Metades
2 Outra vez na caverna
A gravidez de Ítala correu tranquila. Seu marido estava orgulhoso do primeiro filho, mas quando a criança nasceu, Ítala entendeu que a vida não seria tão risonha.
Como o suposto pai não foi permitido na sala de parto, a mãe teve alguns momentos para pensar numa estratégia. Sabia que a profissão do esposo lhe daria muito tempo longe da criança e ele nunca que iria querer dividir com ela os cuidados que todo bebê precisa. Assim sendo, provavelmente, nunca descobriria os dois pontinhos vermelhos meio escondidos pelo farto cabelo claro do recém nascido.
A previsão de Ítala estava certa. O mercador continuou viajando muito, não se envolveu com o cuidado diário da criança e não estranhou os constantes gorrinhos e touquinhas que a mãe habilmente cosia.
Mesmo que a expectativa de Ítala se mostrasse correta em relação ao segredo que envolvia o nascimento da sua criança, a esperança também encontrou pousada em seus desejos. Às vezes, quando o sol estava se pondo, ela podia ver por um instante mágico a cena na qual viu o dragão pela primeira vez. Mas sabia que ele não estava lá. Talvez nunca estivesse. Talvez nunca estivera. Às vezes duvidava do encontro e para se assegurar que os três dias na caverna foram mesmo reais, ela tirava o capuz do bebê e via os dois pontinhos vermelhos crescendo com o passar dos meses.
Os dias se seguiram como antes, mas agora a casa se enchia de brilho com essa criança que era uma lembrança viva do amor de Ítala. Essa lembrança mantinha a jovem forte. Foi com a força de suas lembranças que a jovem se entregou ao marido assim que o resguardo permitiu, amparada pela lembrança dos beijos do dragão ela aceitou deitar-se para o marido ter seus direitos garantidos. Quando a criança do dragão completou um ano, Ítala estava grávida do primogênito do mercador.
A sua segunda gravidez foi um alívio. A esposa grávida distanciava o mercador. Suas visitas conjugais escasseavam e até sua presença na casa diminuía.
Quando Lídio nasceu Ítala ficou mais tranquila.
Com o caçula na casa todas as atenções se voltaram para ele e a criança do dragão perdeu a atenção das visitas. Lídio era o novo protagonista daquela casa, “o filho do mercador que parecia com o mercador”, como disse um certo convidado indiscreto, desses que nunca alcançam a verdadeira nobreza, por mais dinheiro que façam com seus escambos.
E mais um ano transcorreu. Com tranquilidade para a casa e nenhuma tranquilidade para Ítala, que via a criança dracônica desabrochar em poder.
Então aconteceu o inevitável. Numa tarde escarlate como a que Ítala conheceu o dragão, o mercador descobriu que sua casa abrigava o fruto de uma infidelidade. O mercador fumava e olhava suas duas crias brincando tranquilamente na sala. Eles montavam um castelo com blocos de madeira, quer dizer, diziam que montavam, o aglomerado de blocos em nada se parecia com um castelo ou qualquer tipo de construção. Lídio, mais novo e menos habilidoso, derrubava constantemente as peças, mesmo quando elas eram colocadas há pouco nos seus lugares. Isso irritou a outra criança. Irritou mesmo. Seu trabalho minucioso, colocando as peças menores em cima da maiores era derrubado por seu irmão mais novo a todo instante. Seu descontentamento foi prontamente registrado quando um grito agudo saiu da sua boca e foi seguido por um jorro flamejante. O acidente não passou de um susto para Lídio, mas para Ítala foi o fim do segredo. O fogo acabou por incendiar parte da roupa da criança e com isso, sua touca também se incinerou.
O mercador viu um de seus filhos enfurecer-se e cuspir fogo, mas o que de fato assinalou a criança foi a descoberta dos dois chifres vermelhos despontando atrevidamente no alto da sua cabeça loira.
O mercador orgulhoso percebeu que só tinha um filho vindo de seu sangue. A cena que se seguiu foi apagada da mente das crianças, mas jamais se apagaria da mente de Ítala e demorou algumas semanas até se apagar da sua pele.
