“Sua mãe está certa, Regina. Eu me ofereci, mas creio que não deva envolver-me em um assunto tão delicado como este.”

— Mas se estamos namorando, é um direito que você adquiriu: o de me ajudar!

“Ainda não estamos namorando, Regina. Não seja precipitada para não atrapalhar a nossa amizade que está tão linda!”

Amizade? E quem quer amizade com um homem lindo como você? Eu quero sexo, beijos, abraços e um anel de compromisso! É isso o que eu quero de você!

— Você tem razão, Orville.

“Mesmo assim, pretendo conversar com o Senador Amintas, para pedir que interceda pela minha família para que possamos ser responsáveis pela reserva florestal de Taguajá. Preciso muito conversar com aquele homem.”

E quem é que está interessada em reserva florestal, meu filho? Você é cego ou está tentando valorizar o passe?

— Eu compreendo mais uma vez. Espero que Amintas o receba, porque ele está tão soberbo!

“Você há de convir que ele agora é um político e deve ter muitos cuidados. Sobretudo, sendo apadrinhado pelo velho Gold, que sofreu dois atentados durante as campanhas eleitorais. A reação dele foi perfeitamente normal, principalmente, com aquela manifestação bem próxima ao filho dele.”

— Nem sabia de manifestação alguma. Eu queria apenas fazer uma surpresa ao meu amigo.

“Eu soube que ele tentou três vezes casar-se com a filha do Gold e não conseguiu. Talvez, ele estivesse sensível e você errou na escolha do momento para a surpresa.”

— Pode ser...eu fui descuidada...

Sozinha no silêncio do quarto, Regina fica pensativa na frase de Orville. Sim, era a terceira tentativa do homem em casar-se e mais uma vez fracassada. Ele deveria desistir disso! Aliás, por que tanta obsessão em ser um homem casado? Por que ter apenas o litro do leite, se poderia ter a vaca inteira? Nossa! Que pensamento machista!

E em seu caso? Por que seu louco desejo em ter apenas Orville, se poderia ter um leque de opções de cores, tamanhos, formas e modelos de homens? Todos aos pés de sua cama! Estava com o coração peludo demais! Coração de kiwi!

Vamos ao trabalho! Naquela semana, Regina desembarca com Killian e Zelena em uma cidade do interior do país, para conhecer uma comunidade que vendia a ideia da mudança de vida por meio da ingestão de um chá, retirado de uma floresta nativa na região.

— Emma já chegou ao litoral sul para o Congresso. Está indo para o hotel e hoje participarão de um workshop. – Killian guarda o celular e estende a mão para ajudar as mulheres a saírem do veículo. – Que lugarzinho feio, hein?

— É uma sociedade alternativa. – Regina ajeita os óculos escuros.

— Onde nasci, damos o nome de falta de higiene. – resmunga o homem se repugnando. – Vocês tomaram vacina antitetânica? Olhem, até o passarinho está anêmico!

Zelena acha graça, mas tem de concordar com o amigo.

Momentos depois, eles são recebidos por um homem que se denominava sacerdote da comunidade. Ele convida os visitantes para assistirem a uma palestra sobre a origem da comunidade e as ofertas para a melhoria de vida de quem optasse por viver ali. Para finalizar, o trio é convidado a participar de uma cerimônia de boas vindas aos novos membros que receberiam uma espécie de batismo para poder frequentar a comunidade.

— Teremos de beber o chá? – Killian não se mostra entusiasmado com a possibilidade.

— Somente se vocês quiserem. – o sacerdote sorri.

— Eu preciso experimentar para conseguir descrever a sensação às minhas leitoras. – Regina aprecia a ideia. Toca o ombro da irmã. – Você e Killian devem permanecer sóbrios.

A cerimônia começa e o som hipnotizante da música começa a incomodar Regina. Algo não estava bem e aquela atmosfera esfumaçada surtia o efeito de uma danceteria lotada. Lá pelas tantas, o sacerdote traz uma jarra de plástico cheia de um líquido marrom e enche um pequeno copo para entregar a Regina.

— Isso parece aquele líquido do fundo de privada suja. – Killian olha dentro da jarra e faz uma careta. – Não deram descarga, direito? Aproveitam tudo, por aqui?

O sacerdote finge que não escuta a observação. Sorri ao ver Regina beber o líquido do copo.

— Aguarde cinco minutos e depois eu lhe darei a segunda dose, para completar o ciclo.

