Depois daquela noite mamãe já tinha começado a pensar em todos os detalhes de uma festa. Adam mal teve tempo de assimilar a idéia, Alice pensava que tudo não passava de uma brincadeira e eu... Bom, eu? Meu peito doía toda vez que encontrava Harry.

Porque não demorou muito para eu começar a formular planos, ter idéias, desejos e tudo que uma futura recém casada faz. Em todos os momentos meu professor de matemática estava presente, me distraindo... Era a pessoa com quem eu mais tinha contato depois de meu futuro esposo.

Charles, eu e Alice tornamos rotina sair pelo jardim da mansão enquanto ele nos distraía com mais aventuras de Alice no País das Maravilhas. Minha irmã, sempre que podia, dava palpites, mudando algumas situações da história.

- Mr. Dogson, — eu não cansava de me repetir. – Porque não escreve esta história? Algo como isso não pode esfriar em sua cabeça...

Eu tinha razão e ele sabia disso. Mas o lado matemático dele parecia querer-se manter firme, lembrando-o que era apenas um professor e que um livro infantil nunca faria sucesso. A verdade é que a história era somente para a minha irmã e mais ninguém.

Num dia qualquer, durante a soneca da tarde de Alice, Charles me convidou para um chá na varanda, mesmo eu percebendo que não era esse seu desejo. Eu sabia que tinha algo de errado com meu professor, mas fingia não perceber.

- E na primavera as árvores ficam realmente muito bonitas... – Ele tagarelava, só pra não me deixar num silêncio constrangedor.

Desde que a notícia de meu casamento se espalhara, todos os assuntos que todas as pessoas conversam comigo é sobre tal. “Quando você vai se casar?” “Você vai se mudar para Londres?” “Ele é um bom partido?” “Você está nervosa?”. Tudo se resumia em meu ilustre matrimônio. Às vezes até eu mesma me esquecia de que era uma pessoa com outros interesses e me permitia conversar só sobre o mesmo assunto.

- Mas as de seu jardim têm beleza excepcional – eu apontava enquanto virava um gole do chá doce pela garganta.

Ele deu aquele sorriso fraco dele: um que demonstrava que ele realmente estava lisonjeado com o elogio, mas que indicava que aquilo não era o suficiente. Sei disso, ele sempre sorria dessa maneira quando uma de suas alunas acertava um cálculo por acaso.

- Qual o problema, Charles? – Perguntei num tom casual.

- Oh... – Ele acordou de um transe. – Não é nada.

Ele garantiu, mas não me convenceu.

- Bom... Você vai se mudar para Londres, — ele disse em meio a um gole de sua xícara. – Não serei mais seu professor de matemática.

- Será meu primo a partir de então. – Eu comentei. – Não se preocupe, nunca o considerei meu professor de matemática mesmo.

Ele estreitou o cenho.

- Meu contador de histórias favorito, talvez. – Disse encarando o céu azul. – Um ótimo amigo com excelentes dons matemáticos, confesso... Mas ainda assim amigo.

Dessa vez o sorriso foi diferente. Foi realmente emocionado.

- Eu vou sentir sua falta, Miss Liddel.

Talvez por educação. Às vezes, mesmo quando não necessário, insistia em me chamar de Miss Liddel, esquecendo-se de meu primeiro nome. Mas talvez fosse só uma forma de indicar que, naquele momento, eu não passava de sua aluna.

Depois que Alice acordou, levei-a até a cidade para comprar livros e ir até um alfaiate. O fato era que minha irmãzinha estava crescendo tão rápido que eu mal tinha tempo para lhe contar histórias (isso era papel de Charles).

Enquanto um senhor de cabeça grisalha ia tirando suas medidas, Alice conversava comigo:

- Lena, — Seus olhinhos nunca me encarando. – Você vai mesmo para Londres?

- Oh Alice, — eu tentei não responder.

- Porque você vai me deixar aqui? Você não gosta mais de mim e de Adam?

- Alice, nunca diga isso... – Eu me abaixei para ficar na mesma altura de seus olhos. – Você e Adam são as coisas mais importantes de minha vida.

- E Mr. Dogson? Você também vai deixá-lo aqui.

E aquilo me atingiu como uma faca. Uma surpresa.

- Mr. Dogson tem a sua própria vida, meu amor... – Eu me levantei.

