Meu Milagre
6 Capítulo V
Notas iniciais
Desde o ocorrido — já havia se passado alguns dias — e as coisas continuavam iguais na vida da jovem Beatriz. Nem tudo estava igual, as coisas no colégio haviam mudado um pouco, a prova disso era que ninguém fazia nenhum tipo de provocação ou batiam, por um lado a jovem estava feliz e por outro estava com medo de algo pior ocorrer.
Ainda continuava sozinha, mas era uma solidão reconfortante — a que mais agradava ela no momento — as vezes preferia ficar sozinha, o contato com pessoas de sua idade lhe assustava e lhe dava medo.
Sentada em uma mesa afastada de todos os outros alunos – já era um costume se isolar – concentrada na leitura Beatriz não percebe o rapaz sentado à sua frente — sua mente está imersa no mundo dos livros — ela vira mais uma página e continua a leitura e ele permanece ali a olhando.
O jovem rapaz nunca havia parado para analisar a jovem à sua frente e era o que estava fazendo nesse momento, reparando cada detalhe do rosto dela, de como ela é fisicamente. Ela levanta a cabeça e se assusta ao ver ele em sua frente com aqueles olhos azuis intenso, com aquele sorriso maligno que sempre teve, mas jamais usara para ela.
— P...posso a...ajudar? — Beatriz sente suas bochechas quentes.
— Posso ficar aqui? — Richard desfaz aquele sorriso maligno, dando lugar a um sorriso falso.
— Cl...cla...claro. — Ela fecha o livro. — Eu...eu...eu já terminei. — Levanta e pega o livro. — Com li...licença.
— Espera. — Ele segura a mão dela. — Fique por favor.
Richard jamais havia olhado para Beatriz — ao toca-la sentiu algo diferente — ele percebe a maciez de sua pele, seu cheiro doce, uma mistura de morangos com flores do campo, um cheiro que para ele é único — assim que a tocou seu coração falhou uma batida — ela sorriu e ele viu um sorriso completamente diferente de qualquer sorriso que já havia visto em toda sua vida — naquele momento um mundo para ambos já não existia, era como se houvesse apenas eles dois em todo o universo — ele se viu perdido naqueles lindos olhos verdes, um brilho único.
Mas algo o despertou daquele transe, o fazendo soltar mão dela e desvia o olhar ao perceber que os olhos dela são tão penetrantes. — Naquele momento algo havia ligado aquelas duas almas. — O olhar de todos sobre eles foi um alerta de que ela ainda vivia no mesmo mundo.
— Com li...li...licença. — Ela dá as costas para ele.
— Achei que ficaria. — Ele levanta e se aproxima dela e nota o livro que está em suas mãos. — Eu adoro Shakespeare.
— Me...mesmo? — Um sorriso tímido surge nos lábios da jovem.
— Sim. — Ele pega o livro da mão dela. — Meu dramaturgo preferido.
— O meu tam...também. — Ela toma coragem e olha para ele.
— Aposto que você adora Romeu e Julieta. — Ele puxa a cadeira. — Fique comigo por favor. — Um sorriso sincero toma os lábios do rapaz.
— Na ver...verdade eu gos...gosto de Hamlet. — Ela desvia o olhar. — Eu já ter...terminei, mas obr...obrigado pelo convite. — Ela sai correndo o deixando pasmo com essa atitude.
— Não acredito que levei um não dessa garota. — Ele bufa de raiva.
Richard olha incrédulo, ao ver que Beatriz o rejeitou, agora era questão de orgulho conquistar aquela garota — afinal ela tinha ferido seu orgulho — era o que passava em sua cabeça. Ele sai atrás dela, iria conquistar a confiança e faze-la se apaixonar, para ganhar a aposta e mostrar que aquela garota não significava nada.
Beatriz corre para mais longe possível — sempre quis um amigo, mas ele é amigo da Bárbara e do Sebastian, dos dois que mais a odeia em todo o colégio. — Ela entra na sala do psicólogo atordoada, ele que até alguns minutos estava concentrado em sua leitura, agora se encontrava olhando para ela.
— O que houve? — Ele fecha o livro.
— O Richard. — Ela encosta na porta e respira fundo tentando acalmar seus batimentos cardíacos.
— Está afobada por quê? — Ele coloca o livro em cima da mesinha que se encontra ao seu lado. — Se acalme.
— Eu corri dele. — Ela caminha até a mesa que está ao lado da porta, a mesma contém uma jarra com água e dois copos. — O Richard veio falar comigo. — Já mais calma ela põe um pouco de água em um dos copos o bebendo em seguida.
— O que ele queria? — Ele levanta e se aproxima dela.
— Não sei. — Ela virá todo o conteúdo do copo de uma vez.
— Tome cuidado. — Ele coloca a mão na fechadura. — Vou falar com o diretor, fique à vontade. — Abre a porta. — Com licença. — Se retira da sala fechando atrás de si.
