Notas iniciais
Oieee! Sei que estou um pouco atrasada com as postagens, mas eu fiz um capítulo muito grande e vou postá-lo para vocês inteirinho para compensar a demora. Leiam as notas finais, por favor!

Três dias depois, Rachel chegou a Boston.

Depois de buscá-la no aeroporto, Quinn deu uma volta para mostrar-lhe a cidade. Almoçaram no Funeuil Hall, viram os remadores deslizando do rio Charles e deram um passeio rápido pelo campus da Universidade de Harvard. Como de costume, ficaram de mãos dadas a maior parte do tempo, deliciando-se com a companhia uma da outra.

Mais uma vez, Rachel teve vontade de saber por que as três últimas semanas tinham sido tão difíceis para ela. Tinha consciência de que parte de sua ansiedade vinha do sonho, mas estar com Quinn fez as emoções perturbadoras parecerem distantes e sem importância. Cada vez que Quinn ria ou apertava sua mão, reafirmava os sentimentos que ela experimentara quando Quinn fora a Wilmington pela segunda vez, expulsando os pensamentos sombrios que a perseguiam na ausência da loira.

Quando o dia começou a esfriar e o sol baixou, Quinn e Rachel pararam num restaurante afim de comprar comida para jantar em casa. Sentada no chão da sala à luz de velas, Rachel olhou em volta.

– Sua casa é ótima – comentou, colocando um pouco de comida na boca. – Por algum motivo pensei que fosse menor. É maior do que a minha!

– Só um pouquinho, mas obrigada. É ideal para nós. Fica perto de tudo.

– De restaurantes, por exemplo?

– Isso mesmo. Eu não estava brincando quando disse que não gosto de cozinhar. Estou longe de ser uma Martha Stewart.

– Quem?

– Deixe pra lá.

Ouvia-se nitidamente o som do trânsito do lado de fora do apartamento. Um carro freou na rua lá embaixo de forma bastante ruidosa, uma buzina soou e de repente o barulho se multiplicou, quando outros carros fizeram um coro de buzinas.

– É sempre tranquilo assim? – perguntou a morena.

A loira indicou as janelas com um gesto de cabeça.

– As noites de sexta e sábado são as piores. Não costuma ser tão ruim. Mas a gente se acostuma depois de um tempo.

Os sons urbanos não paravam. Uma sirene soou a distância, cada vez mais alta à medida que se aproximava.

– Que tal ouvirmos uma musiquinha? – sugeriu Rachel.

– De que tipo você gosta?

– Do único tipo que existe – retrucou a morena, fazendo uma pausa teatral. – Música Country.

Quinn riu.

– Não tenho nada desse tipo aqui.

A morena balançou a cabeça, achando graça da própria brincadeira.

– Estou brincando. É uma piada antiga. Não é muito engraçada, mas há anos espero a oportunidade de usá-la.

– Você devia assistir a muitos programas humorísticos na televisão quando era criança.

Agora foi Rachel quem riu.

– Voltando à minha pergunta inicial: de que tipo de música você gosta? – insistiu Quinn.

– O que você tiver está bom.

– Que tal um pouco de jazz?

– Ótimo.

Quinn levantou-se, escolheu algo que imaginou que Rachel poderia apreciar e colocou o CD no aparelho. Instantes depois, a música começou, exatamente quando o congestionamento do trânsito parecia acabado.

– Então, o que achou de Boston até agora? – perguntou a loira, voltando a se sentar.

– Estou gostando. Para uma cidade grande, não é tão ruim. Não parece tão impessoal quanto achei que seria, e é mais limpa, também. Acho que imaginei tudo diferente. Sabe, multidão, asfalto, prédios altos, nem uma árvore à vista e assaltantes em cada esquina. Mas não é nada disso.

Quinn sorriu novamente.

– É bonita, não é? Quer dizer, não é uma praia, mas tem a sua beleza. Sobretudo quando se leva em consideração tudo o que a cidade tem a oferecer. Pode-se ir a um concerto, ou aos museus, ou simplesmente passear no parque. Há alguma coisa para todos os gostos aqui. Temos até um clube de vela.

– Dá para entender por que você gosta daqui – disse Rachel, perguntando-lhe por que teve a sensação de que ela estava lhe vendendo o lugar.

– Gosto sim. E Tommy também.

Rachel mudou de assunto.

– Você disse que ele foi para um acampamento treinar futebol?

Ela assentiu.

– É. Está tentando entrar num time titular sub-12. Não sei se vai conseguir, mas ele acha que tem muitas chances. No ano passado fez parte de um time de meninos de 11 anos.

– Parece que ele é bom mesmo.

