Meu estranho amor 2
8 Festa surpresa

Era um domingo e o rancho de Cora estava preparado para uma cerimônia familiar que iria celebrar o aniversário de George, o pai de Regina.
— Fazia tempo que eu queria oferecer um almoço para Amintas e fiquei feliz por George ter tomado a iniciativa. Ele somente autorizou a comemoração, se tivéssemos outro tema para celebrar. – Cora acena para David que estava ajudando Mary e Anna a saírem do carro.
— Eu penso que o papai quer fazer a conciliação entre Mary e Amintas, para o bem de Jonny. – Zelena muda os utensílios que estavam na mesa, pela terceira vez. – Acha que Amintas virá?
— Ele não é deselegante, mesmo que sofra ao ver Regina e o namorado inexpressivo dela.
— Mãe! – a ruiva sorri. — Espero que Emma e Killian estejam presentes na festa.
Cora acha graça no perfeccionismo de filha Zelena, sorri e observa Mary se aproximando com a menina recém-nascida nos braços.
— Como vocês estão? – ela beija a filha e a Anna. Depois cumprimenta o genro.
— Amintas já chegou com Johnathon? Estou preocupada! E onde está o aniversariante?
— Calma! Amintas não chegou como o filho e o seu pai está na adega.
— Onde está Regina? – Mary olha para os lados. – Soube que ela não tem estado bem de saúde.
Zelena e Cora se entreolham. Sorriem maliciosas.
— Ela está em perfeito estado de saúde, filha!
Aos poucos as pessoas vão chegando para o almoço e acomodando-se em suas respectivas mesas, cuidadosamente organizadas por Zelena que teve o capricho de determinar os espaços com os nomes dos convidados.
Regina é delicadamente acomodada por Orville em sua mesa, que iria dividir com Killian e Emma. Dois casais por mesa e por afinidades. Sem problemas.
— Quando sairá a reportagem sobre a comunidade do Hakuna Matata? – Killian ataca os petiscos.
— Eu nem sei se aquilo será publicado. Ainda estou me recuperando daquela bebedeira. – Regina se sentia inebriada com aquela situação festiva.
Emma aponta para o braço de Regina. Uma pulseira com brilhantes não passa despercebida aos olhos da loira.
— Foi Orville quem me deu. – Regina estende o braço. – Não é linda?
— Pulseira de compromisso? Nunca vi isso. – Killian pergunta contrariado.
— Apenas um pedido de desculpas para minha amiga muito querida. – Orville sorri e sem ter a preocupação de esconder, permite que seus olhos brilhem com a visão de Amintas chegando ao longe.
Emma e Killian se entreolham e sem trocar palavras já se comunicam. Havia algo de podre no reino da Dinamarca! Aquele olhar guloso começava a gritar muitas coisas. E o som não era agradável!
O Senador é aplaudido pelos presentes e vai cumprimentar um a um dos convidados. Conversa com todos eles, com a sua conhecida maneira gentil e centrada de tratar as pessoas. O sorriso não estava tão amplo, mas estava presente em sua bocarra.
— Quem é aquela fulana com ele? – Regina não esconde sua ponta de ciúmes.
— Assessora dele. – Emma pisca um olho para Killian e percebe o sorriso feliz do marido. – O nome dela é Etienne.
— Não me interessa o nome dela. Está muito sorridente para uma penetra, não acham?
— Ela é convidada do Amintas. E é muito linda! Vou cumprimentá-los e dizer que você a achou elegante demais. – Killian se levanta e caminha na direção do recém-chegado. Trocam um abraço fraterno e começam a conversar.
Sem se preocupar com os olhares ou comentários, Orville mantém seus olhos grandes e atentos em seu outro objeto de desejo. Seu sonho de consumo imediato. Deveria ser bom para consumir!
Algum tempo depois, almoço servido, pessoas na pista de dança ao som da orquestra e num clima mais ameno, a festa assume um estágio bem agradável.
— Você cuidou da alimentação dos músicos e garçons? – Cora toca o braço de Zelena e recebe um sinal positivo. Mais tranquila, volta-se para as pessoas da mesa. – Fiquei feliz por você ter vindo ao nosso almoço, Amintas.
— Jonny queria voltar para ficar com a mãe e a irmãzinha.
— Caso contrário, você não teria vindo. – Cora tenta amenizar o clima bélico entre Mary e Amintas.
