Meu Destino

4 Meu passeio pelo acampamento


Notas iniciais
_Espero que gostem!

Parecia que, de repente, eu carregava todo o peso do mundo nos ombros. Se isso que eles disseram realmente é verdade, quer dizer que tudo o que eu acredito, toda a minha história, toda a minha vida, é uma mentira.

–-M-mas eu tenho –eu tinha­-- pai e mãe! –falei esperançosa –Eu não posso ser uma meio-sangue!

Quíron e Colin me olharam cansados, como se já tivessem visto isso outras vezes –o que realmente deve ter acontecido.

–-A verdade, criança, nem sempre é prazerosa. –disse Quíron –Não posso afirmar nada sobre aqueles que você chama de pais, mas sei que você é semideusa.

–-E como você pode ter tanta certeza assim? –pergunto, esperando que ele retire o que disse.

–-Temos basicamente vários sinais claros –disse ele.

–-Isso mesmo! –complementou Colin –Você tem TDAH, isso manterá você viva em uma batalha. Você foi atacada por um monstro. Cronos estava lhe procurando como aliada. E você passou pelas barreiras do acampamento! Nenhum mortal poderia fazer isso.

–-Então quem é meu pai ou mãe? –perguntei, decepcionada, aceitando, parcialmente, a minha nova realidade –Quem é que fez o favor de me por nesse mundo?

–-Isso ainda não sabemos. –falou Quíron, me olhando curioso, como se tentasse me ler –Possivelmente descobriremos em breve. Agora, o que me intriga, além do fato de você já ter 14 anos e ainda não ter sido encontrada por monstros é que você poderia se passar por um mortal comum. Se não fosse o que dissemos agora, talvez nem um sátiro buscador lhe encontrasse facilmente.

–-Como assim eu me passaria como mortal comum?

–-Bem, você teve pai e mãe, dois irmãos. Sobreviveu até aos 14 anos sem um ataque de monstros... Isso tudo é bem... Interessante. –ele parecia realmente intrigado, como se eu fosse algo fora do comum (pera, ser semideusa já não deveria ser algo fora do comum?) –De qualquer forma, até descobrirmos seu progenitor olimpiano, alojaremos você no chalé 11. Colin, pode levá-la para lá, por favor?

–-Claro, Quíron. –Colin piscou para mim –Mas antes eu poderia mostrar o Acampamento.

–-Ah, sim, claro. Que falta de educação da minha parte. Mostre-lhe o Acampamento. Agora, se me permitem –ele falou, foi aí que fez algo que me surpreendeu: ele se levantou da cadeira. Não exatamente se levantou, mas ele meio que saiu da cadeira. Foi então que eu percebi. As pernas que saiam da cadeira não eram pernas humanas comuns, eram pernas de cavalo. Quíron saiu completamente da cadeira –eu pude ver um par de pernas humanas acopladas nela. Onde deveriam estar as sua pernas havia um corpo de cavalo.

–-Quíron... –falei surpresa –Você é um centauro.

–-Sim, criança. –ele sorriu –Agora façam um belo passeio, tenho coisas para resolver.

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Colin me mostrou a arena, onde seus irmãos, filhos de Apolo, treinavam com arcos –suas miras eram impecáveis, fiquei pensando se Colin era tão bom quanto eles. Os filhos de Apolo eram bastante legais, conversei rapidamente com alguns, e logo pude ver que todos eles tinham algo em comum –crianças problemáticas, cuja a vida foi dura com elas.

Depois seguimos para o arsenal. Ao entrar, Colin disse:

–-Ei, pessoal! –ele apontou para mim – Essa é Rebecca. Ela é novata. Acabou de chegar.

Um garoto se virou –e quase derrubou o que tava fazendo –e me olhou.

–-Hã, oi, --disse desajeitadamente, limpando as mãos sujas de graxa na sua roupa. –William Connors. –ele estendeu a mão, e eu a apertei.

–-E eu, --disse outro garoto, aparecendo por de trás de uma estante abarrotada de coisas –Sou Beckendorf. Charles Beckendorf, mas todo mundo me chama pelo sobrenome mesmo. –ele deu nos ombros e estendeu a mão, que eu cumprimentei.

–-Bem, Rebecca e eu temos que ir. –disse Colin –Mais tarde nos vemos no jantar, e, Beckendorf, não se esqueça daquela parada que eu te pedir, ok?

Despedimos-nos, e Colin e eu deixamos o arsenal. Aproveitei para conversar um pouco com ele.

–-Então, você vem aqui há muito tempo? –eu ainda não tinha tirado o fato de ser uma semideusa da cabeça, mas no momento eu queria me concentrar em alguma coisa que não fosse eu.