– É, sim – concordou ela. Então empurrou os pratos vazios para o lado e chegou mais perto da morena. – Mas chega de falar do Tommy – disse em tom suave. – Não temos que falar dele toda hora. Podemos conversar sobre outras coisas, sabe?

– Que tipo de coisas?

Quinn beijou o pescoço de Rachel e sussurrou:

– O que eu quero fazer com você agora que a tenho toda para mim, por exemplo.

– Tem certeza que quer só falar sobre isso? – retrucou a morena já sentindo sua respiração alterar.

– Tem razão – de novo sussurrou a loira, agora mordendo lhe suavemente nos lábios. – Quem é que vai querer falar numa ocasião como esta?

##

No dia seguinte, Quinn foi mais uma vez mostrar a cidade a Rachel. Passaram a maior parte da manhã nos bairros italianos do North End, vagando pelas ruas estreitas e tortuosas, parando para um tradicional café com canolli. Embora soubesse que Quinn escrevia para o jornal, Rachel não sabia exatamente o que ela fazia no trabalho além disso. Enquanto passeavam por Boston, a morena lhe perguntou sobre o assunto.

– Não pode escrever sua coluna em casa?

– Daqui a algum tempo, acho que vou poder. Mas por enquanto é impossível.

– Por quê?

– Bem, para início de conversa, é uma questão contratual. Além disso, tenho muito mais tarefas do que me sentar e escrever. Muitas vezes tenho que entrevistar as pessoas, e para isso preciso ter tempo e, algumas vezes, até mesmo viajar. E ainda tem a pesquisa que preciso fazer, especialmente quando falo de temas médicos ou psicológicos. No jornal, tenho acesso a muito mais fontes. E ainda há a questão de que preciso de um lugar onde possam entrar em contato comigo. Grande parte do que eu faço envolve interesse humano, e recebo telefonemas de muitas pessoas, o dia inteiro. Se trabalhasse em casa, sei que muita gente iria ligar à noite, quando estou com o Tommy, e não pretendo abrir mão do meu tempo com ele.

– Você recebe muitos telefonemas em casa?

– Às vezes. Mas o meu número não está na lista telefônica, então não é tão frequente.

– Muita gente maluca liga para você?

Ela assentiu.

– Acho que todo jornalista passa por isso. Muitas pessoas entram em contato com o jornal com historias que querem publicar. Recebo telefonemas de pessoas inocentes que estão na cadeia, de outras se queixando dos serviços públicos, do lixo que não é recolhido no horário, assaltos. Parecem que ligam para falar de qualquer coisa.

– Pensei que você escrevesse sobre pais e filhos.

– E escrevo.

– Então, por que ligam para você? Por que não procuram outra pessoa?

Quinn deu de ombros.

– Elas procuram, mas continuam ligando para mim. Muitas começam dizendo: “Ninguém mais quer me escutar e você é a minha última esperança.” – Olhou para a morena de relance antes de prosseguir: — acho que pensam que vou conseguir resolver seus problemas.

– Por quê?

– Bem, os colunistas que escrevem artigos assinados são diferentes dos outros jornalistas. A maior parte do que se publica no jornal é impessoal: notícias, fotos e números, coisas assim. Acho que as pessoas que leem meus textos todos os dias pensam que me conhecem, começam a me considerar uma espécie de amiga. E todo mundo procura os amigos para pedir ajuda quando precisa.

– Isso deve colocá-la numa posição estranha às vezes.

Ela deu de ombros novamente.

– Coloca, mas tento não pensar nisso. Além do mais, meu trabalho também tem coisas boas: fornecer informações que podem ser úteis, estar por dentro das últimas novidades da área da saúde, traduzi-las para a linguagem leiga e até compartilhar histórias comoventes só para tornar o dia das pessoas mais feliz.

Rachel parou diante de uma banca de frutas frescas na calçada. Escolheu algumas maçãs e deu uma a Quinn.

– Qual foi a história mais popular que você já escreveu na sua coluna? – perguntou, curiosa.

Quinn sentiu dificuldade para respirar. A mais popular? Fácil: uma vez encontrei uma mensagem numa garrafa e recebi mais de duzentas cartas.

Ela forçou-se a pensar em outra coisa.

– Ah, sempre recebo muitas cartas quando escrevo sobre o ensino de crianças com necessidades especiais – disse por fim.

– Isso deve ser gratificante – comentou Rachel, pagando ao vendedor de frutas.

– É, sim.

Antes de dar uma mordida na maçã, Rachel indagou:

– Você poderia continuar tendo sua coluna se mudasse de jornal?

A loira pensou na pergunta.

