Meu anjo não tem asas - Uma garota terminal
12 Capítulo Doze

Alguma coisa bem longe fazia barulho. Parecia ficar mais alto a cada instante e consequentemente, mais incômodo. Hermione puxou a coberta pesada para cima e cobriu-se até a cabeça, se encolhendo ainda mais no colchão quente. O barulho continuava, como se algo batesse em uma superfície de vidro. E a cada momento mais próximo.
Estava com um sono fora do normal e levantar parecia extremamente difícil. Ainda de olhos fechados a garota estendeu o braço para alcançar a varinha no criado mudo ao lado de sua cama e bateu a mão em um abajur que não deveria estar ali. Desde quando ele ficava daquele lado da cama?
Hermione abriu os olhos em um ímpeto e se sentou na velocidade de um raio. Percebeu que não estava em seu dormitório. Congelou seu olhar em um ponto do quarto, sem coragem de se virar para ver se Victor estava deitado ao seu lado. Não era possível que tinha deixado aquilo acontecer. Só podia estar ficando louca. Engoliu em seco e respirou fundo, girando seu pescoço lentamente para o outro lado da cama de casal. Estava sozinha.
Rapidamente saiu debaixo da coberta e se assustou mais uma vez, percebendo estar apenas de calcinha e camiseta. Por Merlin, estava completamente pirada. Ouviu uma porta se fechar fora do quarto.
Juntou suas roupas que estavam jogadas de qualquer modo no chão e vestiu-as, com pressa, sentindo-se cada vez mais constrangida. Uma dorzinha chata latejava bem ao fundo dentro de sua cabeça, mas no geral sentia-se bem disposta, comparando-se ao estado em que vinha acordando nas últimas manhãs. O barulho de vidro voltou a chamar sua atenção. Vinha da janela, onde se encontrava uma bela coruja parda a encarando impaciente com seus olhos brilhantes de bolas de gude.
Hermione dirigiu-se até a mesma e abriu a janela, enquanto reparava no envelope branco já conhecido, preso entre as garras da ave. Um arrepio familiar percorreu seu corpo. Pegou o envelope, fez um agrado nas asas macias da coruja e observou-a se distanciar e sumir no nevoeiro, antes de abrir o papel em que o emblema de um osso e uma varinha cruzados estavam estampados.
“Prezada Hermione Granger,
Primeira consulta há 16 (dezesseis) dias. Portadora de magia negra tipo 3 (três).
Estamos contatando-a para registro e lembrete sobre sua sessão terapêutica agendada para as 14 horas de hoje.
O Hospital Saint Mungus, honrando o nome de Mungo Bonham, nosso fundador, tem como lema o total bem estar do seus visitantes. Dessa forma, todos que por aqui passam são submetidos à constante controle por nossos profissionais.
Tenha uma excelente tarde.
Diretoria Geral”
Hermione dobrou o papel novamente e o guardou no bolso das vestes. Tinha se esquecido completamente do compromisso semanal. Deu mais uma olhada pela janela, procurando o grande relógio da torre de Hogwarts, o qual indicava, todo embaçado pelo nevoeiro, que sua aula começaria em aproximadamente uma hora. Estava com medo de pensar se encontraria alguém pelos corredores e não saberia o que dizer. Por quê não havia dormido em seu quarto essa noite? Onde estava? Aquilo era algo gravíssimo, jamais se perdoaria se algo a comprometesse. Realmente devia estar louca por deixar as coisas chegarem nesse nível.
Apressou-se para a porta e uma lembrança veio à sua mente: Gerard, o garotinho que encontrara no hospital. Será que o veria hoje novamente? Lembrou-se de seu fanatismo por Krum. Logo uma ideia lhe surgiu: faria uma surpresa para o pequeno. Levaria um presente de Victor para ele. Estava na "casa" do búlgaro e com certeza deveria ter por alí algum objeto do qual ele não se importaria em se desfazer.
Abriu a porta do quarto e saiu na sala de estar, que estava vazia. Um lençol bagunçado estava sob o sofá, indicando que alguém havia dormido ali. No chão, ao lado, a garrafa de hidromel vazia. Krum havia dado conta dela sozinho.
Hermione percebeu a chaleira ligada e correu até a mesma para retira-la do pequeno fogão. Logo ao lado um pequeno papel com letras masculinas e bagunçadas chamou sua atenção. Aproximou-se mais e o leu.
"Bom dia. Espero que o chocolate ainda esteja quente quando acordar. Nos vemos mais tarde.
Ps: Não te acordei pois ouvi baruleo no quarto. Acho que já deve ter levantado."
