Meu estranho amor 2

5 Realidade, realidade


— Deveria descansar um pouco mais. – Zelena organiza os papéis sobre a mesa da irmã.

— Estou ótima, querida. — Regina bebe um gole do café.

— Vocês foram assuntos em todos os noticiários. Chegaram a cogitar que seria um novo atentado político, já que o Senador Gold foi vitimado duas vezes.

— Tudo saiu errado.

A ruiva sorri e inclina-se para frente. Abaixa o tom de voz.

— O que realmente aconteceu?

— O helicóptero teve problemas com combustível, saímos da rota e pousamos numa pista clandestina dentro de uma reserva florestal. Decidimos caminhar pela mata para fugir de eventuais “donos” da pista e fomos resgatados pelos empregados de uma fazenda.

Regina morde o lábio inferior.

— E foi na fazenda que conheci Orville, aquela massa feita de músculos e beleza. Inteligente, ótimo humor e sensível. Acredita que ele declamou poemas de Kalil Gibran?

— E você se apaixonou por ele?

— Pelo conjunto da obra! – Regina estende a mão esquerda. – Eu quero três meses e tenha certeza de que terei um anel neste dedo!

Um homem negro, elegante em um terno cinza bate levemente na porta aberta. Ele sorri.

— Regina Mills!

— Percy! – a jornalista apanha uma pasta e a entrega para o homem que se sobressalta. – Quero que procure aquela menina japonesinha ali e organize a ida para a reserva floresta de Vila Verde. Quero saber tudo sobre ela e sobre quem a quer como fiel depositário. Pode ir!

O homem e Zelena se entreolham e ficam parados sem ação.

— Eu fui indicado para fazer trabalho interno!

— Você foi indicado para trabalhar, meu querido. Estou entregando um trabalho sério e nesta reportagem, quero citações aos irmãos Miranda e Orville, donos da fazenda Minervina.

Sem entender o que estava havendo, Percy olha Regina como se ela tivesse duas cabeças.

— Ainda está aí, Percy? Prepare sua equipe e mãos à obra!

Quando o homem sai dali, Zelena se volta para a irmã.

— Você já desistiu de flertar com o cara? Como você é volúvel!

— Querida, depois de Orville, ninguém representa mais nada em minha vida.

— Você foi para a cama com este cara? Esse Orville?

Regina nega com a cabeça. Amua e faz beicinho.

— Ele não se insinuou e isso me fez ficar ainda mais encantada.

Dias depois, Regina chega ao rancho da família para mais uma reunião corriqueira. Um simples almoço de final de semana para que os assuntos não ficassem pendentes.

O filho de Mary chega correndo e vai aninhar-se nas pernas de Cora.

— Vovó! Eu quero meu papai!

— Tenha paciência, meu amor.

Mary e Zelena se aproxima e sentam-se com a mãe e a criança.

— Pensei que Corfu viria para a reunião. – Cora bebe um gole do suco.

— Ele está na Grécia a trabalho. – Zelena observa Regina ao longe conversando ao telefone. – Alguém aqui já conhece o novo namorado de Regina?

— Eu vi a foto dele e posso afirmar que a cara é bem bonito. – Mary sorri para o filho. – Mas não creio que isso dure por muito tempo. Daqui a pouco ela voltará a correr atrás do Amintas. É a diversão da vida dela!

— Aquela história de que o combustível do helicóptero acabou no meio da viagem, foi ridícula. Unindo Regina e Killian? Somente quem não conhece o histórico dela é que consegue crer nisso. – Cora coloca o neto no chão e vê o menino correr para longe.

— Regina diz que irá se casar com o tal Orville.

— Não duvido de nada. Veja o seu caso, Mary: teve tantos “amores de sua vida” e um dia encontrou David. Está casada, tranquila e agora temos Johnathon e a Anna. Quem sabe Regina tenha encontrado alguém que tenha abrandado as paixões dela.

— Com Amintas não iria ficar mesmo. Sobretudo, depois que Juliette desistiu do casamento. Enquanto ele era proibido, era mais gostoso. Agora que ficou livre, perdeu o sabor. – Zelena não consegue conter o comentário.

Atenta, mesmo distante, Regina emite um grito engraçado e vai correndo para a mesa onde estavam as outras mulheres.

— Ouvi você falando que Juliette não quis se casar??

— Nossa! Isso já tem mais de uma semana! Como jornalista, você está desinformada! – Cora começa a rir. – Nada mais interessa você, que não seja Orville? Orville no café da manhã, Orville no almoço, Orville no jantar! Cuidado com a overdose, hein?