– Seria difícil, especialmente se eu quiser continuar sendo publicada em vários jornais. Não sou nova na profissão, mas ainda estou firmando o meu nome, e o fato de trabalhar no Boston Times é bem útil. Por quê?

– Só por curiosidade – falou Rachel baixinho.

##

Na manhã seguinte, Quinn foi trabalhar por algumas horas, mas chegou em casa logo depois da hora do almoço. Passaram a tarde no parque Boston Common, onde fizeram um piquenique. Por duas vezes foram interrompidas por pessoas que reconheceram Quinn pelo retrato no jornal e Rachel constatou que ela era mais famosa do que imaginara.

– Não sabia que você era uma celebridade – disse com uma careta depois que a segunda pessoa se afastou.

– E não sou. É que minha foto aparece em cima do artigo, aí as pessoas me reconhecem.

– Isso acontece com muita frequência?

– Não tanta. Algumas vezes por semana, eu acho.

– Isso é muito – exclamou a morena, surpresa.

Quinn balançou a cabeça.

– Não se você pensar nas verdadeiras celebridades. Elas não podem nem ir ao mercado sem serem fotografadas. Eu levo uma vida bem normal.

– Mas deve ser estranho ser abordada por pessoas que você nunca viu.

– Na verdade, é até meio lisonjeiro. A maioria delas é muito agradável.

–Mesmo assim, ainda bem que eu não sabia que você era famosa logo no início.

– Por quê?

– Eu poderia ficar intimidada demais para convidá-la para velejar.

A loira estendeu a mão e pegou a da morena.

– Não consigo imaginar você sendo intimidada por nada.

– Então não me conhece muito bem.

Quinn ficou calada por um instante.

– Você teria mesmo se sentido intimidada? – perguntou por fim.

– Por quê?

– Acho que iria ficar pensando o que alguém como você poderia ver em mim.

A loira se inclinou para beijá-la.

– Vou lhe dizer o que vejo em você. Vejo a mulher que amo, a mulher que me faz feliz... Alguém com quem quero ficar por muito tempo.

– Você sempre sabe a coisa certa a dizer, não é?

– É que eu sei mais sobre você do que você pensa – sussurrou Quinn.

– Como o quê?

Um sorriso preguiçoso se instalou nos lábios da loira.

– Por exemplo, sei que você quer que eu te beije de novo.

– Quero?

– Sem a menor a dúvida.

E ela tinha razão.

##

Mais tarde nessa mesma noite, Rachel comentou:

– Sabe, Quinn, não consigo achar uma única coisa errada em você.

Estavam juntas na banheira, imersas em montanhas de espuma, Quinn com a cabeça apoiada no peito da morena. Rachel passava uma esponja nas costas da loira enquanto falava.

– O que você quer dizer com isso? – perguntou ela, curiosa, levantando a cabeça para olhá-la.

– Exatamente o que eu disse. Não consigo achar nada de errado em você. Quero dizer que você é perfeita.

– Não sou perfeita, Rachel – retrucou ela, embora tivesse ficado lisonjeada.

– É, sim. É linda, simpática, me faz rir, é inteligente e também uma excelente mãe. Acrescente-se a tudo isso o fato de ser famosa e acho que não existe ninguém à sua altura.

A loira acariciou o braço da morena, relaxada.

– Acho que você me vê através de lentes cor-de-rosa. Mas gosto disso...

– Está dizendo que não sou imparcial?

– Não. Mas até agora você só viu meu lado bom.

– Não sabia que você tinha outro lado – comentou Rachel, apertando os dois braços da loira ao mesmo tempo. – Os dois lados me parecem muito bons.

Quinn riu.

– Sabe o que eu quero dizer. Você ainda não viu meu lado negro.

– Você não tem um lado negro.

– Claro que tenho. Todo mundo tem. É que perto de você ele gosta de ficar escondido.

– Então como descreveria esse lado negro?

Ela pensou por um instante.

– Bom, para começar, sou teimosa, e fico malcriada quando estou irritada. Costumo abrir a boca e dizer a primeira coisa que vem à cabeça, e pode acreditar que quase nunca é uma gentileza. Também tenho a tendência de falar exatamente o que eu estou pensando, mesmo sabendo que melhor seria dar as costa e ir embora.

– Isso não me parece tão ruim.

– Você ainda não foi a vítima.

– Mesmo assim.

– Bem... — Deixe-me colocar de outra forma. Quando contei a Noah que sabia que ele tinha uma amante, chamei-o dos piores nomes que conhecia.

– Ele mereceu.

– Mas não sei se mereceu levar um jarro na cabeça.

– Você fez isso?

