Meu Querido Cupido
14 Asas são criaturas metidas
Notas iniciais
— Aquilo foi incrível, Cassie. — Colin gritava, e não conseguia tirar aquele sorriso idiota do rosto.
— Garota, desde quando você dança daquele jeito? — Bruce perguntou. Estavam todos na porta do quarto do David, e eu estava na cama, deitada de bruços, tentando não olhar para eles.
Até mesmo David estava rindo de mim. Ele também dançou comigo!
Já é o dia seguinte e eu estou com enxaqueca. Havia bastante tempo que eu não bebia e não pretendo beber novamente. Ainda não consigo me esquecer do olhar que a Hayley fez para mim quando me viu dançando com o David lá no Bar dos Cupidos. Logo agora que ela estava começando a gostar de mim.
— A garçonete está se libertando. Eu avisei, ela está desandando e a culpa é de vocês. Somos um bando de mau caminho. — Franklin falou, e depois saiu rindo. Ele é o ser mais irritante do mundo.
— Vão embora. — Murmurei, com o rosto enterrado no travesseiro.
Ouvi as risadas ficando distantes e os passos deles descendo as escadas. Me levantei da cama do David e levei um susto quando o vi ali, ainda na porta do quarto, encostado, me observando.
— O que foi? Estou tão mal assim? — Perguntei, porque provavelmente estava descabelada e ainda vestida com a roupa de ontem.
Ele negou, balançando a cabeça.
— Você está ótima, pé de valsa.
Fechei meus olhos e fiz uma expressão de dor.
— Desculpa. Eu não devia ter feito aquilo. Eu dancei pra valer, né?
— É, dançou. E eu fui usado por você. – David se desencostou da porta e se aproximou de mim. — Você me surpreendeu, Cassie. — Ele me dizia isso com um olhar indescritível. Uma mistura de mistério e... Malícia? Ele estava com um quase-sorriso no rosto.
— Eu já pedi desculpas. Só me descontrolei.
— Mas eu não falei que não gostei.
Comecei a rir.
— Chega de falar disso. Você tem alguma notícia sobre o Dean? – Mudei o assunto.
Ele demorou para responder.
— Pensei que ele estivesse mantendo contato com você.
— Você é o meu cupido, deveria saber.
— Sou o seu cupido, não o dele. Talvez ele não fosse o cara certo.
Olhei para baixo, decepcionada.
— É que... Eu estava contando com o Dean. Talvez ele fosse a solução dos nossos problemas.
— Talvez. — David se sentou na cama ao meu lado.
Olhei para ele.
— Sente falta do seu quarto? — Perguntei. Desde que eu cheguei nessa casa tenho dormido no quarto dele.
— Quer saber? Estou adorando dormir fora do meu quarto. Todo dia é uma aventura. Meu quarto se tornou qualquer parte da casa, agora. Estou dando esse aqui de presente para você.
Sorri. E naquele momento algo me veio à cabeça.
— Posso te pedir uma coisa?
— Pode. — Ele não hesitou. Me olhou e franziu a testa.
— Posso... Posso ver as suas asas?
Me preparei para levar uma bronca, mas ele somente riu e balançou a cabeça.
— Só mais uma vez! Eu fiquei curiosa depois daquele dia. Parece que você e os outros têm evitado as suas asas e eu acho isso um absurdo. Digo, elas são maravilhosas, e aquele dia você voou e me levou junto! Coisas assim a gente não esquece de um dia para o outro. Eu sei que estamos evitando essas coisas sobrenaturais por enquanto, mas eu só queri... — Não pude terminar de falar, porque David imediatamente tirou sua blusa.
Com um simples movimento ele tirou a blusa do corpo, jogou na cama e eu estufei meus olhos e fiquei sem piscar, observando a cena.
Por alguns segundos ele parecia um rapaz normal, sem camisa. Mas suas asas apareceram imediatamente, em um piscar de olhos. Aquele belo par de asas brancas. Asas gigantescas.
Não me contive e coloquei minhas duas mãos na boca. Meu coração acelerou.
Aquilo era magnífico.
Era... Inexplicável!
Elas eram grandes e exuberantes. David as levantou, e ficaram ainda maiores. Era como se tivessem vida própria. Se as asas do David tivessem vida, eu diria que elas eram criaturas metidas. Não paravam de se mexer e era como se fizessem poses para mim. Como um pavão, quando se abre inteiro para mostrar sua beleza. Asas eram, definitivamente, criaturas metidas.
Vê-las de perto era um sentimento sem igual. Eu quase chorei de emoção, então rastejei um pouquinho mais até ele com os joelhos, para ficar mais perto. Quando David as mexia, elas faziam barulhos, semelhante ao bater das asas de um pássaro.
— São incríveis. — Consegui dizer. — De verdade. Eu nunca vi nada igual. — Era como se eu tivesse um anjo em minha frente.
Fiquei imaginando como seria se todos os cupidos da casa mostrassem suas asas para mim. Seria o dia mais feliz da minha vida, um sonho realizado.
Acabo de descobrir que tenho um fascínio por asas de cupidos. São a minha verdadeira paixão.
— Eu posso tocar? — Perguntei sem medo.
— É toda sua.
Ri e estendi minhas mãos para tocá-las.
E, Deus! Como eram macias! As penas brancas eram incrivelmente macias. Acariciei as asas, passando minhas mãos de leve. Nem mesmo me dei o luxo de olhar a reação do David, mas com certeza era de prazer.
Suspirei e me contive, pronta para me afastar delas.
— Naquele dia, quando eu peguei você e o Bruce no flagra, vocês voaram, e depois disso desapareceram, literalmente ficaram invisíveis depois que bateram as asas. Como isso é possível? — Perguntei.
David abaixou as asas.
— Faz parte do nosso mundo. Tem coisas que você não entenderia. Como quando apagamos as memórias de algumas pessoas, ou quando conseguimos nos mover na velocidade da luz.
Assenti. Era tão bom saber daquilo. Naquele momento achei tão injusto os seres humanos não poderem conhecer seus cupidos. A história deles. Me senti privilegiada por não ter morrido. Tenho sorte de ter um cupido como o David, que não permitiu a minha morte.
Se eu em breve conseguir minha alma gêmea, estarei livre. E ele também.
— David? Eu sou a única garota do mundo que sabe sobre vocês? Alguém já descobriu que cupidos existem, alguma vez?
— Você é a única viva que sabe. Os cupidos estão em todos os lugares, em toda parte. Eles sabem quem está vivo e quem não está. Tem cupidos superiores, como Jason, por toda parte. São eles os encarregados de eliminar todas as pessoas que sabem sobre nós. É por isso que temo tanto por você. Não vai ser fácil continuar mantendo você em segredo.
— Alguém já morreu por ter descoberto?
— Sim. Foram poucas pessoas. Eles morreram por acabar descobrindo mais do que deviam, assim como você.
David me olhou, e por algum motivo sorriu.
— Você é minha escolhida, Cassie. E eu nunca vou permitir que uma escolhida minha seja executada por apenas saber a verdade. Nem que eu precise ir contra as regras para isso.
Naquele momento quase o abracei. David estava arriscando tudo por mim. Até mesmo a vida e a liberdade dele. Eu quase o abracei, mas não o fiz. Não éramos o tipo de “Escolhida e Cupido” que se abraçavam. Apenas sorríamos um para o outro. A cada dia que se passava, eu tinha mais certeza de que eu e David não podíamos nos aproximar muito.
David guardou as asas, fiquei triste, e nos juntamos aos três loucos que gritavam no andar de baixo.
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