- Mas isso é interessante demais! De onde você veio? – Regina folheia o livro, encantada com a descoberta. Quem o teria deixado em sua porta? Seria um presente? Um desafio? Alguma provocação? – Quem poderia dizer que num momento tão nebuloso, você conseguiria ocupar minha mente e meu coração?

Por longos momentos, ela se entretém com a leitura e a conversa com aquelas páginas amareladas pelo tempo, pelo manuseio e provavelmente pela longa jornada que aquele velho livro havia feito.

- Regina! Onde você está? – a voz de Mary retira Regina do seu momento silencioso e a faz fechar o livro.

Sai do quarto, antes que Mary entrasse ali e quisesse saber detalhes sobre aquele presente.

- Estou descendo.

Um tempo depois, as duas estão sentadas junto ao balcão da cozinha, bebendo chocolate quente e espantando o frio da noite.

- Esperamos você para o nosso jantar e sua ausência preocupou a todos.

- Eu resolvi organizar as roupas de Magno. Creio que ele gostaria que tudo fosse doado para não me fazer sofrer com as lembranças. – ela tenta sorrir. – Está no momento de retomar meus dias normais e ocupar mais tempo com coisas agradáveis, do que somente trabalho.

- Concordo. Por que não viaja? Henry me disse que queria levar você para Nova Iorque.

- Pensei em viajar sim. Depois que eu reorganizar minha vida, encaixotar as fotografias e objetos pessoais do meu marido, irei tirar férias ou mesmo ir embora daqui.

Mary toca-lhe a mão.

- Sua família está aqui, Regina. Precisamos de você.

- Minha família está enterrada no mausoléu. Minha mãe e meu marido estão lá e não precisam mais de mim. – Regina bebe um gole do chocolate. Levanta-se e leva a caneca para lavar. – Desculpe-me, mas preciso dormir. Estou cansada.

Mary também se levanta e caminha até a madrasta.

- Não tente cometer nenhuma besteira. Amanhã ligarei bem cedo, mesmo que tenha de tirá-la da cama.

- Sim, mamãe! – Regina ironiza e mantém um sorriso até perceber Mary sair da casa.

Rapidamente, ela sobe correndo a escada que dava acesso aos quartos. Dentro de seu quarto, salta sobre a cama e abre novamente o livro.

- Desculpe-me pela demora!

- Pensei que ela fosse demorar mais. O que ela queria? – pergunta o livro.

- Mary está preocupada comigo. Na verdade, está preocupada com a cidade, porque todos pensam que poderei voltar a ser a Rainha Má. Sempre que estou triste, torno-me perigosa para eles.

O livro dá risada.

- E você pretende retornar a ser essa Rainha Má?

- Eu pretendo encontrar um novo final feliz que dure mais do que um ano. Foi o tempo em que fiquei vivendo com meu marido.

- Como o conheceu? – a voz do livro é ouvida.

- Eu fui a um museu e ele estava lá. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto e senti o mesmo entusiasmo que senti quando decidi ficar com Henry. Menos de dois meses depois, Magno e eu estávamos casados e felizes.

- Do que ele morreu?

- Uma doença cruel que surgiu fulminante. Eu duas semanas ele foi tirado de mim. Mas me casar com ele foi a decisão mais inteligente que tomei, depois da adição de Henry.

- Dizer que lamento soaria estranho, porque livros não têm sentimentos. Mas mesmo assim, eu lamento.

Regina acha graça em seu companheiro de papel.

- Por que você surgiu em minha porta?

- É minha sina, Regina. Fico com alguém, sano as curiosidades, recebo suas anotações e depois tenho de ser entregue para outra pessoa. Não posso permanecer perene em alguma estante.

Os olhos de Regina vão lentos para a janela e ficam ali, observando o movimento das cortinas do quarto, dançando suavemente.

- O que você possui que eu não conheço? – ela se volta para o livro e começa a folheá-lo.

- Várias poções inocentes, ladainhas, cânticos de amor, e há uma página que pode parecer apenas uma, mas ela resume várias. Nela está anotada uma aventura vivida por quem me possuiu.

- Numa página só? – Regina interessa-se.

- Não com palavras, mas com uma gota do sangue da pessoa. Tudo o que a pessoa viveu, fica registrado no sangue e em minha página.

- Minha gota de sangue será uma enciclopédia de aventuras.

O som de uma risada vindo do livro, assombra e congela os ossos de Regina.

- Refiro-me à aventura vivida depois que a pessoa escolhe uma de minhas paginas. Escolhida a página, algo será lido e algo acontecerá. E será essa aventura que ficará registrada. E então, quando vai decidir ler algo em voz alta, em vez de ficar folheando como a uma criança?