Quinn assentiu.

– Você devia ter visto a cara dele. Nunca tinha me visto daquela maneira.

– O que ele fez?

– Acho que ficou chocado demais para fazer alguma coisa. Especialmente quando comecei a jogar os pratos. Naquela noite destruí quase toda a louça do armário.

A morena sorriu, com uma expressão de admiração.

– Não sabia que você era tão brava.

– É a minha educação do Meio-Oeste. Não brinque comigo, garota!

– Prometo que não.

– Ótimo. Hoje em dia a minha pontaria está muito melhor.

– Não vou me esquecer disso.

Afundaram ainda mais na água morna. Rachel continuava a esfregar a esponja no corpo da loira.

– Ainda acho que você é perfeita – disse baixinho.

A loira fechou os olhos.

– Até meu lado negro?.

– Sobretudo o seu lado negro. Adoro uma pitada de perigo.

– Que bom, porque também acho você perfeita.

##

O resto das férias das duas passou voando. De manhã, Quinn ficava algumas horas no jornal, depois ia para casa e passava a tarde e a noite com Rachel. À noite elas pediam algo para comer ou iam a um dos diversos restaurantes perto do prédio da loira. De vez em quando alugavam um filme para depois do jantar, mas em geral preferiam passar o tempo sem outras distrações.

Na noite de sexta-feira, Tommy ligou do acampamento. Entusiasmado, contou que tinha entrado para o time principal. Embora isso significasse que ele jogaria mais vezes fora de Boston e que eles teriam que passar quase todos os fins de semana viajando, Quinn ficou feliz por ele. Então, surpreendendo-a, Tommy pediu para falar com Rachel, que ouviu tudo que o menino tinha a contar sobre o que acontecera naquela semana e no final o parabenizou. Assim que desligou, Quinn abriu uma garrafa de vinho e as duas comemoraram a conquista de Tommy até de madrugada.

Na manhã de domingo – dia da partida de Rachel – elas almoçaram com Santana e Britt. Rachel identificou de imediato aquilo que Quinn adorava em Santana: ela era divertida, de humor sarcástico, fazendo-as rir durante toda a refeição. Ela quis saber mais sobre mergulhar e velejar, enquanto Britt comentava que adorava trabalhar com o próprio negócio, pois a dança sempre dominou a sua vida.

Quinn ficou contente por todos terem se dado tão bem. Depois que terminaram de comer, ela e Santana pediram licença e foram fofocar no toalete.

– Então, o que achou? – perguntou Quinn, ansiosa.

– Ela é o máximo – admitiu Santana. – É ainda mais bonita do que nas fotos que você trouxe.

– Eu sei. Meu coração bate mais forte toda vez que olho para ela.

Santana ajeitou o penteado.

– Sua semana foi tão boa quanto você esperava? – perguntou.

– Ainda melhor.

Santana abriu um largo sorriso.

– Dá para ver, pelo modo como ela olha para você, que também gosta de você. Vocês duas juntas me lembram Britt e eu. Fazem um belo casal.

– Acha mesmo?

– Não diria se não achasse.

Santana tirou um batom da bolsa e começou a passá-lo nos lábios.

– Então, ela gostou de Boston? – perguntou em tom casual.

Quinn também pegou seu batom.

– Não é o tipo de lugar com que ela está acostumada, mas parece que se divertiu. Fizemos vários programas interessantes.

– Ela disse alguma coisa em especial?

– Não. Por quê? – indagou Quinn, olhando para Santana com curiosidade.

– Por nada. Estava só imaginando se ela falou algo que poderia fazer você achar que ela se mudaria para cá se você pedisse.

Esse comentário fez Quinn se lembrar de algo que vinha evitando.

– Ainda não conversamos sobre isso – retrucou por fim.

– E planejam conversar?

Quinn ouviu uma vozinha dentro de si murmurar: a distância entre nós é um problema, mas também há outra coisa, não há?

Sem querer pensar no assunto, ela negou com a cabeça.

– Acho que não está na hora, pelo menos por enquanto. – Fez uma pausa para organizar as ideias. – Quero dizer, sei que teremos que falar sobre isso um dia, mas acho que ainda não estamos namorando há tempo suficiente para começarmos a tomar decisões sobre o futuro. Ainda estamos nos conhecendo.

Santana encarou-a com uma desconfiança fraternal.

– Mas você a conhece há tempo suficiente para estar apaixonar, não é?

– É. – Admitiu Quinn.

– Então sabe que essa decisão é inevitável, quer você pretenda encará-la ou não.

Quinn levou um momento para responder:

– Sei disso.

Santana colocou a mão no ombro da amiga.

