Notas iniciais
Oiee, Nem demorei dessa vez. Espero que curtam!!

Quatro dias depois que Quinn foi embora de Wilmington, Rachel teve outro sonho, dessa vez com Catherine. Elas estavam num campo à beira de um rochedo com vista para o mar. Caminhavam juntas de mãos dadas, conversando, quando Rachel disse alguma coisa que a fez rir. De repente ela largou a mão de Rachel e afastou-se. Olhando por cima do ombro e rindo, gritou para Rachel tentar alcançá-la. Ela fez isso, rindo também, experimentando uma sensação semelhante a do dia que tinham se casado.

Vendo-a correr, ela não pode deixar de notar como ela era linda, os cabelos refletiam a luz do sol, as pernas eram esbeltas e moviam-se de forma credenciada, sem esforço. Apesar de estar correndo, ela tinha um sorriso fácil e relaxado, como se estivesse parada.

– Venha me pegar, Rachel. Consegue me alcançar? – gritou ela.

O som de sua risada envolveu Rachel e soou como música aos seus ouvidos.

Ela foi chegando cada vez mais perto dela quando se deu conta de que Catherine se dirigia para o precipício. Em seu entusiasmo, ela parecia não perceber aonde ia.

Mas isso é ridículo, ela tem que saber, Rachel pensou.

Rachel gritou-lhe para que parasse, mas em vez disso ela se pôs a correr mais depressa.

Estava se aproximando da beira do abismo.

Com uma sensação de medo, ela viu que ainda estava longe demais para alcançá-la.

Correu o mais rápido que pôde, gritando que ela voltasse, mas ela parecia não ouvir. Rachel sentiu a adrenalina percorrer seu corpo, impulsionada por um medo paralisante.

– Pare, Catherine! – gritou, exausta. – O precipício! Você não está vendo aonde está indo!

Quanto mais ela gritava, mais fraca ficava a sua voz, até virar um murmúrio.

Catherine, alheia a tudo, continuava correndo. O abismo estava a poucos metros de distância.

Rachel estava chegando mais perto.

Mas ainda se encontrava longe demais.

– Pare! – gritou mais uma vez, embora soubesse que ela não conseguiria ouvi-la, porque sua voz sumira.

Nesse momento, o pânico que experimentou foi maior que qualquer sentimento conhecido. Com todas as suas forças, obrigou as pernas a se moverem mais depressa, mas já estava ficando cansada e elas se tornavam mais pesadas a cada passo.

Não vou conseguir, ela pensou aterrorizada.

Então, tão repentinamente quanto tinha se afastado de Rachel, Catherine parou. Quando se virou para encará-la, parecia alheia a qualquer perigo.

Estava parada a poucos centímetros do abismo.

– Não se mova – gritou ela, mas também dessa vez sua voz saiu num murmúrio.

Ela parou perto de Catherine e estendeu-lhe a mão, ofegante.

– Venha para cá – pediu – Você está muito na beirada.

Ela sorriu e olhou de relance para trás de si. Percebendo como estava perto de cair, tornou-se a se virar para Rachel.

– Achou que ia me perder?

– Achei – disse Rachel em voz bem baixa. – E prometo nunca mais deixar isso acontecer.

##

Rachel acordou, sentou-se na cama e ficou acordada por horas a fio. Quando finalmente adormeceu outra vez, teve um sono agitado e só conseguiu se levantar às dez da manhã. Ainda exausta e sentindo-se deprimida, achou impossível pensar em qualquer coisa além do sonho. Sem saber o que fazer, ligou para o pai, que foi encontrá-la no lugar de sempre para tomarem café da manhã juntos.

– Não sei por que estou assim – disse ela depois de alguns minutos de conversa amena com Leroy. – Não consigo entender.

O mais velho não respondeu. Em vez disso ficou observando a filha por cima da xícara de café e permaneceu em silêncio, enquanto ela continuava:

– Ela não fez nada que me incomodasse. Acabamos de passar o fim de semana juntas, e eu realmente gosto dela. Conheci o filho, também, e ele é ótimo. A questão é que... não sei. Não sei se vou conseguir continuar com isso.

Rachel ficou em silêncio. O único som vinha das mesas em volta deles.

