Meses...
2 Capítulo II
Notas iniciais
— Não Paige, eu não fiquei com ninguém e não, eu não fui fazer compras sem você. — Tentava a todo custo explicar o que houve para minha amiga, enquanto íamos pra escola juntas.
— Mas você sumiu! Eu rodei a praça de alimentação inteira e nem sombra de dona Miranda. Você sabe que acima de tudo eu fiquei preocupada com você não é? Parece que você esquece que tem uma doença. — A encaro incrédula não acreditando no que disse, era sério isso? Paige sabe muito bem que eu não gosto de lembrar desse fato da minha vida, e sabe que prefiro esquecer. E, do nada, resolve jogar na minha cara?
— É. Eu esqueço mesmo, até alguém vim e me lembrar. — Quando percebo que estamos perto da escola, saio do carro em movimento mesmo, a ouvindo me chamar. Não que seja difícil para eu encarar isso tudo, é só que eu queria viver um pouco sem me importar... A escolha de não fazer tratamentos foi minha, a escolha de esperar a morte foi minha, mas isso não quer dizer que eu queira esperá-la pensando na maldita doença todo tempo.
Ignoro os gritos de Paige e me dirijo rapidamente para a escola. Isso, claro, se não tivesse esbarrado em alguém com o peitoral duro. Ponho imediatamente a mão na testa, que foi o local atingido e olho para o ser humano em minha frente. Quem mais seria? Ele.
— Você?! — Falamos praticamente ao mesmo tempo e com a mesma expressão de surpresa. Que ele podia ir pra minha escola, eu tinha dúvidas, mas que iríamos nos esbarrar de novo foi uma surpresa.
— Ta fugindo de alguém? Nem olhou por onde andava... — Falou, ignorando o fato de eu ter me machucado. Começo a caminhar ao lado dele mais devagar agora, e percebo que ele estava impecável. Como alguém consegue ficar bonito de manhã e depois de ter lavado mais de 1.000 pratos?
Ajeito minha bolsa no ombro e penso se devo conversar com ele. Provavelmente Paige já deve estar na escola e pelo visto não viu a gente se trombando. Isso é bom. Não queria ter que brigar com ela.
— Da minha amiga. A mesma do shopping. — Ele me olha de um jeito divertido, o que me fez lembrar uma criança. Aliás, tudo nesse garoto me lembra duma criança. Admiro-me com pessoas que conseguem ser assim, tão... Leves com a vida.
— Sempre que eu te encontrar você vai está correndo dela? Bom, não vejo mal algum em ser seu ajudante em se esconder... Vi ela numa BMW vermelha, por isso deixei você se esbarrar em mim. — Olho surpresa pra ele. Por essa eu realmente não esperava... Ele tem uma boa memória, e Paige não é um rosto fácil de esquecer. Com certeza é uma das garotas mais bonitas que eu conheço e que não faz parte do grupo dos populares. Quer dizer, o namorado dela faz, mas pra mim ele não é um ser humano.
— Er... Devo te agradecer? Nós duas tivemos uma breve discussão. — Comprimento o porteiro quando chegamos ao portão da escola, e adentro a escola olhando em volta. Tinha muita gente pra um primeiro dia de aula. E muita gente nova.
— Bom saber que não sou o único novato. Eu acho que ela te viu e quer falar com você. — Mudo meu olhar pra onde ele apontava e vejo Paige com cara de arrependida. Suspiro e faço um sinal para ela me esperar.
Viro-me para Nick de novo e dou o meu primeiro sorriso do dia.
— Obrigada, seja bem vindo a esse inferno e espero que consiga amigos tão idiotas quanto você. Vou me resolver com ela. — Aceno para ele, que acena de volta e vou em direção a Paige, que agora me encarava com um olhar malicioso.
Reviro os olhos e vou para o lado dela, olhando a hora e vendo que faltam 10 minutos para a primeira aula.
— Quem é o loirinho? Já ta socializando com os novatos? — Pergunta, encarando Nick que incrivelmente encarava de volta. Era só o que faltava.
— Ainda estou brava com você. Você me conhece Paige, sabe que eu não gosto de me limitar e me lembrar de que não vivo mais de um ano. — Vou até o bebedouro, e encho minha garrafinha que até então estava vazia. Alguns alunos já entravam pra suas salas, e eu nem ao menos vi meu horário.