– E se você precisar escolher entre se mudar de Boston ou perdê-la? – questionou.

Quinn pesou a pergunta e suas implicações.

– Não tenho certeza – disse baixinho, olhando para Santana.

– Posso lhe dar um conselho?

Quinn assentiu. Santana levou-a pelo braço para fora do toalete e falou no ouvido da amiga para que ninguém a escutasse:

– Seja qual for a sua decisão, lembre-se de que você terá que continuar sua vida sem olhar para trás. Sem tem certeza de que Rachel pode lhe dar o tipo de amor de que você precisa e que vai ser feliz com ela, então terá que fazer de tudo para ficar com ela. O amor verdadeiro é raro, e é a única coisa que dá sentido genuíno à vida.

– Mas isso também não se aplica a ela? Ela também não deveria estar disposta a se sacrificar?

– Claro que sim.

– Então em que ponto isso me deixa?

– Você fica com o mesmo problema que tinha antes, Quinn, e definitivamente terá que pensar sobre ele.

##

Ao longo dos dois meses seguintes o relacionamento a distância começou a evoluir de um modo que nem Quinn e nem Rachel imaginavam, embora ambas devessem ter previsto isso.

Fazendo os ajustes requeridos pela agenda de cada uma, conseguiram encontrar-se mais três vezes, sempre em fins de semana. Numa dessas ocasiões Quinn foi a Wilmington para que pudessem ficar sozinhas e as duas passaram o tempo todo grudadas uma na outra na casa de Rachel, com exceção de uma noite em que saíram para velejar. Rachel foi duas vezes e passou grande parte do tempo na estrada por causa dos torneios de futebol de Tommy, embora não tenha se incomodado com isso. Foram as primeiras partidas de futebol a que assistira na vida, e acabou se interessando mais pelos jogos do que imaginara.

– Como é que você não está vibrando como eu? – perguntou ela a Quinn durante um momento particularmente emocionante na partida.

– Por que não espera até ter assistido a algumas centenas de partidas? Aí com certeza vai responder a própria pergunta – respondeu ela, em tom brincalhão.

Quando estavam juntas durante aqueles fins de semana, era como se nada mais importasse no mundo. Em geral Tommy dormia uma das noites na casa de um amigo, para que elas pudessem ficar a sós pelo menos por algum tempo. Passavam horas conversando e rindo, abraçadas e fazendo amor, tentando compensar as semanas de separação. No entanto, nenhuma das duas tocou no assunto do que aconteceria com o relacionamento no futuro. Viviam o momento, e nenhuma das duas sabia exatamente o que esperar da outra. Não que não estivessem apaixonadas. Disso, pelo menos, tinham certeza.

Mas como não se viam com muita frequência, o namoro tinha mais altos e baixos do que qualquer uma das duas vivenciara até então. Assim como tudo parecia certo quando estavam juntas, também parecia ruim quando estavam separadas. Rachel era a que mais sofria com a distância. Em geral todas as boas sensações que ela experimentava quando estavam juntas duravam alguns dias, mas então ela começava a ficar cada vez mais deprimida com as semanas que teria que esperar até vê-la outra vez.

Naturalmente, ela queria que passassem mais tempo juntas do que era possível. Agora que o verão acabara, viajar era mais fácil para ela do que para Quinn. Mesmo sem a maioria dos empregados, não havia muito a fazer na loja. Mas a agenda de Quinn era bastante diferente da dela – sobretudo por causa de Tommy. As aulas tinham recomeçado, ele tinha jogos no fim de semana e era difícil para Quinn se ausentar, mesmo que por poucos dias. Embora Rachel estivesse disposta a ir a Boston para vê-la com mais frequência, Quinn simplesmente não tinha tempo para ela. Mais de uma vez a morena sugerira uma viagem para vê-la mas, por um ou outro motivo,, não tinha dado certo.

Sim, ela sabia que existiam casas que enfrentavam situações mais difíceis do que a delas. Seu pai contava que às vezes ele e a mãe de Rachel passavam meses sem se falar. Ele tinha ido para a Coreia e passara dois anos com os fuzileiros navais, e quando os tempos estavam difíceis no comércio de camarões, Leroy costumava arrumar trabalho em cargueiros que passavam por lá a caminho da América do Sul. Às vezes essas viagens duravam meses. Durante esse tempo, a única coisa que ele e a mãe de Rachel tinham eram cartas, que na melhor das hipóteses eram pouco frequentes. Rachel e Quinn tinham uma relação menos difícil, mas nem por isso fácil.

