Meu Glee Brasileiro
2 Audições - Parte 1
Notas iniciais
No treino das líderes...
–Por hoje é só garotas. — a treinadora disse assim que o sinal bateu e se retirou do local, se despedindo dos alunos.
Juliana respirou fundo assim que a sua mãe — vulgo treinadora das líderes — lhes dispensara pelo dia. Ela adorava treinar com as líderes, mas, na maioria das vezes, era cansativo. Ainda mais quando a mãe estava irritada com a falta de uma das alunas. Não que Katharina tenha escolhido ficar doente, mas...
Estava tão entretida em seus pensamentos que não percebeu seus colegas de treino chegando perto dela. Nicole e Victoria ainda seguravam seus pompons conversando animadamente sobre algo enquanto se aproximavam. Bryan mexia no seu celular, distraidamente, seguindo as garotas. Só percebeu quando Victoria começou a estalar os dedos na frente de seu rosto para lhe chamar a atenção.
–Finalmente acordou Juliana. Ficou sabendo do novo clube que vai abrir? — ela perguntou e sorriu animada para ela. Como sempre. Victoria vivia animada, não importava o que lhe acontecesse.
–Que clube? — Juliana franziu o cenho. Outro clube? E ela já achava que tinha muito...
–Do coral. — disse Bryan e rolou os olhos como se fosse algo óbvio e que ela já deveria saber faz tempo. Não é por que ela era filha de uma das treinadoras que ela tem conhecimento de tudo o que acontece na escola.
–Ah. E? — ela perguntou, querendo saber o que ela tinha com aquilo.
–Sabemos que você gosta de cantar. Pode ser uma oportunidade. — disse Nicole, e abriu um sorriso de lado.
–Não acho que minha mãe vá gostar muito da ideia. Ela acha que esse meu gosto pelo canto uma coisa inútil e que eu tenho que me focar mais nas líderes. Como se líderes de torcida fosse me dar algum futuro, ainda mais aqui no Brasil. Não falo para ela, mas isso aqui é apenas um hobby. — Juliana disse revirando os olhos e se levantando. Arrumou a saia e pegou seus pompons no banco para guardá-los.
–Você quem sabe. Acho que a treinadora Hellen não vai ligar se você disser a ela que o coral é um hobby. — disse Nicole. — Nós vamos nos inscrever. Se quiser... — a garota deixou a frase no ar, mas Juliana captou a mensagem. Se ela quisesse, ela poderia ir fazer as audições assim como eles. Os três seguiram para fora do ginásio.
Ela ficou parada no lugar, ponderando sobre o que eles lhe disseram. Não, a mãe ia detestar que ela se juntasse ao coral. Ela não poderia nem cogitar. E também ia detestar que os três fossem. Mas a treinadora não podia mandar nos três assim como podia mandar nela. Mas, por outro lado, assim como dissera Nicole, seria uma oportunidade para ela de poder demonstrar seu talento, de cantar, o que era sua verdadeira paixão.
Mas a mãe... Juliana balançou a cabeça. Tinha que parar de pensar tanto assim na opinião da mãe. Aliás, ela nunca pensava na dela. A morena ergueu a cabeça decidida. Iria para o coral e demonstraria não ser apenas a queridinha da mamãe para a escola. E era uma maneira de confrontar a mãe pelo que ela lhe fizera. Quando Victoria, Nicole e Bryan estavam quase saindo do ginásio, ela os chamou.
–Ei. Que horas será as audições? — ela perguntou e os três voltaram a olhar na direção da garota. Nicole e Victória sorriam.
–Hoje. As 15:00. — Nicole respondeu.
–Obrigada. — ela agradeceu e eles saíram do ginásio. Juliana sorriu. Hoje sua vida mudaria.
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No treino de Futebol...
