Meu anjo não tem asas - Uma garota terminal
11 Capítulo Onze

O vento cortava gelado conforme os dois sobrevoavam a floresta negra. A última claridade do dia se punha por trás das nuvens negras que se aproximavam. Hermione apertava os braços em volta de Victor com força, conforme o jogador fazia suas manobras radicais pelo ar. Ela achava graça.
Os cabelos castanhos da garota esvoaçavam agitados.
– Isso é incrível! — Ela gritou, sem conseguir conter o sorriso de orelha a orelha. Sentia uma paz enorme e todos os seus problemas pareciam não existir naquele momento. O vento batia em seu rosto, frio, mas ao mesmo tempo, restaurador.
– Quer dar um mergulho? — Krum gritou de volta, apontando para baixo. Estavam a uns vinte metros de altura, sobrevoando o lago negro ao lado de Hogwarts. — Segura firme.
Dito isso, o jogador inclinou sua vassoura e, em questão de segundos estavam descendo em disparada em direção ao lago. Hermione gritou alto, sentindo frio na barriga e se agarrando ainda mais ao garoto. Apertou os olhos e mergulhou o rosto em suas costas.
A um metro de distância da água do lago, Victor empinou sua vassoura para cima com agilidade. Hermione soltou outro grito.
– Você quer me matar?! — Deu uns tapas no garoto, gargalhando.
Em um grande giro, Victor voltou a sobrevoar a floresta e por fim, retornando ao campo de quadribol da escola, pousou delicadamente no gramado coberto pela neve.
Hermione saltou da vassoura, animada.
– Tudo bem, espertinho. Conseguiu me impressionar. Como você faz essas coisas? Parece tão...tão...fácil! — A garota gesticulava empolgada.
Victor sorriu de canto, caminhando até ela, segurando a vassoura em uma das mãos.
– É o que faço desde que me entendo por gente. Vivo pra isso.
Hermione sorriu.
– Você tem sorte. Faz algo que ama.
Victor assentiu com a cabeça, concordando.
– O chocolate quente ainda está de pé? — Perguntou o garoto, sem desgrudar os olhos dela.
– Por que não? — Se sentia extremamente feliz. Queria poder ficar assim para sempre.
Os dois caminharam até a porta situada na lateral do castelo. Victor acenou com a varinha e a mesma se abriu, dando passagem a uma sala pequena e extremamente bagunçada, já conhecida. O mesmo cheiro amadeirado da última vez apareceu, forte.
Krum encostou sua vassoura na parede e adiantou-se para o minúsculo fogão. Hermione caminhou até uma pequena lareira que se encontrava logo ao lado de um sofá surrado. Sentou-se no chão, logo a frente, procurando se esquentar.
A garota esfregou as mãos nos braços para se aquecer e subitamente sentiu muita dor. Levantou as mangas e então percebeu alguns cortes fundos. Não os tinha sentido até então.
– Droga! — Disse quase em um sussurro, tentando não chamar a atenção de Krum. Palpou os bolsos em busca de sua varinha e lembrou-se que havia a deixado no dormitório. Suas vestes úmidas e geladas se aderiam ainda mais aos machucados e causavam dor. Uma pequena ponta do desânimo começou a aparecer. Instântaneamente, seu rosto voltou a queimar. Levantou-se rapidamente e encarou-se no espelho. Tinha se esquecido de seu rosto manchado.
Victor a olhava de lado e percebeu a expressão de desânimo voltando a pairar na face da garota.
– Quer saber? — Apressou-se, desligando o fogo da chaleira. — Vamos esquecer o chocolate quente. Tenho algo melhor aqui. — Atravessou a sala e, diante de um armário velho posto ao lado da prateleira de troféus, pos-se a abrir algumas gavetas procurando algo. Voltou-se para Hermione com uma garrafa de vidro em uma mão e dois copos na outra. — Guardo para ocasiões especiais. — Sentou-se no chão, encostando-se no sofá, de frente para a lareira.
Hermione permaneceu em pé, olhando a cena.
– Você está me chamando para beber com você?
