Mesmo se não der certo
13 13 – O parque de diversões
— É galera, sei que tá bem legal aqui sentado nesses bancos “super confortáveis” da rodoviária e tal, mas o monstro na minha barriga já acordou. – Leonardo se assustou com a brincadeira do irmão. Desde pequeno, quando ele sentia fome e da sua barriga começavam a sair barulhos estranhos, eles brincavam que o monstro tinha acordado. No entanto, Denis não tinha brincado assim mais desde o dia que descobriu ter coroideremia.
— Léo, depois você dorme. Vamos almoçar. – Pedro puxou um dos braços de Leonardo, que fazia força para continuar sentado e não levantar. – Denis, ajuda aqui, puxa o outro braço.
— Vão ficar sentados ai no chão ou vamos ir almoçar? – Os garotos deram um puxão em Leonardo, que levantou e o impulso fez com que os outros dois caíssem de bunda no chão. Os três começaram a rir sem parar.
Depois do almoço, os garotos foram para um hotel, onde deixaram as mochilas e foram para o parque de diversões da cidade. Dadas as condições para escolher as cidades que visitariam, este era o único parque de diversões disponível. Não era um parque daqueles gigantes, com um monte de brinquedos diferentes e dos mais variados níveis de perigo, mas também não era um parque para criancinhas, desses que ficam passeando de cidade em cidade.
— Como tem pouco tempo que almoçamos, acho melhor deixarmos roda-gigante, barco e esses assim para mais tarde.
— Tudo bem, papai. – Denis e Pedro adoravam zoar quando Leonardo falava como um adulto, cheio de responsabilidade e sermões. E essa era mais um brincadeira que Denis tinha deixado de fazer.
— Que acham do tromba-tromba? Eu pelo menos não vou vomitar se ficar dirigindo um carrinho e batendo no de vocês.
— Se quiserem, podem ir. Vou sentar em algum lugar esperando até não ser tão perigoso vomitarmos no meio da roda-gigante. – Denis não queria passar vergonha por não conseguir dirigir o carrinho ou bater no dos outros. Era possível que ele enxergasse, mas seu sentimento de inferioridade dizia que não. E mesmo se esforçando para ver as coisas de outra forma, como Vitória havia dito, ele ainda não se sentia bem.
— Denis, você pode ir comigo. A gente ia junto quando éramos criança. – Leonardo tentou animar o irmão.
— Isso foi quando eu era muito novo e a mamãe não queria deixar eu ir sozinho. Mas prefiro não ir. É chato ficar de carona num carrinho tão pequeno.
— Denis, é o seguinte, se você for e não conseguir dirigir o carrinho, eu e o Léo ficamos te devendo uma. Caso contrário, você fica devendo a gente. Fechado?
— Vocês ficam me devendo duas. Porque vocês são dois e acho que mereço pela vergonha que posso passar. – Pedro e Leonardo concordaram. – Fechado então. Vão ver que não vou nem conseguir sair do lugar.
Dirigir o carrinho do tromba-tromba era bem simples, pisando de um lado ele acelerava, do outro lado freava, e para virar, direita ou esquerda, no volante. A ré era acionada por um botãozinho ao lado do volante.
— Ow! – Pedro gritou quando Denis trombou em seu carrinho, tão logo os brinquedos foram ligados. – Você disse que ia passar vergonha, mas era na gente né?
— Denis, você continua sendo o rei do tromba-tromba. – Leonardo falou, fazendo reverência com as mãos ao irmão. Nesse meio tempo, Denis bateu em seu carrinho de novo.
Foram mais umas três vezes no tromba-tromba. Os três estavam se divertindo muito. Quando saíram do tromba-tromba, foram andar nas duas rodas-gigantes do parque. Na verdade, uma delas estava mais para roda-pequena do que para gigante, porque ela era realmente muito baixa. Contudo, queriam brincar em todos os brinquedos que tinha no parque e que coubesse eles, é claro. Porque o trenzinho cabia só crianças com menos de um metro e trinta.
Os garotos andavam de brinquedo em brinquedo, repetindo alguns mais vezes do que outros. Até que sentiram muita fome. Era hora de fazer uma pausa e comer alguma coisa. Foram até a praça de alimentação do parque e compraram cachorro-quente tamanho gigante e refrigerante.
— Nunca mais... na minha vida... vou precisar comer outro cachorro-quente. – Leonardo se esforçava para dar as últimas mordidas.
— Depois desse, acho que não vou precisar é comer mais nada nunca mais.
— Vocês dois são muito fracos. Eu encaro outro cachorro-quente desses de boa. – Denis falou rindo dos outros dois. – Só que não estou com vontade agora.
— Olha só maninho, vou deixar essa passar, porque não tenho forças para levantar daqui e buscar outro cachorro-quente pra você.
— E eu também não. Acho que vou passar o resto da vida sentado aqui nessa cadeira.
No fim da tarde, os três garotos voltavam para o hotel, encharcados de água e cheirando a vomitado. Estavam bem no alto da roda-gigante quando Denis vomitou, sendo seguido por Pedro e depois por Leonardo.
— Vou tomar um banho. Se ficar com isso por mais tempo, vou acabar vomitando de novo.
— Espera ai Léo. Temos que tirar a última foto do dia de hoje. – Pedro saiu correndo para o banheiro do quarto. – Vamos esperar nosso amigo terminar de vomitar.
Limpos e alimentados, os garotos deitaram na cama de casal do quarto e foram assistir no notebook de Leonardo os vídeos que tinham gravado durante o dia.
Ligaram para os pais e mais uma vez ouviram todas as recomendações que tinham que ouvir. Já estava tarde, mas ainda assim foram conversar com Victor, que tinha recebido alta do hospital no início da tarde e tinha dormido a tarde inteira. Os garotos contaram ao amigo como tinha sido o dia e a falta que ele estava fazendo na viagem. Quase no fim da conversa, Vitória apareceu para dizer oi e quase que instantaneamente, Denis ficou vermelho e perdeu a fala. Pedro e Leonardo zoaram ele o resto da noite.
Denis foi dormir feliz. Ele sabia que o irmão o amava muito e um dia, quando ele não estivesse mais ali sentiria muito sua falta. Denis queria deixar memórias épicas para o irmão, para que quando ele tivesse filhos, pudesse contar do que viveu com o irmão. Ele também queria deixar histórias para Pedro contar. Denis sabia que ficaria cego em algum momento e até isso acontecer, sua visão pioraria cada vez mais. E mesmo que ele acabasse vivendo até ficar cego completamente, não haveriam outras viagens e outros momentos assim.
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