Metamorfose
7 Doença
Ainda era uma maravilhosa manhã de terça-feira na cidade de Londrina. Os dois paranormais que compartilhavam a mesma escola estavam na mesma floresta, em frente ao mesmo chafariz, sendo a diferença apenas a posição exata e a situação de cada um. Hércules estava despertando, não muito bem. Assim que acordou, passou a caçar ar por todos os lados como se estivesse se afogando. Depois voltou a respirar como uma pessoa normal e passou a observar que estava de frente com o chafariz. Estranhou. Então, não sabendo por que, teve a sensação de que estava sendo observado e passou a explorar o lugar com os olhos ainda mais. — Não precisa ficar assim... Sou apenas eu. — disse Ísis, sentada em cima de um galho de árvore bem alto.
— O que aconteceu? Do nada eu fui atacado por raízes de árvore e... — Me desculpa, é que eu não bem controlo elas. — interrompeu e respondeu ela, cabisbaixa — Eu apenas sinto a presença de alguém no solo em momentos inoportunos e aí acontece. — Ah sim... Mas whoargh, ainda está doendo bastante. — comentou ele, passando uma de suas mãos sobre o estômago e sentindo que tinha sido cortado no lugar. Ótimo, mas não era só isso, estava sentindo uma forte dor de cabeça também. E era o que mais o preocupava mesmo. Ísis também viu que ele estava estranho e desceu da árvore, preocupada. Aproximou-se do amigo e o observou: seu rosto estava um pouco vermelho. — Está se sentindo bem... Ou melhor, poderia me contar o que está acontecendo? Não parecem ser apenas alguns cortes. — disse a garota, não se importando muito com a pergunta que tinha acabado de fazer e botando uma de suas mãos na testa do garoto por causa da cor suspeita de seu rosto. Depois notou que estava absurdamente quente, mas não sabia se fazia parte da temperatura natural do garoto, que manipulava fogo, então decidiu perguntar — É normal você estar tão quente? — Eu não sei... Nunca parei para prestar atenção na minha própria temperatura. Por quê? — Você deve estar com febre... — Peraí, isso não me parece possível. Digo, eu nunca tive febre em toda minha vida! — disse ele, espantado e estranhado com aquilo. Parecia estranho se espantar com uma simples febre, só que o problema era que ele realmente fora sincero quando disse que nunca tivera febre antes. — Calma aí, não precisa se agitar... Febre passa rápido. Sente frio? — Sim... E é estranho. Tipo, eu sei e sinto que está quente, mas mesmo assim estou com frio. — Também é bem comum da febre... — disse ela, finalmente retirando a mão de lá da testa do menino antes que a mão precisasse de uns copinhos de gelo para se recuperar — Mas será que fui eu que causei tudo isso? — Sei lá, mas eu duvido um pouco... Pode ser que tenha algo a ver com psicológico, ou sei lá o quê. Eu ando meio depressivo ultimamente mesmo. — Depressivo? Mas ontem de manhã você estava normal... O que aconteceu? — perguntou ela, meio receosa porque, apesar de amigos, os dois não se conheciam há muito tempo e isso poderia ser cretino de sua parte. Mas enfim, tinha que arriscar. — Ontem descobri que não estamos sozinhos, da pior forma... Ficou sabendo do incêndio no cassino da região? — Fiquei sim, prossiga. — Então... Eu estava atuando lá e encontrei um cara que estava me impedindo de apagar as chamas. E o pior, ele era praticamente um espelho, meu retrato com umas franjas a menos. — Quer dizer que você tem um... — Não sei ao certo, aliás, só pensei nisso até agora e não encontrei a solução. — Mas se tem gente como nós cometendo crimes desse tipo, então é possível que existam realmente paranormais que querem se aproveitar e muito de seus poderes? — É possível, e é possível que tenham algum plano também. Não era um só, e cassino é uma bela fonte de dinheiro. O sinal do intervalo, então, finalmente tocou. A escola funcionava de um jeito simples: duas aulas, um intervalo, mais duas aulas, outro intervalo, mais duas e a saída; era muito mais funcional que muitos outros sistemas por aí. Porém um intervalo, no momento, era algo preocupante. Ísis não sabia como as plantas reagiriam dessa vez, já que ela não estava no meio de pessoas e qualquer passo novo na floresta possivelmente seria tratado como invasão. Hércules também se preocupou, mas ao contrário dela, esboçou um sorriso no rosto e tentou encontrar uma solução. Não conseguiu. Então resolveu apelar para o mais lógico. — É agora que você vai ter de mostrar que é a rainha das plantas. — Pois é... Tenho que tentar. — respondeu ela, um pouco mais animada, mesmo que ainda mais preocupada porque notara que alguém observaria tudo caso ela falhasse. Ela fez um sinal com as mãos, fechou os olhos e respirou fundo. Logo sentiu a presença de pessoas por causa das plantas, então passou a se esforçar mentalmente para ordenar que as raízes continuassem quietas. Precisavam ficar quietas, era uma ordem. Nenhum deles ouviu barulho algum por um bom tempo, o que os deixou bem mais animados. Quando menos percebeu, Ísis enxergou algum estranho vindo em sua direção, provando que tinha dado tudo certo.