– Continuar com quê? – perguntou Leroy por fim.

Rachel mexeu seu café distraidamente.

– Não sei se posso vê-la de novo.

O pai levantou uma sobrancelha, mas não disse nada. Rachel prosseguiu:

– Talvez não seja para ficarmos juntas. Quero dizer, ela nem mora aqui. Está a mais de mil quilômetros de distância, tem a própria vida, os próprios interesses. E aqui estou eu, levando uma vida totalmente separada da dela. Talvez ela se desse melhor com outra pessoa, alguém com quem pudesse estar sempre.

Pensou no que tinha dito, sabendo que ela própria não acreditava muito nisso. Mesmo assim, não queria contar o sonho ao pai.

– Quero dizer, como vamos construir um relacionamento se não vamos nos ver com frequência.

Mais uma vez Leroy ficou calado. Rachel continuou como se falasse consigo mesma:

– Se ela morasse aqui e pudéssemos nos ver todos os dias, acho que eu me sentiria de outra forma. Mas com ela longe...

Não completou a frase, tentando entender os pensamentos. Depois de algum tempo tornou a falar:

– Simplesmente não sei o que poderemos fazer. Pensei muito, e não vejo como isso poderia dar certo. Não quero me mudar para Boston, e tenho certeza de que ela não quer vir para cá. Em que pé isso nos deixa?

Rachel calou-se e esperou o pai dizer alguma coisa – qualquer coisa. Mas Leroy ficou em silêncio por um longo tempo. Por fim, Rachel suspirou e desviou os olhos.

– Parece que você está inventando desculpas – falou Leroy, baixinho. – Está tentando se convencer e está me usando para escutar o que você mesma diz.

– Não estou, não, pai. Estou só tentando entender a situação.

– Com quem acha que está falando, Rachel? – Leroy balançou a cabeça. – Juro que às vezes acho que você não aprendeu nada com a vida. Mas sei exatamente o que está acontecendo. Você ficou tão viciada na solidão que tem medo do que possa acontecer se encontrar outra pessoa que consiga tirá-la disso.

– Não estou com medo – protestou Rachel.

O pai interrompeu-a:

– Não consegue admitir nem para si mesma, não é?

A decepção em sua voz era inconfundível.

– Sabe, Rachel, quando a sua mãe morreu eu também inventei desculpas. Ao longo dos anos disse a mim mesmo todo tipo de coisas. E quer saber aonde isso me levou? – Ele encarou a filha. – Estou velho, cansado e, acima de tudo, solitário. Se eu pudesse voltar no tempo, mudaria muitas coisas em mim, e não vou deixá-la cometer os mesmos erros de jeito nenhum.

Leroy fez uma pausa antes de prosseguir, em tom mais suave:

– Eu estava errado, Rachel. Errei ao não tentar encontrar outra pessoa. Errei ao me sentir culpado em relação à sua mãe. Errei ao continuar vivendo como vivi, sempre sofrendo e imaginando o que ela teria pensado. Porque sabe de uma coisa? Acho que sua mãe iria querer que eu encontrasse outra pessoa. Iria querer que eu fosse feliz. E sabe por quê?

Rachel não respondeu.

– Porque ela me amava. E se acha que sofrendo do modo como vem sofrendo está mostrando seu amor por Catherine, então em algum momento eu errei na sua educação.

– Você não errou...

– Devo ter errado. Porque quando olho para você eu vejo a mim mesmo e, para ser honesto, preferia ver outra pessoa. Gostaria de ver alguém que aprendeu que é normal seguir em frente, que é normal buscar uma pessoa que possa fazê-la feliz. Mas neste momento é como se eu tivesse olhando para um espelho e me vendo vinte anos atrás.

##

Rachel passou o resto da tarde sozinha, caminhando na praia e pensando a respeito do que o pai dissera. Olhando para trás, constatava que desde o início da conversa ela fora desonesta, e não se surpreendia pelo fato de o pai ter descoberto isso. Ora, então por que ela quisera conversar com Leroy? Será que queria que o pai o contradissesse, como de fato acontecera?

