Meu estranho amor 2

4 Vou tentar, não custa nada


Saindo do banheiro e louco por uma cama para despencar sobre ela, Amintas não percebe que o quarto parecia vazio. Somente depois de alguns segundos, ele sente o silêncio e quando vasculha o local com os olhos, encontra Regina em pé junto à janela do cômodo...e totalmente nua.

Petrificado e sem saber como reagir, o pobre homem apenas consegue piscar algumas vezes e coordenar seus movimentos de respiração. Imóvel continua, quando ela se aproxima e anda em torno dele, como se estivesse fiscalizando o material. Depois, ela serpenteia até a cama e deita-se ali de barriga para cima e apoiada em seus cotovelos.

— Amintas, eu vou lhe mostrar algo bonito. Talvez você tenha visto algo parecido, mas não tão lindo como isto.

Os joelhos dela se afastam e todo o universo se restringe ao que ela está oferecendo.

E agora? O que eu faço? Saio correndo? Jamais poderia ser tão frouxo assim! Mas eu sou noivo! Juliette não merece uma traição! Mas desejar a pessoa que amo é trair? Ceder aos encantos de quem amo é errado? Não é justo sequer me questionar se isso é errado! É errado! Não posso! Mas por que não posso se é essa mulher a quem eu amo? E amanhã? Como direi que respeitarei Juliette, sendo que essa visão estará em minha mente durante o casamento? Que vontade chorar! Não! Isso é um presente e vou tirar o máximo de proveito! No futuro, não serei eu a me arrepender!

E ele mergulha sem medo de ser feliz!

Miranda se surpreende com a presença de Killian na varanda. O homem deveria estar no quarto, dormindo e preparando-se para retomar sua viagem. O que havia acontecido?

— Não quis descansar?

— Na verdade, encontrei uma oportunidade para falar com você. – ele se senta ao lado dela. – Preciso ser honesto com você e pedir sua ajuda.

— Nossa, parece algo grave!

— Serei direto: meu helicóptero pousou intencionalmente. Eu fiz tudo para que não conseguíssemos chegar ao destino, porque Regina me pediu ajuda para impedir que Amintas se case amanhã. Eu o raptei para ela!

Miranda abre os lábios e fica espantada. Depois relaxa e sorri.

— Regina e Amintas são dois cabeçudos que se amam e que não querem ficar juntos porque não se perdoam mutuamente. Regina é volúvel demais e isso atrapalha um relacionamento fixo com homem que ama.

— Então, Amintas quer se casar com alguém que não ama...mas por quê?

— Porque a moça gosta dele. Será a terceira tentativa de casamento com esta moça e Regina conseguiu atrapalhar as duas primeiras. Desta vez, eu queria ganhar tempo, porém...seus homens nos encontraram e nos trouxeram para cá.

Achando graça, Miranda ri.

— Tem certeza de que eles se amam?

— Todos que os conhecem dizem a mesma coisa: eles se amam. A noiva dele quer apenas vencer a disputa com Regina, para ver quem leva o prêmio. Eu sei que o casamento não dará certo e que em breve estão separados.

— Por que está me falando isso?

Killian se inclina para frente e sorri. Provoca um incômodo na alma da mulher ao aproximar tanto aqueles imensos olhos celestes.

— Poderia manter sua torre de comunicação um pouco mais na inatividade?

— E quando a polícia vier à fazenda? Por se tratar de um Senador, enviarão a polícia federal. Quer que eu diga que vocês já partiram? – a mulher faz uma careta maliciosa.

Concordando com um movimento de cabeça, Killian não desfaz seu sorriso.

— Eu sei que pedir que fique sem comunicação por mais tempo...é...irresponsabilidade...mas é por uma ótima causa. Peço que mantenha isso...até...sei lá...três horas depois do almoço. É o tempo que Regina precisa para marcar território.

Miranda aponta na direção da casa e abre a boca.

— É isso que ela está fazendo agora? Que delicia!

— Pelo menos eu espero que sim! Eu queria tê-los segurado até amanhã no meio da mata, mas fomos recolhidos antes do tempo. O que me resta agora é esperar que Regina use a criatividade dela para enfeitiçar Amintas!

Miranda se empertiga na cadeira e cruza os braços diante do corpo.

— Mas é isso que Amintas quer? Ele me parece com idade suficiente para saber o que decidir sobre a vida dele, não acha?

— Sim, mas não me custa dar uma ajuda ao destino!

— E a noiva dele? Você não se preocupa com o que ela irá sentir? Ela merece ser traída assim?

A expressão de Killian se fecha.

— Regina e Amintas foram feitos um para o outro. É um romance que vale a pena apostar!

Ficando em silêncio por alguns segundos, Miranda reflete se vale a pena auxiliar aquele casal a permanecer junto. Seria o que eles estavam querendo mesmo ou era apenas exigência da torcida?

— Vou ajudar você, Killian. – ela sorri.

Pouco depois do meio dia, Regina termina de pentear seus cabelos para sair do quarto. Simples no vestido florido que Miranda havia conseguido, ela se mostra sempre linda e fresca.

— O que está fazendo, Amintas? – ela se vira e olha o homem retirando o lençol da cama.

— Nós sujamos o lençol, Regina. Não estamos em nossa casa e nem em nossa cama. Fomos abusivos demais.

— Para isso existem os empregados. Jogam na máquina e pronto!

— São empregados da casa e não nossos. – ele leva a peça para o banheiro.

Regina não contém a risada e gargalha.

— Isso é pensamento de pobre, Amintas! Agora você é um Senador da República! Vai deixar o lençol molhado dentro da banheira? Isso é muito “jeca”!