— É... Acho que consegui. — Uma dor de cabeça a menos, afinal. Mais tempo se passou e o intervalo, enfim, acabou. Ísis não resistiu e acompanhou o resto dos alunos para sua sala, enquanto Hércules continuou matando sua aula para tentar se livrar daquele maldito pensamento. Enfim, não conseguiu. Ainda mais tempo se passou e, para a alegria de quase todos os alunos, o dia letivo de todos acabou. Finalmente Hércules pode voltar para sua casa sem ser taxado de vagabundo se tivesse alguém lá, e foi isso o que fez. Ou tentou fazer: uns tempos depois, já atravessando parte da floresta, esbarrou com o irmão de Ísis que estava acompanhado de mais dois garotos da mesma altura. Ele não pareceu ter gostado muito de trombar com Hércules, e como era maioria, decidiu alertar seus amigos disso. — Qual é a sua! — disse ele, dando sinal para os outros dois. — Espera aí... É o piá desgraçado que tá se engraçando com a minha irmã, e que tentou me bater! Vamos te ensinar como as coisas funcionam! — Epa, fazia tempo que não pegávamos um trouxa pra bater! Hércules então observou aquilo, um pouco risonho, e comentou em um tom bastante sarcástico.- Estão falando de mim? — Mano... Tu tá tirando? — disse o outro, bastante irritado com a provocação — Vamos atrasar sua merda, cara! — Tipo, olha como eu ligo MUITO pras suas ameaçazinhas... Por que não larga de parecer retardado e vem logo? Nenhum deles aguentou a provocação e investiu contra o poderoso paranormal. O irmão de Ísis estava com o punho fechado e os outros dois com as pernas preparadas e bem malhadas para um chute, mas Hércules continuava rindo e preparara algo especial para os três.Mostrou assim que um chegou perto, o que não demorou nenhum instante: deu discretos passos para um lado, pegou ele pelo pescoço e o jogou em direção ao outro. Eles se colidiram e caíram, ambos, no chão. De longe parecia absurdamente divertido. — Já está bom por hoje ou... Espera, ainda tem você. — disse o paranormal, vendo que o irmão de sua amiga de repente estava parando seus movimentos e mudando sua direção para longe dali — Ou não. — Filho da mãe, ainda vai ter troco! — gritou ele, já um pouco longe e com muita raiva, como sempre mostrou desde o início. Então, pela segunda vez no ano, o garoto paranormal saiu da escola. Mas dessa vez tinha alvos diferentes e objetivos diferentes: queria admirar um pouco a cidade que tinha, ou passar por ela para outras coisas, mas tinha que passar por lá. Atravessou algumas rotas e logo chegou ao lugar que queria. Era o centro da região e, só de vista, já parecia uma cidade a parte. Provavelmente seria um lugar impossível para tráfego aéreo já que os prédios eram absurdamente gigantes e inúmeros, dos mais variados formatos, só não sendo completamente colados porque todos tinham ao menos um pequeno jardim para separá-los. Os asfaltos continuavam os mesmos e as calçadas também, com a única diferença de não estarem destruídos pelas mãos de vândalos. Hércules estava em um lugar até bem deserto, sem muitas pessoas, apesar de uma ou outra o observando por ainda estar com a calça em pleno dia desgraçadamente quente. Ou talvez não, já que era costume das mulheres mais safadas observarem os músculos dos homens porque eram grandes, então era só imaginar a situação delas vendo que um garoto de quatorze anos estava tão bombado quanto qualquer um homem com anos e mais anos de academia.Não que ele não soubesse das observações. Muito menos que passasse por ali só para garantir um lugar na cama de alguma delas quando ficasse maior e tivesse um carro. Simplesmente gostava do lugar. Porém ele não estava na melhor das situações mesmo. Tinha se livrado do pensamento sobre seu espelho vivo, já que era especialidade da cidade tirar a preocupação de pessoas futuristas r11; como Hércules, que amava aquilo mais que tudo, mas era impedido por palpites influenciáveis dos irmãos de seu pai adotivo, que acreditavam cegamente que tecnologia e sedentarismo demais eram o câncer da sociedade r11;, de tão exótica que era. Exótica mesmo, aos seus olhos. Tudo aquilo era contagiante, de certa forma, menos as pessoas. Aquilo era composto apenas de prédios e mais prédios, dos mais variados tamanhos e formatos r11; inclusive, curiosamente, muitos deles tinham formatos de objetos utilizados no cotidiano, como prédios finos como papel, prédios em forma de roupas e muito mais outros tipos. E as calçadas eram limpas e lindas, feitas de um material semitransparente estranho que dava a impressão de que era vidro com algo bege dentro. As ruas, bem, continuavam asfaltadas como sempre... Mas os buracos estavam ausentes, como consequência fazendo com que até o visual delas melhorasse consideravelmente.Mesmo assim estava com um de seus problemas recentes o atacando. Dessa vez o retorno triunfal da febre, com a desvantagem de não ter ninguém para alertá-lo dos problemas e ajudá-lo caso chegasse a um ponto crítico. Ele já sentia uma dor de cabeça intensa e até pensava em voltar, mas foi um pouco tarde: minutos depois de iniciar sua caminhada sofrida e forçada, o garoto desmaiou no meio da calçada sem nem mesmo perceber.
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