Mesmo se não der certo
12 12 – A viagem
Denis parecia bem empolgado com a viagem, para quem há poucos minutos tinha desistido de ir. Ficaram chateados de Victor não poder ir, mas ligaram para o amigo e combinaram que iriam viajar juntos nas férias seguintes.
Para ir para a rodoviária, os garotos pediram um táxi. Não queriam correr o risco da mãe deles mudar de ideia de última hora e, ela era a única disponível para dar carona para eles. Em meio as outras pessoas na rodoviária, os três formavam um grupo curioso, que chamava a atenção de todos ao redor. Como já tinham comprado as passagens antes, chegaram faltando poucos minutos para o embarque e logo já estavam dentro do ônibus. Denis e Pedro se sentaram juntos e Leonardo na poltrona do corredor ao lado. Essa seria uma viagem de aproximadamente duas horas e meia de duração.
— Não sei se consigo ficar aqui sentado por tanto tempo. – Pedro reclamava. – Sem nada de legal para fazer e nem pra ver.
— Podemos ouvir música.
— E ficar todo esse tempo ouvindo música? Isso é...
— Bom, eu fico mais tempo que isso só ouvindo música. – Denis riu.
— Beleza, vamos ver no que dá.
Pedro era hiperativo e ficar concentrado em uma coisa por muito tempo não era algo que ele tinha o costume de fazer. Nas viagens com seus pais ou excursões da escola, ele não ficava quieto um só minuto, conversava o tempo todo e se estava em um ônibus, andava o tempo todo, sentando um pouco em todos os lugares vazios. Contudo, essa não era uma viagem de excursão e ele tinha que mostrar um pouco de responsabilidade, para que o motorista ou o cobrador não chamassem sua atenção, afinal de contas ele era um menor de idade viajando sem a supervisão de um adulto (Leonardo podia ser maior de idade, mas não contava como um adulto, ainda estava na escola). E se ele desse problema, seria mandado de volta para casa, como seus pais e os de Denis e Leonardo, repetiram um monte de vezes, para garantir que os garotos iriam se comportar.
Meia hora ouvindo música e Pedro já não aguentava mais aquilo. Começou a se remexer na poltrona, hora dobrando uma perna, hora batucando no braço da poltrona.
— Pedro, será que dá pra ficar quieto? – Denis reclamou quando o amigo, sem querer, deu uma cotovelada em seu braço.
— Desculpa. Vou tentar.
E então deu um chute na perna de Denis. Pedro acabou trocando de lugar com Leonardo, que tinha a poltrona vizinha vazia.
— Viajar do lado do Pedro é tenso. O cara não fica parado. Quando é excursão da escola é mais tranquilo, porque todo mundo está brincando e tal. – Leonardo estava rindo muito. – Já vou avisando, daqui pra frente, só você senta na poltrona do meu lado. Certo?
— Ah... pode ser. Pra mim tanto faz, desde que eu possa continuar minha leitura de boa.
— Você tá lendo? Assim, com o ônibus andando? Sério, não sei como você consegue.
— Conseguindo. Quem tá andando é o ônibus, não sou eu.
— Mas ainda assim você está em movimento. Seu corpo está deslocando de um lugar para o outro. Então, pode-se considerar que você está andando, apesar não estar movimentando seu corpo de modo a se deslocar. O ônibus está fazendo isso por você.
— Se você pensar em física básica, a coisa é mais ou menos isso que você falou, mas mais complexa. Acredito que com um pouco mais de estudo você se bem nisso.
— Que seja. Mas isso não vai fazer diferença na minha vida. Então, prefiro ficar de boa ouvindo minha música.
— Você não se cansa?
— De que? Ouvir música durante a viagem?
— Não. De ficar ouvindo música e deitado o dia inteiro. Porque eu quando fazendo a mesma coisa durante muito tempo, eu canso. É claro que não me canso tão rápido como o Pedro, mas o Pedro é um caso à parte. Não sei como ele consegue se concentrar em um jogo de futebol.
— O Pedro é uma figura. Ele já dormiu no meio da aula muitas vezes e eu tinha que acobertar ele. Tipo, se a professora fazia uma pergunta pra ver se ele tava prestando atenção, ele ficava todo confuso, ai eu cortava no meio do caminho e começa a responder, ai vinha alguém inteligente e sem paciência para nossas enrolações e respondia, deixando a professora brava com os alunos que não consideram a aula importante.
— Ah tá. E era só o Pedro que dormia no meio da aula? Eu sei muito bem que o senhor também fazia isso. – Denis fez cara de desentendido. Os irmãos riram. – E quanto ao que perguntei, você não se cansa de fazer a mesma coisa o dia inteiro?
— Quando suas opções são poucas, não resta muito a fazer. Eu até queria jogar no computador ou assistir televisão, mas está ficando ruim de ver e depois é melhor eu já me acostumar...
— Leonardo, pode voltar pro seu lugar. – Pedro estava parado no corredor do ônibus, com uma expressão engraçada no rosto.
— O Léo fica. Não vou ficar do seu lado Pedro. Você não fica quieto.
— Não dá. Eu tô quase dando um troço lá. – Pedro fez uma careta. – Na hora que o ônibus parou, sentou um cara muito, mas muito gordo, do meu lado. Eu tô esmagado lá. Andei o ônibus inteiro já procurando lugar vazio, mas acabou, tudo ocupado. Por favor, nunca pedi nada pra você Léo.
— Eu vou. – Denis falou sorrindo. – O que os olhos não veem, o corpo não sente.
O problema era que o vizinho de poltrona de Denis, também não parava de se mexer. Não demorou muito e Denis estava pedindo para o irmão trocar de lugar com ele.
— Fiz umas contas, Pedro ficou vinte minutos lá. Denis, dezesseis minutos. Se eu ficar mais tempo que vocês dois, vocês ficam me devendo cinco pratas. Fechado?
— Até o fim da viagem. Cerca de quarenta minutos.
— Os senhores podem assinar aqui, por favor? – Leonardo estava escrevendo em um bloquinho de anotações, que tirou do bolso da calça.
— Que isso?
— Bom que perguntou Pedro. É para não se esquecerem que estão me devendo.
— Mas não acha melhor gravar um áudio da gente falando isso? Ai você pode salvar na nuvem. O 3G aqui não está dos piores.
— Maninho, pensei que nunca ia dizer isso, mas você está aprendendo comigo. Você é quase um gênio.
Os garotos gravaram o áudio dizendo que deviam Leonardo e o motivo da aposta que fizeram. Certamente, a viagem deles prometia muitas apostas assim.
Logo chegaram no destino. No restante da viagem Denis suportou Pedro ao seu lado, porque resolveu parar de ficar ouvindo música e os dois foram jogar “pedra, papel e tesoura”. Quando saíram do ônibus, ficaram esperando muito tempo pelas mochilas que estavam no bagageiro do ônibus. Como foram os primeiros a entrar no ônibus, as mochilas ficaram no fundo. Depois de muito esperar, chegaram cansados na rodoviária e resolveram descansar um pouco antes de irem à algum lugar.
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