— Depois de completar o ciclo, você vai levantar o leãozinho no colo e o macaco vai começar a gritar. – Killian aponta para a jarra.

Zelena abaixa a cabeça e começa a rir, escondendo a boca com a mão em concha.

Mais alguns momentos, o sacerdote surge trazendo a jarra com o liquido horrendo e um copo descartável. Enche-o e entrega-o para Regina. Ela apanha o copo e reluta em beber a segunda dose. Seu estômago estava começando a ficar revoltado com a situação.

— Vai sair fumaça da sua barriga, Regina, cuidado!

Um riso abobalhado surge nos lábios de Regina. Ela bebe o líquido.

— E vai sair bandeirinhas rodando de suas orelhas. – Killian ri da própria piada. – Ela vai cantar Hacuna Matata?

Regina gargalha demoradamente. Nem sabia por qual motivo estava rindo, mas a vontade de rir era imensa. Ela ri sem pudores e provoca riso em seus companheiros.

— Eu vou fazer xixi nas calças! – a jornalista se inclina para frente e coloca uma das mãos entre as pernas. – Tá saindo!

O sacerdote não aprecia a cena e cobre o rosto com uma carranca feroz. Fica observando a zombaria dos visitantes, aguardando que retomem sua integridade e postura urbana. Entretanto, não acontece.

— Você precisa beber a terceira dose, moça.

Olhando dentro da jarra, Regina se repugna ao ver a cor do líquido. Killian tinha razão, porque aquela jarra se parecia com o fundo de uma privada de banheiro de beira de estrada. Nossa! Aquilo fedia demais! O homem tinha pegado aquela água em que lugar?

Segurando o braço de Killian, ela se inclina para tentar apanhar o copo, mas aquela visão da água turva dentro da jarra provoca uma revolução dentro do seu estômago e sua boca enche de saliva. Sem se conter, Regina vomita dentro da jarra e nas roupas do sacerdote.

Embaixo de uma garoa fina, os três caminham pela estrada vazia. Tinham sido expulsos da comunidade e não tiveram o direito de usarem o transporte que os havia levado à fazenda. Considerados visitantes de pouco agrado entre os moradores dali, por isso, teriam de caminhar até a cidade mais próxima. Era madrugada quando conseguem chegar a um centro comercial para pedir ajuda.

— Preciso de mais água. – Regina é atendida. – Ainda bem que vocês aceitaram vir comigo ou eu estaria perdida naquele lugar.

— Você iria beber toda a água de privada que lhe dessem.

Ela vomita o conteúdo do estômago. Estava sentindo-se zonza e enjoada.

— Quando você escrever a matéria, não diga para as leitoras que você fez xixi nas calças. – Zelena não segura o riso.

— Ela não fez somente isso. Quando chegarmos ao hotel, irei usar a mangueira do hidrante para tirar a sujeira dela. – Killian observa o estado deplorável da amiga sentada no chão. – É melhor levantar-se ou quem passar por aqui irá deixar uma moedinha para você.

Na manhã seguinte, eles decidem seguir para a cidade mais próxima, usando um transporte coletivo. Um ônibus velho que transportava pessoas, mantimentos, bagagens e animais. Era um verdadeiro carnaval realizado dentro de um espaço pequeno e quente. Um paraíso para Killian, que consegue fazer amizade rapidamente com aquelas pessoas humildes e festivas, enquanto Zelena apenas ria e Regina vomitava.

Mas tudo começa a retornar ao seu ritmo e cada qual segue sua rotina.

Regina embarca rapidamente para Buenos Aires na companhia de Orville, para conseguir realizar uma reportagem sobre a figura emblemática de Evita Perón. No retorno de volta para a casa, depois de conseguir o material para a reportagem, uma confusão no aeroporto impede o embarque de imediato. Dois cachorros dos agentes de fiscalização escapam de suas guias e começam a correr atrás de Regina. Em vez de parar e permitir que os animais fossem presos, ela sai gritando em desabalada carreira, e Orville a segue, sendo acompanhado pelos policiais.

O organismo dela ainda estava sob o efeito daquela droga que havia bebido e a súbita vontade de continuar correndo, faz com que ela percorra quase o saguão correndo, mesmo depois que os cães tinham sido recapturados pelos seus donos. Levada para o ambulatório, Regina é medicada e depois encaminhada para um hospital no centro comercial, porém, ela se recusa a submeter-se aos exames.