Victor virou-se para ela e abriu um sorriso.
– Sim.
A garota riu incrédula.
– Você se esqueceu que estamos em Hogwarts? Além do mais, você é professor. E eu sou aluna. Por sinal, uma péssima aluna. Tenho muita matéria atrasada. Preciso ir. — Disse a garota, dirigindo-se até a porta.
– Espera! — Victou levantou-se em um pulo. — Espera! — Foi até ela rapidamente e agarrou seu braço a puxando de volta.
– Ai! — Hermione urrou de dor, fazendo Victor se assustar.
– O que foi? O que eu fiz? — A soltou rapidamente, com os olhos arregalados.
A garota levantou as mangas e expôs os braços machucados.
– Foi na floresta. — Voltou o olhar para o chão, sentindo vergonha. — Enquanto eu corria. Está tudo bem.
Uma expressão séria tomou conta do rosto de Krum. Ele a fitava intensamente. Hermione levantou o olhar e intimidou-se com a tensão do rapaz.
– Já disse que est...
– Você pretende esconder as coisas de mim até quando, Hermione? — Victor a interrompeu. O modo forte e carregado de sotaque como ele pronunciou seu nome causou borboletas no estômago da garota. — Eu quero te ajudar. — Ele a encarava, sem desviar os olhos dos dela por nem um segundo.
Hermione sentia sua cabeça pesada. Nada que dissesse nesse momento seria suficiente para apagar a tensão que se instalara.
– Deixe eu cuidar disso. — Krum acenou a varinha em direção aos ferimentos, sussurrou um feitiço e, um por um, os machucados começaram a se fechar.
– Obrigada. Esqueci minha varinha no dormitório. — Hermione disse em um fio de voz, incomodada com a situação. — Obrigada. — Repetiu.
O garoto voltou até a lareira e sentou-se novamente. Abriu a garrafa e despejou um pouco do líquido em cada um dos dois copos. Olhou para Hermione.
A garota olhou para Krum, e em seguida para a bebida. Com um suspiro de desaprovação, foi juntar-se a ele.
– Tudo bem. — Disse, cruzando as pernas e agarrando o copo. — Só esse. — Bebericou o líquido e o largou de volta no chão, fazendo uma careta. — Por Merlin Victor! Isso é muito forte!
Victor riu e virou sua bebida em um só gole. Hermione o observava, perplexa.
– É assim que se bebe hidromel. Não é para ficar dando pequenos golinhos.
– Victor, eu nem sei beber. Eu quase nunca bebo. Não posso fazer isso, tenho aula amanhã cedo.
– Só esse copo, Hermione! — O garoto tinha um sorriso no canto da boca. Ela se sentia vidrada sempre que ele sorria desse jeito. — Não vou te embebedar. — Deu uma risada, se divertindo com as expressões da garota.
– Tudo bem, você venceu. — Hermione pegou o copo novamente e tampou o nariz com a outra mão. Feito isso, tomou o líquido em uma golada.
Victor a observava, animado.
Hermione sentiu ondas de calor pelo corpo todo, sua pele se arrepiou. Seu rosto parou de arder, a medida que suas bochechas iam ficando muito vermelhas.
– Você está bem? — Victor ria, analisando-a.
– Sim. Estou bem. — A garota sentia-se extremamente bem. Olhou novamente para a garrafa e para o garoto, desafiadora. Encheu os dois copos novamente.
– Uou! Essa é a Hermione que conheço? — Krum se divertia.
Hermione bebeu o líquido do segundo copo e logo em seguida, em um impulso, pegou também o copo de Victor.
– Ei, calma. Vamos com calma. — Victor retirou o terceiro copo vazio das mãos da garota e afastou a garrafa.
Hermione já não sentia mais dor. Estava anestesiada e tinha impressão que as coisas ao seu redor estavam girando um pouco. Encarou o grande pôster dos Abutres de Vratsa que estava no centro da parede.
– Quem é ela? — Apontou para a garota loira ao lado de Victor.
