Meu estranho amor 2
12 Outra chance

— Como não quer?
— Estamos bem assim. Precisamos manter nossa individualidade, Regina. – Amintas continua sua tarefa de banhar Melina, sua pequena doce como mel.
— Pensei que estávamos entrando num consenso, Amintas.
— Nem discutimos sobre isso. Falamos apenas sobre a guarda da criança e nada além. Quem falou em casamento foi Mary.
— Eu vou matar você! Por que não quer se casar comigo, agora?? Desistiu de Juliette por três vezes, por minha causa. Agora que estou pedindo você em casamento, recebo não como resposta! Por quê?
Ele a olha por cima do ombro.
— Porque eu me enjoei de casamentos. Estou traumatizado por essa palavra. – ele sorri.
Cruzando os braços e mostrando-se indignada, Regina forja uma risada prolongada e sonora.
— Pense que estando solteiro, eu poderei assumir a guarda de nossa filha, enquanto você continua saltitando de galho em galho. Mas precisa emagrecer, primeiro, porque macaco gordo provoca derrubada de árvores.
— Estou gorda porque carreguei sua filha por nove meses, imbecil! Você não carregou criança alguma e sua bunda está quatro vezes maior que a minha!
— São os exercícios para os glúteos, minha filha. – ele se empertiga e leva a filha para deitá-la na toalha estendida sobre o trocador.
— Você está querendo ser rainha de escola de samba. — Regina o empurra e assume o trabalho com Melina. — Você está brincando comigo! Deve ser isso! Estou me exercitando como uma louca para caber dentro daquela bosta daquele vestido e você me diz que está com trauma de casamento.
Ele a abraça por trás e beija-lhe o pescoço.
— Você impediu meus casamentos com Juliette. E se ela começar a fazer o mesmo com nossa primeira tentativa?
Regina olha por cima do ombro.
— Esse é seu medo?
— Não. Esse deve ser o seu medo. Conheço bem Juliette e ela não perderá essa chance.
Emitindo um som risonho engraçado, Regina fica calada logo em seguida. Teria de elaborar um plano para evitar tal atrevimento. Raptar Juliette? Vendê-la no mercado negro? Ela sorri maldosamente. Poderia raptá-la e deixá-la sob os cuidados de Miranda! Ou apresentá-la ao apaixonante Orville! Juliette impedindo seu casamento? Não havia pensado nisso como uma possibilidade!
Dias depois...
— Não acredito que ela faça isso. – Killian continua sentado no chão, brincando com Johnathon.
— Ela pode querer vingança.
— Não perderia o tempo dela. – Zelena concorda com Killian. – Amintas me contou os horrores que ela falou ao telefone, quando ele revelou sobre vocês naquela fazenda. O chamou de rejeitado, afirmou que se nem a mãe o quis, ninguém mais o aceitaria e coisas feias mais.
Emma discorda dos dois. Embala Melina em seus braços.
— Uma mulher rejeitada é capaz de coisas absurdas. Você precisa pensar em todas as possibilidades. Veja o que você fez, por exemplo, apenas para impedir que Amintas se casasse com ela. Forjou um acidente, bateu, apanhou, bebeu, caiu, raptou, fez misérias!
— O que devo fazer? Aumentar a segurança? Contratar lutadores do UFC?
— Você poderia viajar com Amintas e Melina, procurar uma embaixada do nosso país por lá e casar-se. – Killian opina.
As três mulheres se entreolham e aguardam mais detalhes.
— Nós provocamos um acidente e veja o resultado! – ele aponta para a menina. – Forje uma viagem e quando Amintas se der conta, estarão casados. Não há empecilhos!
— Mas ele não quer mais casar-se. Esse é o empecilho maior.
— Ele não quer??!! –Zelena, Emma e Killian perguntam ao mesmo tempo.
— Disse que está traumatizado e não quer mais. Prefere ficar solteiro, com a guarda de Melina e vai deixar-me livre para minhas aventuras!
— Ah, mas ele vai casar! Nem que eu tenha de fazer como pai da noiva de festa junina! Ele perturbou você, insistiu, declarou-se, chorou, arrancou a calça pela cabeça...e agora diz que não vai casar-se?? Ah, vai!
Emma nega com um movimento veemente.
— Isso não cabe a vocês decidirem! Ele já passou por três tentativas e esta última deve ter sido traumática. É uma decisão que cabe ao casal! – ela se vira para a morena. – Você não é mulher que sonhe com casamento, Regina! Por que decidiu que vai trocar alianças com ele? E se nesse ínterim, você se apaixonar por outro Orville?
As mulheres imediatamente olham para Killian e aguardam alguma complementação filosófica da parte dele. Mas nada acontece. Ele concorda sem dizer nada!!
— Estou apaixonada, mas por ela. – Regina aponta a filha. – E por Amintas!
— E por mim, tia Gigia?
— Você é meu primeiro amor, gatinho!
O menino sorri e exibe as covinhas nas bochechas, herdadas do pai. Ele estava ficando muito parecido com Amintas, mas possuía a presença de Mary em sua personalidade. Uma ótima mistura!
— São muitos acontecimentos na vida de Amintas nos últimos tempos. E na sua, também, querida. Espere um pouco até que suas emoções e hormônios estejam mais controlados. Tudo é novidade em sua vida e casar-se agora, seria muito complicado. Você não saberia administrar. – Emma é sábia mais uma vez.
— Minha loira está certa. Por isso que a amo tanto: está sempre certa.
— Não tinha pensado nisso.