Pegou-se sorrindo de lado enquanto relia o bilhete algumas dezenas de vezes, achando extremamente fofo o jeito como o búlgaro havia errado a escrita da palavra. Quando percebeu, desfez o sorriso imediatamente e se condenou novamente por aquilo estar acontecendo. Krum tinha tido a intenção de preparar um café da manhã para ela? Quis impressiona-la? Serviu-se de uma xícara de chocolate e sentiu o delicioso vapor cheiroso entrando por suas narinas. Estava sendo boba. Com certeza ele, vendo todo seu descontrole emocional no dia anterior, sentiu pena e quis agrada-la. Não havia mais nada além disso.
Tomou um grande gole do chocolate enquanto olhava em volta, procurando algo que poderia levar para Gerard. De qualquer forma, o que acontecera ali na noite anterior não poderia se repetir jamais. Precisava usar seu tempo para se concentrar nos seus estudos, que por sinal estavam extremamente atrasados, desde que todo aquele furacão de emoções vinha a atingindo.
Visualizou uma miniatura de vassoura caída no chão, embaixo da mesa de jantar. Abaixou-se e alcançou a pequena versão de Comet 180, empoeirada, que cabia na palma de sua mão. Com certeza Victor não sentiria falta daquilo. Depois ela o avisaria. Guardou-a em seu bolso, desligou a chama do fogão e saiu para o gelado gramado do castelo cruzando os dedos para não dar de cara com algum professor.
Andava a passos largos e rápidos enquanto focava seu olhar no chão, em direção à sala comunal da Grifinória. Homenzinhos gorduchos e atarracados a observavam desconfiados de dentro dos quadros dos corredores, conforme a garota ia se adiantando, esbaforida, como se fugisse de alguém. Quase virando a última esquina para se encontrar com a famosa Mulher Gorda, ouviu passos. Em poucos segundos, os oclinhos de meia-lua de Dumbledore já se posicionavam de frente para a garota, que parecia sentir o coração fora do peito.
– Oh. — Dumbledore mostrou-se surpreso com a presença da menina. — Bom dia Srta. Granger. — Observou-a por cima dos óculos.
– Bom dia Professor. — Hermione sorriu de modo exagerado, tentando, sem sucesso, demonstrar espontaneidade.
– Percebo que supostamente, a senhorita encontrou um passarinho verde nesta gelada manhã. — Dumbledore esboçou um sorriso, passou pela garota e voltou a caminhar pelo corredor, chegando até uma das escadas, que imediatamente pôs a se mover para outra direção do castelo.
– Erm...é.... — Hermione ajustou o sorriso, enquanto sentia seu rosto ferver. Olhou uma última vez para o diretor e pôde jurar que o viu lançar uma piscadela em sua direção. Prendeu a respiração, totalmente confusa, e adentrou a sala comunal após acordar uma Mulher Gorda muito mal-humorada para dizer a senha.
Correu para seu dormitório, abriu a porta com todo o cuidado e conferiu suas colegas de quarto. Todas pareciam ainda estar dormindo. Suspirou aliviada. Sentou-se na cama e tirou da gaveta do criado mudo ao lado um espelho de mão. Observou seu rosto e percebeu as manchas mais suaves. Pareciam ter diminuído um pouco de intensidade. Guardou o espelho e retirou da mesma gaveta o frasco com sua poção diária. Tomou alguns pequenos goles enquanto percebia uma movimentação por entre as frestas da cortina da janela mais próxima. Tirou os sapatos e caminhou silenciosamente até ela, afastando um pouco a grossa cortina dourada e vermelha. Perto dali, Victor pairava na altura da janela, sob sua vassoura, sorrindo. Em sua mão, carregava a corrente que a garota havia esquecido em seu quarto.
–
Hermione tentava concentrar-se em seu almoço, pois entre vários dias esse era o primeiro em que seu apetite estava presente. Mas estava muito inquieta. Não conseguira se concentrar direito nas aulas durante a manhã. Naquele momento, se esforçava para não dirigir o olhar para as mesa dos professores, em vão, pois sem querer voltava os olhos, a procura de um certo alguém. Krum parecia tranquilo, engatado em uma conversa com Hagrid, professor de Trato das Criaturas Mágicas, e aquilo a fazia se sentir incomodada. Estava parecendo uma garotinha boba. Precisava cortar relações com o búlgaro imediatamente, pois estava fugindo de seu próprio controle.
– Quero explicações. E detalhes. Todos os detalhes. — Gina chegou ofegante, jogando seus livros surrados no banco ao lado e sentando-se junto de Hermione, para o almoço, no Grande Salão.
