A manhã se passou quase inteira e Hércules, após uma bela caminhada, estava em seu aconchegante apartamento, dormindo no aconchegante sofá porque a cama parecia muito distante da porta quando chegara. O sono, bem, não seguia esse padrão agradável do lugar onde ele estava. Era um dos piores e mais bizarros pesadelos de sua vida.

Estava, de certa forma, revendo as cenas pelas quais passara nos últimos dias, especialmente a em que estava dentro daquele lugar totalmente branco. Só que ele tomava ações e decisões diferentes das que tomara antes, e então se via cada vez pior. Até mesmo pior que antes. Outra coisa que o incomodava era que cada vez que isso acontecia, sua visão ia ficando mais distorcida e embaçada, e as cores perdiam parte de seu tom.

Houve uma hora que tudo ficou preto e MUITO borrado a ponto de ele não enxergar quase nada. Então ele acordou.

Estava desorientado e meio assustado, além de, principalmente, estar se perguntando o que raios era aquilo. Logo percebeu que era um sonho e uma hora esqueceria, então tentou ignorá-lo para que fizesse isso mais cedo.

Também estava mal, palavra pessoalmente trocada por “ferrado” ou coisa pior. Não poderia sair de casa porque provavelmente estaria sendo procurado por toda a região por aqueles loucos, mas também não tinha nada para fazer ali dentro: tinha uma internet sem conteúdo algum em seu notebook velho, considerando que as criancinhas brincavam com retroprojetores que reproduziam jogos pesadíssimos e vídeos epicamente gigantescos, e ele não tinha ninguém para conversar virtualmente. Também não tinha videogame e continuava a xingar infinitamente seu pai por isso, já que seria a solução perfeita.

Momentos depois um barulhento alarme soou lá dentro. Aparentemente era isso o que as pessoas utilizavam para avisar que tinha gente esperando na portaria do prédio, ou no portão da casa. Muito incômodo para quem estava lá dentro, mas ao mesmo tempo perfeito porque não havia desculpas para não escutar. Porém nada era perfeito naquele momento, não para Hércules; não que tivesse ficado completamente paranóico, mas não gostava da idéia de terem descoberto até mesmo seu endereço. Por sorte havia câmeras em um cômodo ao lado da cozinha do apartamento.

Levantou do sofázinho bege, grande e confortável em que estava deitado. Ele ficava ao lado da porta de saída do apartamento e de frente com um telão enorme, aparentemente a televisão; e adicionando o outro lado outro sofá da mesma cor, bingo, a sala do menino estava formada. Era enorme, mas vazia, e isso era o que as pessoas gostavam.

Assim que o garoto se levantou com o alerta, caminhou até a bendita cozinha cuja porta ficava na parede atrás do sofá menor. E lá também era bem vazio para uma... Cozinha, que ainda tinha uma sala de jantar embutida. Na verdade uma mesa, enorme, feita com materiais rochosos, bem no centro junto com algumas cadeiras. Em sua frente havia uma pia, aparentemente feita do mesmo material, com um armário embaixo, um micro-ondas pendurado mais acima e uma geladeira consideravelmente grande ao lado.

Enfim prosseguiu para o corredor ao lado da mesa, chegando rapidamente a um quarto escuro cheio de monitores grudados na parede e uma mesa com vários botões. Aquelas eram as câmeras particulares dos donos de prédios e, junto com uns fones que não estavam a vista porque eram tão escuros quanto o quarto, formavam a trindade sagrada da informação sobre quem estava lá fora.

- São outros bombeiros e o velhote, risos. — comentou ele, até um pouco aliviado.

Liberou o portão e a porta de casa apertando alguns botões e logo os bombeiros, no caso dois, mais o velho bombeiro que cuidava do garoto entraram em casa; todos eles vestidos apropriadamente para um caso, provavelmente porque gostavam de atrair mulheres com aquele visual másculo, o que funcionava perfeitamente apesar desse truque já ter passado da época original. Todos eles um pouco estranhados com Hércules porque ele não tinha visitado seu “pai de criação” de um acidente, até que o mais extrovertido fez o comentário.

