Meu Melhor Amigo Gay.
4 Vizinha encrenqueira, guardas acéfalos e amigo atrasado
Notas iniciais
– Mas seu policial, ninguém mais nesse mundo tem liberdade de expressão?
– Oras minha jovem, mas tenha consciência de que ouvir rock nos últimos volumes à uma hora da madrugada é totalmente proibido.
Já dá pra ter noção do que tá havendo aqui né? Isso mesmo, estimado leitores, a velha vadia, a Sra. Sanchez, finalmente fez o que sempre me prometia: ligou para polícia para me denunciar por música alta e agora estou eu aqui, encrencada e sem mãe, porque a mesma está à viagem de negócios.
Agora, neste exato momento, tem uma viatura da polícia na frente da minha casa com a sirene ainda piscando e aquela chata com um sorriso diabólico estampado naquilo que ela diz ser um rosto. Essa verruguenta!
– Eu te avisei. – Sussurrou maldosamente e fria. Realmente ela não está para brincadeira e tenho a terrível sensação de que me lasquei.
– O que vai fazer comigo? – Perguntei tentando me manter na base do limite da calma, mas obviamente, meu desespero transluzia.
– Para delegacia até sua mãe voltar. – É agora que a porca torce o rabo. Se bem que eles já nascem com ele torcidos, mas enfim, não é hora de gracinha e sim PÂNICO!
– O que? Mas, mas, mas, o senhor não pode fazer uma coisa dessas! – Fudeu toda minha vida agora. É nessas horas que você quer ter a capa da invisibilidade.
– Posso sim, devo e vou fazer. Entre no carro. – Ordenou. Sorrateira, a puta Sanchez retirou-se do local com um sorrisinho discreto e satisfatório.
Obrigada, você é mais uma que ferra com a minha vida.
– Não. – Desafiei-lhe autoritária. Se eu brinco com o perigo? Ah, sim.
– Como disse? – Ele demonstrou estar incrédulo diante a minha contradição.
– O que o senhor ouviu. – É geralmente nesses momentos em que me sinto uma manifestante brasileira que toda a minha audácia desmorona.
– Você acha que meu trabalho é brincadeira, garota? – Sua feição, que até então era pacífica, subitamente transformou-se em raiva pura e indignação.
– Óbvio que não, seu tira, mas eu não estava fazendo nada, não cometendo nenhum delito, apenas ouvindo música. Há pessoas por aí nesta madrugada que podem estar matando e se drogando, por que não vai atrás deles? – Minha audácia às vezes me surpreende. Dei-lhe o meu melhor sorriso debochado.
Seu semblante estava tomando uma cor avermelhada, parecendo explodir a qualquer segundo.
– Não recebemos nenhuma denúncia, só a da senhora que é sua vizinha. – Declarou entre dentes, querendo reprimir sua ira.
– Eu não vou! – Vociferei com as sobras de coragem que eu ainda possuía.
– Ah, vai sim! – Ele me acorrentou as mãos, como se eu fosse uma delinquente de verdade. Tem uma algema prendendo minhas mãos e cara como dói. Que nojento! Não suporta ser afrontado por uma adolescente, e olha que ele deve passar muito por isso.
– Ei, tire isso de mim! – Berrei mais uma vez, bem escandalosa, na esperança de algum conhecido passar ali. Porém, isso não era muito bem pensado. No máximo, o que passaria ali seria um grupo de jovens retornando de uma balada e rindo da minha condição desumana.
Tive uma leve e aterradora impressão de que eu teria aquelas correntes gigantes amarrados em uma de minhas pernas, ligadas a aquelas bolas pretas e pesadas. Acho que conversarei com a mamãe atrás de um vidro e usando um pijama laranja, e pelo menos isso combinará com o meu cabelinho eriçado.
– Não, minha querida. Agora vamos! Adentre dentro do carro e prossiga toda a viagem calada, okay? – Ele me empurrou severamente no banco de trás. Decidi ficar aquietada mesmo para não prejudicar mais o meu estado.
Presa por escutar rock no último volume de madrugada. Pra mim isso não faz sentido! Cadê os nossos direitos?
Eu vou morrer na cadeia com três caras gigantes e suados do meu lado que foram presos por matar e arrancar o pâncreas de suas vítimas.
...
A cela é enorme e só tem um banco para sentarmos, na parede oposta grades enferrujadas determinavam o fim da minha liberdade. Eu estava com uma cara de monotonia e desejando uma morte macabra a dois guardas – jovens – que estavam motejando da cor do meu cabelo. Mas que porra, nem no presídio eu tenho sossego?
– Ôh naniquinha, você tirou a cor da cenoura ou foi da abóbora mesmo? Há-há!
Um idiota alto e fardado proferiu a piada sem graça. Eu me contive para não soltar nada que fizesse com que eles decretem prisão perpétua a mim.
– Não, ela pintou com papel crepom! He-he! – O outro imbecil uniformizado também caçoou novamente. Chega! É muita bosta para meus tímpanos, eu necessito calar a matraca desses valentões dementes.
– Pelo menos eu tenho personalidade e não sou como vocês, tão bobalhões e que só sabem contar piadas sem um pingo de criatividade. Desculpe-me cortar o barato de vocês, mas suas afrontas não me atormentam em nada!
Estourou minha marca de paciência.
De supetão, os dois cessaram as gargalhadas e passaram a deitar em mim um olhar rigoroso e sério.
– Nos respeite, mocinha, temos de ser honrados! – Um deles me aplicou um sermão.
– Como querem ser respeitados dessa forma? Injuriando os outros?