Ela sabia que a distância era um problema, mas pelo jeito não era algo que mudaria no futuro próximo. Em sua cabeça, havia apenas duas soluções: ela poderia se mudar, ou Quinn poderia se mudar. Analisando a situação de qualquer ângulo, e por mais que elas gostassem uma da outra, havia apenas essas duas possibilidades.

No fundo, Rachel suspeitava que Quinn pensava a mesma coisa, e por isso mesmo nenhuma das duas queria falar no assunto. Parecia mais fácil não mencioná-lo, já que isso significaria iniciar um caminho que nenhuma das duas tinha certeza de querer seguir.

Uma delas teria que mudar drasticamente a vida.

Mas qual das duas?

Ela tinha um negócio próprio em Wilmington e o tipo de vida que queria – e sabia – levar. Boston era uma bela cidade para se visitar, mas não para morar. Ela jamais pensara em morar em outro lugar. E também havia o seu pai, que apesar de parecer forte, estava ficando velho e começava a sentir o peso dos anos. E Rachel era a única familiar que ele tinha.

Quinn por outro lado, tinha laços fortes com Boston. Embora seus pais não vivessem lá. Tommy gostava da escola em que estudava e ela tinha uma carreira em ascensão e uma série e amigos que seria obrigada a abandonar. Tinha trabalhado duro para chegar aonde chegara e, se eixasse a cidade, provavelmente teria que desistir do que conquistara. Será que conseguiria fazer isso sem ficar ressentida com ela?

Rachel não queria pensar nisso, então se concentrou no amor que sentia por ela, agarrando-se à convicção de que, se tivessem que ficar juntas, encontrariam um modo de fazer isso.

Bem no fundo, porém, ela sabia que não ia serão fácil, não apenas por causa da distância. Depois que voltara de sua segunda viagem a Boston, a morena mandara ampliar e emoldurar um foto de Quinn. Colocara-o na mesma mesa de cabeceira que ficava a foto de Catherine, mas, apesar de seus sentimentos por Quinn, a imagem parecia deslocada em seu quarto. Alguns dias depois, a morena levou-a para o outro lado do quarto, mas não adiantou: parecia que onde quer que colocasse aquela fotografia, os olhos de Catherine a seguiriam. Isso é ridículo, disse a si mesma depois de mudá-la várias vezes de lugar. Por fim, acabou finalmente colocando a foto de Quinn numa gaveta e pegando a de Catherine. Suspirando, sentou-se na cama e segurou-a diante de si.

– Nós não tínhamos esses problemas – murmurou, deslizando o dedo sobre a imagem. – Com a gente tudo parecia tão fácil, não parecia?

Quando se deu conta de que a foto não ia responder, ela amaldiçoou sua tolice e foi pegar a foto de Quinn.

Encarando as duas fotos, até mesmo ela era capaz de entender porque estava tendo tantos problemas com aquilo tudo. Amava Quinn mais do que jamais pensara que fosse capaz... mas ainda amava Catherine...

Seria possível amar as duas ao mesmo tempo?

##

– Mal posso esperar para ver você de novo – disse Rachel.

Estavam em meados de novembro, poucos dias antes do Dia de Ação de Graças e Quinn fez planos de ir passar o fim de semana com Rachel. Fazia um mês que tinham se encontrado pela última vez.

– Também estou ansiosa – retrucou ela. – E você prometeu que finalmente vou poder conhecer o seu pai, certo?

– Ele está planejando oferecer um jantar de Ação de Graças antecipado na casa dele. Toda hora me pergunta o que você gosta de comer. Acho que quer causar uma boa impressão.

– Diga-lhe para não se preocupar. Qualquer coisa que ele fizer vai ser ótimo.

– Já falei varias vezes. Mas dá para ver que ele está nervoso.

– Por quê?

– Porque você vai ser a primeira pessoa que convidamos. Durante anos fomos só nós dois.

– Estou interrompendo uma tradição de família?

– Não. Gosto de pensar que estamos iniciando uma nova. Além disso, foi ele quem se ofereceu, lembra?

– Acha que ele vai gostar de mim?

– Sei que vai.

##

Quando soube que Quinn viria, Leroy fez algumas coisas que nunca tinha feito antes. Primeiro, contratou uma pessoa para limpar a casa – um trabalho que acabou levando quase dois dias, pois ele queria que tudo ficasse impecável. Além disso, comprou uma camisa e uma gravata novas. Ao sair do quarto em suas roupas recém-adquiridas, ele não deixou de notar a surpresa nos olhos de Rachel.

– Como estou? – perguntou.

– Está ótimo, mas por que está usando gravata?

– Não é para você. É para o jantar do fim de semana.

Rachel continuou de olhos fixos nele, com um sorriso sem graça.