–Agora que o clubinho do Coral vai abrir, nós teremos mai um grupinho para zoar. — disse Douglas, um dos garotos do treino para os outros, no vestuário. O treino tinha acabado e eles estavam se trocando. Roberto secou o cabelo na toalha e olhou para o colega. E revirou os olhos. Douglas era tão idiota
Raphael, ao seu lado, assobiava, com certeza ignorando — ou tentando — o colega. Roberto sabia que o amigo também detestava Douglas. Nem o treinador gostava do garoto. Só não o expulsava do time por que ele era o melhor jogador, e eles estavam na pior mesmo com Douglas no time. Pelo menos o goleiro defendia a maior parte dos gols e impedia que eles levassem uma goleada pior. mas só por isso eles suportavam o garoto. Claro que ele tinha seus seguidores, mas eles não eram muitos, e eram tão idiotas quanto o líder.
Pelo menos dessa vez Douglas não se dirigiu a ele. Não estava com paciência para provocações. Assim que o grupinho saiu, Raphel parou de assobiar e virou-se para ele.
–Imbecil. Finalmente ele foi embora. — Raphael queixou-se e bateu a porta do seu armário com força. Roberto sabia que Raphael estava para perder a paciência com Douglas. — Algum dia esse mané vai quebrar a cara.
–Espero que sim. — Roberto concordou. — Mas é verdade essa que vai abrir um coral na escola? — Raphael parou de abotoar a camisa e olhou na direção dele.
–Vai. A professora Rafaela. E eu vou participar.
–O Douglas vai te zoar eternamente.
–E dai? Eu não ligo para o que ele pensa. Você liga?
–Não.
–Então vamos lá comigo. As audições vão ser hoje às 15:00. Vou me inscrever depois que sair daqui se você quiser ir...
–Eu não sei Raphael. — Roberto disse e enterrou as mãos no cabelo, bagunçando-o, como sempre fazia quando estava indeciso. Roberto até gostara do convite de Raphael, mas não queria virar motivo de chacota.
–Eu sei que você canta bem Roberto. E que gosta disso. Já te ouvi cantando no banheiro. Vamos lá. Não custa nada.
Roberto ponderou sobre as palavras de Raphael. Por mais que ele odiasse negar, Raphael estava certo. Não custava nada ele ir. Só sua boa imagem. Mas ele queria ir. O que poderia acontecer? Ele virar motivo de chacota. E desde quando Roberto se importava com isso? Ele virou-se para o amigo que terminava de abotoar a camisa.
–Tudo bem Raphael. Eu vou fazer a audição.
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Jornal da Escola
Nicole olhava a tela do computador com atenção, tentando encontrar os erros e concertá-los. Falava sobre a importância da alimentação saudável nas escolas. Não que ela fosse muito saudável, mas enfim.
Foi quando uma pilha de papel caiu a sua frente na mesa, fazendo a garota dar um pulo com o susto.
–Yago. — ela gritou com o garoto atrás dela, ao notar que fora ele que lhe assustara com o bolo de papeis. — Nunca mais faça isso.
–Desculpa, Nick. Mas é que você tem que ver isso. Vai ser minha coluna no jornal de hoje.
Nicole pegou os papeis e analisou as fotos e o que Yago tinha escrito. Franziu o cenho e fez uma careta ao perceber o que era, erguendo o rosto para Yago.
–Yago, eu acho melhor não. Sem contar que já estamos um pouco em cima da hora para isso, e, pelo jeito, você ainda terá que digitar. — ela pegou os papéis e os devolveu ao colega. — E o diretor vai, no mínimo, te dar uma suspensão por isso. É claro, que ele não te expulsar.
–Não seja tão exagerada, Nicole. Não é para tanto.
–Não é. — ela revirou os olhos e voltou a atenção para a tela do computador.
–Vou lá terminar. Você vai ver que a coluna vai fazer sucesso.
–Vai lá. Boa sorte. — ela disse e terminou de digitar a coluna. Releu umas duas vezes antes de imprimir e salvar a coluna no pen drive e entregar todo o material para o redator chefe analisar. Pediu licença e saiu da sala, pegando suas coisas e se dirigiu ao seu armário para guardar as mesmas. Com tudo guardado, seguiu em direção ao auditório. As audições iriam começar.
