Depois daquele almoço no rancho de Cora, acompanhado por Zelena, o casal iria visitar a casa de Mary para que Amintas fosse apanhar o filho para o período de convivência com ele.

Regina se sentia inchada, irritada e enjoada para irem voando, conforme sugestão de Zelena. Então, consegue convencer a irmã e o noivo que seria melhor irem em um carro. Contrariado, Amintas atende a morena para evitar as reclamações que já estavam começando a borbulhar em seus ouvidos. Queria evitar fadiga, sobretudo, se queria mesmo ter uma vida em comum com aquela alucinada, movida à confusões.

Durante o trajeto, Zelena e Amintas se revezam na direção e nos cuidados com Regina, que exigia paradas constantes para resolver suas crises de vômitos e enjoos. Uma questão de paciência e proteção.

Quando Amintas assume o volante, mais alguns quilômetros percorridos, o som da sirene de um carro de polícia rodoviária é ouvido. Era a ordem para encostarem.

— Boa tarde! Estão indo para onde? – o policial sorri e indaga para Amintas.

— Boa tarde, policial. Estamos indo para o Vale Raso buscar meu filho na casa da mãe dele.

O policial olha para Zelena no banco do passageiro e depois para Regina mal-humorada, sentada no banco de trás. Ele nem se dá ao trabalho de encarar o policial.

— É sua família?

— Sim. Minha noiva e minha cunhada. – Amintas se mostra calmo.

— Posso ver os documentos pessoais e do veículo?

Amintas asserta com a cabeça e apanha sua carteira, entregando os documentos ao policial. Ao ler o nome do proprietário, o policial levanta as sobrancelhas e sorri.

— Eu tive a sensação de conhecer o senhor. Senador Amintas Rochut! Votei no senhor!

— Obrigado pela confiança.

— Espero que sobreviva ao covil de leões. Sugiro que ataque primeiro, antes que eles queiram devorar o senhor.

— Obrigado pelo conselho.

O policial se afasta e vai das uma volta para uma verificação corriqueira do lado externo do veículo. Quando retorna, devolve os documentos para Amintas.

— O senhor percebeu que o pneu traseiro do lado do passageiro está mais baixo que os demais?

Abrindo a boca, o motorista nega com a cabeça e desenha uma expressão implorando que o policial calasse a boca.

— O senhor parou nosso carro apenas para ter o prazer de dizer que estou gorda? – Regina se exaspera. – Pensa que não percebi a ironia em sua voz? Pensa que sou estúpida para não sentir que está querendo divertir-se com minha situação?

— Não!

— É bem típico do seu machismo, encontrar alguma oportunidade para comentar sobre o peso de uma mulher grávida! E isso não tem graça alguma! É uma piada sem graça e nada original!

— Não quis dizer isso, senhora!

— Mas disse! E daqui a pouco vai sugerir que eu troque constantemente de lugar para balancear e distribuir bem o peso sobre as rodas!

O policial dá um passo atrás. Amintas abaixa a cabeça e cobre os olhos com uma das mãos.

— Vai ordenar que paremos em todos os próximos postos de gasolina para calibrar os pneus, porque Regina Mills está acima do peso e aumentando a capacidade de carregamento do veículo! Daqui a pouco vai sugerir que troquemos o carro de passeio por um caminhão guincho para que eu vá na carroceria!!

Levantando as sobrancelhas, o policial evita falar alguma coisa.

— Vocês homens não sabem o que é carregar uma pessoa dentro da barriga e que transforma água em gordura! Acha que gosto estar inchada? Acha que é bom ver bolas de futebol no lugar dos meus pés? Acha que é romântico sentar na privada e não conseguir levantar-se sozinha? Eu queria matar o desgraçado que disse que ser mãe é padecer no paraíso! E imagine o parto!

Amintas olha para o policial e pede ajuda com seu olhar.

— E já viu o tamanho dos meus peitos?? Sabia que isso daqui pesa? E quando o bebê nascer, será que meus peitos vão voltar ao tamanho normal?? Eu vou gesticular a sempre acabo batendo em meus peitos! Pensa que isso é lindo e delicado?

O policial arregala os olhos e entende o pedido de Amintas. Saia logo daqui! Que somente você fique louco, porque meu trabalho já é agitado demais para conviver com essa cena!

— Podem seguir viagem. Tenha muita boa sorte, Senador. E saiba que há coisas mais graves do que o covil de leões que falei.

Regina continua falando, falando e reclamando. Cita frases feministas e furiosas, questionando quem ousou inventar a responsabilidade de carregar o bebê, para a mulher. Por que os humanos não eram como os cavalos marinhos? Por que medicina não copiava os filmes e criava algo para transferir o feto para o corpo do homem? Que fizessem cesariana!!

Dando mais passos para trás, o policial começa a fugir da situação.

— O senhor não vai me multar? — pergunta Amintas.

— Não...

— O senhor não vai me algemar?

— Não...

— O senhor não vai me levar preso daqui? Não vai me manter encarcerado pelos próximos três meses? E incomunicável? Não vão me torturar?

— O Senado e sua noiva vão se incumbir de fazer isso. Boa sorte! – o policial se afasta definitivamente, entra no carro e sai acelerado.

— Policial! Volte! Não me deixe aqui!

E Regina continua reclamando. Estava furiosa e indignada com a discriminação sofrida. Por que somente ela havia influenciado no afundamento do pneu, se havia três pessoas dentro do carro? E alguém já havia prestado atenção na dimensão da bunda de Amintas? Alguém sabia quanto aquilo pesava?

