Mesmos Nomes. Outras Histórias.
2 Recomeçando
Notas iniciais
– O que aconteceu com você? Faz dois dias que não vem conversar comigo.
– Estava ocupada reorganizando os pertences de Magno. Fiquei cansada e depressiva e não queria companhia.
– Por que resolveu tirar-me da estante? Já decidiu o que pretende ler em minhas páginas?
Regina senta-se na cama e retira os sapatos. Massageia os pés.
– Não conseguirei ler. O idioma é desconhecido para mim.
– Você precisa apenas perguntar à página. Porém, deve fazer a pergunta correta.
A morena acomoda-se sobre a cama e começa a folhear o livro, procurando alguma página que lhe parecesse mais simpática. Em cada uma delas, várias linhas estavam escritas em algum idioma desconhecido e no final de cada página, um pequeno desenho protegia contornando a numeração.
– Vamos ver o que esta receita pede como ingrediente. Asas de morcego, pernas de aranha, erva daninha, suor de cobra...- Regina ri da própria piada e ouve o livro rir também. Ela escolhe uma página e passa delicadamente as pontas dos dedos sobre seu corpo amarelo. – Escolho esta página e quero que ela me diga o seu conteúdo.
Nada acontece.
– Você não se recorda da instrução, Regina? Precisa fazer uma pergunta. A página não aceita ordens ou afirmações, menina.
Os olhos de Regina prendem-se nos desenhos que formavam o contorno das letras sobre a página.
– O que está escrito nesta página?
Nada acontece.
– Poderia dizer-me o que está escrito em sua página?
Outra vez e nada acontece. Regina fica calada e pensativa.
– Você poderia honrar-me com o seu conhecimento, gravado nesta bela página envelhecida?
Nenhuma alteração.
– Não quer me mostrar o que está escrito nesta página? Então vá à merda, que tal?
O som de uma gargalhada rouca ecoa pelo quarto. O livro começa a tremer e o riso dele é acompanhado pelo riso de Regina. Diante dos olhos da mulher, os desenhos indecifráveis começam a sofre uma forte mutação e assumem uma forma que pode ser interpretada.
– Adoro você, Regina Mills. – diz o livro. – Agora, conseguirá ler o conteúdo que escolheu. A decisão de continuar é sua, porém, deve lembrar-se de que se passar da metade da página, será obrigada a chegar até o final.
– E isso é bom ou ruim?
– Ora, menina. Depende de sua curiosidade, sua persistência e coragem. Saiba que todas as páginas deste livro são únicas. Portanto, seja prudente e decidida, caso queira ler mesmo.
Regina observa a página e procura fixar os olhos somente na primeira linha escrita. Pensa, pensa e pensa, resolvendo colocar seu colar naquela página, como marcador. Fecha o livro e resolve dormir.
Um forte estrondo desperta Regina de seu sono e ela praticamente salta sobre o colchão. Olha para os lados e percebe a janela batendo contra o vidro. Enxugando o canto da boca, ela se empertiga e sai da cama, indo acabar com aquela barulheira. Depois de fechar a janela, o quarto fica escuro e precisa ser iluminado pela luz do abajur e ele é aceso.
O livro ainda estava sobre a cama e chama a atenção de Regina. Ele parecia convidá-la para um aprofundamento na amizade e era um convite tentador. Bom, o que ela tinha a perder? Mas aquilo iria ter de esperar até o dia seguinte.
Na manhã, antes de sair para a prefeitura, Regina veste um casaco quente e decide proteger-se com luvas e gorro, porque a temperatura lá fora não prometia aquecimento. Seria imprudente sair sem agasalhos.
Depois de aprumada, passa em sua cama e senta-se ali, acariciando o livro. Abre-o, apanha seu colar e olha mais uma vez para as frases. Instintivamente, começa a ler.
“É um lugar distante, e as pessoas são sempre as mesmas em qualquer parte do universo. Os mesmos nomes, mas outros rostos e outras histórias. Será mais uma delas, mas será a mesma que ainda é.”
Era a frase inicial. Bastante confusa, porém, teria algum sentido com o desenrolar do texto. E Regina continua a leitura. Entretanto, o texto não é aprofundado, não tinha meio ou fim. Surge apenas um amontoado de frases ritmadas e prazerosas para a leitura. Interessada, Regina começa a ler o restante do texto em voz alta. Quando termina a leitura, recomeça da primeira frase, pronunciando todas as palavras em voz alta, como se cantasse uma canção.
Algo estranho provoca a atenção de Regina: o colchão estava afundando bem no centro da cama, como se um buraco estivesse sendo aberto ali. Sem tempo de reação, a mulher grita e é imediatamente sugada pelo buraco aberto no centro do colchão.
O túnel surgido tinha várias cores vibrantes e eram cores vivas. Vários sons inteligíveis chocavam-se uns contra os outros, como se muitas bocas estivessem coladas aos ouvidos de Regina. Ela tenta segurar-se em alguma coisa, mas as paredes do túnel eram lisas e sem apoio algum, embora fossem macias, como acolchoados. Lutando para manter-se consciente, Regina elege um ponto qualquer para manter sua atenção fixa e não distrair-se com aquele emaranhado de vidas ali dentro.
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