O vento cortava gelado conforme os dois sobrevoavam a floresta negra. A última claridade do dia se punha por trás das nuvens negras que se aproximavam. Hermione apertava os braços em volta de Victor com força, conforme o jogador fazia suas manobras radicais pelo ar. Ela achava graça.

Os cabelos castanhos da garota esvoaçavam agitados.

– Isso é incrível! — Ela gritou, sem conseguir conter o sorriso de orelha a orelha. Sentia uma paz enorme e todos os seus problemas pareciam não existir naquele momento. O vento batia em seu rosto, frio, mas ao mesmo tempo, restaurador.

– Quer dar um mergulho? — Krum gritou de volta, apontando para baixo. Estavam a uns vinte metros de altura, sobrevoando o lago negro ao lado de Hogwarts. — Segura firme.

Dito isso, o jogador inclinou sua vassoura e, em questão de segundos estavam descendo em disparada em direção ao lago. Hermione gritou alto, sentindo frio na barriga e se agarrando ainda mais ao garoto. Apertou os olhos e mergulhou o rosto em suas costas.

A um metro de distância da água do lago, Victor empinou sua vassoura para cima com agilidade. Hermione soltou outro grito.

– Você quer me matar?! — Deu uns tapas no garoto, gargalhando.

Em um grande giro, Victor voltou a sobrevoar a floresta e por fim, retornando ao campo de quadribol da escola, pousou delicadamente no gramado coberto pela neve.

Hermione saltou da vassoura, animada.

– Tudo bem, espertinho. Conseguiu me impressionar. Como você faz essas coisas? Parece tão...tão...fácil! — A garota gesticulava empolgada.

Victor sorriu de canto, caminhando até ela, segurando a vassoura em uma das mãos.

– É o que faço desde que me entendo por gente. Vivo pra isso.

Hermione sorriu.

– Você tem sorte. Faz algo que ama.

Victor assentiu com a cabeça, concordando.

– O chocolate quente ainda está de pé? — Perguntou o garoto, sem desgrudar os olhos dela.

– Por que não? — Se sentia extremamente feliz. Queria poder ficar assim para sempre.

Os dois caminharam até a porta situada na lateral do castelo. Victor acenou com a varinha e a mesma se abriu, dando passagem a uma sala pequena e extremamente bagunçada, já conhecida. O mesmo cheiro amadeirado da última vez apareceu, forte.

Krum encostou sua vassoura na parede e adiantou-se para o minúsculo fogão. Hermione caminhou até uma pequena lareira que se encontrava logo ao lado de um sofá surrado. Sentou-se no chão, logo a frente, procurando se esquentar.

A garota esfregou as mãos nos braços para se aquecer e subitamente sentiu muita dor. Levantou as mangas e então percebeu alguns cortes fundos. Não os tinha sentido até então.

– Droga! — Disse quase em um sussurro, tentando não chamar a atenção de Krum. Palpou os bolsos em busca de sua varinha e lembrou-se que havia a deixado no dormitório. Suas vestes úmidas e geladas se aderiam ainda mais aos machucados e causavam dor. Uma pequena ponta do desânimo começou a aparecer. Instântaneamente, seu rosto voltou a queimar. Levantou-se rapidamente e encarou-se no espelho. Tinha se esquecido de seu rosto manchado.

Victor a olhava de lado e percebeu a expressão de desânimo voltando a pairar na face da garota.

– Quer saber? — Apressou-se, desligando o fogo da chaleira. — Vamos esquecer o chocolate quente. Tenho algo melhor aqui. — Atravessou a sala e, diante de um armário velho posto ao lado da prateleira de troféus, pos-se a abrir algumas gavetas procurando algo. Voltou-se para Hermione com uma garrafa de vidro em uma mão e dois copos na outra. — Guardo para ocasiões especiais. — Sentou-se no chão, encostando-se no sofá, de frente para a lareira.

Hermione permaneceu em pé, olhando a cena.

– Você está me chamando para beber com você?

Victor virou-se para ela e abriu um sorriso.

– Sim.

A garota riu incrédula.