Quando o homem sai do banheiro, ele abre os braços e faz uma careta engraçada. Parece não se importar com os comentários dela. Abre a porta do quarto e indica a saída para sua amada, que havia sido muito amada naquela manhã.

No corredor, encontram Miranda e Killian em pé conversando próximos a um aparador, como se observassem a peça.

— Bom dia! – Amintas cumprimenta o casal e sutilmente apoia a mão na cintura de Regina. – Os telefones já estão com sinal?

Miranda olha Amintas de cima a baixo e sorri maliciosa. Depois observa o vestido que protegia os contornos de Regina e fica encantada com o que vê. O casal era bonito demais e não havia como ficar incólume à beleza dele!

— Senador Amintas! – a voz grave de um homem atrai a atenção de todos. – Quando minha irmã me disse que o senhor estava em nossa casa, eu pensei que fosse brincadeira dela!

O homem grande se aproxima e usa as duas mãos para cumprimentar o visitante. Era como se estivesse vendo uma celebridade do cinema.

— Fico tão feliz que seja verdade! – o homem toca o ombro de Killian, porque já o havia visto. Depois se vira sorrindo para Regina e a cumprimenta. – É sua noiva? Vocês formam um casal lindo!

— Não somos um casal. – a voz lacônica de Regina provoca o efeito de um coice contra o peito de Amintas. A mulher olha o homem mais jovem, recém chegado, como se estivesse vendo a própria Aurora Boreal.

— Sou Orville. – ele se inclina e beija o dorso da mão de Regina e alarga ainda mais o sorriso quando vê o brilho nos olhos escuros dela. – Eu sei que vocês têm compromissos sociais, mas suplico que fiquem esta tarde conosco!

Regina não vê absolutamente mais nada diante dela. A estatura do homem, seus traços jovens e másculos atraem todos os seus sentidos. Tudo estava direcionado para aquele par de olhos azuis escuros, poderosos e apaixonantes. De onde tinha saído aquele colosso? Por que ele não havia cruzado o seu caminho antes? Tudo nele era proporcional, embora fosse muito mais alto que Killian e Amintas! Será que tudo mesmo??

Fitando o rosto do amigo, Killian identifica a mais nítida expressão decepcionada e incrédula. Ele se vira para Miranda, espreme os lábios e levanta rapidamente as sobrancelhas grossas. Sem nenhuma palavra, os dois confirmam que o plano tinha falhado.

— Poderíamos usar seu escritório para telefonarmos? – ele pergunta e percebe que Amintas pisca várias vezes para espantar o transe.

— Vamos almoçar primeiro! – Orville estende o braço para Regina e segue na frente.

Miranda caminha para posicionar-se entre Killian e Amintas, segura seus braços e os conduz para a sala de jantar.

Tendo terminado o martírio em que havia se transformado o almoço, Killian leva Amintas para o escritório. Recusa-se a comentar qualquer detalhe da mudança repentina de Regina diante da figura imponente e devastadora de Orville.

— Juliette não reagirá bem com o que preciso dizer a ela.

— Mas terá mesmo de dizer?

— Eu a traí, Killian. Ela está me esperando para o casamento e mesmo assim eu a traí.

— Pense bem se vale a pena abrir mão de um casamento, depois de...

E de fato, Juliette não reage bem quando Amintas comunica que não iria ao cartório e explica o verdadeiro motivo. Mesmo com o telefone e viva voz, ela tem um ataque histérico e pelos barulhos ouvidos, muitos objetos estavam sendo atirados no cômodo onde estava. Gritos, palavrões e frases ofensivas formam a sonoplastia para aquele momento constrangedor.

“Sou eu quem não o quer mais, Amintas. Somente quando você se der conta de que não é mais aquele menino rejeitado, que foi jogado naquele depósito de crianças e que precisa assumir uma postura de homem, poderá voltar a propor qualquer vínculo comigo!! Você não irá encontrar uma esposa, porque ainda está à procura de sua mãe em todas as mulheres com quem se relaciona! Nem sua mãe o quis! Por que acredita que Regina irá querer?”

O telefone emite o som do final da chamada. Os dois homens permanecem calados e constrangidos com a situação. O que dizer? Como reagir?

— Killian, eu preciso dormir um pouco.

Quase uma hora depois, Killian se senta ao lado de Miranda na varanda da casa.

— Falamos com quem deveríamos. Obrigado pela hospitalidade!

— Situação difícil, hein? Sua amiga rapta o Senador, passa a manhã toda nos braços deles e em questão de segundos se apaixona pelo meu irmão. Como ficará o casamento do Senador?

— A noiva não quer mais o compromisso.

Coçando levemente a nuca, Miranda arqueia as sobrancelhas delineadas pela pinça.

— Nossa! Regina cria um plano e nem mesmo o finaliza. Agora, o Senador está sem a amante e sem a noiva. Caso eles não tivessem passado a manhã juntos...

— Nós três demos um tiro no pé. – Killian brinca com a aliança. – Minha esposa me avisou que isso não daria certo. Onde está Regina, agora?

Miranda aponta para uma direção que não dizia nada para Killian.

— Foi passear de lancha no lago com meu irmão.

Aquilo tinha fugido de qualquer planejamento. Por que aquele cara tinha de aparecer justamente naquele momento? Tudo parecia estar tão ajeitado! O sorriso e o brilho no rosto de Amintas diziam que ele havia cedido e que Regina era a vitoriosa! E aquela expressão lupina que brilhava nos olhos de Regina? Que vergonha alheia! Como estaria a cabeça e o coração de Amintas? Bom, a cabeça estava cheia de cornos! O coração estava cheio de furos!