelas próprias personagens. Dashiel está neste mundo a quase o mesmo tempo que durou a maldição de Storybrooke, mas ele envelheceu e criou uma vida de verdade...deixe-o como está ou você atrairá uma maldição para sua vida.

— Está me pedindo para desistir de meu final feliz?

— O seu final feliz pode estar junto a alguém que seja livre, Regina. Eu vi alguém preparando uma nova maldição e desta vez será apenas para você. Então, saia do campo de visão e devolva Dashiel para a vida comum dele. Eu providenciarei a poção do esquecimento e você será tirada da memória dele, para felicidade geral da nação.

— Killian, minha irmã usou a minha imagem e teve intimidades Dashiel. Já pensou numa nova gravidez? Terei de tolerar minha irmã carregando outro filho de outro homem meu?

O pirata acha graça e discorda com a cabeça.

— Conseguirá segurar outra maldição, apenas por uma disputa de um homem que jamais pertencerá a você ou a Zelena? E não se preocupe com procriação, porque duvido que a pessoa que o protege, permita que ele engravide mulher alguma neste nosso reino. – ele estende a mão e toca o ombro da Rainha. – Regina, quero que você se afaste de Dashiel, porque a aura que vi em torno de seu corpo...é maléfica.

— O que está falando? Acha que vou me transformar em fera?

— Caso você se transforme e fira Dashiel...pessoalmente irei me incumbir de caçar você. Já que insistem que tenho vestígios do Dark One em minha alma, vou trazê-los à baila. – ele caminha para a saída da casa. – Você me pediu que descobrisse quem era o seu amante e foi feito, agora que sabe quem ele é...deixe-o em paz.

Regina fica silenciosa e pensativa. Por que desistir de Dashiel apenas para evitar melindres em Zelena? Apenas um Dark One poderia ser mais forte que ela! Estava duvidando que Dashiel fosse protegido de alguma dessas criaturas! Isso iria acabar e por uma questão de honra o seu final feliz seria escrito por ela mesma! E seria ao lado de quem ela havia escolhido: Dashiel! Príncipe proibido ou modelo fotográfico, não importava! Ele seria o seu homem!

A fumaça verde que surge em sua cozinha faz Regina sofrer um ataque de fúria. Iria transformar Zelena em um Porquinho-da-Índia ruivo, mas seus movimentos são rapidamente paralisados quando tinta de lula é derramada sobre seu corpo.

— Olá, irmãzinha! Que prazer em revê-la! Eu não poderia vir enquanto seu lindo pirata estava aqui. Sabia que tenho um pouco de medo daquele homem? Ele é tão bonito que me assusta! Fico imaginando o que nossa mãe fez com ele, por vinte e oito anos em que viveram juntos.

Regina apenas respira pesadamente.

— Onde está seu belo amante de cabelos cacheados? Ou devo perguntar pelo Príncipe Dashiel de Moncaliere? Um homem amaldiçoado que transformou a esposa amada em estátua, acreditando na baboseira do amor verdadeiro! Oh, que romântico! – Zelena aponta para diversas partes da casa. – Deixe-me contar o conto romântico que preparei para vocês e para o seu final feliz.

— Não faça nada do que poderá arrepender-se...

— Arrepender-me? Não, irmãzinha! Eu vou ficar feliz demais! – Zelena ajeita uma longa mecha de seus cabelos ruivos sobre um dos ombros.

Regina apenas fecha os olhos e luta contra sua paralisação.

— Eu me superei, querida. Criei uma maldição perfeita que a impedirá de viver seu final feliz com o homem que acabou de escolher. Vou mandá-los juntos para aquele reino precioso e quanto mais você amar o príncipe, mais será repudiada. Sua aparência será horrenda e sua personalidade será temida, impedindo que alguém sinta algo generoso por você. Criarei a minha própria versão do conto de Rumple e Belle, e adorarei ficar assistindo tudo daqui do meu espelho e interferindo para aumentar o grau de seu sofrimento, irmãzinha.

A ruiva apanha uma faca e usa a lâmina para cortar a pele de antebraço de Regina, apanhando as gotas de sangue que escorrem pela ferida, com um lenço bordado.

— O sangue dele eu já peguei e agora faltava o seu. – ela gesticula e faz surgir um pequeno caldeirão na cozinha, jogando lá dentro, o lenço sujo.

Uma fumaça dourada começa a sair do caldeirão e começa a escorrer como se fosse encorpada, espalhando-se pela cozinha.

— Boa sorte, irmãzinha! Creio que não nos veremos tão cedo ou mesmo nesta vida. – Zelena fica histérica e começa a rir. – A maldição não avançará pela cidade e ficará restrita à sua casa. Vou me mudar para sua casa e assistir à novela de sua vida, todas as noites.

A ruiva gesticula e materializa Dashiel na cozinha da casa. Ela olha Regina e alarga o sorriso.

— Veja que coisa linda que encontrei em seu quarto! Era o ingrediente que faltava para a maldição!

— Acorde, Dashiel! Lute! – Regina grita. – Não toque nele, Zelena! A sua raiva é somente sobre mim! Deixe-o fora disse, em lhe imploro!

— Quando ele acordar, estará em um reino diferente, com memórias próprias de alguma vida qualquer e com a missão de fugir da fera que vive no castelo. Boa viagem!

— Ele não vai não! – a voz de uma mulher desconhecida atrai a atenção de Zelena e de Regina. – Deixo esse novo reino apenas para vocês duas. Ele vai ficar aqui comigo como sempre esteve!

A fumaça dourada começa a aumentar com mais força que o esperado e a envolver apenas Regina e Zelena, provocando desespero entre as duas irmãs.

— Dashiel é meu protegido e vai permanecer assim. Vou levá-lo de volta para nossa vida e exijo que vocês fiquem longe dele! Então, vamos nos despedir aqui e desejo boa viagem para as duas. – a mulher gesticula e consegue inverter a situação de domínio, enviando Zelena dentro de um imenso espelho, mas ao virar para também aprisionar Regina, percebe que ela não estava mais paralisada. Arregala os olhos e grita. – Não ouse tocar nele!! Pare!

Mas é tarde. Regina envia uma onda de choque e faz a desconhecida voar para fora da casa pela janela que se espatifa. Depois, corre e ajoelha-se, agarrando-se ao homem, sendo envolvida totalmente pela fumaça. Era a coisa mais decente a fazer: protegê-lo com aquele abraço.