Paige dá um sorriso culpado e me puxa pra um abraço. Ela sabe que consegue meu perdão em menos de 5 minutos. Nossa amizade sempre foi assim, e me surpreendo por sermos tão diferentes mas ao mesmo tempo tão iguais.
— Me desculpe, eu sei que falei merda. Mas é que fiquei preocupada de você ter passado mal e estar sozinha... Confesso que só não falei com seus avós e com a polícia porque cogitei a ideia de você ta pegando alguém, e isso seria constrangedor. — Rimos assim que nos soltamos, e logo já se ouvia o som do sinal. Pergunto-me se Nick ta conseguindo se achar e volto a me perguntar o porquê de eu me importar, afinal ele só me causou problemas.
Alguma coisa nele mexeu comigo e eu não sei explicar o que. Minha vida amorosa não passou de um namorinho que tive no início da minha adolescência, que logo acabou, pois o garoto se mudou. Nunca fui muito de pensar em garotos e vovó passou um tempo achando que eu era lésbica. Tem gente que pensa que eu e Paige temos um caso, e foi um dos motivos de uma briga entre ela e o Daniel.
Se eu já beijei? Já, nesse namorinho, e foi a pior experiência da minha vida. Qual é, beijar um garoto de 13 anos, que usava aparelho e tinha um dente maior que a boca não foi a coisa mais legal do mundo.
— Ei! Terra chamando Miranda! Dormiu acordada? — Paige mexia com as mãos em frente ao meu rosto, me fazendo retornar á realidade. Vejamos, eu tinha aula de que agora? Ah, que ótimo, física.
— Bem que eu queria... Tenho física agora, e você? — Pergunto, enquanto íamos entrando no interior da escola, junto com alguns grupos de adolescentes. Minha escola era bem típica americana, por mais que estejamos na Inglaterra. Ela era dividida com os típicos grupos: Nerds, populares, hippies e esquecidos. Eu faço parte do último. Provavelmente Nick se encaixará perfeitamente nos populares, e porque eu voltei a pensar nele mesmo?
— Tenho Ed.fisíca... Encontramos-nos no almoço então né? — Pergunta, fazendo uma careta ao falar na pior matéria do século. Tá, não tão pior que física, mas chega perto... Assim que chegamos ao corredor, nos despedimos e fomos para nossas devidas salas.
Eu não sabia o que esperar da minha nova turma de física. Ano passado basicamente só os nerds ficavam na sala. Eu não sou nerd, mas não tinha o que fazer fora da sala, então preferia assistir a aula.
Entro na sala e percebo que já tem um punhado de gente, e eu odiei isso. Odeio chegar por último, odeio ser o centro das atenções e foi exatamente isso que aconteceu. Dou um breve aceno para o professor que estava em pé, com uma expressão não muito amigável e vou andando com calma, procurando algum lugar vazio.
Surpreendo-me quando sou puxada por alguém, que logo reconheci. Nicholas.
— Senta aqui. Eu to sozinho. — Ele aponta para a cadeira ao seu lado vazia, e eu me sento ainda nervosa. Parecia que todo mundo me olhava e isso me deixava muito intimidada. Não consegui prestar muita atenção na turma, mas deu pra perceber que definitivamente não estão só os nerds aqui.
Tiro minha bolsa do ombro e retiro de lá minhas coisas, as colocando sob a mesa. Olho por canto de olho que Nick fez o mesmo e que agora estava desenhando na mesa. Ele desenha.
— Você sabe que o papel foi feito pra substituir a mesa, não é? — Falo baixo, com medo do professor aparentemente chato, reclamar.
Nick me olha, sorrindo de orelha a orelha. Como ele consegue?
— Sei. Mas, eu gosto de correr o risco de ser pego pelo professor aparentemente chato. E eu to desenhando ele. — Depois dessa, tive que me esticar para ver melhor o desenho. Ele desenhava muito bem, e apenas com um lápis conseguiu fazer o tal professor muito bem. Até ficou mais bonito que o real.
