Meu encontro com o Wolverine

5 Capítulo IV - A “culpa” é sempre da vítima, né?...


Aiai, eu tinha acabado de “quebrar” a única regra que o guia John tinha feito a gente repetir: “não se separe do seu companheiro em hipótese alguma”... Mas o que eu podia fazer? Ir pro meio da selva que eu não ia, ainda mais com a possibilidade de outros animais maiores estarem por lá! Meu coração ainda bombava desordenadamente pela adrenalina, ia demorar uns dias pra eu voltar ao normal… Me conhecendo tão bem, sabia que a noite seria em claro e com várias idas ao banheiro. Só me restava suspirar… E foi o que fiz, enquanto subia a trilha demarcada com fitas amarelas ou laranjas. A minha mente começou a procurar itens na mata que me fizessem desfocar do que havia ocorrido, enquanto a parte consciente dizia: “você deve sua vida a esse homem, Liura! Não esqueça de agradecer e pare de ficar implicando com o jeito sóbrio dele ver a vida! Foi essa sobriedade que permitiu sangue frio pra te ajudar com a ferramenta certa, na hora exata.”

Andei uns 10 minutos, sem ouvir o restante da excursão na nossa frente e sem ouvir James vindo pelo caminho de trás até que John surge do nada, do meio de alguns pinheiros e me assusta, quase tanto quanto a cascavel havia feito:

“onde vocês se meteram?! Cadê seu parceiro?!” — olhando por trás de mim pra ver se o via vindo.

Com a mão no coração, expliquei rapidamente o que havia acontecido e disse que James estava chegando a qualquer momento, perguntei também onde estavam os outros e ele sinalizou bem mais a frente, algo como uma clareira, onde haviam parado para descansar e nos esperar. Fomos caminhando para a clareira e estavam todos ao redor de uma fogueirinha cavada na terra e com pedras ao redor. Ana, Noel e Jacob conversavam alegremente sobre as maravilhas que tinham visto, sobre como o ar era mais puro, como os sons eram mais claros; Niki comentou que sentia falta do seu sinal de celular, mas ter visto a águia-careca compensou esse fato. Quando cheguei com o guia pararam de conversar e ficaram me olhando, ao que John tomou a frente e contou o pouco que sabia sobre o ataque da cascavel, valorizando a presença da dupla num momento desses; eu aproveitei que James ainda não havia retornado e coloquei minhas cores na narrativa, deixando claro que se não fosse por ele só Deus sabe onde estaria agora. Isso “quebrou um gelo” com relação ao nosso atraso nesse ponto de descanso.

“Mas você vai continuar a subida conosco, não?” — questionou Ana, mais preocupada na sua caminhada que na minha, mas ainda assim, uma questão genuína para se responder.

“Meu coração ainda está taquicárdico… Eu não sei o quanto continuar pode ser bom pra vocês. Eu poderia ficar aqui, não, John?” — olhando o guia e esperando genuinamente que ele me liberasse da subida.

“Desculpe, Liura… Como eu disse, seria muito complicado deixar uma dupla ou só uma pessoa pra trás; e se James quiser fazer a subida, hein? Você teve um encontro de “primeiro grau”, fico feliz que seu par conseguiu dar conta do problema e, então, por quê não continuar curtindo, hein?” — e sorriu genuinamente pra mim, lançando o convite para todos os presentes.

“Se você acha que pode ser proveitoso, eu vou me esforçar, claro!” — e dei meu melhor sorriso ensaiado do mundo.

Esperamos por James mais alguns minutos, assim que ele chegou veio checar como eu estava, perguntando sobre o coração e se eu aguentaria continuar a caminhada. Respondi que sim, ao menos até a próxima parada, o que seria perto das 11h30.

Os outros levantaram e colocaram as mochilas nas costas, Niki que estava um pouco distante se aproximou de Jacob e os dois trocaram um sorriso, saindo logo atrás de John para a continuação da trilha; Ana e Noel seguiram, conversando trivialidades e eu me esforcei em levantar logo, titubeando e sendo amparada por James: “Ei! Devagar aí! ‘cê passou por uma situação e tanto ali atrás… Tem certeza que quer fazer isso. Eu fico contigo, guria…”

“Obrigada! Muito obrigada! Eu ainda não agradeci pelo que fez por mim! Só sei que palavras não expressam o quanto sou grata, viu?” — colocando a mão sobre a dele e me desvencilhando levemente, para começar a dar o passo e seguir os outros: “Vamos lá, a vida nos mostra os desafios que precisamos vencer, todo dia. Pode ter certeza de que este é o mais difícil que já precisei enfrentar, mas não vou me deixar vencer!”

James sorriu e me seguiu, ficando alguns passos para trás. Seria com medo de que em algum momento eu desmaiasse e precisasse de ajuda? Jamais saberei, pois o retorno à caminhada e as distrações do caminho me fizeram esquecer o que havia acontecido e, quando me dei conta, os batimentos cardíacos estavam normais e depois de uns 40 minutos chegamos ao ponto de encontro II, onde almoçaríamos alguns macarrões instantâneos que John havia levado. Aproveitamos uma grande árvore cortada perto da fogueira para usar de mesa e cada um colocou algo que havia trazido em sua mochila, trocando alimentos para nos fortalecer para a última jornada antes da volta.

Como sou muito pró-ativa, já me encarreguei de coletar lenha ao que Ana disse que me acompanharia, pegamos vários gravetos conversamos sobre nossas experiências nas cidades, cada qual na sua área. Ela ia começar a vida, eu já estava no mercado de trabalho há mais de 11 anos. Quando chegamos com nossos gravetos, John e Noel pararam de conversar e nos deram uma olhada suspeita, mas vendo o quanto Ana era bonita, não era de admirar que estivessem falando dela, né?