- Porra, por que você não visitou o velho?

- Acabei tendo uns contratempos... Mas já está resolvido, ao menos eu acho. — não, ele não achava, pelo contrário. Sabia que o pesadelo só tinha começado e sua cara mostrava isso, mas não era possível se enxergar em um espelho nem perceber isso completamente, apenas saberia que estava óbvio pela cara dos outros. Porém os outros, ao contrário dele, sabiam disfarçar.

- Está mesmo resolvido? — comentou o velho, com um sorriso disfarçado no rosto — Tá bom.

Mais e mais tempo se passou, sem nenhuma conversa interessante entre Hércules e os outros, até que esses outros se foram. Então mais tempo se passou sem nenhuma conversa interessante entre Hércules e seu chefe, até que esse foi dormir porque precisava de bastante repouso.

Já era início de tarde e o garoto continuava entediado. Já estava insuportável demais para ele, mas ainda morria de medo de sair e ser pego por algum dos poderosos lá fora. Mas aí um de seus lados perguntava pra ele se ele não era poderoso também, então outro respondia que eram vários contra um, mas aí esse lado voltava e xingava tudo e todos e dizia desesperadamente que queria sair. Isso estava o irritando profundamente, mas no fim tomou a decisão que achava correto.

- Vou sair, meu ódio no piru está insuportável!

Essa era mais uma das tardes ensolaradas daquele mundo, poderosamente ensolaradas, fazendo seu belíssimo efeito nas pobres pessoas que caminhavam pelas ruas e calçadas. Boa parte com um número bastante limitado de roupas, que por sua parte já nem pareciam roupas direito; a parte que tinha bastante roupas era composta basicamente de infelizes pessoas que precisavam andar formalmente pelas ruas porque eram mais importantes e, possivelmente, estavam a trabalho. Todas, sem exceção, suavam.

Todas também faziam movimento incontrolável, praticamente criando bolinhos de gente espalhados por uma forma gigante chamada “centro da região Norte de Londrina”.

Mas isso não importava, nenhum pouco. O garoto gostava de passear por ali porque o aliviava, fazia-o esquecer dos problemas e era esse o principal propósito de ter saído. Era infalível e as provas vivas estavam em sua mente, ou melhor, não estavam; ele nem lembrava da existência de um clone seu, nem de todos os outros problemas que tinha adquirido desde aquele dia.

Tempos se passaram novamente porque era o dia mais desinteressante desde sempre. O garoto seguiu pelo caminho absurdamente reto e cheio de prédios que estava até encontrar algo diferente: um quarteirão inteiro preenchido por uma pracinha cheia de árvores e bancos, com uma fonte no centro como na floresta da escola; de animais, apenas seres humanos e alguns pássaros acima das árvores. Não resistiu à proposta e se sentou em um dos bancos, passando a pensar mais uma vez em sua vida, mas ao menos um pouco mais relaxado.

Enfim, mais uma vez um bom tempo sem nada de interessante se passou, exceto o fato de Hércules considerar o pôr-do-sol algo bastante interessante e bonito. E, bem, de fato é, mas não tinha muita importância. Nem mesmo muitas horas se passaram a ponto de ser cinco ou seis horas da tarde, já que estavam bem mais altos do que estariam em terra, então o sol e a lua tinham passado a interagir em horário diferente do antigo.

Hércules já tinha raciocinado que conseguiria dormir perfeitamente se chegasse em casa no momento, então decidiu se levantar daquele banco confortavelmente feito de pedra para combinar com o visual natural da praça. Combinar. Hmpf, os traseiros não gostavam disso. Não, definitivamente odiavam isso. Levantou-se e passou a seguir o caminho de volta para sua casa.

- Droga. — disse ele, assim que deu alguns passos e entrou na estrada reta, percebendo que havia duas pessoas o seguindo. Ambos cheios de roupas, com penteados simples envolvendo cabelo curto com uma franja comum; ambos com meia máscara de teatro cobrindo metade do rosto, cada um usando em um lado; um de tamanho normal e outro absurdamente alto.