As outras mulheres riem ainda mais. Regina não aprecia a brincadeira, mas não se altera. Tudo estava tornando-se cada vez mais divertido! O que estava havendo? Muitas cores, muitas risadas e tudo sempre girando em torno dela! Finalmente!

— Então, Juliette reconheceu que não é páreo para Regina Mills! – ela ergue os braços. – Penso que irei criar um tema para nova reportagem: mulheres que tentam dizer o “sim” para o mesmo homem, mais de uma vez!

Numa tarde qualquer, no escritório do Senador Gold, a reunião prosseguia com alguns debates.

— Os manifestantes continuam acampados na porta do prédio da Habitação. – Gold entra na sala e vai acomodar-se em seu lugar à mesa. – Estão pacíficos e acredito que não teremos conflitos. Amintas, vá à minha sala pessoal porque você tem uma visita importante.

— Estou fazendo anotações, Senador.

— Sua visita é mais importante. Vá!

Amintas se levanta e mesmo contrariado, segue pelo prédio até a sala pessoal do senador, onde o homem fazia seus atendimentos de assuntos particulares e familiares. Ao abrir a porta, encontra o filho Johnathon sentado na cadeira estofada de Gold, “escrevendo” algo num papel.

— Papai!! – o menino grita e começa a balançar-se na cadeira, estendendo os bracinhos.

— O que você faz aqui, meu amor? – o homem corre e apanha o menino nos braços. Quando se vira, depara-se com Regina sentada num canto de um sofá. Linda e perfeita como sempre. – Regina?

Ela se levanta e passa as mãos pela saia curta e justa. Aproxima-se da mesa.

— Resolvemos fazer uma surpresa para o papai. – ela sorri.

— Mary confiou Jonny a você?

O rosto da morena se desbarranca com a pergunta. Como assim confiar o menino a ela? Por que Mary não confiaria o sobrinho a ela? Que mal poderia acontecer?

— Eu disse a Mary que iria passear com meu sobrinho. Reservei um lugar num voo e estamos aqui, depois de uma hora de viagem. Qual é o problema?

— O problema, sua irresponsável? Você está com a permissão assinada por Mary? Ou está com a minha permissão assinada para transitar com uma criança que não esteja sob sua guarda?

Abrindo e fechando a boca, Regina não responde de imediato.

— Jonny é o meu sobrinho!

— Johnathon Mills Rochut é o meu filho! Mary e eu temos a guarda compartilhada e somos os únicos, além de Zelena que têm o direito de transitar com o menino! O seu nome não consta no elenco de responsáveis por ele!

— Eu quis fazer uma surpresa, seu animal!

— E fez! Aposto que Mary tem ciência dessa palhaçada! E por permitir que uma pessoa insana como você fique transitando em aviões com o meu filho, vai receber um pedido de anulação da guarda compartilhada! – Amintas não estava sendo o conhecido homem gentil de sempre.

Incrédula, Regina apanha sua bolsa e estende os braços para segura o menino.

— Não toque em meu filho! Você é perniciosa! Quero você longe dele, nem que tenha de conseguir uma medida protetiva para isso! – ele apanha o telefone da sala e tecla algum número. Aguarda alguns segundos. – Thereza, entre em contato com minha advogada agora e avise que estou com sérios problemas com a mãe de meu filho! Preciso dela ainda hoje, porque quero rever a questão da guarda de Johnathon!

Avançando para a mesa, Regina se inclina e encara Amintas.

— Não seja ignorante! Mary não tem nada a ver com nossa crise! Não se vingue nela!

— Saia deste escritório! Volte para sua cidade, porque terá muito o que explicar para Mary! Aproveite e a ampare, porque ela irá ficar sem o Johnathon! Talvez eu consiga ser mais rasteiro que as mulheres de sua família! Agora, saia!

Puta cagada! E agora? Como explicar a volta de braços vazios? E o cara não estava errado! Como fazer Mary entender tudo, sem que ela tenha uma síncope? Amamentando e tendo emoções tão fortes! Minha nossa, e agora? Correr? Fugir para o Butão? Groelândia? Talvez fosse o momento perfeito para ver a aurora boreal!

Pensativa, desesperada, Regina nem percebe que já havia saído do escritório e que já estava caminhando fora do prédio. Acorda de seus pensamentos, quando ouve o som poderoso de vozes humanas e quando olha para trás, vê uma multidão de pessoas vestindo camisetas de uma entidade em prol da reforma agrária, vindo em sua direção. Carregavam bandeiras, faziam barulho e não tinham expressões muito amistosas.