Beatriz coloca mais um pouco de água em seu copo e caminha até uma das janelas daquela sala, abre a cortina e olha por uma que dá para o grande pátio do colégio, observa os alunos conversando e procura Richard entre eles, porém não o encontra.
— O que ele queria comigo? — Ela se afasta da janela. — Ele nunca me olhou. — Ela caminha até a poltrona preta e senta. — Esquece ele.
Beatriz observa a sala, que contém uma grande estante de mármore cheia de livros, uma mesinha também de mármore, com um computador preto e alguns papeis, uma cadeira de rodas preta de couro, as cortinas bege cobrindo as janelas, do outro lado um divã preto de couro e uma cadeira também — a sala que ela mais conhecia no colégio — o seu refúgio, o único lugar naquele ambiente onde ninguém a encontrava.
A porta se abre e ela vê um homem — alto, moreno de olhos castanhos escuros, cabelos negros com alguns fios grisalhos. Usando um terno preto com uma gravata amarela — ele olha para ela e sorri.
— Como você está? — Ele se aproxima dela.
— Bem e o Sr.? — Ela sorri.
— Bem também. — Senta-se na outra poltrona. — E na sua casa?
— Bem. — Desvia o olhar por estar mentindo.
— Mentir é errado. — Desabotoa o paletó. — Nós somos amigos, não é?
— Somos. —Volta seu olhar para o mais velho. — Está como sempre, não mudou nada.
— Quer que eu entre com um processo judiciário para você poder sair de casa? — Ele sempre faz a mesma pergunta, mesmo sabendo a resposta dela.
— Não. — Ela dá um longo suspiro. — Só tenho que esperar um pouco e tudo vai ter terminado, é só eu ficar longe deles. — Usa a mesma desculpa desde que o conheceu.
— O padre quer você bem, não só ele, mas todos se preocupam com você. — Cruza a perna, pondo a perna esquerda sobre a coxa direita. — Está feliz?
— De certa forma sim. — Abaixa a cabeça tentando esconder toda tristeza que está sentindo. — É minha culpa tudo isso.
— Sabemos que não é verdade. — De todas as pessoas com que ele trabalha ela é a única que consegue amolecer seu duro coração. — Sabemos que você é a vítima. — E as vezes se sente inútil por não poder ajuda-lá.
— Se eu tivesse fica...se eu tivesse morrido seria mais fácil. — As lágrimas descem rapidamente pela face da jovem. — Sou um fardo. — A voz sai embargada e baixa.
— Não é. — Ele descruza a perna, levanta e fica diante dela. — Você não pode dar atenção a essas coisas. — Coloca a mão no queixo dela e levanta seu rosto. — Você é uma boa menina, uma garota com um coração puro e nunca será um fardo. — Ele limpa as lágrimas que desce pela face da menor.
— Meus pais pensam ao contrário. — Um sorriso triste surge em seus lábios.
— Venha. – Ele estende a mão para ela. — Venha comigo.
— Onde vamos? — Ela coloca a mão em cima da mão dele.
— Os seus professores querem lhe dizer uma coisa. — Ele sorri. — Devia ouvir quem quer o seu bem e não ao contrário.
— Sabe o que eu gostaria de verdade? — Ela levanta e bate na saia para tirar os amassados.
— Não. — Ele a olha sério. — O que você gostaria?
— Morrer. — Ela diz em um tom sério e calmo ao mesmo tempo. Era o que ela clamava todos os dias.
— Não diga isso. — Eles caminham lado a lado até a porta. — A morte não mudará o que houve e não é uma solução e sim uma fuga covarde. — Ele abre a porta e a menor sai, ele sai em seguida e fecha a porta.
— Mas aliviará a minha dor. — Não a nenhuma expressão em sua face.
— A morte não resolve nada. — Seu olhar é sério. — Conheço pessoas que tem problemas maiores que o seu.
— Dr. eu não disse que meus problemas são maiores que os dos outros. — Ela caminha ao lado dele. — Apenas disse que se eu morrer os problemas dos meus pais se acabam e todos ficam felizes.
— Verá que está enganada. — Ele abotoa o paletó. — Você devia enfrentar seus medos, seus fantasmas, isso lhe faria muito bem. — Os passos de ambos são os únicos naquele corredor. — Nos humanos somos falhos por natureza, mas nossas falhas de hoje são nossos acertos amanhã.
Ele sabia que ela não iria argumentar mais, pois essa era a conversa que tinham todas as vezes que se viam. Ambos caminham para o fora do colégio em silêncio. — Um silêncio confortável — ele sempre a entendia e tentava ajuda-lá, mas ela não permitia.
Beatriz repara nos alunos que passam ao seu lado, ela abaixa a cabeça ao passar do lado de Richard, de Bárbara e de Sebastian — o trio mais temido e admirado do colégio — por saber disso não entendia o porquê da atitude que Richard teve mais cedo.