– Acho que nunca vi você de gravata antes.

– Mas eu já usei. Você que não percebeu.

– Você não precisa usar gravata só porque a Quinn vem.

– Sei disso – respondeu ele secamente. – Só fiquei com vontade de usar no jantar deste ano.

– Está nervoso porque vai conhecê-la, não está?

– Não.

– Pai, você não precisa ser quem não é. Tenho certeza que a Quinn vai gostar de você de qualquer maneira, não importa a roupa que estiver usando.

– Isso não significa que eu não possa me arrumar para recebê-la, não é?

– Tem razão.

– Eu acho que está resolvido. Não saí do quarto para lhe pedir conselhos sobre vestuário, saí para ver se estou bem.

– Você está ótimo.

– Que bom.

Ele se virou e começou a voltar para o quarto, já puxando a camisa para fora da calça e soltando a gravata. Rachel observou-o até que ele desapareceu de vista e um instante depois o ouviu chamar seu nome.

– Que foi agora? – perguntou.

Leroy colocou a cabeça para fora do quarto.

– Você vai usar vestido, não vai?

– Não estava pretendendo, não.

– Bem, então mude os seus planos. Não quero que Quinn pense que criei uma filha que não sabe como se vestir para receber alguém.

##

Na véspera da chegada dela, Rachel ajudou Leroy a terminar os preparativos: cortou a grama enquanto ele desembalava a louça de porcelana do casamento, que raramente – ou nunca – usava, e lavou os pratos à mão. Depois de encontrar talheres suficientes – algo que não foi tão fácil – Leroy achou uma toalha de mesa no armário e achou que seria um belo toque. Jogou-a na máquina de lavar no instante exato em que Rachel entrou, após ter terminado a tarefa no quintal. Rachel foi até o armário da cozinha e pegou um copo na prateleira.

– A que horas ela chega amanhã? – perguntou Leroy do outro aposento.

Rachel encheu o copo com água e respondeu por cima do ombro:

– O voo está marcado para chegar às dez da manhã. Devemos estar aqui lá pelas onze.

– A que horas acha que ela vai querer comer?

– Não sei.

Leroy entrou na cozinha.

– Não perguntou a ela?

– Não.

– Então como é que eu vou saber quando colocar o peru no forno?

Rachel bebeu um gole d´água.

– Se programe para comermos no meio da tarde. Qualquer hora está bom, tenho certeza.

– Você não deveria ligar e perguntar a ela?

– Realmente acho que não é necessário. Não é um assunto tão importante assim.

– Talvez não seja para você. Mas eu vou conhecê-la amanhã, e se vocês duas acabarem se casando, não quero ser tema de piadinhas depois.

Rachel ergueu as sobrancelhas.

– Quem foi que disse que vamos nos casar?

– Ninguém.

– Então por que falou isso?

– Porque sim – retrucou Leroy. – Um de nós teria que levantar o assunto, e acho que você nunca faria isso.

Rachel encarou o pai.

– Então acha que devo me casar com ela?

Leroy deu uma piscadela enquanto respondia:

– O que eu acho não vai fazer diferença. O importante é o que você acha, não é?

##

Mais tarde na mesma noite, Rachel abria a porta de casa quando o telefone tocou. Correu até o aparelho e, ao tirá-la do gancho, ouviu a voz que esperava.

– Rachel? – disse Quinn. – Você parece sem fôlego.

A morena sorriu.

– Ah, oi, Quinn. Acabei de chegar. Papai me segurou na casa dele o dia inteiro para ajudá-lo a arrumar as coisas. Ele está muito ansioso para conhecer você.

Houve uma pausa desconfortável.

– Sobre amanhã... – começou ela finalmente.

A morena sentiu um nó na garganta.

– O que tem amanhã?

A loira levou um momento para responder:

– Me desculpe, Rachel... Nem sei como lhe falar isso, mas não vou poder viajar para Wilmington.

– Aconteceu alguma coisa?

– Não, está tudo bem. É que surgiu um compromisso de última hora, uma convenção da qual vou ter que participar.

– Que tipo de convenção?

– É para o meu trabalho. – Ela fez uma pausa. – Sei que é horrível desmarcar, mas eu não iria se não fosse realmente importante.

A morena fechou os olhos.

– Convenção de quê?

– De editores de prestígio e figurões da mídia. Eles vão se reunir em Dallas neste fim de semana. Santana acha que seria uma boa ideia eu ir conhecer alguns deles.

– Você só soube disso agora?

