Metamorfose
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Era uma cidade qualquer sob posse do território aéreo do Brasil. Como ficava exatamente acima da antiga região Norte do Paraná, fora batizada de Londrina em homenagem a maior cidade dessa região.
Inacreditavelmente o território brasileiro era muito valorizado nessa época, e, por causa disso, os que mandavam no território tinham mais controle que qualquer outro no mundo todo. Na verdade o que acontecia era que brasileiro sempre fora uma raça muito perseverante conforme os ditados populares, porém tinha o péssimo ato de agir apenas quando a água batia no traseiro a ponto de formar um aquário lá dentro. Pois bem, a água bateu no traseiro e eles tiveram que tomar providências, então correram atrás das providências com muita perseverança. Conseguiram algo.
Londrina não tinha deixado de ser o abrigo dos japoneses-brasileiros, já que esse é o tipo de gente que sempre teve dinheiro no bolso. A grande maioria pôde migrar para uma cidade aérea próxima assim que aconteceu o evento, garantindo a vida inteirinha. Mas ela já não era tão conhecida pelo abrigo dos japoneses-brasileiros, pelo contrário, ela tinha o pior defeito que toda a humanidade poderia desejar ter: pela necessidade de muito dinheiro e a falta de espaço, tiveram a brilhante ideia de criar uma usina de exploração de elementos bizarros muito próxima a um hospital importante. Os dois ficavam no mesmo quarteirão, eram separados por alguns metros, uma cerca e mais alguns metros.
Era ano novo, porém não era tempo de escapar das barriguinhas cheias de água e um bebê em desenvolvimento de bônus. Havia várias mulheres grávidas, como de costume, naquele hospital próximo à usina. Afinal, ele era realmente importante. Era um hospital público e era para onde a grande maioria da população, que não tinha árvores de dinheiro em sua casa, ou simplesmente não tinha um emprego, ia.
Uma das grávidas se destacava por ser frequentante assídua daquele hospital. Ela tinha sofrido por várias doenças dos níveis graves, muito graves, gravíssimos, mortais e “eu-realmente-sobrevivi?”. Sobrevivido a todas, por motivos óbvios. Ela tinha meros dezesseis anos e tudo isso catalogado e, para estourar a lista, uma gravidez.
Era uma garota bonita e obcecada por vestidos. Sim, vestidos. Tinha brilhosos olhos azuis e um cabelo um pouco longo, até a cintura, da mesma cor. De fato as modas para cor de cabelo haviam mudado bastante, mas aquilo não deixava de ser bonito, não mesmo. Um rosto tão branco quanto leite puro, sem nenhuma espinha ou qualquer outro defeito que os adolescentes costumavam ter desde o século zero. E por fim um vestido simples, branco, mesmo que estivesse em uma cama de hospital.
Para a gravidez não ser saudável e contradizer toda a sua vida, ela estava acompanhada de uma doença que mantinha seu corpo em uma temperatura baixíssima. Baixa demais para boa parte dos corpos humanos não aguentarem, mas ela resistia sem muitos problemas, dava a desculpa de que seus garotos a aqueciam com seus chutes ardidos. Os garotos: eram gêmeos, para piorar ainda mais sua situação; estranhamente eles não sentiam muito frio, mesmo que o corpo de sua mãe parecesse um pólo norte e eles estivessem no subterrâneo. O útero aparentemente estava imune àquela doença.
No dia, ela estava com seus pais, comemorando o ano novo apesar das circunstâncias. Os três pareciam bem felizes, mesmo que os pais estivessem preocupados com a saúde de sua filha e com os futuros netos, já que criança cuidando de criança não daria muito certo. Ela também se preocupava com seus filhos, mas agora que estavam na sua barriga, já não se importava se conseguiria cuidar ou não e sim como iria cuidar.
- Ainda não acredito no que fizeram comigo... Eu sou bagunceira e tenho lá minhas encrencas, mas não merecia tudo isso que está acontecendo comigo. — disse ela. Mesmo que estivesse no meio de uma comemoração, o fato de estar grávida sem que quisesse e sem condições de estar a deixava triste. E a quem não deixaria?
- Mas filha... Diga-me, como você fez para quebrar o lacre? — perguntou seu pai, se referindo ao sistema de lacres que havia sido inventado uns tempos depois das cidades aéreas. Um simples método que trancava o útero da mulher para que nada entrasse, e que funcionaria até que ela pedisse para remover a tranca — Não há a possibilidade de você ter desejado isso... Não é?
