Meu encontro com o Wolverine

4 Capítulo III - A Era do Gelo


O filho do sr. Crow não era tão assustador quanto o pai, mas também tinha olheiras meio roxas e era pouca coisa mais alto que eu. Tinha um porte atlético e cabelos castanho-claros, com olhos também da mesma cor.

“Vamos todos fazer uma roda mais perto aqui pra eu falar um pouco sobre o passeio e também comentar algumas regras, ok? Podem ir chegando, não sejam tímidos! Passaremos mais de 10h juntos, é bom nos conhecermos e, porque não, confiarmos um pouco uns nos outros, hein?”

Os outros chegaram e eu notei que James permaneceu atrás de todos, sem fazer questão de se enturmar, como aparentemente tinha tentado na mesa, alguns minutos antes. Não pude deixar de pensar que parte era culpa minha… Eu e minha boca gigante, que sempre fala antes de pensar… Mas se havia algo que aprendi com esse meu jeito é que nada se pode fazer das palavras que já saíram, só seguir em frente e não ficar remoendo.

O guia se apresentou, seu nome era John e ele alegava ter nascido ali, conhecendo desde jovem todas as partes da montanha e seus segredos. Como eles eram uma das pousadas mais distantes, deveríamos sempre ter cuidado ao caminhar para não ficar sozinhos na floresta, pois ela era rica em fauna selvagem e nós poderíamos ficar numa situação não muito favorável.

“Não que eu esteja dizendo que vamos encontrar um urso ou coisa assim, mas podemos nos deparar com algum carcaju ou alce e eles podem se assustar e reagir de modo mais territorialista, ok?”

“Existem muitos animais noturnos por aqui, John?” — perguntou a outra mulher do grupo.

“Temos desde aves, roedores e inclusive lobos, senhora… Por que a pergunta?”

“Pelo som que ouvimos ontem à noite! Parece que algum lobo caçou alguma presa ontem…” — e alguns rapazes comentaram baixinho que também haviam se assustado.

“Eu só ouvi sobre esse som até agora, senhora… Ele não foi suficiente pra me acordar. Eu acho que não há porque se preocuparem. Com certeza, essas matas são bem movimentadas à noite…” — e sorriu de lado, voltando a explicar nosso trajeto e, ao que parece, colocando uma pedra sobre o assunto.

A trupe aventureira era então composta por: Ana, Noel e Jacob, amigos da faculdade de administração e canadenses que resolveram conhecer as Rochosas antes de partir para a vida empresarial; Niki, um austríaco, muito introvertido que desejava encontrar algum animal selvagem e viver pra contar a história na sua cidade; eu e James, que não falou muito sobre si, apenas que era canadense e que já conhecia as Rochosas e estava com “saudades” -e ao usar essa palavra olhou exatamente para mim, com um sorriso enigmático.

John pediu para entrarmos na van que ele viria em seguida. Com a ajuda do pai, levaram uma galão de água fresca para a parte de trás e também duas espingardas, explicando que elas eram necessárias para afastar algum animal mais arredio. Como no Brasil não temos essa vivência com as armas, isso me chocou um pouco, mas eu jurei para mim que nada ia atrapalhar essas férias e, portanto, soltei um “seja o que Deus quiser!” e esqueci.

Como a van devia ter uns 15 lugares, todos puderam sentar perto das janelas, com Niki buscando o lugar mais distante das pessoas, os três amigos bem próximos e eu na parte do centro da van, com James na ponta oposta.

Foi explicado que iríamos uns 15 minutos de van e de lá, a pé até uma das encostas, numa escalada à qual não sabia se conseguiria realizar, pelo meu sedentarismo crônico… Mas eu tentaria e explicaria depois se não fosse possível continuar com o grupo. Apesar do guia ter dito para nunca ficar sozinho na floresta, nada impedia que eu pudesse esperar em algum ponto de retorno deles, o que eu não queria era atrasá-los ou, pior ainda, antecipar nosso retorno! De quando em quando John avisava sobre alguma curiosidade do caminho e, quando avisou que os últimos 6 minutos seriam de uma incrível floresta de pinheiros e a paisagem começou a ficar sempre igual, resolvi abrir minha mochila e beber uma água, recostar um pouco a cabeça no banco e me preparar psicologicamente pra caminhar.

“‘cê tá com medo de quê?” — ouvi a voz de James perguntar nítida e baixa e, ao abrir os olhos, vi que ele havia se movido para mais perto.

“Não é bem medo, sabe… É receio de não conseguir acompanhar a caminhada. Sou muito sedentária e como ele disse que algumas partes serão subida, não queria atrasar o grupo; estou recapitulando se foi uma boa ideia fazer essa parte da jornada, só isso…” — falei de modo baixo também, pois não queria que os outros já começassem a me julgar. Se fosse pra existir julgamento que ele viesse na hora justa, quando tivéssemos que decidir se continuaríamos o passeio ou não. Sorri em seguida, voltando a olhar para fora e vendo os mesmos pinheiros acabei voltando o olhar para o lado de novo e ele não estava mais tão perto, tinha voltado ao seu antigo posto, perto da janela oposta. O movimento foi tão rápido que eu me questionei se ele realmente se sentou perto de mim em algum momento ou se eu estava falando sozinha nesse último minuto.