Empilhamos tudo no buraco de terra onde seria a fogueira e Niki acendeu a pira, aquecemos a água comemos um macarrão, seguido de frutas e bolachas que estavam sobre a mesa improvisada; foi um momento confraternativo muito bom. Me fez esquecer a adrenalina totalmente. Durante a preparação e o almoço percebi que John lançava uns sorrisos para mim que eu retribuía inocentemente. Tenho esse grande “defeito” de retribuir elogios e sorrisos, aiai…

Fazemos o trecho que falta e, como era um pouco mais íngreme, algumas vezes, James me auxiliou, outras John, e eu também auxiliei Ana e Jacob, nós éramos um time, certo? Nada demais… Ao menos era o que eu pensava. Conseguimos chegar no nosso ponto final às 14h e ficamos um pouco curtindo a Natureza.

James me chamou para ver alguma marca deixada numa árvore. Quando lá cheguei eram quatro marcas num pinheiro, ao que ele informa: “Se faltasse uma das garras eu poderia dizer que seu Wolverine esteve aqui, hein?” — e sorriu gostoso.

“Ahhh… Isso aí não vale! É muito emocionante ver as garras de um urso, mas realmente, se fossem três eu ia surtar!” — apontando com o celular pra fazer uma selfie mesmo assim, do lado das marcas.

Ele riu mais um pouco e depois me convidou a voltar com os outros, ele ficaria um pouco mais ali para ver se não havia nenhum perigo mesmo do urso estar próximo. Meu semblante gelou e eu concordei, retornando meu caminho. Podia ouvir os outros, mas não vê-los de onde eu estava e, do meio dos pinheiros, surge John, me dando o maior susto:

“você fica uma gracinha quando leva um susto, sabia? Parece tão indefesa...” — e veio vindo com a mão na direção do meu braço.

Dei um passo para trás, enquanto falava:

“Ei! Tá doido? Não te dei nenhuma liberdade pra pensar em tocar em mim, não!”

“Ué… Não deu mesmo? E aqueles sorrisos? Mesmo não parecendo brasileira, a fama de vocês as precede, minha cara…. Uma mulher como você, passeando sozinha nesse país? Só pode estar atrás de um romance. Tenha certeza de que eu posso te oferecer um que não vai esquecer…” — dando uns passos para frente e me fazendo trombar em um tronco de pinheiro.

“Como é que é?! A grande maioria das brasileiras não é put@, não, zé mané! Me larga!” — e já estava protegendo meus peitos e rosto nos meus braços e mãos, fechando os olhos e querendo que fosse apenas um “fuc@#g” pesadelo quando ouvi um estampido e, de novo, a voz de James “‘cê precisa se benzer, guria!” e a mão dele encostando no meu ombro. Abri os olhos devagar e vi John sentado no chão, com a mão no rosto e resmungando que aquilo não ia ficar daquele jeito não. James ameaçou ir na direção dele e ele levantou correndo e partiu para encontrar os outros.

“Meu, não acredito que você me salvou duas vezes, nem sei como te agradecer… Mas posso começar dizendo: Muito obrigada! Você é meu herói!” — as palavras quase não saíam, eu nunca tinha sofrido um assédio dessa magnitude, nem mesmo no Brasil! Eu quase tinha sido estuprada! E por um canadense!... Meu corpo todo tremia e, com a mão no meu ombro, James sentiu esse tremor.

“Vem cá, vem…. Vamos voltar pra van e esperar eles lá…” — dizendo isso, ele me abraçou como pôde, pois sua altura e a minha não eram compatíveis. Eu então me abaixei um pouco e o abracei mais forte, chorando copiosamente no ombro dele. Balbuciando o quanto de nojo eu tinha daquele cara…

Fiquei nessa de choro por uns 5 minutos, sequei as lágrimas na manga e percebi que ele não me olhava mais nos olhos. Tive que perguntar:

“Desculpa… Minha atitude te constrangeu, sei lá?...”

“Quê? Não! Claro que não! Vai pedir desculpas pra mim, é?! Eu fico tão puto com gente assim que começo a questionar a vida e a morte, saca? Eu estava focado em não pensar nisso, não fazer justiça e te sugerir pra ir comigo na delegacia dar queixa dele… Mas não sabia até que ponto eu podia me meter num assunto assim e, pronto, acabei falando, vai…”

“Ah… Isso poderia ser uma ideia sim… Mas acontece que eu sou só uma turista, ele mora aqui e ir até a delegacia pode ser um “tiro no pé”... Acho melhor eu voltar pra Brantford! Finalizar essas férias com alguma dignidade, sei lá…”

“Isso é o que me deixa mais puto também! ‘cê pode ‘tá certa, mas só vai saber se tentar… Não tem como a vítima fugir, deixar de realizar seus sonhos, como ‘cê mesma me disse lá atrás, por conta de tantos “senões”, não vai embora não… Eu fico contigo nessa, vai?” — e voltou a olhar nos meus olhos, com um sentimento de compaixão que eu não pude deixar de voltar a chorar e ficar muito confusa sobre o quê devia fazer!...

Antes de começarmos a descer a trilha abri minha mochila e com a água, lavei o rosto. Sorri nervoso ao ver que a bolacha que eu trouxe era da “Era do Gelo” e, pegando-a, ofereci uma para James “você quer?”; ele sorriu de lado e polidamente agradeceu: “vamos voltar, vamos?...”

Apesar de algumas lágrimas ainda cismarem em cair, coloquei a mochila nas costas e comecei o longo caminho de volta com a mente cheia de “senões”...