Eu podia ser mais eu mesma, com essa minha personalidade orgulhosa, e dizer a ele que suas tentativas de me conquistar não estavam funcionando, que eram tão inúteis quanto as de John e Nicholas... Mas assim eu estaria mentindo, o que vai contra todos os meus princípios... E os princípios dele. No final percebi que eu estava realmente tentando agrada-lo.

Naquela tarde, ele me convidara para acompanhá-lo em um passeio ao parque. Sem pestanejar eu aceitei e esta foi a primeira vez que ficamos sozinhos.

- Sua boca tem a mesma cor das rosas – ele dizia divertido.

- Harry, — eu o chamava, em meio a risadas – não precisa tentar me agradar vinte e quatro horas por dia.

- Eu quero te fazer feliz vinte e quatro horas por dia, durante o resto de sua vida.

Era verdade então? Eu tinha realmente me apaixonado por Harry Kingsley?

O sol brilhava bem a cima de nossas cabeças, indicando que estávamos perto do horário do almoço. Eu não estava com fome, todas as minhas necessidades pareciam ser saciadas perto dele.

Toda vez que ele se virava pra mim com aquele sorriso sincero no rosto eu sorria de volta, porque naquele momento eu sabia que era com ele que eu queria passar o resto de minha vida.

Ele puxava minha mão apressadamente me levando até as árvores, que ficavam mais freqüentes e juntas, deixando mais sombras. Quando parou abruptamente, me pegou pela cintura me levando bem perto de si. Seus braços, pouco fortes, confesso, me seguravam com firmeza enquanto eu me perdia naquela imensidão em seus olhos.

- Helena, — ele disse num tom calmo e rouco. – E-eu...

Eu podia vê-lo corando como uma menina e, ao contrário do que imaginei, achei aquilo muito fofo.

- Eu oficialmente faria isso à noite, na presença de seus pais... – Ele continuou. – Mas eu queria lhe dizer primeiro.

Meu coração enlouqueceu. Em um minuto pareceu tão lento que quase parava e no seguinte estava pulando acelerado como se fosse arrancar de meu peito e fugir de mim pra sempre.

- Helena Ann Liddel, — Então ele largou minha cintura e se colocou num joelho só.

- Harry, você vai sujar sua calça... – Eu disse, inutilmente, numa tentativa de amenizar a ansiedade.

Mas ele nem ligou e continuou:

- Você quer se casar comigo?

O mundo não parou. As cores não ficaram mais fortes. Eu não ouvi sinos. Nada do que eu imaginava que aconteceria quando o amor de minha vida me pedisse em casamento. Só que o silêncio foi tão grande que pude ouvir as nossas respirações no mesmo ritmo e eu sentia meu coração na garganta.

- Sim, — eu disse com o meu melhor sorriso no rosto enquanto lutava pra não deixar aquela lágrima escorregar pela minha bochecha.

Ele se levantou da terra úmida e me receber no abraço que eu, entusiasmada, o dei.

- Eu te daria a aliança agora, — ele começou a explicar – mas prefiro fazer isso à noite.

- Eu não me importo com a aliança, Harry.

- Mas sua mãe sim, — ele riu. – e acredite, ela me bateria se eu não te desse uma.

Eu não pude evitar de acompanha-lo na gargalhada. Mamãe realmente o bateria se ele me pedisse em casamento sem antes ter providenciado uma aliança digna de Mrs. Annabeth Liddel.

O dia nunca passou tão devagar. Eu esperava a noite mais do que Alice esperava os finais de semana. O jantar correu tão normal, com risadas, comentários fúteis, informações alheias e tudo mais.

Depois disso, Charles insistiu que eu tocasse piano antes que chegasse a hora de Alice ir para cama. Em concordância, mamãe meio que me obrigou a tocar cinco músicas inspiradoras. Não que eu não tenha gostado, tocar pra mim sempre é glorificante, mas quando mamãe me pressionava dessa forma, eu me sentia como um pardal numa gaiola.

Quando finalmente terminei de tocar a última música e que me virei para encarar todos da sala, vi Harry abrir a boca pra começar a falar algo, mas Mr. Dogson foi mais rápido e o interrompeu:

- Bom, antes de irem eu gostaria de contar mais um capítulo de Alice no País das Maravilhas, e queria que todos escutassem este porque é... Especial.

Ele não evitou me olhar com certa diversão em seus olhos. Alice pulou no sofá entusiasmada até que papai a segurasse em seu colo.

“Uma grande roseira imperava na entrada do jardim: as rosas que nela cresciam eram brancas, mas havia três jardineiros que se ocupavam em pintá-las de vermelho. Alice achou que aquilo era uma coisa estranha e aproximou-se para ver melhor.