De repente ouve o estouro de uma bomba e a multidão começa a avançar na sua direção. Correr? Obviamente que sim! Mas com saia apertada e salto alto? Obviamente que sim! Sem hesitar, Regina começa a correr junto à multidão e sem saber de quem, agarra-se a um braço qualquer e é levada rapidamente para longe dos policiais que estavam ali para dispersar aquele acampamento.

E no ritmo de correr, cair, levantar e continuar correndo, Regina percebe o brilho de um insight: poxa! Sou uma jornalista! Estou no olho do furacão e daqui vou tirar mais do que hematomas! Preciso aproveitar a chance! Alguma coisa de boa tinha de sair daquele momento de fuga dos touros.

Pouco depois das dez horas da noite, quando retorna para a casa de Mary, encontra a família atônita com sua falta de notícias. Mas antes de explicar tudo o que havia acontecido, durante e depois do encontro com Amintas, ela ainda tem tempo de receber uma bofetada contra seu rosto. Ela cai sentada num canto do sofá da sala de Mary.

— Está feliz agora com o resultado de sua brincadeira? – Cora afasta a filha caçula e vai sentar-se ao lado da filha mais velha.

— A advogada de Amintas já entrou em contato conosco e comunicou a decisão dele! Acha que temos chances contra um Senador da República, protegido de Gold? Ele irá tirar meu filho de mim!

Zelena mantém Mary afastada de Regina.

— O menino está com o pai dele, portanto, pare de histeria, Mary. – a voz de Cora é calma.

— Histeria, mãe? Regina levou Jonny para um passeio, mas não disse que o passeio era na Capital Federal!

— Conversando nós chegaremos num consenso. Regina, o que houve com você?

— O que houve com ela? O que houve com ela? O que houve com meu filho?

A expressão que surge no rosto maduro de Cora, provoca o silêncio de Mary.

— Eu queria conversar com Amintas e levando Jonny seria mais fácil, mãe. Não poderia imaginar que ele teria aquela reação. O homem foi bruto e irracional.

Cora não contém o riso.

— E você imaginou que ele a receberia com beijos e uma chuva de rosas? Você humilha o cara mais uma vez e acredita que ele deva estar sempre à sua disposição com um sorriso no rosto! Seu senso de justiça é incrível!

— Amintas quer tirar meu filho de mim! Terei de lutar contra advogados poderosos! – Mary grita. – Será que nosso pai terá influência suficiente para essa luta??

Regina revira os olhos e massageia a testa.

— Que drama! Amintas não tem como criar um menino com dois anos. Enquanto ele viaja e trabalha, o menino ficará com quem? Com Leminsky? Uma mulher com quase oitenta anos? Ele não é estúpido!

— Mas você conseguiu ser! Por que você sempre tem de tentar atrapalhar a minha vida? Quis tirar David de mim! Como não conseguiu, agora quer roubar meu filho??

Cora olha a caçula por cima do ombro e seu olhar diz tudo. A moça se cala.

— E que estado é esse? Foi atropelada?

— Por uma multidão de manifestantes fugindo da polícia. Fui presa com outras manifestantes e agora estou fichada por desordem. Mas eu consegui uma excelente reportagem sobre mulheres de assentamentos. Vai ser uma ótima matéria! – Regina se levanta do sofá e mantém a altivez, mesmo suja e desgrenhada. – Pedi auxílio para Orville e ele me garantiu que conversará com Amintas para desfazer esse mal entendido. Ele me disse que queria mesmo um motivo para visitar o Senador dele.

— Vai associar o nome de Amintas ao nome de um traficante? – Mary rosna. – Sabemos da plantação de maconha e da pista clandestina, próximas à fazenda do seu super homem! Acha que não investigamos o seu “acidente”?

Regina olha para a mãe e a encontra inexpressiva.

— Miranda e Orville não têm nada a ver com isso. A reserva florestal não pertence a eles! O que há? – ela apoia as mãos na cintura. – Vão reabrir o fã clube do Amintas de novo??

Cora diz pacientemente:

— Vou ligar para Amintas e pedir que ele me receba. Não precisamos da intervenção do seu namorado em casos familiares. Eu tentarei convencer Amintas de que ele está agindo mal e que será melhor para todos, que ele tenha sabedoria para lidar com esse assunto.