— Não quis ser rude, Cora. Apenas me expressei mal.
George que também estava naquela mesa, levanta-se e apanha uma taça, batendo levemente o garfo nela e atraindo a atenção dos convidados.
— Meus queridos amigos, quero agradecer a presença de todos e dizer que hoje é um dia muito especial para nossa família. Decidi que era momento de celebrar mais um ano de vida e aproveitei para homenagear o meu genro Senador.
As pessoas começam a rir. George estava bêbado? Um pouco alterado, mas ainda era inofensivo.
— Quero dizer...aliás, eu nunca soube como chamar Amintas. Ele é meu genro, Cora?
— Era um genro em potencial, mas agora ele é ex-genro. Entretanto, ainda há a esperança de ser futuro genro. – sugere Killian.
— Obrigado! Mas vou chamá-lo de amigo. É bem menos complicado quando se é pai de Mary, Zelena e Regina...
Lá vem besteira! Um pouco de álcool sobre os neurônios tem a capacidade de relaxar outros músculos, inclusive da língua.
— Eu não ofereci nenhum comprimido para ninguém. Já me defendo, antes que me acusem. – Killian fala para ser ouvido apenas pelos companheiros da mesa. – Antes que você fale algo, Emma.
— Amintas é um grande companheiro e minha mãe o adorava. Por isso, ele já vive em meu coração. É o pai do meu neto Jonny, tem a admiração de minha esposa e o amor de minhas filhas. Portanto, eu o amo também!
Mais risadas ecoam pelo ar. Cora segura o braço do marido e o convida para sentar-se.
— Um brinde ao meu futuro genro! Ex-genro? Atual genro? Ele quase foi meu padrasto! – George levanta a taça e sorri ao ver que todos aceitam a proposta de seu brinde. – Ao meu genro Senador da República!
Depois daquele brinde, Orville se levanta e sua estatura elegante atrai a atenção dos convidados. Ele também ergue uma taça.
— Gostaria de também fazer um brinde.
As pessoas aguardam as próximas palavras do empresário. Estavam ansiosos e curiosos por uma declaração de amor ou um pedido de casamento. Entre as pessoas entusiasmadas, Regina era a mais sorridente e confusa. Outra vez os seus sentimentos iniciam uma luta feroz entre si.
— Gostaria de compartilhar com esta família maravilhosa, a minha alegria. Quando conheci Regina e passei a frequentar esta casa, pude sentir novamente o gosto de ter uma família grande, com novos irmãos, irmãs e amigos.
Alguns assobios e aplausos para o empresário.
— Por intermédio de Regina, pude permitir que a paixão crescesse em meu peito e que eu não fosse visto com preconceito e pré-julgamentos. Por isso, quero brindar à paixão que está em minha alma e à amizade que sinto por Regina. Grande mulher!
Outra vez as pessoas se manifestam.
— Peça logo! – alguém grita em meio aos convidados e provoca risos.
— É um pedido sim, mas não um pedido de namoro ou casamento, mas um pedido de aceitação. Aproveito esse momento maravilhoso e ofereço meus mais sinceros sentimentos a esta pessoa generosa, humana e centrada que fez meu coraçãozinho perder as teias de aranha e vibrar novamente.
— Pessoa generosa, humana e centrada? – Cora pergunta cochichando para Zelena. – Ele não está falando de Regina.
— Não, mesmo.
E Orville continua...
— Quando eu revelei o meu maior segredo, não vi reação negativa alguma. Tudo o que encontrei naqueles olhos, foi compreensão e aceitação, sem comentários pejorativos ou desprezo de julgamentos. – Orville sorri e ergue a taça outra vez. – Quero brindar à pessoa que mesmo depois de saber o que sou um transexual, optou por continuar me tratando com o mais absoluto respeito, muito mais em poucos dias do que pude receber em minha vida inteira. Saiba que respeito demais a sua opção sexual, mas quero que saiba que entrego toda a minha paixão para você, toda a minha admiração e o meu amor, Senador Amintas!
O silêncio se torna sepulcral e até o pianista para de tocar. Brincadeira de estátua? Por segundos que parecem séculos, o silêncio impera naquele lugar, até que Amintas sente a urgente necessidade de impedir qualquer mal estar. Ele se levanta e apanha sua taça.
— Quero imensamente agradecer aos brindes oferecidos em minha homenagem e aproveitar para engatar um pequeno discurso.
Algumas pessoas tentam sorrir.