De volta para sua cidade, Regina ainda se sente mal. Zonza, cansada e enjoada, ela não observa com atenção o que estava acontecendo ao redor e acaba por entrar no táxi errado e em companhia de um desconhecido. Sem cerimônia, ela entra no veículo e fazendo comentários sobre o enjoo que sentia, deita a cabeça no ombro do homem que estava sentado ao seu lado no banco e adormeceria caso o passageiro não tivesse conversado com ela e oferecido ajuda. O táxi com Orville vinha logo atrás e a jornalista seria conduzida para sua casa, caso tivesse aceitado.

— Vamos para a redação. Tenho muito trabalho a fazer.

Horas depois, Regina organiza sua equipe e entrega o material para a elaboração das reportagens. Ao seu lado, paciente e sereno, Orville apenas conversava com alguém por um aplicativo do celular e trocava sorrisos tranquilos com Regina, de quando em quando.

— Você quer jantar conosco, Zelena?

— Não posso. Tenho de encontrar Mary depois do expediente, para levar Johnathon para o pai dele.

— Vai ver o Senador Amintas? – Orville sorri interessado. – Poderíamos ir com você?

Zelena e Regina se entreolham. Sem alternativa, a ruiva acaba concordando e fala:

— Vou resolver alguns assuntos e quando for sair, eu os avisarei.

Sozinha no escritório com Orville, a jornalista sente o forte ímpeto de falar sobre aquela incógnita que era seu amigo. Sabia que o empresário nutria simpatia pelo Senador e seria gostoso falar sobre ele.

— Estou arrasada porque Amintas me riscou da vida dele. Nem Killian e nem eu fazemos mis parte do rol de amigos dele.

— Por que isso?

— Fizemos um plano para evitar que ele se casasse. Ele não se casou e também não ficou comigo, como era plano dele. – Regina bebe um gole de água. – Há algo em mim que me impede de assumir um compromisso com ele...não entendo a mim mesma, porque eu adoro aquele homem.

— E por que vocês não se tornam apenas amigos com benefícios? – o homem sorri e derreta o coração de Regina. Por que ele fazia aquilo? – Ele é um homem maduro, lindo e acredito que não precise se casar com ele para que sejam felizes. Mantenham um relacionamento sem qualquer forma de compromisso.

— Eu sempre quis Amintas para mim, mas quando o via livre, tinha o ímpeto de fugir dele.

Orville levanta as sobrancelhas e sorri de canto de boca, maliciosamente.

— Por que não foge para “cima” dele?

Cobrindo a mão de Orville com a sua mão, Regina sorri amável.

— Porque minha paixão é sua, agora. É com você que quero ficar.

O homem estreita os olhos e sorri sem exibir os dentes. Espreme os lábios e levanta uma das sobrancelhas.

— Amintas é um excelente partido, agora que é Senador da República. Tem influência, é culto, educado e é lindo. Você e sua família teriam somente a ganhar, colocando-o como membro.

— Mas eu quero você. Eu me apaixonei naquele corredor e minha visão se fechou para outros homens. – ela sorri e o observa sorrir também. – Você tem alguém?

— Também estou perdidamente apaixonado, Regina. Meu peito está tomado de paixão, querida, e tudo aconteceu naquele corredor. Tudo à primeira vista. Mas mesmo assim, aconselho que procure Amintas e resolva sua situação com ele. Ame-o ou deixe-o!

Orville está apaixonado? Ele está declarando a sua paixão? Ele quer que eu resolva minha situação com Amintas! Ele não quer sombras entre nós! Está me dando a oportunidade de finalizar uma etapa e começar outra!

— Vá até ele e decida tudo. Fique livre e o deixe livre. – o empresário sorri e desta vez exibe seus dentes pequenos.

Passava das oito horas da noite, quando os três adultos chegam ao apartamento de Amintas, trazendo o filho dele. São anunciados pelo porteiro e depois de alguns minutos são recebidos pelo político, bonito e simples em seu jeans e camiseta regata. Estava descalço e os olhos de Regina não se furtam em admirar aqueles pés. Ela percebe que Orville também não hesita em admirar os pés do homem mais velho. O que era aquilo?

— Papai, papai! Eu trouxe meu desenho para a vovó Lesminha! – Jonny entra correndo e mesmo sob o protesto do pai, embrenha-se nos outros cômodos, atrás da avó.