– Você é muito astuta, não? – O que parece um poste de tão alto me examina minuciosamente.
– Só agora que percebeu? – Devolvi-lhe rindo daquele meu jeito sinistro e com sarcasmo.
– E também desafiadora. – O outro completou.
– Nossa! Vocês desvendaram a minha personalidade, meus parabéns! – Usei minha ironia diária.
– Garota, você quer parar?
– Então me soltem.
– Só amanhã e se você não parar, a gente determina meses ou anos de cadeia a você.
– Cala a boca, pocotó do mar! – Ter assistido muito “Procurando Nemo” resultou nessa piadinha sem graça.
– O que disse? Quer ir a julgamento por desacato a autoridade? – Um deles me exibiu seu cassetete e o ficou batendo de leve na palma da mão, enquanto rangia os dentes.
– Por favor, eu só peço que me deem meu celular para eu que eu faça uma ligação! – Só faltei esgoelar. Será que terei de fazer isso, meu Deus?
– Pra chamar sua gangue?
– Que gangue o que, eu lá entendo disso, só quero chamar meu amigo. – O meu doce e inocente amigo.
– Sei... É bem pra ele chamar a gangue dele e cercar toda a prisão! – Caramba, o que esses guardas têm no lugar do cérebro? Será rim de galinha?
– Não é isso não! – Bradei quase que sentindo o meu coração pular de nervosismo. – Só me deem.
Exprimi-me agora, mais tranquila e conservando minha paz. Eu sou muito feia para ficar enraivada.
Bem, o silêncio imperou no local. O mais baixo me investigou de novo com seu olhar oblíquo e se retirou do corredor, juntamente com o altão, largando-me solitária naquela cela.
Tudo o que preciso é discar o número do Ethan e pedir para ele vir me libertar desse lugar ordinário. Sem precisar pagar fiança, pois foi apenas uma apreensão.
Ethan, meu anjo da guarda, eu te chamo!
Repentinamente, enxergo os guardas voltarem e um deles carregando um objeto consigo.
– Venha cá. – Não retruquei e nem teimei, eu obedeci à ordem naturalmente e me guiei para perto das grades.
O poste estende sua mão e lá está o meu celular. Quis traçar um sorriso de felicidade no instante, mas me controlei e apenas o tomei das mãos dele.
– Não está mentindo, né? – Indaga o pigmeu com certo ar suspeitoso.
Apenas acenei negando para encerrar suas desconfianças a meu respeito. Encaminhei-me de volta ao banco, ansiosa e já catando o nome do Ethan na lista – o que não é tão difícil, já que tenho pouquíssimas pessoas de contato -. Mas de tanta pressa e tremendo, passei o seu nome umas três vezes.
Finalmente pressionei aquele botão verde e levei o aparelho até o ouvido.
Primeiro toque...
Vou me manter calma, já é madrugada e ele com certeza está dormindo agarrado com suas pelúcias.
Segundo toque...
Sabe, geralmente quando ele me liga há essas horas para me relatar seus problemas familiares, eu atendo no segundo chamado.
Terceiro toque...
Nunca passei da marca do segundo chamado. (Atenção, raiva começando a subir sobre a garganta).
Quarto toque...
Porra! O que uma pessoa pode estar fazendo de madrugada que é tão sério para não atender o telefonema da melhor amiga?
Quinto toque...
Ele está em uma balada? Ele quer morrer?
Sexto toque...
Tudo o que passamos juntos nunca foi valioso para ele. Estou constatando isso porque ele está ignorando meu telefonema.
Sétimo toque...
Proclamo morte aos amigos que não atendem os telefonemas de seus melhores amigos de madrugada no segundo toque.
– Alô... – Uma voz sonolenta e resfriada soa do outro lado da linha.
ELE ATENDEU! Minha proclamação está cancelada!
– Ethan, amor da minha vida, paixão, bambi, Barbie, bonequinha de porcelana! – Fiz todos os meus melhores elogios a ele e eu teria continuado se o guarda não tivesse espirrado tão alto e que a meleca tivesse grudado em uma parte da grade.
– O que é cacete? Por que me acordasse a duas e meia da manhã? – Seu tom agora era grosso e furioso.
Hum... Que macheza!
– Eu fui presa. – Respondi-lhe constrangida.
Silêncio de 10 segundos.
– Harley Sanders! Eu já te disse que música alta de madrugada dá cadeia! Mas você não me escuta! Você nunca me escuta sua besta! Você não dá a mínima atenção para meus alertas e ignora tudo com bastante naturalidade! Agora tá aí pagando, você sabe quem avisa amigo é!
Ele sabia que dar berros também de madrugada pode fazer com que os vizinhos pensem que ele tem defeito mental? Enfim, vou ficar na minha, mas os meus ouvidos estão apitando.
– Falou o amigo que não atende a chamada da sua amiga no segundo toque. – Retruquei-lhe destacando bem a palavra, “amigo”.
– Tá bem, sorry miss! Agora sua pateta, me diz em que delegacia você foi parar.
– Sei lá o nome dessa joça, só sei que fica perto do shopping Pinxie Worlds.
– Ufa! Pensei que você estava no conselho tutelar. – Engraçadinho. – E sim, eu conheço esse shopping, compro minhas camisetas aí. Bem, eu já to indo e vê se não se encrenca mais!
Advertiu.
– Beleza.
Desligamos no mesmo segundo. Bem, apesar dele não me atender no segundo toque, eu sei que sempre poderei contar com esse garoto... Quando ele me ligar só vou lhe atender no décimo toque.
Continua...
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