– Você se esqueceu que estamos em Hogwarts? Além do mais, você é professor. E eu sou aluna. Por sinal, uma péssima aluna. Tenho muita matéria atrasada. Preciso ir. — Disse a garota, dirigindo-se até a porta.

– Espera! — Victou levantou-se em um pulo. — Espera! — Foi até ela rapidamente e agarrou seu braço a puxando de volta.

– Ai! — Hermione urrou de dor, fazendo Victor se assustar.

– O que foi? O que eu fiz? — A soltou rapidamente, com os olhos arregalados.

A garota levantou as mangas e expôs os braços machucados.

– Foi na floresta. — Voltou o olhar para o chão, sentindo vergonha. — Enquanto eu corria. Está tudo bem.

Uma expressão séria tomou conta do rosto de Krum. Ele a fitava intensamente. Hermione levantou o olhar e intimidou-se com a tensão do rapaz.

– Já disse que est...

– Você pretende esconder as coisas de mim até quando, Hermione? — Victor a interrompeu. O modo forte e carregado de sotaque como ele pronunciou seu nome causou borboletas no estômago da garota. — Eu quero te ajudar. — Ele a encarava, sem desviar os olhos dos dela por nem um segundo.

Hermione sentia sua cabeça pesada. Nada que dissesse nesse momento seria suficiente para apagar a tensão que se instalara.

– Deixe eu cuidar disso. — Krum acenou a varinha em direção aos ferimentos, sussurrou um feitiço e, um por um, os machucados começaram a se fechar.

– Obrigada. Esqueci minha varinha no dormitório. — Hermione disse em um fio de voz, incomodada com a situação. — Obrigada. — Repetiu.

O garoto voltou até a lareira e sentou-se novamente. Abriu a garrafa e despejou um pouco do líquido em cada um dos dois copos. Olhou para Hermione.

A garota olhou para Krum, e em seguida para a bebida. Com um suspiro de desaprovação, foi juntar-se a ele.

– Tudo bem. — Disse, cruzando as pernas e agarrando o copo. — Só esse. — Bebericou o líquido e o largou de volta no chão, fazendo uma careta. — Por Merlin Victor! Isso é muito forte!

Victor riu e virou sua bebida em um só gole. Hermione o observava, perplexa.

– É assim que se bebe hidromel. Não é para ficar dando pequenos golinhos.

– Victor, eu nem sei beber. Eu quase nunca bebo. Não posso fazer isso, tenho aula amanhã cedo.

– Só esse copo, Hermione! — O garoto tinha um sorriso no canto da boca. Ela se sentia vidrada sempre que ele sorria desse jeito. — Não vou te embebedar. — Deu uma risada, se divertindo com as expressões da garota.

– Tudo bem, você venceu. — Hermione pegou o copo novamente e tampou o nariz com a outra mão. Feito isso, tomou o líquido em uma golada.

Victor a observava, animado.

Hermione sentiu ondas de calor pelo corpo todo, sua pele se arrepiou. Seu rosto parou de arder, a medida que suas bochechas iam ficando muito vermelhas.

– Você está bem? — Victor ria, analisando-a.

– Sim. Estou bem. — A garota sentia-se extremamente bem. Olhou novamente para a garrafa e para o garoto, desafiadora. Encheu os dois copos novamente.

– Uou! Essa é a Hermione que conheço? — Krum se divertia.

Hermione bebeu o líquido do segundo copo e logo em seguida, em um impulso, pegou também o copo de Victor.

– Ei, calma. Vamos com calma. — Victor retirou o terceiro copo vazio das mãos da garota e afastou a garrafa.

Hermione já não sentia mais dor. Estava anestesiada e tinha impressão que as coisas ao seu redor estavam girando um pouco. Encarou o grande pôster dos Abutres de Vratsa que estava no centro da parede.

– Quem é ela? — Apontou para a garota loira ao lado de Victor.

– Wilda Griffiths. Já jogou no Harpias de Holyhead e no União de Puddlemere. Ficou desaparecida durante uma semana após um jogo contra os Vagamundos de Wigtown. A encontraram desacordada perto da casa de Guga Jones. Ele foi julgado.

