Notas iniciais
Esse capítulo será narrado pelo Bruce. Vai ser bastante importante para o desenrolar e espero que prestem atenção *-*. E em breve descobriremos um pouco mais sobre os outros cupidos. Tem gente nova vindo aí. Beijos.

BRUCE

Estão todos dormindo. Por algum milagre, estão todos dormindo. Isso só me faz querer cada vez mais ir atrás dela. Já pensei na possibilidade de me trancar na droga daquele meu quarto e me prender com algemas à minha cama, somente para tentar ficar longe dela.

Aproveitei a oportunidade e desci as escadas. Franklin estava na sala, porém estava dormindo, deitado no sofá. Olhei para a garrafa vazia em cima da mesa. Provavelmente Franklin teve um dia daqueles. Deve estar tão mal quanto eu. Me aproximei dele e peguei o maço de cigarro que ele carregava no peito. Tomei sem deixar que ele acordasse.

Logo depois tentei verificar se Cassie estava acordada. Provavelmente não. Deve estar trancada no quarto do David.

Antes de sair, acendi um cigarro. Fiquei por pouco tempo com ele na boca, e logo me preparei para sair. Com passos silenciosos caminhei até a porta inicial, a abri e encarei a madrugada fria. Era esse o melhor horário para vê-la.

Saí da casa e fechei a porta. Logo depois verifiquei a rua inteira. Não havia ninguém. Nem sequer uma pessoa. Então rapidamente tirei minha blusa e abri minhas asas. Aquilo teria que ser rápido.

Com toda certeza ela deve estar onde imagino. Ela sempre está.

Então voei até ela.

Até a minha escolhida.

➴ ➵ ➶

Ela realmente está ali. Stacy está ali, exatamente como eu imaginava. Está vestida com o mesmo capuz que usou na semana passada, e está usando a touca do mesmo. Eu posso ver um cigarro em sua mão, o que é estranho, porque Stacy não costuma fumar.

Creio que ela está pensando no ex-namorado. Aquele que a traiu. Eu queria pedir desculpas à ela e dizer que não tenho culpa. Eu realmente tentei tirá-la de perto dele, mas nós cupidos não podemos fazer milagres.

Os seres humanos são criaturas teimosas. Às vezes insistem em cometer os mesmos erros o tempo todo.

Pobre Stacy. Eu queria abraçá-la nesse momento e dizer à ela que eu estou aqui e que me importo com ela. Também queria dizer para ela que ficarei a madrugada inteira aqui com ela, apenas para protegê-la. Mas tenho que manter distância, ficar invisível e me esconder atrás de muros e postes. Isso é terrível.

Minha escolhida é tão pequena e magra. Mas não é frágil. Ela é do tipo durona e eu amo isso nela. Posso observá-la a madrugada toda. Ela está revoltada, chutando qualquer pedra que vê pelo caminho, com a sua bota preta.

Vi que ela jogou o cigarro no chão e depois pisou em cima. Em seguida se sentou na calçada, ao lado de um poste, e ali ficou. Ela está tão mal quanto eu.

Se eu realmente conseguisse, eu encontraria o escolhido dela, apenas para aliviar sua dor. Mas não consigo. Não consigo nem tentar. O que sinto por ela tem aumentado cada vez mais. Não sei se eu suportaria vê-la com outro e ter que virar um humano novamente e ficar longe dela.

Acompanho Stacy há muito tempo. Há alguns anos. Me lembro dela desde quando ela era uma adolescente revoltada com tudo e com todos. E ela nunca me notou, sempre me escondi muito bem, assim como qualquer outro cupido. Mas algo dentro de mim está me dizendo para ir falar com ela. Mesmo que nossas vidas corram perigo.

Me lembrei do David e da forma que ele tem protegido a Cassie. Os dois estão encrencados pra caralho, e eu não gostaria de envolver minha escolhida em uma situação como essas.

Mas ainda assim, me transformei e escondi as minhas asas, vesti minha blusa e imitei minha escolhida, colocando uma touca. Fiquei de longe a observando, como se fosse um completo estranho. Ela continua no mesmo lugar, apenas refletindo. Eu odeio vê-la assim, e não me canso de repetir isso.

Resolvi passar perto dela. Apenas passar. Andar rapidamente. Só para saber que um dia Stacy já notou minha presença.

— Ei. — Ouvi sua voz enquanto eu ainda andava. Parei ali, no meio da calçada, perto dela.

Então me virei e observei a minha escolhida. Aquela era a primeira vez que Stacy via o meu rosto. Ela ficou me encarando por alguns segundos. Provavelmente sentiu aquele leve incômodo quando olhou para os meus olhos.

— Você tem um cigarro? — Perguntou. Não a respondi. Somente fiquei ali, bem perto. Observando Stacy sentada ao lado de um poste.

Tirei o maço de cigarro do meu bolso e joguei para ela. Eu tinha certeza que ela não terminaria nenhum deles.

— Esqueiro? — Pediu, tirando um cigarro da caixa.

Peguei meu esqueiro, estendi até ela e acendi. Ela colocou o cigarro na boca e levou até a pequena chama que brilhava entre nós dois.

Ela agradeceu com um simples sorriso, depois de tirar o cigarro da boca e soltar uma pequena quantidade de fumaça.

Aquela era a primeira vez que nos aproximávamos. A primeira em anos.

Não consegui me afastar. Fiquei ali, perto dela. Stacy pareceu não gostar e ficou me encarando.