– Wilda Griffiths. Já jogou no Harpias de Holyhead e no União de Puddlemere. Ficou desaparecida durante uma semana após um jogo contra os Vagamundos de Wigtown. A encontraram desacordada perto da casa de Guga Jones. Ele foi julgado.
– Ela é bonita.
– Sim, é. — Victor encheu seu copo novamente.
Hermione sentiu uma pontada de ciúmes.
– Vocês já...hum... — Ela o encarou, seu olhar estava fora de foco.
– Ela tem namorado.
– Não foi isso que eu perguntei. — Hermione puxou a garrafa e tomou dois longos goles no próprio gargalo.
Victor a observou preocupado.
– Aposto que ela ja tentou alguma coisa com você. Preciso ir. — Levantou-se rapidamente e logo sua visão escureceu. Deu um passo em falso e caiu com tudo no sofá.
Victor deu um pulo em direção a garota e a segurou com força.
– Você está bem?
– Uhum. — Hermione soltou uma gargalhada. — Estou tonta. Você acredita?
Victor sentou ao seu lado e lhe lançou um olhar preocupado.
– Pare de me olhar assim. — Hermione ria muito.
– Estou começando a me arrepender.
– Isso aqui... — Apontou para a garrafa de hidromel — ...foi a melhor coisa que me aconteceu em tempos! Olha pra mim... — Levantou-se, muito tonta.
Krum levantou-se junto, tentando segura-la.
– Olha pra mim Victor! — A garota segurou o rosto dele com as duas mãos. — Olha pra mim! Não estou sentindo dor! Não sinto vontade de chorar...E sabe de uma coisa? — Disse, aproximando-se mais do rosto de Krum.
Victor fitava-a, mudo. Seus rostos estavam a poucos centímetros de distância e ele podia sentir seu hálito impregnado de álcool.
Hermione encostou a ponta de seu nariz no nariz de Victor.
– Nem parece que eu vou morrer. — Sussurrou, fitando-o. Em seguida abriu um largo sorriso e deu uma volta para trás, dançando sozinha e deixando um Victor completamente sem ação ao seu lado.
Aquelas palavras atingiram seu peito num golpe violento e sua visão ficou turva por uns instantes. Assim que se recuperou, Victor agarrou a garota pela cintura e pegou-a no colo.
– Vamos. Você vai dormir aqui hoje. Não tem como voltar assim para o dormitório. Amanhã você volta antes de todas acordarem.
– Tudo bem. — Hermione passou os braços em volta do pescoço de Victor e estampou um sorriso bobo no rosto. Seu olhar estava longe.
Victor entrou no quarto com a garota em seus braços e a deixou, com cuidado, em sua cama. Dirigiu-se ao seu guarda roupas e tirou de lá uma camiseta limpa.
– Vista isso. Sua roupa está molhada, vai ficar doente. — Sentiu as palavras soarem estranhas. "Vai ficar doente". — Entregou a camiseta para a garota e virou-se em direção a porta, constrangido. — Vou ficar aqui fora. Se precisar, me chame. — Chegando à porta, virou-se num impulso. — Tem certeza que est...
Hermione havia se despido, estava apenas de lingerie. Suas roupas estavam jogadas no chão e ela, em pé, mas de olhos fechados e bêbada, vestindo a camiseta larga e masculina. Victor engoliu em seco. Seus olhos passearam por todo o corpo da garota, vendo-a se deitar e cair em um sono profundo e urgente.
Sentia que suas pernas haviam congelado e por alguns instantes não lembrava como se andava. Respirou fundo, acordando do transe e dirigiu-se até a garota. Puxou a coberta por cima de seu corpo e permaneceu por mais alguns minutos observando-a.
Reparou na corrente que ela carregava em seu pescoço, o pingente tinha o formato de um amasso. Abriu o fecho e a colocou no criado mudo ao lado da cama. Inclinou-se e beijou-a, demoradamente, na testa. Sua respiração estava tranquila.
Levantou-se, agitou a varinha para apagar a luz e fechou a porta, saindo do quarto. Teria uma das melhores noites de sono de sua vida, mesmo que dormindo no sofá.
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