– Não... quero dizer, sim. Bem, eu sabia que haveria uma convenção, mas eu não iria. Em geral os colunistas não são convidados, mas Santana mexeu os pauzinhos e conseguiu que eu fosse com ela. – Ela hesitou. – Me desculpe, Rachel, eu sinto muito mesmo, mas, como eu disse, seria uma oportunidade maravilhosa, e uma chance única na vida.

Rachel ficou em silêncio por um instante, depois retrucou apenas dizendo:

– Eu entendo.

– Está zangada comigo, não está?

– Não.

– Tem certeza?

Ela sabia, pelo tom de voz dela, que Rachel não estava falando a verdade, mas não soube o que dizer para fazer com que ela se sentisse melhor.

– Pode pedir desculpas por mim ao seu pai?

– É, vou falar com ele.

– Posso ligar para você no fim de semana?

– Se você quiser...

No dia seguinte, a morena jantou com o pai, que fez o possível para diminuir a importância do episódio.

– Se é como ela disse, foi por um bom motivo – comentou. – Ela não pode simplesmente deixar o trabalho em suspenso. Tem um filho para sustentar, e tem que fazer o possível para isso. Além do mais, é só um fim de semana, não tem tanta importância na situação como um todo.

Rachel assentiu, escutando o pai, mas ainda chateada com o acontecido. Leroy continuou:

– Tenho certeza de que vocês duas vão conseguir se entender. Aliás, ela provavelmente vai fazer algo especial quando voltarem a se ver.

Rachel não respondeu. Leroy comeu um pouco antes de prosseguir:

– Você precisa ser compreensiva, Rachel. Ela tem responsabilidades, assim como você, e às vezes elas têm prioridade. Não tenho a menor dúvida de que se acontecesse alguma coisa que você tivesse que resolver na loja, teria feito o mesmo.

Rachel se recostou e empurrou para o lado seu prato com metade da comida intocada.

– Eu entendo tudo isso, pai. É que já faz um mês que não a vejo, e estava muito ansiosa.

– Acha que ela não queria ver você também?

– Ela disse que queria.

Leroy inclinou-se sobre a mesa e colocou o prato da filha diante dela outra vez.

– Termine de comer – falou. – Passei o dia inteiro cozinhando, e você não vai jogar a comida fora.

Rachel olhou para o prato. Embora não estivesse mais com fome, pegou o garfo e comeu um pouco.

– Sabe, esta não vai ser a última vez que isso vai acontecer, então você não devia ficar tão chateada... – observou Leroy enquanto beliscava a própria comida.

– Como assim?

– Enquanto vocês continuarem morando tão longe uma da outra, certamente vão surgir imprevistos desse tipo e vocês não vão poder se ver tanto quanto desejam.

– Acha que não sei disso?

– Tenho certeza que sabe. O que não sei é se algum de vocês tem coragem de fazer alguma coisa a respeito.

Rachel olhou para o pai, pensando: Isso, papai, seja sincero. Não me esconda nada.

Ignorando a expressão de desagrado da filha, Leroy continuou:

– Quando eu era jovem, as coisas eram muito mais simples. Se um homem amava uma mulher, a pedia em casamento e eles iam morar juntos. Só isso. Mas vocês duas... Parecem que não sabem o que fazer.

– Já lhe disse, não é tão simples...

– Claro que é. Se você a ama, então encontre um jeito de ficar com ela. Pronto. Assim, se algum imprevisto surgir e vocês não puderem se ver em um fim de semana, você não vai agir como se o mundo fosse acabar. O que vocês estão tentando fazer simplesmente não é natural, e a longo prazo não vai dar certo. Você. Você sabe disso, não sabe?

– Sei – limitou-se a responder Rachel, desejando que o pai parasse de falar no assunto.

O velho ergueu uma sobrancelha, esperando. Como Rachel não falou mais nada, ele prosseguiu:

– “Sei”? É só isso que tem a dizer?

Rachel deu de ombros.

– O que mais posso dizer?

– Que na próxima vez em que estiverem juntas vão resolver esse problema. É isso que você pode dizer.

– Vamos tentar resolver.

Leroy baixou o garfo e olhou para a filha com irritação.

– Eu não disse para tentar, Rachel, disse para resolver.

– Por que está insistindo tanto nisso?

– Porque se vocês não fizerem isso, nós vamos continuar almoçando sozinhos nos próximos vinte anos.

CONTINUA...

Notas finais
Muito obrigada a todos que estão acompanhando e comentando, isso é muito importante. Não consegui responder todos comentários, mas adoro ler todos eles de verdade. Então... a fic está quase acabando. Gostaria que continuassem acompanhando e comentando. Atenção! Vou postar um capítulo a cada sábado a partir do dia 21/03. Comentem e comentem rs.