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No auditório...
Maria Luisa estava sentada na primeira fileira do auditório, esperando as audições começarem. Ela lia um livro enquanto esperava, nem ligando muito para as poucas pessoas que entravam e se sentavam espalhadas no auditório. Nunca foi uma pessoa muito extrovertida e que arranjasse amigos facilmente. Nunca fora popular, diferente da irmã mais velha, Maria Eduarda, que era a queridinha dos pais. Mas nunca ligara para isso também.
Quando alguém sentou ao seu lado, ela tirou os olhos do livro pela primeira vez. Era um garoto alto, magrelo, os olhos azuis e o cabelo desgrenhado. Mas tanto lugar no auditório, por que ele se sentara ao seu lado? Voltou a atenção ao livro assim que o garoto olhou em sua direção. Não queria demonstrar estar um pouco incomodada ou parecer interessada. Na verdade, só queria ler seu livro em paz e fazer as audições, as quais ela tinha praticamente certeza que não passaria. Ela estava alia só para tentar participar de outra atividade extracurricular, além do clube do Livro. E também para tentar superar seu medo de palco.
–Eu sei. — disse o garoto ao seu lado, sussurrando. Maria Luisa olhou para o garoto, para ver com quem ele estava falando, mas não tinha ninguém ali perto, além dela. Então devia ser com ela.
–Oi? — ela indagou, baixinho.
–Oi. — ele pareceu notá-la ali.
–Você quer dizer algo? — ela ergueu uma sobrancelha.
–Não por que? — ele franziu o cenho.
–Nada. Achei que tinha ouvido você falando alguma coisa. — resolveu deixar para lá.
–Não. Eu só estava cantando. — ele disse.
–Tudo bem. — ela respondeu e voltou sua atenção para o livro.
Leu dois parágrafos antes do garoto voltar a falar.
–Desculpa me intrometer, mas, qual o seu nome? — ela o olhou em dúvida. Por que ele estaria querendo falar com ela? Ele até que era bonitinho, mas e ela? Ela não tinha nada demais. Era mais pálida que um fantasma e seus olhos nem tinham uma cor certa.
–Maria Luisa e e o seu? — respondeu, recatada.
–Felipe.
Ela sorriu para ele e, nessa hora, uma mulher ruiva subiu ao palco e bateu palmas, chamando a atenção dos alunos. Rafaela, a professora de Português que lideraria o coral.
–Boa tarde alunos. Estou aqui para liderar as audições e serei a professora que acompanhará os alunos que passarem no Coral durante o ano nessa classe extracurricular. Fico feliz que todos vocês queiram participar. Boa sorte para vocês. Vamos começar por Nicole. Pode subir. — a professora disse e foi se sentar em seu lugar na platéia, com uma plancheta para fazer suas anotações das apresentações.
Nisso, uma garota de cabelos castanhos, olhos azuis e corpo atlético subiu ao palco, sorridente. Pediu a música aos carinhas da banda e se dirigiu ao microfone.
–Boa tarde meus amigos. Sou Nicole Gomes Queiroz e cantarei Na Sua Estante, da Pitty. — a música começou e ela soltou a voz. Ela cantava muito bem.
"Te vejo errando e isso não é pecado,
Exceto quando faz outra pessoa sangrar,
Te vejo sonhando e isso dá medo,
Perdido num mundo que não dá pra entrar
Você está saindo da minha vida
E parece que vai demorar
Se não souber voltar, ao menos mande notícias
Você acha que eu sou louca
Mas tudo vai se encaixar
Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia
E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu"
Quando ela terminou todos a aplaudiram. Ela tinha ido muito bem, realmente. Nicole desceu do palco e voltou ao seu lugar e a professora não demorou muito a chamar o próximo. Era Felipe, o garoto sentado ao lado de Maria Luisa. Ele cantou Toda Forma de Amor, do Lulu Santos.