— Orville, quero dizer que você é o que é: um ser humano sereno, tranquilo e único. Aprendi com meu amigo Killian e com minha mãe Leminsky a não refutar qualquer demonstração de amor, porque amor não se recusa. Quando uma pessoa diz que o ama, preocupe-se apenas em preservar e zelar por este amor, mesmo que sexualmente não venha a corresponder. Eu quero ser amado sim e suas palavras fizeram com que me sentisse protegido outra vez. Perdi duas pessoas importantes em minha vida, nos últimos dois anos, Charlotte e agora minha mãe Leminsky, por isso quero ser amado para encher meu estoque de amor.
Menos espantadas, as pessoas aplaudem as palavras do Senador.
— Eu me sinto honrado, por saber que ainda tenho a capacidade de despertar amor e paixão nas pessoas. Isso me alimenta e...- a voz embarga e ele fica em silêncio por alguns segundos. – Isso me alimenta e enche-me de forças para continuar e ser o homem valoroso que minha mãe lutou para oferecer para a sociedade. Eu aceito o fato de ser amado por você, Orville, e por quem mais quiser me oferecer esse sentimento. Um brinde ao amor!
Emocionadas, as pessoas aplaudem, assobiam e permitem que tudo volte à normalidade outra vez. A orquestra volta a tocar e a pista de dança enche-se novamente.
Killian abre e fecha a boca por diversas vezes, mas não formula frase a ser dita. Queria perguntar, investigar e descobrir o significado dos discursos.
— Fale, Killian! Tá louco para falar!! – Regina bebe todo o vinho da taça. – Vai!!
— Orville é uma menina...
— Não, Killian. Nasci menina, mas fiz modificações para ser esteticamente um menino. Eu nasci Micaela Orville e tornei-me Micael Orville.
— Então...- Killian aponta para Regina e depois para Orville. – Já que Orville é um menino sem as coisinhas...o filho que Regina espera não é dele. De quem é?
— Eu não estou esperando filho algum!! Eu sou uma pessoa que apenas não regula bem!! Nem dos ovários e nem da cabeça!! – Regina se levanta dali e sai do campo de visão das pessoas.
Orville não se contém e sorri discretamente.
— Caso as coisinhas as quais você se refere sejam testículos e um pênis, de fato, eu não as tenho. Usei hormônios para criar pelos e modificar a voz, fortalecer meus músculos, meus seios sempre foram minúsculos...e ainda não fiz implante algum.
— Durante todos esses meses, Regina não viu vocês sem roupas? Ela não enfiou a mão dentro de suas calças? Porque Emma fez isso na primeira vez em que me viu!
— Quem fez isso foi você em mim, Killian. Eu enfiei a mão foi na sua cara.
— Ah,é verdade! Eu nem me lembrava!
Mais uma vez Orville sorri.
— Mas pensei que havia pedido Regina em noivado. Ela me mostrou uma pulseira linda presenteada por você. – Emma indaga.
— Foi um pedido de perdão.
— Pedido de perdão? – Killian fica alerta. – Você se atreveu a ferir Regina? Tentou algo contra ela? Porque se tentou, menina ou menino, você vai tomar tanta porrada!
Negando com um movimento enfático de cabeça, Orville se mostra sereno.
— Minha irmã agarrou Regina e quis sexo não consensual. Pedi perdão pelo comportamento dela. Agora, peço licença porque tenho de esclarecer detalhes com Regina.
O empresário sai dali.
— Eu vou até lá! A última reunião que presenciei foi incrível e reveladora! – Killian vai atrás e não dá tempo de ser detido por Emma.
Ao longe, Cora observa tudo e decide ir ao auxílio da filha. Zelena acompanha a mãe, sendo seguida por Mary. O aniversariante, totalmente bêbado, decide saber o motivo daquele êxodo familiar.
— Quando essas reuniões acontecem...há problemas. – Amintas comenta com as pessoas de sua mesa e também segue para o onde o grupo dirigiu-se.
Num cômodo indicado por uma empregada, Orville encontra Regina andando de um lado a outro, furiosa e falando de si para si, como se tentasse punir-se por tal vacilo homérico. De todos os seus romances, nenhum havia passado sem intimidades por tanto tempo. Estava perdendo seu poder de sedução? E suas técnicas de dominadora? Tinham descido pelo ralo??
— Ahhh! Virei exposição num zoológico?? A família inteira para rir de mim??