Ela tentou dizer qualquer coisa, mas o velhinho que tirava suas medidas lhe pediu que virasse e desvirasse para que pudesse marcar sua cintura e eu suspirei aliviada. Ouvir tais coisas de Alice nunca era fácil. Ela podia ser uma criança, ter idéias de uma criança, ter inocência de criança... Mas seus argumentos e sua interpretação eram adultas o suficiente, quase mais maduras do que eu mesma.

O alfaiate terminara de tirar as medidas de Alice, então eu a levei de volta para casa. Eu começava a compreender que esse meu casamento tinha, praticamente, dividido a minha família. Enquanto um lado se via empolgado e interessado, o outro se via completamente insatisfeito e preocupado... E se querem saber, o lado insatisfeito é o que mais me importa e tem influência sobre mim.

No dia seguinte acordei mais cedo que de costume, rezando para que Alice ainda estivesse dormindo, e fui até a casa de Charles, onde tinha a intenção de que ele me recebesse para conversarmos. Meu professor não podia me recusar, já que suas boas maneiras o impediam disso, mas tenho certeza que se ele não prezasse tanto seus valores, eu nunca teria tido essa conversa.

Ele me levou até a sala de música, que servia como uma espécie de escritório/biblioteca. Indicou-me o sofá enquanto se acomodava na poltrona azul-marinho. Sua cara de quem havia acabado de acordar e mal tivera tempo para arrumar os cabelos ou vestir uma roupa descente me deu pena...

- Mr. Dogson, desculpe-me acordá-lo tão cedo...

- Não tem problema, Helena.

- É que se eu esperasse, Alice iria querer vir comigo... E eu tinha que tratar sobre este assunto com o senhor sem a presença dela.

- Eu entendo mesmo, Helena. Sobre o que veio tratar?

- É exatamente sobre Alice. – Eu disse encarando meus sapatos. – Acha que ela ficará bem depois que eu me mudar para Londres?

- Alice é uma menina forte, e ela simplesmente tem que entender que você terá sua vida agora. – Ele disse pouco confiante.

Eu teria minha vida... Mas uma vida sem Alice?

- Não, — eu sacudi a cabeça levemente. – Quero saber se acha que ela ficará bem, se ela vai me perdoar.

- Ela não tem direito de ficar brava com você, Helena. É isso que estou tentando te dizer.

- Mas, — e finalmente ergui meus olhos.

Os dele, tão frios, me encaravam como se eu estivesse ficando doida. Era assim que ele me olhava desde seus primos chegaram a Cheshire. Com medo, ou raiva... Não! Decepção. Como se eu tivesse feito a coisa mais errada do mundo.

Então eu percebi, M dei conta de que... Era eu quem não ficaria bem longe de casa. Eu quem sentiria mais saudades. Eu não poderia viver longe de Adam, ou de mamãe e papai. Eu sofreria sem Alice, eu não poderia ver aquele sorriso todos os dias de manhã. E eu simplesmente morreria sem meu professor de matemática.

E então eu precisava confirmar. Levantei-me e sentei ao seu lado, no chão. Seus olhos direcionados pra baixo para poder me fitarem. Nenhum de seus sorrisos estancados. O olhar misterioso, triste...

- E o senhor? – Eu perguntei. – Vai ficar bem?

Ele ficou surpreso. Até eu fiquei surpresa com a pergunta. Por alguns segundos o silêncio foi meu cúmplice. Eu podia ver o peito dele subindo e descendo conforme respirava, o meu no mesmo ritmo.

Ele não respondeu. Também, quem iria? Num salto ele se levantou da poltrona e andou até a porta calmamente, me deixando sozinha na sala de música, ainda atordoada e boba, sentada no chão com quem não tem nada pra fazer. Não sem antes me olhar daquele jeito misterioso. Afundei meu rosto em minhas mãos e respirei fundo tentando reunir o máximo de oxigênio possível em meus pulmões, mas eles pareciam furados e o ar não conseguia permanecer dentro deles...

Três semanas foram precisas para que eu tivesse coragem novamente de encarar Charles. Três semanas pra me fazer reconhecer o que tinha acontecido, o que eu tinha dito. Vinte e um dias sem histórias sobre Alice, jantares na mansão Dogson, cantorias na sala de música ou risadas de minha irmã. Dias somente ouvindo sobre um casamento, sobre uma mudança em minha vida. As três semanas mais tristes de toda a minha vida...

Casar já não me parecia mais uma grande idéia.