Hermione olhou para a ruiva, fingindo não entender do que estava falando. Mordeu o seu bolinho de abóbora enquanto lançava um olhar teatral de confusão para a amiga.
– Me poupe, Mione. Sem delongas. Você estava com Victor ontem a noite, não?
– Shhh! — Hermione fez sinal para ela, tentando não chamar a atenção de nenhum de seus outros amigos, que conversavam logo ao lado. — Estava. Mas eu disse à eles que estava na biblioteca estudando.
Gina soltou um gritinho histérico que fez alguns quintanistas voltarem os olhares, curiosos. Hermione cerrou os olhos, desaprovando-a. Gina se aproximou ainda mais da amiga.
– Como foi? O que vocês...fizeram?
– Por favor, Ginny. Nada demais.
– Nada demais, Mione? — Gina a encarava. — Vai me dizer que ele ficou te ensinando técnicas de vôo? Como montar na vassoura? — A garota soltou uma gargalhada.
Hermione corou fervosamente e riu, com vergonha, dando um tapa de leve nas costas da amiga.
– Não tenho tempo pra essas coisas. — Hermione levantou-se, colocando o último pedaço de bolinho na boca. — Agora, se me permite, preciso ir até o escritório de Dumbledore. Vou usar a lareira dele para ir para a o St. Mungus. Não posso me atrasar.
– Quer companhia?
– Não. Estou bem. Vou levar alguns livros para passar mais rápido o tempo e adiantar minhas matérias. Não se preocupe.
Gina assentiu com a cabeça.
– Mione, você tem tido notícias do meu irmão? Estamos preocupados. Mamãe está para pirar.
– Recebi uma carta deles. -Hermione falou em tom muito baixo. — Harry disse que estão bem. Estavam pensando em ir para Falmouth hoje. Respondi dizendo que achava uma boa ideia. É perto de Godric's Hollow, é um lugar muito óbvio para se encontrar alguma horcrux. — Olhava em volta, notando se havia alguém escutando.
– Me avise se voltarem a dar notícias.
Hermione concordou e virou-se para a porta do Grande Salão, após dar uma última olhada em Victor.
Dirigiu-se até o sétimo andar do castelo, tentando manter-se positiva quanto às suas sessões hospitalares. Apertava sua varinha e a miniatura de vassoura dentro dos bolsos, em uma tentativa de dissipar o nervosismo. Chegou até uma grande gárgula de pedra e parou na sua frente.
– Torrão de barata.
Assim que a gárgula começou a girar ao redor de seu eixo, a garota subiu em seu primeiro degrau e esperou que a mesma a levasse até a sala do diretor da escola. Guardava inúmeras lembranças daquele lugar. Desde que havia iniciado os estudos em Hogwarts, ela, junto de Harry e Ronald, tinham se visto naquela grande sala circular um bocado de vezes.
A gárgula parou em um tranco, girando-se para uma abertura na parede, que mostrava a entrada para a sala de Alvo Dumbledore. Hermione adentrou o recinto, que cheirava a mofo, e olhou em volta, a procura do diretor. Parecia estar sozinha. De cima da grande mesa dourada, Fawkes, a Fênix, soltou um alto pio, dando boas vindas à garota.
Era algo típico de Dumbledore. Quis deixa-la a sós. Ele sabia que Hermione estaria com um misto de sentimentos difícil de serem compartilhados momentos antes de sua primeira sessão contra a maldição que estava presa em seu corpo. Ninguém sabia quanto tempo ela teria que subir ali naquela mesma sala e usar aquela lareira para se dirigir ao hospital.
Hermione sentiu-se agradecida por estar a sós e rumou em direção à lareira. Um pequeno pote de cerâmica cheio de um pó cinza estava pendurado por um gancho na parede de tijolos velhos.
A garota fez uma concha com a mão direita e colheu um pouco do pó. Feito isso, posicionou-se dentro da grande lareira, fechou os olhos e tentou se concentrar.
– Hospital Saint Mungus. — Disse de forma clara e em voz alta, enquanto jogava o pó em seus próprios pés.
O fogo verde a rodeava, mas não transmitia calor. Pelo contrário, ela sentia frio e tinha a sensação de estar perdida no limbo, em algum lugar do universo, enquanto via inúmeras figuras e lugares de forma indeterminável girarem ao seu redor. Após alguns segundos, Hermione despencou no chão de uma sala desconhecida, enganchando as vestes nas ferpas do assoalho de madeira. Levantou-se com dificuldade e olhou em volta. A sala cheirava a poções, e havia muita fumaça vinda de alguns pequenos caldeirões do outro lado do cômodo. Na parede, algumas fotos antigas de um prédio muito antigo. Umas dez pessoas, todas vestidas de branco, se dispunham uma ao lado da outra, muito sérias, em frente à construção.