“Chegamos, galera! Vamos nos unir em times para que fique mais fácil cada um olhar pelo outro, ok? Eu pude perceber que alguns pares já se formaram, então, se estiver tudo bem pra todos, vou mantê-los: Ana com o Noel, Liura com o James e Jacob com o Niki” — enquanto falava isso, foi até a parte de trás da van e trouxe quatro sinalizadores, ficou com um, e deu outro para cada dupla, explicando como funcionava e pedindo para serem acionados caso se perdessem e, através de voz ou de outros meios não fosse possível de ser encontrado. Mas que acontecesse o que fosse, para ficarmos com nossas duplas.

Quando o guia colocou a mochila, percebi que uma bandeira um pouco mais alta saía dela e ficava tremulando, como naqueles grandes grupamentos de orientais em Toronto. Realmente, quando se está seguindo alguém, parece muito mais fácil seguir a bandeirinha do que a pessoa em si, fato estranho, mas funcional.

O lugar era lindo, de perder — literalmente — o fôlego. Havia uma “picada” entre os pinheiros que podia ser vista sempre, demarcada com algumas fitas amarelas ou laranjas numa e noutra árvore. Parecia algo impossível se perder ali, contudo era o ponto que mais preocupava o guia, ele até mesmo contou histórias a respeito de turistas que foram achados alguns dias depois, todos com vida, mas nos pedia sempre cautela e informava que faria paradas de hora em hora para que pudéssemos explorar além da trilha com nossa dupla. Vi muitos corvos, muitos insetos, lindas borboletas e, de soslaio, uma águia-careca, além de esquilos que me faziam sorrir ao lembrar da “Era do Gelo”.

“‘tá rindo de quê, guria?” — me perguntou o sr. James e, com o olhar maroto eu respondi:

“Não sei o quanto você gosta de desenhos animados, mas sempre que eu vejo um esquilo me lembro da ‘Era do Gelo’! Não tem como não rir” — colocando a mão na frente e sendo “censurada” por um “não acredito nisso”, junto com um menear de cabeça.

“Ahhh! Vai me dizer que você não tem capacidade de sonhar? A vida fica muito mais divertida assim!” — fui obrigada a me defender atacando, senão ele passaria a próxima hora mudo e eu não pretendia que isso acontecesse!

“Eu lá tenho idade pra ficar vendo desenho animado? Olha bem pra mim!” — e parou, mostrando-se todo e estufando o peito como se fosse um vencedor.

“Sonhar não tem a ver com idade, James… Tem a ver com capacidade! E se você perdeu a sua, não se preocupe! Sempre é tempo de conseguir reavê-la! Eu mesma não sou nenhuma jovem (já estava com meus 38 anos) — aproveitei pra me mostrar como ele havia feito alguns segundos antes — e, ainda assim, acabei de fazer um quase estranho puxar papo comigo por ter simplesmente sorrido no meio das Rochosas! Você há de convir que é um feito e tanto pra quem simplesmente fez uma associação de imagens engraçadas na mente e exteriorizou num sorriso!”

O rosto dele foi se alterando, primeiro daquela face de vencedor, para atento e, no final, estava ele também esboçando um sorriso que queria sair mas que ele cismava em manter escondido.

“‘tá certo! Você tem um jeito peculiar de ver a vida, isso não nego! E me fez lembrar uma pessoa ou duas que conheço, o que me trouxe boas lembranças. Ponto pra ti, então!” — e tocou a caminhar novamente, pois havíamos ficado um tanto para trás da expedição.

Quando eu ia começar a dar o passo para segui-lo ouvi um “fica parada!” dele que, com a mão esticada, me mostrou uma cobra, uma “Western Rattlesnake” cruzando meu caminho e parando diante de mim. Não me mexi, apesar da vontade imensa de querer ir pra trás o quanto antes! Ainda mais quando ela começou a fazer o guizo se mover… Ai meu coraçãozinho! James rapidamente pegou um galho com a ponta quase em L e se aproximou sorrateiro, aproveitando a distração que a cascavel tinha na minha pessoa, se respirar não fosse um ato autônomo, eu teria continuado a prender a respiração e foi exatamente na hora que eu precisei pegar o ar de uma vez que a cobra resolveu dar o bote! Sinceramente, não sei o que aconteceu… Meu corpo caiu para trás e, no mesmo instante, James veio por trás e interrompeu o bote, apoiando o galho na cabeça dela e deixando-a “p” da vida! Todo seu corpo se remexia e enrolava no galho, tentando se soltar; quando abri os olhos vi os dele totalmente dentro dos meus, perguntando preocupado: “‘cê tá legal? machucou?” e enquanto dizia isso sua outra mão ia de encontro à cobra, apertando-a na garganta.

“Tô… tô legal…” — respondia enquanto me apalpava pra checar se alguma coisa doía. Em seguida, pensei na cobra: “você não vai matar ela, vai?!” — levantando e limpando a bunda dos pedriscos.

“Claro que não! Ela ‘tá tão assustada quanto você, né? Vai subindo o caminho que eu te encontro daqui a pouco, vou largar ela mais no meio do mato, falou?” — e foi unindo palavras à ação e se embrenhando no mato.