— Não podemos proteger você? – Cora passa por Orville e posiciona-se ao lado da filha, encarando o empresário. – O que você tem a dizer para nossa família?
— Por extremo respeito à sua filha, evitei intimidades. Queria conhecê-la bem, antes de expor um segredo tão pessoal.
— Mas você contou para o Amintas e não tinha tanta proximidade com ele. – a voz de Killian atrai os olhares. – Como ele reagiu? Por que Regina reagiria diferente?
Orville olha encantadoramente para Regina e derrete o coração dela. Mas imediatamente ela se recorda de estava diante de outra mulher, dentro de sua concepção.
— Ele estava sensível pela morte da mãe e jamais iria me maltratar. Eu tinha de explicar que os sintomas de gravidez de Regina, não eram de minha responsabilidade. Amintas apenas me olhou e aguardou que eu falasse algo mais grave.
— É o meu velho camarada! Ele é ponta firme!
Quando Amintas chega à reunião é recebido por uma almofada voadora.
— Você sabia de tudo e permitiu que eu vivesse essa situação vexatória?! – Regina grita histérica.
— Ora, você decidiu naquela tarde viver um novo romance. Imaginei que já haviam transado!
Outra almofada voa, mas desta vez acerta a cabeça de Orville.
— Você me disse que se apaixonou naquela tarde e naquele corredor, quando eu me declarei por você!!
— Sim. Eu me apaixonei por ele. – Orville aponta para Amintas. – Em momento algum me apaixonei por você, minha amiga. Por você, sinto amor fraternal.
— Vá pro inferno com seu amor fraternal!! – atira outra almofada e acerta em cheio o rosto de George. Para um bêbado, o peso de uma pena é um peso de uma pedra. – Você teve todas as chances de dizer que é uma mulher!!
— Não sou uma mulher e nem sei se fui algum dia. Tenho um novo registro civil e carrego hormônios masculinos. O tema gênero é muito complexo.
— Você ficou mais de três meses sem ter intimidade com ele? Viajava com ele? Dormia no mesmo quarto de hotel e nunca o viu sem roupas? – Mary faz a pergunta que todos queriam fazer.
Regina se larga num sofás. Espalma a mão ordenando que Mary ficasse calada.
— Então, Orville não é o pai do seu filho. É o tal jornalista? Ou é resultado daquela manhã na fazenda? – Killian fala sem ponderar as palavras. – Não se lembrou de levar preservativos em sua bolsa de sobrevivência?
Amintas começa a rir.
— Confessa que vocês armaram tudo para impedir meu casamento? É a confissão oficial? Você vai levar porrada! – ele avança na direção de Killian, mas o homem mais jovem é também mais rápido e vai proteger-se atrás de Cora. – Saia daí, Killian!
— Podem parar, todos vocês. – a voz calma de Cora produz efeito e cada um encontra um lugar para sentar-se. Ela se vira para Orville. – Em algum momento, você pediu minha filha em namoro ou quis ter relações com ela?
— Orville não, mas a Miranda sim! Ela até agarrou Regina à força!
— Fique quieto, Killian! – todos falam ao mesmo tempo.
Ainda se mostrando sereno, Orville esconde as mãos nos bolsos da calça.
— Eu confesso que me apaixonei por Regina sim. Eu a desejei sim, mas não iria expor meu segredo sem conhecer os pontos de vista dela. Mas para Amintas, confessei porque era um momento frágil e eu estava sendo acusado de ser o pai do bebê. Eu tinha de esclarecer a história, porque sempre confiei que o filho seja de Amintas.
— Regina está grávida de Amintas?? Ele já tem um filho com Mary e agora terá com Regina? – admira-se George. – Ele tem filhos com duas de minhas filhas? Com quem mais ele terá filhos?? Faltam Zelena e Cora!!
— Não sou sua filha, cavalo! Sente-se aí! – Cora continua olhando para Orville. – Está apaixonado por minha filha e por Amintas. Por que não foi honesto com ela?
— Desculpe-me, mas este assunto não lhe diz respeito, senhora. Regina é adulta e matriarcal demais para precisar ser defendida pela família. Ela sempre se mostrou independente e dominadora em relação aos homens. Por que esta celeuma, agora??
— Porque ela está sofrendo, é e sempre será minha filha! – Cora se volta para Amintas. – Você teve relações com minha filha, mesmo estando noivo de Juliette?
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