— Não sou um maníaco. — Decidi dizer.

— Pois parece.

— Se eu fosse, te pegaria nos braços agora mesmo e levaria para longe.

Ela riu sarcasticamente.

— Quem me garante que você não vai fazer isso?

— E não está com medo? — Me aproximei.

Ela simplesmente virou de costas para mim, continuou a observar a rua e a tragar tranquilamente.

— Acho que estou em uma fase da minha vida em que não me importo se um estranho me jogar dentro de um porta-malas. Então, vá em frente. Eu sou toda sua.

Era muito ousada. Fiquei pensando que isso realmente poderia acontecer se fosse outra pessoa em meu lugar. Era mais um motivo para eu ter que vir atrás dela todas as noites.

Como eu suspeitava, Stacy não conseguiu terminar o cigarro e o jogou no chão. Eu continuei ali, parado ao lado dela. Então decidi terminar o que comecei. Fiquei ainda mais perto.

— Acha que vai ganhar algum prêmio por me dar um cigarro? — Ela se demonstrou incomodada com a minha presença.

— Talvez.

Ela riu sem vontade, outra vez.

— Estou tão cansada. — Stacy falou o que seria um desabafo. Ela precisava dizer isso a alguém. Nada melhor do que um estranho que te oferece um cigarro para desabafar. Ou então, nada melhor do que o seu cupido para te ouvir. — Eu larguei tudo o que eu tinha. Tudo.

Continuei olhando para ela.

— Eu estou sozinha. Virei a droga de uma garota que passa a madrugada fumando na rua. — Stacy me olhou e seus olhos contornados de preto estavam completamente inundados — Eu não era assim.

E eu sabia que não.

— Garotos são uns ridículos. Safados. Odeio todos. — Stacy estava nervosa. Ela sempre dizia besteiras quando estava assim. — Inclusive você deve ser um.

Naquele momento olhei para ela, levei minha mão até o seu rosto e limpei uma das lágrimas. Ela parecia assustada naquele momento.

Eu podia apagar a sua memória. Fazê-la se esquecer dessa noite ou até mesmo fazê-la se esquecer do seu ex. Mas existem certas coisas que os cupidos não podem apagar, mesmo que queiram. Não temos o poder de controlar o futuro e muito menos a vida das nossas escolhidas.

Eu a deixei sozinha naquela noite. Já estava arriscando demais quando decidi fazer contato físico com ela.

➴ ➵ ➶

Cassandra estava na cozinha, tomando café com Colin. Ela é ótima nisso, em nos transformar em uma família. Desde que veio para cá, Cassie deixou esse lugar mais interessante.

Ela é maravilhosa, e David sabe disso. Confio que ele não vai fazer nada que a coloque em perigo.

— Oi, Bruce. — Ela me viu e sorriu.

— Cassie. Como vai minha dançarina preferida? — Perguntei, enquanto eu e Colin fazíamos um toque.

— Pensei que você iria parar com isso. — Ela fingiu estar brava, e revirou os olhos.

Os outros chegaram em seguida. David e Franklin. Em um piscar de olhos estávamos todos tomando o café da manhã. Como pessoas normais. Mas a verdade é que carregávamos todos um grande fardo, e agíamos como se isso não fosse verdade.

Éramos uns fodidos.

➴ ➵ ➶

O mesmo ritual da madrugada aconteceu. Eu, Franklin, David e Colin nos reunimos na sala de estar, em volta da mesa, com nossas típicas bebidas, apenas iluminados pela luz de algumas velas em cima da mesa.

— Minha escolhida continua sendo burra. — Franklin foi o primeiro a se abrir, já alterado. — É mais burra do que uma mula. Só se apaixona por quem não presta.

— Também, ela tem um cupido idiota igual a você. Coitada. — Colin riu e Franklin revidou com um chute.

Respirei de frustração. Estava cansado disso.

— Se vocês pudessem, deixariam de ser cupidos? — Perguntei a primeira coisa séria daquela noite.

Eles ficaram em silêncio. David me olhou, era o menos chapado dali, depois de mim, é claro.

— Sei lá, cara. Não gosto de pensar sobre isso. — Colin respondeu. — Me faz lembrar de como tudo isso começou.

Assenti. Estava encostado na mesinha do centro, sentado no chão, observando a chama das velas.

— Aonde você foi ontem? — David mudou o assunto.

— Nada importante.

David assentiu, mas não acreditando no que eu dizia.

— Ele foi namorar. É um tarado. Esse daí é pior do que eu. — Franklin gritou.

— Calem a boca. A Cassie está dormindo. — David repreendeu Franklin, que olhou para o Colin e começou a rir sem parar.

David os ignorou e decidiu falar apenas comigo.

— Sei que está aprontando alguma, Bruce.

Apaguei a luz de uma das velas com um sopro e olhei para ele. Aquele meu olhar significou tudo.

— Relaxa, irmão. — Me levantei — Só relaxa. — E me retirei dali.

➴ ➵ ➶

Estive pensando, e depois de muito tempo decidi que Stacy, minha escolhida, precisa de mim. Ela está se afundando aos poucos. Decidi que vou cumprir um papel muito maior do que o de um cupido. Vou ser algo mais para ela, e farei de tudo para que ninguém descubra.

Eu vou cuidar dela, e ninguém vai tirá-la de mim. Minha escolhida, de fato, será minha.

Notas finais
Quero saber o que estão achando! Até o próximo ♥ Beijooooos.