Mais meses e mais reclamações surgem...

Todo corredor da maternidade havia sido tomado. Não havia mais espaço para familiares de parturientes, porque a família de Regina se incumbira de ocupar simplesmente todos os espaços. Barulhentos e inquietos, eles teciam comentários divertidos sobre os mais diversos assuntos e sobre qualquer pessoa que se atrevesse a passar por aquele campo minado. Nem mesmo os constantes pedidos das atendentes foram fortes o suficiente para conseguir que se calassem por mais de trinta segundos.

Não seria um parto comum. Seria o parto de Regina Mills e seria um marco na história confusa das aventuras vividas por ela. Um ponto final para as suas destemperanças? Ou apenas o recebimento de uma companheira para suas presepadas?

Exigente e imperativa, Regina quer a presença de Amintas dentro da sala de parto. Algo impensado por ele até aquele momento. Um homem que sempre havia conseguido ver pessoas desconhecidas feridas e baleadas, que ao assistir os primeiros movimentos de dilatação e coroação da cabeça da menina para sua saída, escorre pela parede e fica sentado no chão, amarelo e suado.

E ao sair da sala de parto engatinhando e sem forças para caminhar, provoca comoção e perguntas entre sua família postiça. Quem imaginaria que o parto surtiria aquele efeito na pessoa errada? Quem estava sentindo mais as dores do parto? Algum tempo depois, recuperado do vexame, Amintas retorna para atender os gritos e xingamentos de Regina, que parecia importar-se menos com as dores do que com a ausência do namorado. Afinal, ele também era responsável por aquela situação e não deveria isentar-se dos momentos mais desagradáveis.

Ao sair da maternidade, Regina e a filha são levadas para o rancho de seus pais. Ficariam ali sob os cuidados dos avós e de cuidadoras contratadas para os dias mais difíceis da vida da família. Por que difíceis? Regina sóbria era um barril de pólvoras. Com uma criança nos braços deveria tornar-se um míssil teleguiado.

— Já pensaram no nome da garota? – Killian balança suavemente o corpo para embalar a pequena recém chegada. Ao seu lado, Emma se preocupava com a cabeça do bebê.

Mary não continha sua felicidade com o crescimento daquela família e incentivava seus filhos a conhecerem a prima. Tinha esperanças de que a personalidade dela fosse serena como a do pai. Trazer traços da mãe iria provocar mais situações bélicas.

— Lady Diana é um nome que soa como nobreza. – sugere Zelena.

— É nome de menina que nasce em hospital público. – George começa a rir.

— Eu nasci em hospital público e meu nome é poderoso e fantástico!

— Você nem sabe se nasceu em hospital público, Killian. – Amintas emenda a fala do amigo. – Aliás, você nem sabe onde e quando nasceu! Melhor ainda: nem sabe se nasceu!

— Eu sei que eu nasci, porque eu penso! E seu eu penso, logo existo!

— Pare de pensar um pouco e desapareça. – Cora estende os braços e gesticula para receber a nova neta.

— Caso ela vá herdar traços genéticos traseiros do pai, o nome deve ser Kim Kardashian.

Regina abaixa a cabeça e começa a rir para não explodir com a irritação ou mesmo não provocar uma debandada de pessoas daquele quarto. Queria todos ao seu lado, naquele momento.

A menina é entregue para a avó, que estava sentada na cama ao lado de Regina.

— Eu pensei em Hirma Leminsky Mills Rochut. – a nova mãe sorri, orgulhosa.

— Misericórdia! Isso é fórmula de receita para manipulação feita por um médico do Azerbaijão! – Killian fala e algumas pessoas começam a rir.

— Será dificultoso para a alfabetização dela. – Mary sugere, recebendo um bonequinho da mão da filha. – E a pronúncia?

Cora sorri e cheira a neta. Diz:

— Poderia ser Hindaleta, o nome de minha avó.

— Isso é palavrão! E na escola seria a Escopeta, no mínimo! Definitivamente não! – Killian fala de supetão e desta vez é apoiado por Amintas. Os dois batem os punhos fechados.

— Ela vai morar com a tia Gigia ou com meu papai? – Johnathon pergunta e provoca constrangimento nos adultos. – Papai vai levar o bebê embora?

Mary estende os braços e o menino atende ao chamado da mãe. Debruça-se nas pernas dela.

— É quase certo que a tia Regina irá casar-se com Amintas. Eles vão morar juntos e a bebê ficará com os dois.

— Mas é mais gostoso ter dois quartos, viajar de helicóptero e de avião, morar na sua casa e depois na casa do papai. Eu tenho duas casas e meus colegas da escola têm apenas uma. Mas o Henrique e a Sônia têm duas também.

— Pagam os inocentes pelos pecadores. – resmunga George e sua frase faz um silêncio profundo naquele quarto.

— Mas que raio de pecadores? – Amintas sobe um tom na voz. – Qual pecado que Mary, Regina e eu cometemos? Já pensou em ver vantagens para as crianças, nessa vivência de transição? Conhecer lugares amplia o horizonte dos seres humanos e somos nômades! Nenhum homem foi criado para viver com raízes fincadas num único lugar! Isso amadurece a independência de uma pessoa!

George ergue as mãos em sinal de rendição.

— Mas e o nome da menina? – Killian retoma a discussão. – Cabala? Andy Panda?

A partir dali, recomeçam as mais diversas sugestões passando pelas mais simples às mais complexas, absurdas e estapafúrdias ideias.