- Vocês poderiam dizer-me, por favor – disse Alice, um pouco timidamente, — porque estão pintando estas rosas?

Os jardineiros, que só então Alice percebeu serem cartas de baralho, não disseram nada, apenas se olharam, até que o Dois finalmente se manifestou:

- Porque, de fato, você vê, senhorita, esta deveria ser uma roseira vermelha, e nós plantamos uma roseira branca por engano, e, se a Rainha descobrir, nós todos seremos , você vê, senhorita, estamos fazendo o melhor possível antes que ela chegue para...”

Charles começou a história. Alice mal conseguia desviar seu olhar dos de Mr. Dogson. Incrivelmente minha mãe também parecia tão interessada que mal se mexia.

“Neste exato momento, o Cinco, que estivera todo o tempo olhando ansiosamente para o jardim, gritou:

- A Rainha! A Rainha!

E os três jardineiros atiraram-se instantaneamente de bruços no chão. Havia o som de muitas passadas, e Alice olhava ao redor, doida para ver a Rainha.

Em primeiro lugar chegaram dez soldados carregando clavas: eles eram todos da mesma forma que os jardineiros, retangulares e achatados, com as mãos e os pés saindo dos quatro cantos; depois vinham dez cortesãos, que eram ornamentados com diamantes e caminhavam de dois em dois, como os soldados. Depois desses vinham as crianças reais, dez delas, e as gracinhas iam saltitando alegremente de mãos dadas, em duplas também. A seguir vinham os convidados, a maior parte de reis e rainhas, e, entre estes, Alice reconheceu o Coelho Branco, falando apressadamente de um jeito nervoso, sorrindo para tudo o que era dito. Ele seguiu sem reconhecer Alice. Finalmente vinha o Valete de Copas, que carregava a coroa do Rei sobre uma almofada de veludo escarlate, antecipando o final do grande cortejo, que trazia o Rei e a Rainha de Copas.”

Imediatamente Charles olhou para mim. Lembrei do dia anterior, quando ele me contava que a grande vilã da história, a Rainha de Copas, se parecia muito comigo.

“Quando o cortejo passou por Alice, todos pararam e olharam para ela. A Rainha disse, severamente:

- Quem é isso? – dirigindo-se ao Valete de Copas, que apenas curvou-se e sorriu em resposta. — Idiota! — disse a Rainha, balançando a cabeça impacientemente, e, dirigindo-se para Alice, prosseguiu: — Qual é o seu nome, criança?

- Meu nome é Alice, às suas ordens Majestade — disse Alice bem educadamente, mas acrescentou.”

O tempo passou voando, as palavras entravam em meus ouvidos e dentro de minha cabeça dançavam com alegria. Eu me divertia tanto com as aventuras de Alice que mal me lembrava de Harry sentado ali no braço da poltrona ao lado de John.

Charles ocasionalmente fazia uma pausa para um comentário divertido que arrancava gargalhadas de Alice e quando este terminou mais um capítulo, a pequena implorou por mais, mesmo que sabendo que seria em vão.

- Charles, meu amigo – papai começou. – você deveria escrever um livro sobre Alice e esse país maravilhoso.

- Concordo, primo – Nicholas acrescentou enquanto encarava Charles – você simplesmente tem uma imaginação muito fértil e devia compartilhá-la com o mundo.

Mais cinco ou seis minutos de elogios à história de meu professor de matemática foram gastos antes que Harry pudesse finalmente se levantar, chamando a atenção de todos.

- Mr. Liddel, — ele andou até a minha direção e tomou minhas mãos no meio das suas. – Eu queria...

Aí sim minha cabeça começou a girar. Eu ouvi o riso abafado de Nicholas, enxerguei claramente os olhinhos arregalados de Alice, o meio sorriso que se formou na boca de minha mãe e o olhar inexpressivo e misteriosos de Charles.

- Eu queria pedir a mão de Helena em casamento.

- Bom, — papai, tão calmo, se levantou.

Não esperei que ele dissesse qualquer coisa. O sorriso aprovador foi o suficiente para Harry... E para mim. Como naquela manhã, ele se ajoelhou em minha frente, mas dessa vez tirou uma caixinha de veludo vermelho-vinho do bolso do fraque e o abriu bem em minha frente. Mamãe soltou um grito abafado e suspirou, deixando uma lágrima escorrer-lhe a face.

Não sei por que, mas uma vontade imensa de olhar para Charles me controlou.

- Helena Ann Liddel, — Harry disse com o sorriso mais lindo do mundo em seu rosto – quer se casar comigo?