–-Faz três anos. –ele abriu os braços –Isso aqui é como um outro lar, para mim.

–-Isso é o que exatamente? Um campo de treinamento? –questionei.

–-Principalmente. –ele olhou para toda a colina, melancólico –Mas é também o lar de muitos aqui. E é o único lugar seguro para gente como nós. Meio-sangues.

–-Dura quanto tempo esse treinamento? E porque aqui é o único lugar seguro para nós?

–-Porque tem uma fronteira mágica, a árvore de Thalia, que mantém todos os monstros afastados. E bem, o treinamento dura enquanto vivermos.

Fiquei calada por um instante. Não queria comentar que não vira ninguém com mais de vinte anos. Nós não escolhemos ser semideuses, mas tínhamos que morrer cedo também?! Já não bastavam que você fosse fruto de uma relação qualquer de um imortal com um mortal? Não bastava que esse mesmo imortal tivesse um monte de relações e você um monte de irmãos? O mundo é injusto. Os deuses são injustos.

Caminhamos um pouco mais em silêncio. Colin me mostrou o lago –aquele mesmo lago perto de onde pousamos –onde eu vi alguns do que ele disse se tratarem de espíritos da água.

–-Faz tempo que andei de canoa pela última vez. –comentei enquanto admirávamos o lago.

Colin sorriu e disse:

–-E se déssemos uma volta? –ele pegou minha mão e me levou até uma canoa, amarrada numa árvore ali perto –Ainda temos algum tempo antes do jantar.

–-Seria ótimo. –dei um sorriso fraco. Muitas lembranças me invadiram de uma vez, mas eu não deixaria que elas estragassem a única parte legal do meu dia, afinal, eu também tenho o direito a um pouco de diversão.

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Remamos até o centro do lago, onde chegamos ao consenso que deveríamos deixar a canoa nos levar para onde ela quisesse. E então começamos a conversar. Falamos sobre tudo e não dissemos nada. Ficamos apenas ali, observando um ao outro, dizendo coisas simples e superficiais.

Colin me falou um pouco de sua vida. Ele tinha doze anos quando descobriu que era meio-sangue, e até então tinha levado uma vida normal –se é que a vida de uma criança problemática, com TDAH e dislexia pode ser chamada de normal. Descobriu que era filho de Apolo, mas nunca se encontrou com ele –e pelo que Colin me dizia, essa é uma realidade muito comum por aqui. Passou dois anos inteiros aqui, na colina, e esse ano decidiu voltar para o mundo mortal, e foi então que me encontrou.

Eu não falei muito sobre mim. Não sabia o que dizer, era tanta coisa, mas ao mesmo tempo tão pouca! Falei apenas o trivial. Que tinha catorze anos, que era nova na cidade, essas coisas.

Seguiu-se de um momento de silêncio e eu me peguei olhando para os chalés.

–-Como nos separam em chalés? Por ordem de chegada? –falei –Tipo, os antigos estão nos primeiros chalés ou coisas assim?

–-Não. –ele sorriu –Isso seria estranho. –dei os ombros. –Somos separados de acordo com os nossos pais olimpianos. Eu e todos os outros filhos de Apolo somos do chalé 7.

–-E eu? –perguntei –qual é o meu chalé? Não sei quem é o meu pai. Não sei nem se é pai ou mãe.

–-Você é indeterminada. Ficará no chalé 11 até descobrirmos. Ele é o chalé de Hermes, o deus dos viajantes. É pra lá que todos os indeterminados vão.

–-E ficam lá por quanto tempo?

–-Ninguém sabe. –seu rosto ficou pesaroso. –Tem gente que fica um dia, tem gente que nunca sai de lá.

Então quer dizer que além de morrermos antes dos vinte, também podemos nunca ser reconhecidos pelos nossos pais?

–-Quer dizer que já não basta nos colocarem nesse mundo, têm que também nos esquecer aqui? –esbravejei.

–-Os deuses são muito atarefados. –Colin disse amargamente.

–-Queria que eles fossem para o inferno com essa idiotices deles. –resmunguei.

Colin sorriu e ficou de pé, na canoa.

–-Que os deuses vão para o inferno! –gritou.

Eu sorri e também me levantei e gritei:

–-Que os deuses vão para o inferno!

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Enquanto amarrávamos a corda da canoa, ainda riamos do que dissemos. Foi um ato de rebeldia, insignificante, talvez, mas ainda sim fez nos sentirmos bem. Nada como mandar alguém ir ao inferno, quando se está com raiva.

E então uma corneta soou. Era hora do jantar. Colin sorriu para mim e disse:

–-Duvido que você me alcance! –e começou a correr em direção ao pavilhão de refeitório.

E eu corri atrás dele.