"Eu não pedi pra nascer
Eu não nasci pra perder
Nem vou sobrar de vitima
Das circunstâncias
Eu tô plugado na vida
Eu tô curando a ferida
Ás vezes eu me sinto
Uma bala perdida*
Você é bem como eu
Conhece o que é ser assim
Só que dessa história
Ninguém sabe o fim"
Todos o aplaudiram quando ele terminou. Inclusive Maria Luisa. Ele fora muito bem. Assim que ele terminou, a próxima aluna foi chamada. Julieta Trevor. Ela se colocou na frente do microfone.
–Boa tarde. Me chamo Julieta Trevor e cantarei Pais e Filhos, do Legião Urbana.
"Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender.
Dorme agora:
É só o vento lá fora.
Quero colo
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui
Com vocês?
Estou com medo tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.
Meu filho vai ter
Nome de santo
Quero o nome mais bonito.
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar,
Na verdade não há."
Maria Luisa torceu o rosto assim que a garota começou a cantar. Ela cantava muito mal. Acabou com a música do Legião Urbana. Pelo amor de Deus. Ela amava Legião Urbana. Assim que Julieta terminou as pessoas ali aplaudiram, forçadamente. A garota agradeceu sorridente. A professora logo tratou de chamar o próximo. Bryan Smith. Ele se apresentou, disse que cantaria Metamorfose Ambulante, do Raul Seixas e a música começou a tocar.
"Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor"
Todos aplaudiram. Ele fora também muito bem. Raul Seixas era um ótimo cantor. E Bryan conseguiu pegar a essência da música do cantor e expressou ali. Depois dele, passaram-se mais umas duas pessoas até a próxima pessoa ser chamada. Era Vitoria, outra das líderes, como Nicole e Bryan.
–Olá. Sou Vitoria e vou cantar Quase Sem Querer, do Legião Urbana.
"Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente
Estou tão tranquilo
E tão contente
Quantas chances
desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém
Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira"
Todos aplaudiram. E Maria Luisa foi chamada. Ela travou e começou a batucar os dedos na cadeira com o nervosismo. Felipe, ao seu lado a incentivou a subir, dizendo que não era tão terrível quanto parecia. Ela assentiu e subiu o palco vagarosamente. Pediu a música para a banda e se posicionou. Quando a música começou a tocar, ela fechou os olhos para não precisar ver a reação das pessoas. E sua voz Mezzo-Soprano soou pelo ambiente na música Mudaram as Estações, da Cassia Eller.
"Mudaram as estações
nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente
Se lembra quando a gente
chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
sem saber
que o pra sempre
sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar
o que ficou
Quando penso em alguém
só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos
pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar,
agora tanto faz...
Estamos indo de volta pra casa"
Quando a música acabou ela abriu os olhos e as pessoas aplaudiram. Ela sorriu e voltou correndo para o seu lugar. A próxima a ser chamada foi Juliana. Outra líder. Mas estava chovendo líderes de torcida ali. A treinadora Hellen era tão chata assim? Se Maria Luisa não se enganava, Juliana era filha dela. Ela estava surpreendida. Juliana subiu o palco confiante e foi até o microfone, depois de informar a música. A música Máscara, da Pitty, começou a tocar.
"Diga, quem você é me diga
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida
Tira, a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro jeito de ser
Ninguém merece ser só mais um bonitinho
Nem transparecer consciente inconsequente
Sem se preocupar em ser, adulto ou criança
O importante é ser você, mesmo que seja, estranho
Seja você, mesmo que seja bizarro bizarro bizarro
Mesmo que seja, estranho, seja você, mesmo que seja"
Todos aplaudiram. A voz dela era quase igual a da cantora, mas um pouco menos rouca. Ela cantava bem. Mas as audições tinham que continuar.
De longe, onde ninguém conseguia ver se olhasse direito, enquanto Juliana cantava, alguém os observava.
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