– Estava te aguardando, Srta. Granger. Seja bem vinda. — Uma voz conhecida veio de trás. Hermione virou-se e se deparou com Miriam Strout, a curandeira que estava acompanhando seu caso. A mulher robusta sorria calorosamente. — Vamos começar? — Saiu novamente pela porta, carregando sua pasta carmim com as iniciais escritas em letras garrafais: H. J. G.
Hermione seguiu-a em silêncio pelos corredores do hospital. Finalmente, entraram em uma enfermaria que a garota reconheceu como sendo a que tinha passado recentemente, quando se sentira mal da última vez. Analisou as camas de ferro dispostas paralelamente até o final da enorme enfermaria e encontrou a que Gerard deveria estar. Caminhou até ela, com pressa, animada para ver o garotinho. A cama estava vazia. Lembrava-se de ter ouvido as enfermeiras comentarem que o pequeno praticamente morava ali e ha meses não voltava para casa. Será que havia sido curado? Uma chama de esperança acendeu em seu coração.
Ainda haviam pôsteres de quadribol colados na parede ao lado do leito de Gerard. Krum estampava um deles.
Adiantou-se para a prateleira ao lado, onde colocou a vassourinha que havia trazido. Ela podia imaginar a felicidade do menino ao descobrir que pertencia à Krum.
– Srta. Granger? — Sprout estava parada ao pé da cama, observando-a.
– Queria entregar um presente que trouxe para Gerard. Ele foi para casa? — Hermione sorriu, indicando a cama vazia.
– Não. — A mulher parecia sem ação. Olhou para a vassoura na prateleira e de volta para Hermione, com a boca entreaberta.
– Então logo ele está voltando, deixe que eu entrego pessoalmente. — Hermione guardou de volta o presente e voltou-se para o seu leito.
– Srta. Granger?
– Sim? — Hermione sentou-se em sua cama, olhando desconfiada para as inúmeras varinhas que já estavam dispostas em sua direção, como se estivessem penduradas no teto.
– Infelizmente Gerard não voltará. — Observou que Hermione continuava vidrada nas varinhas logo acima dela.
Miriam Strout observava a garota, com preocupação.
– Nós o perdemos... — Continuou ela. — ...nesta madrugada.
Hermione sentiu um soco no estômago. Gerard havia morrido. Em alguns meses, ou quem sabe, dias, poderia ser ela. Ela frequentaria tanto aquele lugar gelado que também começaria a trazer suas coisas para enfeita-lo. Seria seu segundo quarto. Teria uma estante para seus livros. Assim como Gerard tinha, uma estante para seus brinquedos e pôsteres de seus times preferidos ao seu redor. Quando morresse eles ficariam lá. Assim como os jogadores preferidos de Gerard, grudados ali, sem qualquer fundamento. Apenas por dó. Por respeito.
Seus olhos se encheram de lágrimas pesadas e extremamente doloridas.
– Comece logo, por favor. — Hermione deitou-se bruscamente na cama e encarou os pontos de luz que pairavam sobre toda a extensão de seu corpo, com raiva.
Miriam Strout acenou sua varinha para as luzes e estas começaram a se aproximar cada vez mais da garota, lançando seus feixes incandescentes para dentro de sua pele.
Hermione tirou do bolso a vassoura e a jogou longe, com raiva. Um mar de lágrimas encharcava seu rosto. Strout, em silêncio, observava a garota tentar alcançar as varinhas e dar socos no ar, ralhando e tentando as tirar de perto. Chorava com o peito aberto e o coração dilacerado.
A curandeira percebeu um papel amassado caído ao lado da cama de Hermione, abaixou-se para pega-lo e o entregou a garota, antes de se distanciar.
Hermione segurou o papel nas mãos trêmulas e tentou enxergar em meio às lágrimas. Era a carta que Harry havia enviado que tinha caído de seu bolso. Permaneceu encarando a caligrafia do amigo por alguns minutos, quando reparou em algo que não havia percebido no rodapé do pergaminho. Aproximou mais a carta do rosto, enxugando os olhos com o dorso das mãos. Eram letras minúsculas e quase intraduzíveis. Puxou sua varinha do bolso e apontou para o papel, balbuciando um feitiço de deciframento. Uma por uma, as letras foram se embaralhando e se endireitando, até formarem uma frase.
"CUIDADO. PERIGO. ESTAMOS PRESOS EM GODRIC'S HOLLOW. ESTÃO ATRÁS DE VOCÊ."
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