— Entrem, por favor. – o político estava desanimado e com olheiras escuras. Mesmo assim, ele sorri e cumprimenta os visitantes.

— Meu pai quer que você vá ao almoço de aniversário dele. – Zelena lhe beija o rosto e vai acomodar-se num dos sofás. – Será no próximo segundo domingo.

Amintas sorri sem exibir os dentes e antes que pudesse responder ao convite, é obrigado a agachar-se para receber o filho que havia retornado correndo para a sala.

— Papai, papai! Cadê a vovó “Leminha”?

— Meu amor, a vovó Lesminha teve de ir embora.

— Por quê?

— Ela foi morar num lugar lindo, cheio de árvores e com muitos anjinhos. Mas ela não voltará mais.

O impacto da fala surte o efeito de um chute poderoso nas almas de Regina e Zelena. A mulher havia morrido e Amintas não havia comunicado aos amigos.

— Mas eu quero “bincar” com ela.

— Você poderá brincar comigo, com seus outros avós, suas tias, seus amigos da escolinha.

— Ela foi pro rancho, papai? Posso ir lá?

— Um dia, todos nós vamos ficar com ela. Mas não será agora.

— Amanhã?

— Não sei, meu amor. – Amintas engole o choro e sorri ao ver o menino abrir a folha com o desenho que tinha feito sobre a avó dele.

— Posso ver a vovó na tevê? – ele aponta para o aparelho.

— Claro que sim. – Amintas se levanta e observa o menino correr para o sofá.

Zelena ainda não tinha conseguido mover as pernas.

— Eu sinto muito, Senador. Caso precise de companhia para conversar, Miranda e eu estaremos à disposição.

Claro que sim, seu desgraçado!

— Obrigado, Orville.

— Você segurou a barra, sozinho? Por que não nos avisou? – Regina não se contém. Estava sensível demais nos últimos dias e luta contra as lágrimas que queriam queimar seus olhos.

— Agora vocês já sabem. E eu não estava sozinho porque a família de Gold esteve o tempo todo comigo. O pessoal do partido também me amparou e os amigos de minha mãe vieram fazer companhia. As irmãs da ordem onde ela congregava, cuidaram de mim e uma delas ficou aqui em casa.

— Mas por que não avisou seus amigos? – Regina insiste.

— Os meus amigos estavam comigo. – Amintas não sorri, desce os olhos à meia visão e envia o seu mais poderoso olhar para sua amada. – Vocês já jantaram?

Quando a comida japonesa chega, Zelena já havia organizado a mesa. Abre os pacotes e começa a servir a todos. Gostava demais daquele tipo de ritual intimista, porém, para com tudo ao ver Regina passar mal e ensaiar novos episódios de náuseas.

— Regina! – ela deixa tudo e corre atrás da irmã, sob os olhares atentos dos dois homens e do sobrinho.

Ao retornar para a sala, Regina vem apoiada na irmã. Senta-se num dos sofás e larga-se ali.

— Ela está verde. – Amintas observa a mulher, inclinando a cabeça de lado para vê-la melhor.

— Foi algo que ela comeu que está fazendo mal. – Zelena vai apanhar água tônica para a irmã.

— Eu posso imaginar o que foi que ela comeu. – Amintas se volta para Orville. – Não perdeu tempo, hein, companheiro? O defunto nem esfriou e você já estava ajoelhado ao lado do caixão, oferecendo consolo para a viúva fresca.

Os olhos de Orville se arregalam. Como? Não! Isso não era verdade! Ele olha para Regina e é naquele momento que todas as informações são assimiladas e acomodadas em sua cabeça.

— Senador Rochut! Precisamos conversar urgentemente!

— E o que temos para conversar?

— O senhor precisa saber de um segredo para que não me julgue mal.

— Quando você quiser contar um segredo, anote-o em um papel. Depois dobre-o, enfie na boca e o engula. – Amintas mostra uma expressão irônica.

Orville se levanta e mantém a serenidade. Aponta para algum ponto do apartamento, convidando o político a acompanhá-lo. É atendido.

— Preciso que veja algo e entenderá minha posição. – o homem mais jovem diz quando os dois estão num corredor mais afastado. – Quero que veja algo!

Amintas arregala os olhos, quando o homem começa a abrir a própria calça.

— O que pensa que está fazendo?

— Cale a boca e veja!