Beatriz compreendia muita coisa para uma garota da sua idade, sabia coisas que talvez só pudesse saber depois de anos, porém a vida a fez assim, sabia que sua existência na terra era passageira e que assim que cumprisse sua missão iria partir, mas será que sua existência seria repleta de dor e sofrimento? Que seu único propósito era ser odiada? Ser magoada? O tempo é o único que tem essas respostas.
Eles param diante a uma grande porta de correr de madeira — a sala dos professores — o mais velho abre as portas, revelando uma sala espaçosa, com uma mesa redonda de vidro, com várias cadeiras com estofados amarelos. Do lado direito uma estante repleta de livros didáticos de todas as matérias escolares. Do lado esquerdo uma pequena área com uma mesa de vidro com uma cafeteira e um bebedouro. A sala abriga todos os professores do colégio.
Como estão em horário de almoço todos os professores se entram ali — sentados ao redor da mesa — um ambiente descontraído e bastante animado. Todos cumprimentam eles com um aceno de cabeça e um sorriso.
— Vimos o Richard falando com você. — A professora Martinez se pronúncia. — O que ele queria? — Ela leva a xícara a boca, bebendo o conteúdo em seguida.
— Apenas me fazer companhia. — Sua voz sai baixa, mas audível para todos. — Ele nunca fez nada e acho que se ele quer se aproximar de mim, devo dar uma chance.
— Ele anda com a Bárbara e o Sebastian. — Sua atenção vai para a professora Carla. — E creio que eles não deixaram barato se o Richard começar a ser seu amigo ou lhe fazer companhia.
— Temos que deixar a Beatriz tomar suas próprias decisões. — Laura se pronuncia ao adentrar a sala. — Nós sabemos que o Richard é um rapaz na dele e que desde que começaram a implicar com ela, ele foi o único a não dizer nada para com ela.
— O que devo fazer, Dr. Steven? — Beatriz olha para o mais velho.
— Siga seu coração. — Ele sorri para ela.
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Já havia batido o sinal, todos estavam saindo de suas salas. Cada um com seu grupo — conversando trivialidades — menos Beatriz, a jovem ainda estava em sua sala esperando o colégio ficar vazio para poder ir embora. Queria evitar alguma brincadeira de mau gosto ou alguma agressão.
Enquanto espera termina o livro que está lendo mais cedo — ler para a jovem é como estar em outro mundo — concentrada em sua leitura não percebe o rapaz parado no batente da porta a observando. Desde cedo ele não tira ela de seus pensamentos, principalmente o sorriso que ela dera.
— Não vai embora? — Caminha até a jovem e senta na cadeira ao lado da mesma. — Como consegue ficar aqui? Sabe, depois de horas dentro desse lugar.
— O que quer comigo? — Deus sabe como ela está nervosa e morrendo de medo, mas não iria deixar transparecer. — Você nunca falou comigo.
— Eu não falo com muitas pessoas. — Sorri de lado. — Mas eu venho lhe observando nos últimos dias e pensei que seria legal ter você como minha amiga. — Lança suas mentiras sem que a jovem perceba. — Mas se não quiser tudo bem. — Levanta-se e põe-se a caminhar para fora da sala.
— Espera. — Segura no pulso dele antes que o mesmo avance mais ainda. — Está falando a verdade? — Os olhos de ambos se encontram e naquele momento ficam presos um no outro, esmeraldas contra safiras. Um olhar puro contra um olhar maligno. — Quer ser mesmo ser meu amigo?
— Sim. — Agacha diante dela. — Você parece ser uma garota legal. — E o sorriso falso brinca mais uma vez em seus lábios. — Posso ser seu amigo?
— Sim. — Não contendo a felicidade dentro de si se joga no pescoço do rapaz, fazendo o mesmo cair no chão e a levando junto. — Desculpe-me. — Suas bochechas ficam ainda mais vermelhas.
— Tudo bem. — Ele a abraça apertando-a forte contra seu corpo. — Gostei desse abraço. — Ele deposita um beijo na testa da jovem. — Você tem um cheiro tão gostoso.
— Obri...obri...obrigado. — Ela desfaz o abraço e levanta. — Preciso ir. — Recolhe o livro e a mochila. — Nos vemos amanhã, tchau. — Sai correndo antes mesmo dele responder.
— Um passo já dei. — Ele levanta e pega a mochila. — Essa garota vai cair na minha rapinho. — Seu fiel sorriso maligno surge. — Será um mês divertidíssimo. — Caminha para fora da sala.
Beatriz havia traçado seu destino ao dizer sim para uma pessoa que pouco conhecia. Será que ela é tão ingênua assim? Como não percebe a maldade daquele rapaz? Como pode acreditar em alguém tão facilmente? Esse seria o começo do seu fim, o começo da sua pior dor, pois seu proposito havia começado agora.
Um anjo pode purificar um demônio? Ou um demônio pode corromper um anjo? Quem vencera essa batalha? Quem levara quem para seu mundo? O tempo lhes dirá e da pior forma possível.
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