Enquanto eu digeria a comida, que por sinal estava muito gostosa, fiquei pensando na atitude pra lá de estranha de Heitor.

— O que será que deu nele? – Pensei em voz alta.

— Em quem? – Miguel apareceu repentinamente junto com Kelly.

— Hum, nada não. – Sorri sem graça. Kelly me olhou desconfiada e depois analisou ao redor.

— Quem te trouxe comida? – Kelly questionou com curiosidade.

— Verdade... – Miguel olhou para a bandeja que antes estava cheia de comida, e agora só tinha restos.

— Ninguém. – Falei não querendo dizer sobre a estranha atitude de Heitor.

— E qual o nome desse “ninguém”? – Kelly arqueou a sobrancelha e sorriu de lado. Desviei o olhar para qualquer outro ponto que não fosse os olhos dela. – Eu acho que tenho uma ideia de quem seja. – Ela semicerrou os olhos e eu estralei meus dedos das mãos nervosamente. – Se você não disser o nome do “ninguém” vou considerar que meu palpite está certo.

— Quem é? – Miguel perguntou sem esconder quão curioso estava. – Ele deve te conhecer bem já que trouxe coisas que você gosta de comer.

— Como você sabe disso? – Perguntei falando um pouco mais alto do que tinha planejado.

— Você é chata pra comer, e comeu tudo o que ele te trouxe. – Miguel disse os fatos como se estivesse falando que estava fazendo sol lá fora.

— Eu nunca disse que é “ele”.

— Mas se fosse uma garota você não estaria escondendo de nós quem é. – Kelly disse quase rindo.

— Oi meninada! – A enfermeira apareceu atrás de Kelly e Miguel, que se afastaram deixando-a se aproximar da cama.

— Oi. – Falei sentindo um certo alivio por alguém ter aparecido.

— Como está se sentindo?

— Estou me sentindo ótima. – Sorri

— Ah sim. Vejo que comeu tudo o que aquele menino trouxe. – Ela sorriu e meu sorriso caiu. – Como era mesmo o nome dele?

— Ele é um dos jogadores de basquete do colégio, não é? – Kelly perguntou já prevendo a resposta.

— Sim! Ah lembrei.

— Eu já vou indo! – Joguei a fina manta que cobria minhas pernas e me levantei.

— Heitor! – Miserável! Oh enfermeira inconveniente!

— Ah é ele mesmo então. – Kelly começou a rir e Miguel me encarava meio perdido.

— Como assim? – Miguel estava mais confuso do que eu mesma. – Estamos falando do Heitor gente... Isso...

— Não me olhem assim! Eu sou a vítima! – Exclamei perplexa sob os olhares dos três. Eu juro!

— Hum, que seja. Eu já imaginava. – Kelly deu de ombros e sorriu.

— Como assim você vai deixar isso assim? – Miguel parecia bastante transtornado.

— E você quer que eu faça o que Miguel? Eles que tem que se decidir.

— Gente... Sem querer interromper, mas eu e ele não temos nada. – Kelly deu de ombros e Miguel concordou.

— Sim é verdade. E você nem gosta dele mesmo né Sara? – Miguel olhou pra mim esperançoso e eu sorri sem graça e acenei que sim.

— Deixa de ser intrometido Miguel! – Kelly deu um tapa na nuca dele que resmungou, mas se aquietou.

— Bom, é ótimo ver vocês animados. – A enfermeira se aproximou. – Você está se sentindo bem?

— Estou sim.

— Nada de tontura?

— Nenhum pouco.

— Então tudo bem, eu vou dar um okay no seu passe da enfermaria então. – Concordei com a cabeça e ela se afastou.

Enquanto eu aguardava o passe de liberação da enfermeira Miguel foi arrastado para fora por Kelly, e assim que obtive o passe os encontrei me esperando do lado de fora.

— Nós temos aula de que agora? – Perguntei tentando quebrar o clima tenso que se instalou misteriosamente entre nós.

— Fomos liberados. – Kelly me puxou pelo antebraço e me arrastou deixando Miguel para trás. – Idiota. – A ouvi murmurar enquanto me arrastava. Deixe-a me levar e acabamos parando quando chegamos na área de socialização do colégio, o pátio arborizado.

— O que foi? – Perguntei quando ela parou.

— Nada, esquece. – Ela me olhou terna e ajeitou uma mexa do meu cabelo. – Você está se sentindo bem? – Concordei com a cabeça e ela sorriu. – Ótimo. Vamos pegar nossas mochilas na sala.

— Realmente não teremos nada após o almoço? – Nosso colégio sempre tinha aulas extras ou atividades obrigatórias para serem feitas após o almoço.

— O seu acidente rodou toda o colégio e o diretor resolveu que por ser nosso primeiro dia de aula do semestre teríamos a tarde livre. – Ela me explicou enquanto andávamos em direção à nossa sala.

Quando entramos na sala já não havia mais nenhum aluno, então apenas pegamos nossas mochilas e saímos.

Quando descemos as escadas e começamos a andar em direção ao portão vimos ninguém mais ninguém que Heitor encostado junto aos seus amigos rindo e conversando.

— Será que ele está te esperando? – Kelly perguntou entre risos.

— Óbvio que não. – Continuamos andando, mas resolvi focar apenas em meus passos. Quanto mais me aproximava do portão mais podia sentir meu coração batendo. “Puta que pariu” pensei.

Quando passamos pelo portão eu soltei a respiração que estava segurando, e sequer tinha percebido. “Ufa” pensei.

Cedo demais.

— Não mereço nem um obrigado? – Ótimo! Heitor tinha ido atrás de mim e me segurado pelo pulso.

— Não. – Puxei meu pulso de sua mão olhando em seus olhos.

— Está indo pra casa?

— Por que devo te responder?

— Uh! Não me responda com outra pergunta, odeio isso! – Exclamou passando a mão que antes segurava meu pulso, por seus cabelos, jogando-os para trás de um jeito se...xy... Não!

— O que você quer? – Questionei suspirando irritada.

— Ir pra casa. – Ele se virou para seus amigos que o observavam do portão, uns sorrindo e outros confusos. – Até amanhã! – Ele acenou para seus amigos e logo em seguida e me segurou pelo pulso e me puxou para uma corrida sem sentido.

— ELA DESMAIOU MAIS CEDO! – Kelly gritou e ele olhou para trás, para mim, a pessoa a quem ele estava puxando sem mais nem menos e então parou e num piscar de olhos me colocou em suas costas e lá estávamos.

Heitor correu umas três ruas comigo em suas costas até que consegui faze-lo parar. Tive puxar o cabelo dele, pois nada estava funcionando e eu era menor e mais fraca que ele.

— TU PIROU? – Gritei quando consegui descer.

— Não. – Ele virou a cabeça levemente de lado e me olhou com um olhar... Parecia um cachorrinho sem dono. – O que tá acontecendo contigo? – Perguntei suspirando novamente, dessa vez de frustração.

— Só fiquei preocupado. – Ele confessou parecendo não entender bem o que estava falando. – Você desmaiou do nada, tinha sangue saindo do seu nariz, a enfermeira falou que você estava desidratada e parece levemente anêmica.

— E?

— Fique preocupado... Culpado... Sei lá.

— Ei. – Ele me olhou ansioso. – Me poupe e pare de me encher o saco. – Sem dizer mais nada nem esperar nenhuma resposta sai andando sem olhar para trás.

Eu me sentia muito foda, mas por dentro eu estava “Aí meu Deus e se amanhã ele fizer bullying comigo, pior do que já fez... Tô ferrada”.