Meu Doce Clichê
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Quando cheguei em casa a encontrei do mesmo jeito que estava quando tinha saído pela manhã.
Suspirei.
Fui até meu quarto e deixei minha mochila atrás da porta.
Arrumei meu quarto e organizei minha escrivaninha, o que não levou muito tempo. Depois fui para a cozinha e guardei as coisas que tinham ficado espalhadas e lavei a louça.
Quando terminei de arrumar a cozinha, resolvi passar um pano na casa e colocar as roupas para lavar.
Desde a morte de meus pais eu passei a maior parte do tempo sozinha, então acabei aprendendo a fazer tudo, bem cedo, até mesmo cozinhar, apesar de Eliza sempre tentar deixar algo pronto pra mim, seu trabalho exige muito tempo e ela quase não consegue parar em casa, muito menos fazer comida pra mim.
Quando terminei já passava das 17h então resolvi fazer algo pra comer.
Fiz um pouco de macarrão, batata gratinada e almôndegas ao molho. Acabou sobrando um pouco e quando estava guardando as sobras alguém tocou a campainha.
Olhei no relógio na parede da cozinha. 19h39. Quem poderia ser?
Por algum motivo não olhei pelo olho mágico e simplesmente abri a porta sendo surpreendida por um rosto que eu não esperava.
— Heitor? – Ele estava um pouco descabelado, com alguns machucados no rosto, camisa suja. Por impulso tentei fechar a porta rapidamente, mas falhei. Ele segurou a porta com uma mão. Observei sua mão e ela estava machucada, sem pensar muito após ver sua mão acabei abrindo a porta novamente. – Mas o que aconteceu? – Perguntei observando melhor seus machucados. Ele parecia ter apanhado.
— Posso entrar? – Meio a contragosto acabei deixando-o entrar, afinal, ele estava machucado...
Assim que ele entrou fechei a porta e o guiei até o sofá e o convidei para sentar e logo fui até o banheiro pegar nosso kit de primeiros socorros.
Me sentei ao lado dele e deixei o kit em cima da mesinha de centro.
— O que aconteceu? – Questionei abrindo a maletinha do kit.
— Eu... – Me virei para ele e encarei seus olhos amendoados que expressavam uma certa raiva. – Quando dei por mim já estava brigando. – E foi o que me disse antes de desviar o olhar. Pisquei algumas vezes tentando entender o que ele quis dizer, mas desisti e comecei a limpar seus machucados começando pelo da mão que tinha um corte horrível. – Ai!
— Quieto. – Mesmo sob seus protestos continuei limpando o corte que havia em sua mão, aquilo definitivamente era obra de uma faca ou algo parecido. – Por que veio aqui? – Perguntei enquanto passava uma pomada cicatrizante e enfaixava sua mão.
— Foi o único lugar... Não... Na verdade você foi a única pessoa que passou pela minha cabeça. – Evitei olhar para seu rosto, não queria encarar aqueles olhos tão magnetizantes. Finalizei o curativo em sua mão e peguei mais algodão e molhei-os com o desinfetante à base de álcool. – Você vai passar isso no meu rosto? – Ele se afastou brevemente.
— Sim, preciso limpar pra não infeccionar. – Ele relutantemente se aproximou novamente e me deixou limpar os pequenos machucados, um em cima da sobrancelha, alguns na bochecha, uns no maxilar e um corte na lateral da boca. – Agora vou passar a pomada, não se mexa. – Ele concordou e passei a pomada com cuidado, já que ele tinha se comportado. Assim que finalizei dei um tapinha em seu ombro e ele gemeu em dor. – Ah. Você... – O olhei indignada. – Tira a camisa. – Ele foi ficando vermelho gradativamente e eu então percebi que não devia ter falado daquela forma, mas já era tarde e eu sentia meu rosto queimando de vergonha. – Pra eu ver os machucados! Não tem como eu limpar e tratar se eu não ver! – Exclamei me explicando e ele soltou uma risadinha.
— Eu vou aceitar sua ajuda nisso. – Ele sorriu e tirou a camisa. De alguma forma parecia até que estava em câmera lenta e eu tive que me policiar para não ficar olhando cada pedaço de seu tórax. O que no começo foi difícil, mas depois que vi os hematomas em seus ombros e costela eu quase fiquei sem ar.
— O que aconteceu? – Exclamei assustada. – Isso não é nada normal Heitor!
— Desculpa… – Em seu olhar encontrei uma mistura de raiva e tristeza. – Eu até tentei evitar, mas não consegui. – Um fato sobre Heitor é que ele é considerado um encrenqueiro de primeira, sempre acaba entrando em brigas dentro e fora do colégio.
— Eu acho melhor irmos ao hospital… Seus hematomas estão muito escuros, e se tiver machucado por dentro? É perigoso. – Eu não queria me preocupar tanto, mas é difícil não se importar quando alguém que conhece aparece machucado daquele jeito na sua frente.
— Olha, – Ele se levantou rapidamente e vestiu a camisa. – eu agradeço sua preocupação, mas acho que já é hora de eu ir. – Ele nem esperou uma resposta minha e simplesmente caminhou até a porta e ficou parado esperando eu abrir.
— Você quem sabe. – Suspirei indo até a porta. – De qualquer forma eu não tenho nada a ver com sua vida mesmo. – Dei de ombros e segundos depois me senti uma idiota por ter falado algo tão grosseiro, mas ele apenas me olhou apertando os próprios lábios um no outro e não falou nada.
— Obrigado. – Abri a porta e ele saiu rapidamente após me agradecer, sem me dar tempo de falar mais nada.
Fiquei o observando caminhar pela rua e aquilo me perturbou bastante, porém eu não poderia fazer mais nada.
Entrei e fechei a porta e me escorei nela… O que teria acontecido com ele?
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