Meu estranho amor 2
3 Tentando acertar, mas...

Continuando a caminhada dentro da mata, o trio identifica o som de águas potentes. Ao longe avista uma cachoeira e dirige-se até sua margem para aliviar o calor.
— Vou nadar! – Killian começa a despir-se e mergulha nas águas convidativas.
Amintas sente estranheza ao ver a sunga de praia usada pelo amigo, sob as roupas. Por que ele estaria usando aquilo, se o pouso havia sido acidental? Ele sabia que iria encontrar uma cachoeira? Mais uma vez ele sente o mesmo incômodo que tinha surgido quando vira as roupas de seus companheiros. Não! Ele não queria assumir para si mesmo, porém aquela viagem era a mais profunda armadilha que Killian e Regina já haviam tramado. Estava torcendo para que não se arrependesse em ter embaraçado naquela loucura juvenil.
Regina se senta ao lado dele.
— Por que irá tentar pela terceira vez este casamento? Ainda não aprendeu?
— Sou constantemente rejeitado por você e continuo sentindo amor. Também não aprendi. – ele sorri.
— Por que não decidimos de uma vez por todas ficar juntos? Você me ama...eu o amo...poderíamos unir nossas solidões e construir uma família.
— Você não é monogâmica, Regina. Todos os homens são possibilidades para você. Escreva o que estou dizendo: você irá passar um grande constrangimento por agir desta forma. Você irá passar uma vergonha tão grande por causa da sua devassidão...
Uma gargalhada desdenhosa é a primeira resposta de Regina.
— Em dois anos você engravidou Mary, envolveu-se com Charlotte, com Zelena, comigo e tentou casar-se duas vezes com Juliette. Quer me convencer que eu sou a devassa? Você é um cara que usa o pênis como bússola!
— Eu ouvi isso! – Killian fica em pé na água e balança dos braços. Aponta para Amintas e gargalha. – Amintas, ela está coberta de razão! Vocês dois são...
Killian escorrega e cai na água, sendo arrastado pela correnteza, apenas observado por Amintas que acha graça no tombo. Mas o riso vai desaparecendo do rosto do homem mais velho, quando percebe que Killian não estava brincado e não conseguia vencer a força da água.
Momentos passados, Killian está sentado no chão, sob o sol forte, secando-se. Tinha sido resgatado pelo amigo e trazido de volta à margem da cachoeira.
— Vamos continuar? – Amintas toca o ombro do amigo. – Precisaremos encontrar um lugar para passar a noite, já que não encontramos estrada.
Era noite e muito quente. Uma pequena fogueira tinha sido acesa para afugentar algum animal que quisesse se aproximar do grupo. Sentados em troncos de árvores caídos, os três revezam-se na contação de histórias para passar o tempo. Não havia como dormir e relaxar naquele lugar.
— A esta altura, a polícia já foi acionada. – Amintas alimenta a fogueira com folhas secas.
— A esta altura, Juliette já acionou a Polícia Federal, a Interpol, o FBI, a CIA, a KGB, a guarda real e quem mais ouvir os gritos e palavrões dela. Acha mesmo que ela iria ficar sem rastrear você? – Regina ironiza.
— O pessoal do hangar, sua família, os pais de Killian certamente já solicitaram a nossa busca. Sugiro que retornemos para o helicóptero...
Amintas para e inclina a cabeça de lado. Estava escutando alguma coisa.
— O que foi? – Regina se apavora.
— Apaguem a fogueira com terra, rápido! Há um carro aproximando-se!
— Mas a essa hora?
Rapidamente, eles jogam terra sobre o fogo e em seguida deitam-se no chão, atrás dos troncos caídos. Amintas não hesita e protege os amigos com seu próprio corpo, ficando numa posição meio ajoelhada.
— O que foi? – pergunta Regina.
Inclinando-se ainda mais sobre os amigos, ele pede silêncio. Observa uma caminhonete passar em velocidade reduzida. Havia alguns homens na carroceria e usavam farolete para procurar algo ou alguém. Mas naquela distância não conseguiriam identificar três pessoas no meio da mata, porém, seria preciso ter cautela.
— Minha sugestão de retornarmos ao helicóptero...não a aceitem, por favor.
Quando o céu assume uma tonalidade mais clara e os primeiros sinais prateados surgem nas nuvens, o trio recomeça sua caminhada.
— Adorei meu café da manhã. – Killian guarda a embalagem de sua barra de cereal. – “Ô, dilíss!!”