Acelerou um pouco seus passos e confirmou as suspeitas quando as pessoas aceleraram seus passos também. De fato estava sendo perseguido, e aquilo era horrível. Só não sabia o que fazer: se fosse para um lugar vazio seria atacado, se continuasse no movimento poderia ser atacado também porque eles não hesitariam em matar pessoas normais; não naquelas condições, eles queriam destruí-las de qualquer jeito. Tinha de ir para um lugar vazio, mas qual?

A salvação, ou destruição, apareceu quando Hércules encontrou uma viela entre dois prédios. Poderia inclusive pegar velocidade máxima e despistar os seres, até tinha planejado algo do tipo, mas assim que entrou nela percebeu que não havia nenhuma saída. Apenas uma grande parede, que dizia “te fode aí, nerdão” na prática.

- Ok, iniciou a temporada de caça ao Hércules, não é mesmo? — perguntou ele, se virando para trás e vendo que os dois estavam ali mesmo. Estava estressado, muito estressado, puto. Já estava cansado de pensar, pior, de PASSAR por aquela situação, faria algo alguma hora e não descartava a opção de ser naquela.

- Hm... Presumo que sim, jovem padawan. — respondeu o maior deles, com uma voz absurdamente robótica e, por mais estranha que a mistura fosse, adulta também.

- É lógico, fazê-lo cooperar conosco. — acrescentou o outro, com uma voz adolescente comum, como a de Hércules. Bem feliz e sarcástica, ao contrário de seu colega que estava indiferentíssimo.

- Cooperar com o quê? — insistiu Hércules, para que finalmente recebesse a maldita resposta com detalhes e ele pudesse negar com toda a certeza.

- Vamos mandar nesse planeta inteiro e você vai nos ajudar ao invés de atrapalhar como vem nos atrapalhando, simples assim. — respondeu o garoto.

- Não, simples assim. Eu posso até parar de atrapalhar, nem queria fazer isso pra falar a verdade, só fiz aquilo por acaso... Agora cooperar com vocês não. Sabe, eu gostaria muito de ser um personagem clichê de uma historinha barata, e aliás, até sou dependendo do ponto de vista, mas eu luto pra não ser a coisa mais manjada o possível. E viver em paz sem fazer nada faz parte da minha luta.

- Tudo isso que você sabe fazer não vai te dar uma gota de paz, dica. Mas tudo bem, se não aceitou a proposta, levar-lhe-iremos a força. — terminou o homem de voz robótica.

O garoto então jogou sua máscara para o alto e mostrou seu rosto, brilhantemente branco e com um nariz bem grande e pontudo o destacando de todo o resto. Em seguida levantou um de seus braços na mesma direção. Dois buracos finos e longos se abriram, no centro de cada lado, em sentido horizontal. De cada um deles saiu uma afiadíssima e bem-polida lâmina.

Então levantou um de seus pés e fez com que uma roda saísse de seu tênis, em seguida fez o mesmo com o outro. Tudo isso com um sorriso clichê de “eu-vou-te-pegar-agora” estampado no rosto.

- Maquininhas? — perguntou Hércules, se arrependendo profundamente de estar daquele lado da viela porque não poderia escapar enquanto eram feitos os preparativos para iniciar uma luta. No entanto, tinha um sorriso de quem poderia ter uma luta feliz dessa vez, já que ao menos estava preparado.

- Meu corpo é composto por metais, só adiciono apetrechos.

- Antes de começar a piranhagem, o que o outro sabe fazer?

- Na verdade eu não sei fazer nada. — respondeu ele, com sua voz irritantemente indiferente como sempre.

- Ok, foi ótimo conhecer vocês. Agora tenho que ir, entendem?

- Não não... Por que não fica para a festa?

Assim que o garoto menor disse isso, retirou de seu bolso três bolinhas prateadas e as jogou em Hércules, que previu algo estranho e deu alguns passos rápidos para o lado. Elas então explodiram, sem surpreender o paranormal prevenido. De certa forma ser desconfiado tinha suas massacrantes vantagens.