- Não! Eu não sei, nem os médicos sabem o que aconteceu comigo... Mas agora não importa mais! Eu espero que eles sejam bem, mas muito fofos, que eles fiquem perto de mim boa parte da vida deles e...
- Para de sonhar, filha, essas coisas são mais complicadas do que você imagina. — interrompeu a mãe, vendo como ela estava delirando com tudo aquilo e futuramente poderia cair do cavalo.
Um tempo se passou e o pai saiu do quarto, deixando um pouco a mãe a sós com a garota. As duas apenas trocaram olhares: a mãe um pouco deprimida, a filha começando a ficar com medo da situação. Sabia que não tinha como escapar, já que não era qualquer coisa. Eram seus filhos.
- Mãe... O que eu faço? — perguntou ela, um pouco desesperada apenas de continuar quieta.
- Filha... A culpa não é sua, não mesmo. Se fosse qualquer cachorrada entre você e um garoto, nós já teríamos chutado seu traseiro tanto que você se arrependeria em todos os sentidos possíveis de ter feito isso... Mas o que aconteceu foi um estupro, não há culpa sua nem dessas crianças no caso, nós te ajudaremos a cuidar dele. Se Deus quiser. — respondeu ela, sentando-se na cama onde estava a menina e a botando em seu colo. Botou uma de suas mãos em sua testa e deixou a outra quieta, parada.
Aos poucos a menina foi ficando mais calma, substituindo o rosto assustado por um deprimido, como se fosse uma ressaca do medo que estava sentindo.
- Mãe... Eu tô com medo, muito medo, tira isso de mim? — perguntou ela, com um tom de voz aterrorizantemente triste.
- Vai dar tudo certo.
Vários dias se passaram desse ano novo, praticamente um mês.
Era madrugada do dia 28 e a garota estava dando a luz a seus dois garotos. No momento não sabia o que pensar, não sabia se estava pensando, não sabia se pensaria. Estava assistindo e sentindo, apenas isso, nada mais. Era uma dor normalmente insuportável, mas ela não a sentia completamente, o que mais sentia era que seus filhos sairiam de dentro dela e nada mais.
Depois de uns instantes, um deles saiu. Em seguida, o outro.
- Nasceram, nasceram! — gritou um dos médicos, retirando um deles com suas mãos e aguardando outro médico pegar o outro. Óbvio, o outro o pegou.
- São... São meus filhos?! — perguntou, desesperada, a garota. Não estava com muita noção do que era lógico, ilógico, nem se sua pergunta era óbvia ou não. Ela queria saber, queria ver, queria pegar... Na verdade estava desesperada pra fazer isso — Deixa eu ficar um pouco com eles, por favor!
- Está vendo aquela pequena câmara de vidro, ao seu lado? — disse o médico com o primeiro garoto nas mãos, apontando para um cubo de vidro que tinha o lado de cima funcionando como uma tampa e alguns pequenos buracos dos lados para entrada e saída de ar. Lá dentro havia um colchão minúsculo e um travesseiro, e fora uma mesa o mantendo alto e com dois pares de pernas com rodinhas. Então botou o bebê que estava carregando lá dentro e tampou o cubo. — Deixaremos os dois aí dentro por um tempo. São muito frágeis, mas também não seria justo deixá-los longe de você, que é a mãe.
- Obrigada. — respondeu ela, sem ter muito mais a fazer.
O outro médico colocou o bebê que estava carregando no cubo do lado oposto e não comentou nada, apenas se retirou da sala como se tivesse simplesmente cumprido sua missão. Não estava errado.
Depois de um tempo a garota ficou a sós com seus bebês. Olhava um e estampava um sorriso no rosto, depois olhava o outro e fazia o mesmo. Ambos dormiam como anjos, ou como projetos de anjos. Ela decidiu se manter acordada, ainda que sentisse frio, pois só dormiria em paz quando seus filhos estivessem totalmente seguros. Provavelmente um dos traumas mentais que tinha se iniciado após o incidente que causou os pequenos garotos, era normal para uma anormal como ela se sentir insegura a não ser que esfregassem na sua cara e repetissem o ato para que confirmassem sua segurança.
Talvez nem isso.
Notas finais
Mas eu já reescrevi isso uma vez, e só farei outra vez quando a história estiver pronta. Ainda assim, apesar de curto, é um bom capítulo.
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