— Eu costumava ficar na janela do meu quarto no orfanato sempre que conseguia, para ver o dia amanhecer. – Amintas estende o braço e envolve os ombros de Regina, trazendo para junto de seu corpo. – Fazia viagens maravilhosas, imaginando como seria poder andar sozinho vendo o nascimento do sol.
— Meu sonho de criança era ver a Aurora Boreal. – Regina se encolhe nos braços do homem e aprecia a proteção. – Um dia, poderíamos vê-la!
Caminhando por mais algumas horas, eles param para um breve descanso. Killian se afasta do casal e vai explorar a região. Apenas ergue o polegar em resposta às recomendações de Amintas.
— Tem certeza de que é o certo, casar-se amanhã?
— Segundo o que me lembro, você foi atrás de mim na praia e pediu-me que aceitasse o seu amor. Disse-lhe que se eu lhe desse a chance, você mereceria o meu amor. E o que você fez depois disso?
— Retornei para minha vida cotidiana e sem graça. Conheci algumas pessoas e...
— E está servindo de trampolim para um jornalista aproveitador que quer o seu lugar. Cuidado com o cara, hein? Ele está usando as mesmas armas que aquela estagiária.
Regina sorri.
— Está interagido em minha vida, hein? Killian lhe passa bastantes informações? Ou foi Mary? E saiba que Percy não é um jornalista aproveitador. É um homem que conhece o que faz, tem contatos importantes e é lindo!
— Veio trabalhar em sua revista, você o orientou, o convidou para a sua cama e está fornecendo informações a ele, que serão usadas contra você. – Amintas sorri sem exibir os dentes.
— Está com ciúmes, mocinho? A sua noiva não sou eu!
— Mas é você quem eu amo. – ele se levanta e estende a mão para ela. – Bom, nem sei porque estamos falando sobre isso. Você não me quis mais uma vez e eu vou tentar me casar pela terceira vez.
A voz de Killian gritando pela presença dos dois amigos, provoca certa comoção. Os dois correm na direção do som e encontram Killian abaixo num barranco, junto à uma plantação mediana e verde, além de viçosa.
— Tenham a visão do paraíso! Olhem que abundância! – ele aponta para as plantas de médio porte e bem conhecidas por Amintas.
— Saia já daí, Killian! Isso tem dono e podem ser os mesmos que estavam na caminhonete ontem à noite! Não seja irresponsável!
— O que é aquilo? – Regina pergunta e estreita os olhos para ver melhor.
— Plantação de maconha, querida. – Amintas se inclina mais para frente. – Não nos abandone como me fez naquele momento em que o assassino me atacou, Killian! Pense bem!
Killian ergue os braços, gesticula freneticamente, aponta para a plantação e segura a cabeça. Rodopia, pula várias vezes e começa a chutar o vácuo. Depois, decide subir o barranco novamente. Lá em cima, estende a mão e é puxado por Amintas.
— Você viu o tamanho daquelas folhas? Viu como estavam verdes? Imaginem como deveriam ser as sementes! E o aroma?
— Temos de sair daqui. Era isso que eles estavam vigiando ontem pela noite. – Amintas levanta Killian e o empurra com força para que ande diante dele. Segura o braço de Regina e a conduz para fora dali.
Quando retornam para a trilha que seguiam são surpreendidos por um grupo de homens armados, aguardando a sua volta. Amintas imediatamente toma a dianteira e ergue as mãos em sinal de rendição.
— Sou Amintas Gabriel e gostaria de conversar.
— Eu sei quem é o senhor. – um homem forte e careca responde. Ordena que os outros abaixem as armas. – O senhor é o novo Senador apoiado pelo Senador Gold, aqui da região. Nós votamos nos senhor!
— Muito obrigado pela confiança!
— Pode abaixar as mãos. – o homem cumprimenta o político e é correspondido. – Espero que o senhor não seja engolido naquele covil de serpentes e que consiga fazer algo por nossa região.
— Precisamos de ajuda. – Amintas traz Regina para perto e envolve seus ombros, protegendo-a. com a outra mão, puxa Killian pela camisa. – Tivemos problemas com o nosso helicóptero e...
O homem careca sorri e concorda.
— Percebemos quando sua nave pousou. Viemos para saber do que se tratava e não os encontramos. Procuramos, mas vocês estavam bem camuflados na mata.
— Aquela plantação é de vocês? – Killian não se controla. – Aquilo é uma obra de Leonardo Da Vinci! Parece uma manta verde, tecido por mãos habilidosas...