- Mais apetrechos, hã? Ok, se insiste tanto, ficarei um pouco.

- Ótimo, aceite mais dos meus bombons.

Ele atirou mais de suas bombinhas em Hércules, que desviava dos modos mais fáceis que podia, até que uma hora acertou o estômago do outro homem com a cabeça sem saber como raios ele tinha parado em sua frente. Ao menos o machucaria profundamente. Ou não, ele não pareceu sentir algum tipo de dor com aquilo, bem pelo contrário, conseguiu rebater com um soco em seu rosto com a maior facilidade do mundo.

E no chão estava um garoto pirotécnico, com o rosto vermelho e um pouco amassado. Estava bastante estressado também. Não sabia porque uma cabeçada no estômago não surtiu efeito em alguém, era um poderoso golpe contra qualquer um.

- Mas que puto... O que foi isso?!

- Eu não sei fazer nada, meu corpo não sabe sentir nada também.

- Bah, ótimo.

Então, pelo fato dos inimigos não serem retardados que perdiam tempos e tempos conversando, Hércules recebeu outro golpe poderoso nas pernas. Suas duas canelas foram atingidas por pequenos discos de metal que quase acabaram com os ossos do pobre paranormal naquele mesmo instante, e só não o fizeram porque não havia força suficiente da parte do arremessador; talvez o garoto de metal não tivesse tanta força, ou talvez fosse um golpe proposital. Quem ligava? Estava doendo horrores e não era como se essa dor desse chances para o pirotécnico agradecer a alguma entidade por não estar aleijado, não faria o menor sentido porque antes ele a xingaria infinitamente pela atual situação de sua vida.

Mas enfim, teria de agir. Com dores, com as piores dores do mundo, com o inferno se procriando dentro de sua perna. Era hora de agir, pior, a hora de agir estava na página passada e ele não tinha notado isso.

Então agiu. Deu dois fortes tapas no chão rochoso daquela viela e, sem contar mais uma dor passageira nas mãos, criou duas enormes labaredas abaixo de cada um de seus inimigos. Um deles não ligou porque não sentia e não iria danificar seu corpo, sua expressão feliz mesmo naquela situação só deixava óbvio que ele não simplesmente não sentia nada, já que se fosse apenas isso evitaria sofrer aquele tipo de coisa para que não caísse morto no chão do nada; o outro, que estava bem mais distante, não fazia idéia de que um golpe daquele viria e sofreu um aumento de temperatura terrível e instantâneo no seu corpo metálico.

- Desgraçado! — disse ele, assim que se jogou para um dos lados para que as chamas não o esquentassem ainda mais, furioso com a temperatura que tinha adquirido em meio segundo — Whargh, Gian, faz alguma coisa, eu não estou bem!

- Eu vou fazer, simplesmente cale a boca.

O garoto com a voz robótica, Gian, atacou como prometido. Investiu contra Hércules, que já tinha conseguido se levantar parcialmente com a perda de tempo dos dois inimigos conversando, com boa parte da potência que seu corpo podia oferecer. Mas o corpo de Hércules também tinha bastante potência a oferecer e ele a usou para se disparar também, na direção oposta, já que tinha trocado de lugar com os inimigos enquanto lutava e o caminho para fora da viela seria uma bela opção para uma paz momentânea.

- Filho da puta! Merda, não podemos perdê-lo! — gritou o garoto metálico, provando que era o mais escandaloso do grupo.

- Mas que merda, eu sei... Danou-se tudo agora, dá uma olhada no movimento que vai ter ali mais pra frente... Ele vai escapar!

- Corre atrás dele então, caralho!

- Não vale a pena.

E foi esse o fim da perseguição. Hércules escapou para o meio da população fora da viela, onde logo mais a frente em seu caminho o movimento estava absurdamente alto e não haveria sequer espaço para brincar de pega-pega, quanto mais uma perseguição. Os dois permaneceram no local até o consenso de entrarem no meio das pessoas para irem embora chegar, o que não levou muito tempo.

Notas finais

Sérios problemas pra botar coisas aqui. Tenso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.