Com a mãe subjugada no chão, o mercador quis saber quem era o pai daquela abominação. Ítala entreabriu os lábios para contar a verdade e nesse momento, uma vez mais, a fortuna colocou uma hábil mentira na sua fala.O sangue que escorria por cima de um dos olhos incomodou, mas depois de gastar uma parte da sua ira batendo na esposa, o comerciante teve alguns segundos de paciência para esperar a mulher tecer a frase.
– Eu não sabia que não era você…
A ira do marido rapidamente encontrou novamente seu rumo e ele levantou a mão mais uma vez. Antes que um novo tapa descesse certeiro, ela completou a frase.
– Eu juro! Eu juro pela luz dos meus olhos! A súplica na voz de Ítala fez parar a agressão e a mentira foi ajudada pela beleza dilacerada da mulher.
Ítala contou como numa noite ouviu pancadas na sua porta e quando a entreabriu viu o marido sozinho lá. Ela estranhou o fato de ele não chegar com a caravana e de ter viajado de noite, mas o 'marido' respondeu que tinha tido saudade dela e por isso havia resolvido passar uma noite em casa. Ela então fez o que era esperado, serviu vinho ao recém chegado e deitou com ele. Na manhã seguinte, ela quase enlouqueceu ao perceber que aquele homem não era o marido, mas um dragão. Ela então correu de casa o mais rápido que pode e tentou se matar na floresta. Não teve coragem e entregou seu destino à Fortuna. Aí então ela foi resgatada pelo marido.
– Quando eu vi você vindo me buscar eu entendi que era essa a resposta que o mundo tinha para mim. Eu aceitei a minha sorte e voltei para casa. Quando descobri que estava grávida eu tentei contar, mas me faltou coragem.
O talento surge de maneiras estranhas. Para a criança do dragão seu talento para as artes mágicas surgiu numa brincadeira, para Ítala, o talento da representação nasceu desse momento de decisão. O mercador estava entre convencido e lisonjeado, pois, na fala da esposa, seu profundo arrependimento era adornado com os ramos enaltecedores do amor.
Embora inclinado a perdoar a esposa, ele não poderia admitir aquela aberração na sua casa, ameaçando a vida dos seus verdadeiros filhos.
– Vou ter que sumir com isso. Essa aberração não pode ficar aqui.
– Eu sei, eu sei... Mas se você matá-la agora todos saberão do meu erro.
Isso o mercador também não queria. Parte do processo de indulto a esposa também levava em consideração não colocar seu bom nome de mercador na boca dos maledicentes. Passaram alguns minutos de suspense, mas Ítala já tinha seu plano formado.
– E se... eu poderia levar a criança e deixá-la na floresta. Bem distante, nós vamos dizer que ela se perdeu lá dentro e vamos fingir procurar. Depois de um tempo todos vão esquecer... e não terão muito tempo para pensar nisso, pois você terá outro herdeiro em breve. Estou grávida.
O restante da cena se desenvolveu rapidamente. Contudo, o plano não fora totalmente esclarecido ao mercador, uma parte ficou sabiamente oculta. Na manhã seguinte Ítala aprontou a criança do dragão e disse que levaria os filhos para tomar sol. O mercador, contudo, disse:
– Lídio não vai. Ele fica aqui, só a outra criança precisa de sol.
– Mas, meu senhor...
– Lídio fica.
Em momento nenhum a jovem pretendia abandonar um filho seu na floresta. Ela pretendia ir embora com as duas crianças. Seus planos de fuga foram frustados, não poderia fugir só com a criança bastarda, não poderia deixar Lídio. Com os passos pesados ela pega a criança mais velha no colo e sai da casa. Conforme anda percebe que sua preparação foi inútil. As moedas de ouro chocando-se na dobra do vestido eram inúteis agora.
A fortuna não havia sido generosa com a moça nesse momento e ela não conseguia ver uma solução. A mente de Ítala fervia, a barriga de dois meses de gravidez estava naquela etapa de desconforto e enjôo, mas a criança dracônica ressonava no seu colo com a inocência de que seria sua característica por boa parte de vida. Ela entrou na floresta sem objetivo, tentando sair dessa situação de pouca sorte. Seus passos imprecisos acabaram por lhe guiar até uma caverna. A mesma caverna onde a criança adormecida em seu colo foi concebida. Essa caverna que foi cenário para o início da história da criança-dragão, também se tornaria cenário para o crescimento dela.
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