Concordando com a amiga, Zelena complementa:
— Tudo está organizado, porque você em licença maternidade, tem cuidadoras para os períodos noturnos, está na casa da mamãe, todos estão aqui para ajudá-la...mas e quando todos retomarem suas rotinas? Estarei na revista; Mary voltará para sua cidade; nossos pais retomarão seus afazeres; Emma e Killian serão visitantes esporádicos e Amintas voltará para a Capital Federal. Casando-se com ele, irá morar na Capital ou ele virá para cá?
— Irá conciliar seu trabalho na revista, as viagens para as reportagens, a administração de uma casa, sua filha e um marido apaixonado? Além de muito bonito e conhecido? – Emma levanta as sobrancelhas e espreme os lábios.
Pensativa, Regina consegue assimilar a acomodar todas as informações. E eram muitas e que não tinham sido levadas em consideração! Casamento, uma filha recém-nascida; um marido Senador, um cargo de diretora numa revista renomada; uma família com agregados insanos...conseguiria organizar tudo sem ter um surto psicótico?? E tudo isso sem contar nos fantasmas de Juliette e Orville rondando a vida de Amintas...
Sorrindo sem exteriorizar sua decisão, Regina bate suavemente a unha do polegar nos dentes incisivos. Mas e a depressão pós-parto? Ainda não estava sentindo nada, mas diante de novos acontecimentos, poderia acontecer. Guardaria Melina embaixo da pia da cozinha? Não! Mas poderia esquecer a menina num supermercado! Usaria a fralda no lado oposto do bebê?
— Pense em amadurecer a ideia num espaço maior. – a voz de Zelena a traz de volta. – Espere o retorno ao trabalho, sua volta para seu apartamento, a decisão sobre a guarda judicial de Melina, e depois comece a amadurecer a ideia de propor o casamento novamente. Precisa acostumar-se com a maternidade, primeiro.
Era madrugada, quando Cora acorda com o choro sentido de alguém. Sai do quarto e encontra Regina sentada num dos sofás da sala, chorando copiosamente, olhando na direção da televisão ligada.
— O que houve, meu amor? – ela se aproxima da filha e senta-se ali. Abraça seus ombros e olha rapidamente para a tela, vendo um desenho animado. – Onde está Melina?
— C-com a cuidadora...eu estou h-horrenda, mãe! Meus peitos estão doendo...minha bunda está pesada...e Amintas não me liga faz dois dias...ele me abandonou c-com minha filha!
Cora abraça a filha e beija-lhe os cabelos suados.
— Ele ligou sim, mas você estava dormindo hoje pela tarde. Ele viajou para o norte do país e tem assuntos para resolver. Mas virá no final de semana.
— Ele não me ama mais...estou num trabalho árduo para voltar à minha forma física e está difícil demais...fico pensando naquelas assessoras magrinhas em torno dele...e ele está fugindo do meu pedido de casamento!
— Pare com isso, Regina! O homem é um Senador da República e tem afazeres diários! Ele se preocupa demais com os filhos e é apaixonado por você. Já provou isso, enquanto que você ainda não provou que o ama! – Cora se levanta a vai apanhar uma nova caixa de lenços de papel. Retorna para junto da filha chorosa. – E o período de depressão pós-parto já passou! Veio retardado para você?
Regina encara a mãe.
— E tem período certo?
— Claro que sim! Quarenta dias depois do nascimento. Você escapou disso, portanto, não fique inventando modismos!
— Então, porque estou sensível assim?
— Porque você está emagrecendo rápido demais, sua tonta! Toda perda corporal, provoca modificações nas emoções!
Apontando para a tela, Regina arqueia as sobrancelhas. Enxuga o nariz.
— Por isso eu me emocionei com a morte da mãe do Bambi?
Sem conter a risada, Cora abraça a filha.
— Você deve ficar aqui conosco por mais tempo. Quando terminar sua licença maternidade, continue aqui e permita que cuidemos de Milena. Fique aqui, fique um pouco em seu apartamento, acostume-se em conviver sozinha com sua filha...até que esteja totalmente pronta para viver apenas com ela e conciliar suas atividades.
— Mas Mary não ficou aqui.
— Mary ficou aqui conosco, ora com Amintas, adiou o casamento até acostumar-se com a maternidade e depois de muito tempo ela resolveu unir-se ao David. Faça o mesmo: vá com calma, reveze os locais onde morar, acostume-se de que agora tem alguém dependente de seus cuidados, organize seus horários...depois, em um futuro bem futuro, converse com Amintas e acerte a vida a dois.
Regina funga algumas vezes.
— E se nesse futuro bem futuro, Amintas desistir de mim?
— Duvido que isso aconteça. Já se passaram quase três anos e ele continua firme no propósito de ser o homem de sua vida. – Cora sorri ao ver a filha deitar-se em suas pernas. – Sempre que as mulheres de nossa família estão sensíveis, assistem ao desenho do Bambi e choram na mesma parte. Gostando ou não, todas nós ainda temos o nosso instinto maternal aflorado, mesmo que seja numa maneira amalucada.
— Tenho tantas incertezas em minha alma, mãe.
— A única certeza em sua vida, minha querida, é que agora há um elo poderoso entre Amintas e você. E por esse elo, nenhum dos dois pode costurar o próprio umbigo com fios de ouro. Há alguém bem mais importante que os dois. Entrem num acordo adulto e desprovido de vaidades.
Ainda chorosa, Regina ilumina o rosto com um sorriso.
— Não se preocupe, porque essas foram as mesmas palavras que eu disse a ele, quando naquela ocasião quis tirar Johnathon dos braços de Mary e também disse em relação à Melina.
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