— Cale a boca, Killian! — Regina e Amintas falam ao mesmo tempo.
— Vocês não viram a perfeição! Eu pude tocar a maciez! O contorno! É como tocar um corpo desejado! Explorar as curvas, os contornos, a formosura... – o homem estava desvairando.
Amintas se vira bruscamente e prende o rosto do amigo entre as mãos.
— Pare com isso, Killian. Não estamos em casa e isso não é uma historinha jocosa. Não brinque com o que não conhece. Pela nossa segurança, fiquei calado.
Durante todo o trajeto para algum ponto desconhecido dentro daquela caminhonete, nenhum dos três pronuncia palavra alguma. São conduzidos para uma belíssima fazenda e são recebidos por uma comitiva de homens e por uma mulher de cabelos escuros e longos. O coração de Regina se agita no peito e ela não gosta do que vê.
— Sejam bem vindos à minha fazenda! Ainda bem que os encontramos! Estamos em sua busca desde que sua nave pousou! – ela se aproxima dos visitantes. – Sou Miranda e esta é minha casa!
— Agradeço a preocupação, mas dificultamos um pouco por temer o desconhecido. Vimos a pista e decidimos que seria o melhor andar pela mata.
— Não decidimos nada. Quem decidiu foi você. – resmunga Killian.
— Mas creio que em breve enviarão alguém atrás de nós. – Amintas sorri. – Sou Amintas, estes são Regina e Killian e estamos gratos pelo resgate!
— Eu ficaria mais grato se pudesse mergulhar naquela plantação. – Killian sussurra.
— Acredito que sim! – Miranda mantém o sorriso e olha indiscretamente para Amintas como se o homem estivesse pelado e com a mesma intensidade gulosa para Regina. – Vou acomodá-los melhor!
São levados para a imensa varanda da casa, onde uma mesa os esperava com um farto desjejum.
— Infelizmente, nossa torre de comunicação está passando por reparos e estamos sem sinal de telefone, televisão, internet, enfim, nem sinal de fumaça! Então, sugiro que se alimentem, depois se refresquem, descansem, porque creio que tudo será normalizado antes do almoço. – ela indica uma pia num canto da varanda, para que as mãos e os rostos fossem lavados. – É uma honra para minha família receber um Senador da República em nossa casa!
— Agradeço sua atenção.
Regina e Killian se entreolham e trocam um olhar nítido de decepção. Tudo estava indo por água abaixo. E precisariam de apenas mais um dia!
— Fico feliz que não tenham sofrido nenhum mal durante na noite na mata!
— Não. Coincidentemente tínhamos mantimento para tolerarmos mais um dia. Até repelente de insetos, nós tínhamos! Imagine só!
Killian inspira profundamente, buscando paciência para não socar o queixo do amigo.
— Vou providenciar roupas para você, Regina. Quero que descansem e sintam-se em casa. – Miranda mantém o sorriso, estende a mão e acaricia o ombro de Amintas. – Os meus homens verificaram seu helicóptero e encontraram as identificações do piloto. Eu entrei em contato com as autoridades e nos informaram que vocês não mantinham contato desde ontem pela tarde. Quando me disseram que o Senador Amintas estava a bordo, cheguei a pensar em atentado ou rapto.
Regina sente o desejo de acertar um soco naquela mulher falastrona, jogar Amintas nos ombros e sair correndo daquele lugar.
Depois, tendo decidido que todos ficariam no mesmo quarto, Amintas praticamente obriga Regina a banhar-se primeiro, enquanto ele permanecia vigiando e protegendo. O segundo banhar-se é Killian, contrariado e insubmisso.
Preciso encontrar uma maneira de segurar Amintas e Regina aqui, até horas antes do casamento. Mas como fazer isso sem conhecer o ambiente? Bom, o chuveiro irá me ajudar a pensar!
Estando sozinha com Killian no quarto, depois de Amintas ter entrado no banho, Regina avança para o amigo e o segura pelos ombros.
— O que vamos fazer agora?
— Preciso que você mantenha Amintas entretido aqui no quarto. Diga a ele que ainda estou com fome e fui em busca de comida.
— Killian, por favor, não faça nada perigoso! Não sabemos quem são essas pessoas! E se a pista clandestina e a plantação forem delas? Tome cuidado, eu lhe imploro!
— Eu vou ser prudente porque tem uma loira furiosa me esperando na capital.
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