À medida que a tarde passava, sua depressão foi substituída pela confusão e depois por uma espécie de apatia. Quando ela ligou para Quinn, à noite, a sensação de traição que experimentara como resultado do sonho tinha diminuído o suficiente para que ela conseguisse conversar com ela. Aquele sentimento, embora presente, já não era tão forte, e, quando Quinn atendeu ao telefone, diminuiu ainda mais. O som da voz dela lembrou-lhe o modo como ela se sentia quando estavam juntas.

– Que bom que ligou! – exclamou Quinn, com alegria. – Pensei muito em você hoje.

– Eu também pensei em você – respondeu ela. – Queria que estivesse aqui agora.

– Você está bem? Parece um pouco desanimada.

– Estou ótima... Só com saudades. Como foi seu dia?

– O de sempre. Coisas demais para fazer no trabalho, coisas demais para fazer em casa. Mas agora ficou melhor, falando com você.

Rachel sorriu.

– Tommy está por aí?

– Está no quarto, lendo um livro sobre mergulho. Disse que quer ser instrutor quando crescer.

– De onde será que ele tirou essa ideia?

– Nem imagino – retrucou Quinn, achando graça. – E você, fez o que hoje?

– Nada demais. Não fui à loja. Tirei o dia de folga e passeei pelas praias.

– Sonhando acordada comigo, espero.

A ironia do comentário dela não passou despercebida por Rachel. Ela não respondeu de forma direta:

– Senti muito a sua falta hoje.

– Só faz poucos dias que vim embora – comentou a loira com delicadeza.

– Eu sei. Falando nisso, quando vamos nos ver de novo?

Quinn sentou-se à mesa de jantar e deu uma olhada rápida em sua agenda.

– Que tal daqui a três semanas? Eu estava pensando que desta vez você poderia vir para cá. Tommy vai passar uma semana num acampamento treinando futebol, e poderíamos ficar sozinhas.

– Você não gostaria de vir para cá?

– Seria melhor se você viesse se puder. Meus dias de férias estão acabando, e acho que conseguiríamos dar um jeito com os meus horários. Além disso, acho que está na hora de você sair da Carolina do Norte para ver o que o resto do país tem a oferecer.

Enquanto ela falava, Rachel olhava para a foto de Catherine na mesa de cabeceira e levou alguns segundos para responder:

– Está bem... Acho que poderia fazer isso.

– Você não parece muito segura.

– Mas estou.

– Existe outro problema, então?

– Não.

Quinn fez uma pausa, hesitante.

– Você está bem mesmo, Rachel?

##

Foram necessários vários dias e inúmeras conversas telefônicas com Quinn para que a morena se sentisse normal outra vez. Mais de uma vez ligou para ela tarde da noite, só para ouvir a sua voz.

– Oi, sou eu de novo – dizia.

– Oi, Rachel, o que houve? – perguntava a loira, sonolenta.

– Só queria dizer boa noite antes que você fosse se deitar.

– Já estou deitada.

– Que horas são?

Ela consultava o relógio.

– Quase meia-noite.

– Por que está acordada? Devia estar dormindo – brincava ela, então deixava que ela desligasse para poder descansar.

Às vezes, quando não conseguia dormir, Rachel pensava sobre a semana que passara com Quinn, relembrando o prazer de tocar na pele dela, e era dominada pelo desejo de tê-la em seus braços novamente.

Então ia até o quarto e via o retrato de Catherine junto à cama. Nesse momento o sonho aflorava com claridade cristalina.

Rachel sabia que ainda estava abalada por causa dele. No passado, teria escrito uma carta a Catherine para ajudá-la a colocar tudo em perspectiva. Então, após conduzir o Happenstance pelo mesmo caminho que ela e Catherine tinham seguido na primeira vez em que velejaram juntas depois que o barco foi restaurado, ela fecharia a carta dentro de uma garrafa e a jogaria no mar.

Estranhamente, dessa vez não conseguiu fazer isso. Quando se sentou para escrever, as palavras não surgiram. Por fim, frustrada, ela obrigou-se a recordar:

FLASHBACK...

– Ora, que surpresa – disse ela, apontando para o prato de Catherine.

Ela estava enchendo o prato com salada de espinafre do bufê à frente delas e deu de ombros ao ouvi-la.

– O que há de errado em querer salada?

– Nada – retrucou ela rapidamente. – É que esta é a terceira vez que você come salada esta semana.