– Ela é bonita.

– Sim, é. — Victor encheu seu copo novamente.

Hermione sentiu uma pontada de ciúmes.

– Vocês já...hum... — Ela o encarou, seu olhar estava fora de foco.

– Ela tem namorado.

– Não foi isso que eu perguntei. — Hermione puxou a garrafa e tomou dois longos goles no próprio gargalo.

Victor a observou preocupado.

– Aposto que ela ja tentou alguma coisa com você. Preciso ir. — Levantou-se rapidamente e logo sua visão escureceu. Deu um passo em falso e caiu com tudo no sofá.

Victor deu um pulo em direção a garota e a segurou com força.

– Você está bem?

– Uhum. — Hermione soltou uma gargalhada. — Estou tonta. Você acredita?

Victor sentou ao seu lado e lhe lançou um olhar preocupado.

– Pare de me olhar assim. — Hermione ria muito.

– Estou começando a me arrepender.

– Isso aqui... — Apontou para a garrafa de hidromel — ...foi a melhor coisa que me aconteceu em tempos! Olha pra mim... — Levantou-se, muito tonta.

Krum levantou-se junto, tentando segura-la.

– Olha pra mim Victor! — A garota segurou o rosto dele com as duas mãos. — Olha pra mim! Não estou sentindo dor! Não sinto vontade de chorar...E sabe de uma coisa? — Disse, aproximando-se mais do rosto de Krum.

Victor fitava-a, mudo. Seus rostos estavam a poucos centímetros de distância e ele podia sentir seu hálito impregnado de álcool.

Hermione encostou a ponta de seu nariz no nariz de Victor.

– Nem parece que eu vou morrer. — Sussurrou, fitando-o. Em seguida abriu um largo sorriso e deu uma volta para trás, dançando sozinha e deixando um Victor completamente sem ação ao seu lado.

Aquelas palavras atingiram seu peito num golpe violento e sua visão ficou turva por uns instantes. Assim que se recuperou, Victor agarrou a garota pela cintura e pegou-a no colo.

– Vamos. Você vai dormir aqui hoje. Não tem como voltar assim para o dormitório. Amanhã você volta antes de todas acordarem.

– Tudo bem. — Hermione passou os braços em volta do pescoço de Victor e estampou um sorriso bobo no rosto. Seu olhar estava longe.

Victor entrou no quarto com a garota em seus braços e a deixou, com cuidado, em sua cama. Dirigiu-se ao seu guarda roupas e tirou de lá uma camiseta limpa.

– Vista isso. Sua roupa está molhada, vai ficar doente. — Sentiu as palavras soarem estranhas. "Vai ficar doente". — Entregou a camiseta para a garota e virou-se em direção a porta, constrangido. — Vou ficar aqui fora. Se precisar, me chame. — Chegando à porta, virou-se num impulso. — Tem certeza que est...

Hermione havia se despido, estava apenas de lingerie. Suas roupas estavam jogadas no chão e ela, em pé, mas de olhos fechados e bêbada, vestindo a camiseta larga e masculina. Victor engoliu em seco. Seus olhos passearam por todo o corpo da garota, vendo-a se deitar e cair em um sono profundo e urgente.

Sentia que suas pernas haviam congelado e por alguns instantes não lembrava como se andava. Respirou fundo, acordando do transe e dirigiu-se até a garota. Puxou a coberta por cima de seu corpo e permaneceu por mais alguns minutos observando-a.

Reparou na corrente que ela carregava em seu pescoço, o pingente tinha o formato de um amasso. Abriu o fecho e a colocou no criado mudo ao lado da cama. Inclinou-se e beijou-a, demoradamente, na testa. Sua respiração estava tranquila.

Levantou-se, agitou a varinha para apagar a luz e fechou a porta, saindo do quarto. Teria uma das melhores noites de sono de sua vida, mesmo que dormindo no sofá.

Notas finais
MUITO obrigada aos leitores que comentam. Mesmo que seja para fazer uma crítica ruim, é válido. Para quem escreve, o que motiva são os comentários! Preciso muito deles para saber se continuo e o que posso fazer para melhorar. Obrigada!