Metades
1 Ítala e o Dragão
Nascida numa família pobre, Ítala tinha uma única chance de melhorar a situação de sua vida. Apesar da falta de recursos, a jovem tinha beleza e isso era a ficha que a fortuna tinha posto na sua mão para que a usasse da melhor maneira possível. Na vila que nasceu havia um mercador. Um homem mais velho, sem filhos ou esposa, que queria uma jovem que pudesse alegrar seus dias e lhe gerar descendência. Assim sendo, pareceu inevitável que Ítala não acabasse no leito nupcial com o mercador. Seu primeiro ano de casada transcorreu tranquilo, sem sustos, sem filhos e sem amor. A melhor visita que recebia era a solidão proporcionada pelas constantes viagens de marido.
A fortuna, que fez Ítala bela e fez o mercador rico, também proporcionou um encontro que mudaria para sempre a vida da jovem. Um dia, uma tarde, o sol estava perto de se pôr cobrindo tudo de alaranjado. Havia reflexos de fogo nas arestas do mercado, havia uma expectativa no ar. Um rastro de fogo, circulava no mercado. E nesse momento Ítala sabia que nada seria o mesmo. Um presságio, um arrepio na espinha que a caça tem quando pressente seu predador por perto. Mas não era um animal que ameaçava a rotina confortável da moça. Um forasteiro movia-se entre os aldeões como uma fênix se move entre os pardais.
Duas batidas de coração e uma vida inteira de ângustia aguardava uma camponesa ignorante. Numa oração, destinada a qualquer deus que a pudesse ouvir, brota um sussurro saído do fundo do desespero:
- Olhe para mim...
A sorte, o acaso e a maldição responderam ao mesmo tempo e o forasteiro viu uma mulher parada, no meio do mercado, com uma cesta em um dos braços e algumas verduras caídas no chão. Dos olhos vermelhos desse homem desconhecido veio uma chama que jamais se extinguiria do coração dela.
Antes que Ítala pudesse julgar se esse momento era real, ou fruto de algum gênio, o forasteiro estava aos seus pés, recolhendo as verduras do chão e as recolocava no seu cesto.
- Senhora? Permita-me ajudar...
- Eu... — o que dizer? Que palavras seriam grandes o bastante para traduzir esse momento? – eu agradeço, senhor.
Os olhos vermelhos dele queimando sua pele, a imensa vontade que tinha de abraçá-lo, a grata certeza que tinha vivido até ali somente para conhecê-lo. Sem dizer mais nada, o homem virou as costas e partiu. Ela ainda demorou ali mais uns instantes. Voltou para casa sem saber se sonhara ou não. Devia estar doente. A solidão às vezes afeta a pessoa de diversas formas. As verduras no cesto apodreceram quando ela decidiu que iria partir, a casa vazia a encorajou. Quando pôs o pé na soleira da porta viu a caravana do marido que surgia. Sua vontade falhou. Ele ficou na cidade por três dias e os três dias ao lado do marido foram muito mais longos que os dias que passou sozinha. Finalmente Ítala descobria o descontentamento em sequer sentar-se à mesa com o homem que casara.
Quando ele finalmente partiu ela arrumou suas coisas e saiu. Decidiu não tomar a estrada e seguiu pela floresta.
Ela não sabia para onde ia, mas sabia que não ficaria naquela casa, ela partiria, sumiria pelo mundo, como uma aventureira. Até que encontrasse o desconhecido. Enquanto andava já planejava o que diria, que palavras usaria. Um ruído a fez despertar do seu devaneio. Ao levantar os olhos viu que o estranho estava em pé, logo a frente. Um momento paralisada o fez perder de vista no mercado, a reflexão em demasia a prendeu em casa até a chegada do marido. Ítala havia aprendido com seus erros e sabia que momentos como esse poderiam não acontecer novamente. Correu em direção ao homem e desconhecendo tamanha ousadia o beijou na boca. O susto do homem de olhos vermelhos passou rápido e ele abraçou a desconhecida, retribuindo o beijo. Mesmo os grandes amores precisam de ar e aproveitando uma pausa da moça para respirar, ele a arrastou para uma caverna.
A manhã seguinte encontrou Ítala acordada. Seu corpo estava exausto e ela sorria para o homem que ressonava deitado no fundo da caverna. Ela entendeu que ele dormia ali, mas era provisório. Um tipo de acampamento improvisado. Pegou a capa dele, com gola de pelúcia e que chegava nos seus joelhos e olhou o mundo fora da caverna. Incrivelmente ele continuava o mesmo. Inacreditavelmente nada podia denunciar que ela havia descoberto um grande mistério: o amor enlouquecedor que os bardos cantavam era real. Aquilo que só existia para embalar festividades e beberrões era real. Ela sabia com cada músculo, com cada fio de cabelo, com a certeza de cada amanhecer.
Ali ela passou exatos três dias e a cada momento aprendia uma coisa nova e entusiasmante. Num momento de calmaria, percebeu o que era uma pequena escama na pele das costas do seu amante. Ele a beijou a levou para fora e ela surpreendentemente não enlouqueceu quando viu o grande amor da sua vida transformar-se num dragão vermelho.
Por que ter medo? É claro que esse homem não era apenas um homem. Era claro que esse era diferente e não era o seu amor por ele que o distinguia dos demais, ele era luminoso e perfeito. E só essa criatura majestosa estaria predestinada a lhe ensinar a amar.
Fora isso, não havia muito tempo para palavras. Tudo que precisa era estar ali, naquela caverna, até o fim dos dias. Ele trouxe comida, um pedaço mal cortado de caça, que preparou com uma baforada. Ela sorria, porque não havia mais espaço para nada. Não havia espaço para tristeza, insegurança ou temor. O mundo havia mudado e Ítala também.
No terceiro dia ela acordava novamente e novamente estava sorrindo. Tateou a manta e percebeu que o dragão não estava lá. Pegou a capa que já havia se acostumado a usar e saiu da caverna. O homem de olhos vermelhos não estava lá. Deveria ter ido caçar.
A primeira insegurança atravessou seu coração. Ele não deveria demorar muito e ela resolveu vestir-se.
Mas ele demorou. A noite havia chegado e ele não retornou.
No final do segundo dia de espera Ítala sabia que ele jamais retornaria. Retornar para casa seria impensável. Para onde ele teria ido? Por que a tinha deixado? As perguntas sucediam na sua cabeça numa velocidade que ela não conseguia acompanhar. No final do terceiro dia de espera ela se deitou no chão da caverna, para esperar o inevitável. Talvez tenha desmaiado, talvez tenha dormido, mas acordou quando estava sendo arrastada para fora da caverna. Gente gritava por toda parte e uma voz familiar a fez perceber quem a resgatava: seu marido.
Quando não há mais nada, quando não se tem mais esperança, quando tudo que resta é a casca… o que faz um humano continuar vivendo? Para Ítala a fonte da sua força foi saber, ao retornar para casa e seu marido a fazer ser examinada, que estava grávida.
Uma notícia que entusiasmou seu marido, que se supunha pai, mas que deu um sentido para que Ítala continuasse vivendo.
Fale com o autor