Quando eu ia o elogiar, o professor começou a falar. Descobrimos que seu nome é Jafar o que causou muitas piadinhas que ele odiou. Mais tarde, descobrimos que ele realmente se parece com o Jafar da Disney e que não é a pessoa mais agradável do mundo. Agora, estamos fazendo um exercício de revisão do ano passado, que só 1% da turma o faz. Eu faço parte desse grupo, Nick não.
— O que desenha agora? — Cochichei, ao ver que ele desenhava mais uma vez, agora no papel. Talvez por ter ficado com medo do temperamento do professor.
— Você. Gostei da forma que ficou, concentrada no seu dever. Aqui, não teria como te entregar se eu fizesse na mesa. — E assim, ele arrancou a folha do caderno, me entregando. Fiquei sem reação ao olhar para o desenho, e notar tanta perfeição. Ele tinha talento.
— Uh... Obrigada. Você desenha muito bem. — Me arrependi completamente de não ter abaixado o tom de voz, pois logo percebi que Jafar me ouviu. E como se não bastasse, ele vinha em nossa direção.
Parou na minha frente e encarou o desenho em minha mão, vi que Nick escondeu rapidamente o desenho do professor na mesa, com o caderno. Olho para a autoridade em minha frente e sorrio desconcertada.
— Eu acho que expliquei muito bem qual disciplina leciono, e não é arte. Expliquei também que não aturo que desrespeitem minha aula... Por favor, me acompanhem até a diretoria. Quero que passem o resto do dia fazendo exercícios. — Deu claramente pra ouvir os sussurros de todos na sala, e risadinhas. Como assim? Tudo por um desenho?
Nick tentou explicar que fora ele que começou tudo, mas Jafar não quis nem ouvir. Pegamos nossas coisas, apressados por ele e fomos o seguindo para fora da sala. Isso porque ele não viu o desenho na mesa.
— Eu não acredito que justo no meu primeiro dia... — Sussurro para Nick, enquanto seguíamos o professor para a direção.
— Me desculpe, a culpa foi minha... Se quiser, faço a maior parte do trabalho. — Sussurrou de volta, me encarando com cara de culpa. Era a primeira vez que via ele assim, normalmente ele levaria na brincadeira.
Dou um sorriso para tentar amenizar o clima, e entro na direção junto com Nick.
— Não. Tudo bem, eu falei muito alto. Quero ver seus desenhos... São muito bons.
*
Acho que nunca fiz tanto dever de física na vida. Já devia ser umas 14h00min e estávamos morrendo de fome. Paige veio perguntar o que houve, e claro, ficou super curiosa mais uma vez em relação ao Nick... Teria que explicar pra ela um dia, se não acho que ela morre.
A escola estava vazia, só a gente e os funcionários. Não permitiram nem que almoçássemos e eu não consigo focar em nada com fome. Vovó disse que eu poderia ligar, que ela traria comida, e to cogitando essa ideia. Porém, não quero que mais uma pessoa fique insinuando coisas entre mim e Nick.
Falando nele, até que cumpriu sua parte e fez mais do que deveria. Eu não permitira, mas a falta de comida no meu organismo não me fez bem, e eu não tenho a saúde mais perfeita do mundo.
— Terminei. — Falamos mais uma vez em sincronia, e rimos logo em seguida. Era estranho como em dois dias que nos conhecemos, eu tenho ficado mais com ele do que qualquer outra pessoa.
Junto minhas coisas, colocando a bolsa no ombro e aceitando ajuda de Nick pra levantar. Minha barriga roncava e me sentia um pouco fraca. Talvez pela falta de comida, talvez não... Enfim, comendo eu melhoraria.
— Vem, vamos comer em um restaurante aqui perto. Você ta bem? Ta um pouco mais albina do que o normal... Miranda! — Só fui perceber o quase desmaio quando já estava nos braços de Nick.
Meu corpo estava mole e eu sentia meu nariz sangrar. Rapidamente fiz o favor de limpar com a palma da mão, e me soltar de Nick quando a tontura passou.
Ele me encarava preocupado e assustado.
— Não foi nada. É a falta de comida, eu sou fraquinha mesmo... Vamos? Eu conheço um ótimo restaurante por aqui.
Eu não me sentia pronta para contar, eu não contaria, e se dependesse de mim Nicholas não saberia que eu tenho câncer.
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