– Eu sei. Ando com muita vontade de comer salada. Não sei por quê.

– Se continuar comendo desse jeito, vai acabar virando um coelho.

Catherine riu e despejou um molho por cima das folhas. Então, olhando para o prato de sua esposa e respondeu:

– Se for assim, se você continuar comendo peixe, vai virar um tubarão.

– Eu meio que sou um tubarão – disse a morena, erguendo as sobrancelhas de um jeito provocante.

– Pode até ser, mas se continuar implicando comigo, nunca terá a chance de provar.

Rachel sorriu.

– Que tal eu provar no próximo fim de semana?

– A que horas? Você vai trabalhar – lembrou Catherine.

– Não neste fim de semana. Acredite se quiser, planejei minha agenda para ficarmos um tempo juntos. Nem lembro a última vez que passamos um fim de semana inteiro sozinhas.

– O que esta pensando em fazer?

– Não sei. Talvez velejar, talvez outra coisa. O que você quiser.

A loira riu.

– Bem, eu realmente tinha grandes projetos: uma viagem a Paris para fazer umas comprinhas, um ou dois safáris rapidinhos... mas acho que posso mudar meus planos.

– Então está combinado.

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À medida que os dias passaram, a imagem do sonho foi se desvanecendo. Cada vez que Rachel falava com Quinn, sentia-se um pouco mais renovada. Também conversou com Tommy em algumas ocasiões, e o entusiasmo do menino pela presença dela em suas vidas ajudou-a a recuperar o equilíbrio emocional. Mesmo com o calor e a umidade de agosto fazendo o tempo parecer passar mais devagar do que o normal, ela tentou se manter o mais ocupada possível, fazendo de tudo para não pensar nas complexidades da sua nova situação.

Duas semanas depois – poucos dias antes de viajar para Boston -, ela estava na cozinha preparando alguma coisa para comer quando o telefone tocou.

– Olá – disse Quinn. – Tem um minutinho?

– Sempre tenho tempo para você.

– Estou ligando só para saber a que horas chega o seu voo. Na última vez que nos falamos você ainda não sabia.

– Espere um instante – retrucou Rachel, e foi vasculhar a gaveta da cozinha em busca de anotações. – Aqui está: chego a Boston logo depois de uma da tarde.

– Tenho que deixar Tommy algumas horas antes, e isso me dá mais tempo para arrumar o apartamento.

– Vai fazer faxina por minha causa?

– Você vai ter tratamento de luxo. Vou até passar o aspirador.

– Estou honrada.

– É para ficar mesmo. Só você e meus pais têm esse privilégio.

– Será que devo levar um par de luvas brancas para conferir se você limpou tudo direito?

– Não se quiser viver até o dia seguinte.

Rachel riu e mudou de assunto.

– Estou ansiosa para ver você de novo – disse, com sinceridade. – As três últimas semanas foram muito mais difíceis do que aquelas duas primeiras.

– Eu sei. Dava para sentir na sua voz. Você ficou realmente deprimida por alguns dias, e... Bem, para falar a verdade, eu estava começando a me preocupar.

A morena se perguntou se ela suspeitava do motivo da sua melancolia. Afastando esse pensamento, continuou:

– Fiquei deprimida mesmo, mas passou. Minhas malas já estão arrumadas.

– Espero que não tenha ocupado espaço com coisas inúteis.

– Como o quê?

– Não sei... pijamas.

Rachel riu.

– Não tenho nenhum pijama.

– Ótimo. Porque, mesmo se tivesse, não ia precisar.

CONTINUA...

Notas finais
Então, a fic tem quase 200 pessoas acompanhando e um número bem inferior de comentários... Vamos aparecer fantasminhas! Aos que sempre comentam, fica aqui o meu agradecimento. " cenas do próximo capítulo" kk Rachel parou diante de uma banca de frutas frescas na calçada. Escolheu algumas maçãs e deu uma a Quinn. - Qual foi a coisa mais popular que você já escreveu na sua coluna? - Perguntou, curiosa. Quinn sentiu dificuldade para respirar. A mais popular? Fácil: "uma vez encontrei uma mensagem numa garrafa e recebi mais de duzentas cartas".