Mercenários
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Mercenários
by Amanur
6
...
Sakura deixou uma lágrima cair dos olhos, e foi assim que soube que ela estava prestando atenção na minha voz. Às vezes, acho que ela é masoquista. Gosta de se torturar com essa história... Caso contrário, teria conseguido forças para me parar. Eu acho...
— Eu poderia morrer, pedindo desculpas, e você não me perdoaria, não é mesmo? — às vezes, fazemos coisas horríveis, e imploramos perdão pelo que foi feito, mas esquecemos de que estamos lidando com seres humanos. Assim como eu tenho falhas, a outra pessoa também. Quero dizer, no fundo, as pessoas não tem o dom do perdão. Temos o dom da hipocrisia... Podemos até mentir para nós mesmos dizendo que perdoamos, sim!, mas no fundo a mágoa e o rancor ficam lá, guardados em algum canto, nos remoendo aos poucos. A Sakura, pelo menos, sempre foi sincera consigo mesma.
“Eu lhe tirei da cama, puxando seus cabelos, até derrubá-la no chão. Eu queria que você reagisse contra mim, que dissesse algo, mas você manteve sua compostura tão elegante e refinada, sempre de nariz empinado até na hora de apanhar do marido... e isso só aumentou minha raiva. Eu pensei em sufoca-la com travesseiro, mas logo me veio em mente que eu deveria bolar um desculpa para aquele sufocamento, e eu não estava com cabeça para pensar em nada. Então, apenas tirei o meu cinto de couro, e comecei a bater em você. O couro lhe chicoteava, como lambidas de fogo contra a pele. Queimava, ardia, doía, mas você não emitiu um único som. Eu cheguei a me descabelar aplicando toda a minha força; não entendia porque você não gritava, chorava... Mas quando voltei a mim, vendo-lhe naquele estado deplorável, caída, cheia de vergões e mais alguns cortes, admiti que havia perdido a cabeça. Cai de joelhos na sua frente, e fiquei lhe encarando incrédulo. Lembro-me com perfeição do que pensei naquele momento. Algo do tipo “Poxa, me casei com a mulher mais forte, ou mais fria do mundo.” Havia muitas lágrimas no seu rosto, mas você manteve aquela expressão passiva, congelada.
— Tome um banho, e jante comigo. — foi tudo o que eu consegui dizer, antes de me levantar e sair daquele quarto.
Eu fui correndo para o meu escritório, e me amaldiçoei pelo que havia feito. Joguei no chão tudo o que estava sobre a minha mesa. De repente, aquele escritório me pareceu um local estranho para mim. Eu não sabia mais o que estava fazendo ali. Por um momento, eu não sabia dizer quem eu era. Até mesmo cogitei pegar aquele revolver que eu mantinha guardado no meu cofre, e usa-lo contra mim mesmo... Mas nosso mordomo bateu na porta, anunciando a visita de um dos meus subordinados.
— O senhor Neji Hyuuga deseja vê-lo. Digo que o atenderá? — ele ficou espantado com o estado do meu escritório, com tudo revirado, mas tentou mostrar que não percebeu nada.
— Sim. Leve-o para a sala de estar, e o sirva com alguma bebida. — então, suspirei, e tentei me recompor o mais breve o possível, o agradecendo pela discrição.
Enquanto isso, você demorou para sair do chão. Depois que saí, ficou um bom tempo ali, deitada, olhando para o nada, se perguntando sobre o que acabara de acontecer. Aquilo não podia estar acontecendo com você! Não era assim que tinha imaginado que seu casamento seria! Não foi isso o que eu havia lhe prometido, não é mesmo? Você estava naquele grupo feminista, por solidariedade, e sempre teve pena daquelas pobres mulheres. Mas jamais imaginou como seria estar na pele de uma delas. Jamais pensou em como poderia ser a vida daquelas infelizes.
Suas pernas, e costelas, estavam incrivelmente doloridas. Você sequer ousou em olhar para elas, com medo do que poderia ver. Então, aos poucos, foi se arrastando até nossa suíte. E fez direitinho como eu havia lhe mandado. Foi tomar um banho. Um longo e relaxante banho. Mas seu corpo tremia, em choque, e você não conseguia parar de reviver aquele momento. A expressão de fúria que viu nos meus olhos foi marcante demais para lhe passar despercebida. Você sabia que o motivo da minha ira não era apenas por sua mentira, que havia algo mais, algo muito mais sério me incomodando, e por isso mesmo não me perdoaria por aquilo.
Você tomou seu banho, vestiu uma saia comprida, e uma blusa de mangas compridas também. Lentamente, penteou seus cabelos, e foi me encontrar na sala de jantar. Eu já estava na mesa, junto com meu subordinado, que assim que lhe viu, se levantou para cumprimentá-la.
— Deslumbrante como sempre, Sakura. — Neji beijou-lhe a mão, como os costumes da época mandavam. Mas você, apesar da boa aparência, se forçava a não mancar e ainda tremia as mãos. E ele, é claro, tudo notou. Você ainda teve que se forçar também a um sorriso, e então ele soube que havia algo errado. — Está se sentindo bem?
— Sakura passou uma semana de cama, com pneumonia. — eu respondi, antes que você abrisse a boca.
Neji, obviamente, não engoliu a desculpa que sequer cobria o fato de ela estar mancando, mas como eu era o chefe dele, fez de conta que acreditou.
— Ah! Entendo... Desejo melhoras. — ele disse, voltando a sentar-se.
Eu tentei disfarçar, pedindo para que a empregada servisse seu prato, e mais bebida para nós.
— Aconteceu algo no jornal? — você perguntou, como quem não quer nada. Eu a olhei de canto, pois me lembrava bem de ter lhe pedido para não fazer perguntas sobre o meu trabalho. Por uma questão de discrição, e porque eu não queria trazer para casa os problemas de fora. Mas naquela situação, é claro, isso foi irremediável. Até mesmo para mim.
Neji me olhou de canto, deu uma leve pigarreada, e passou as mãos pelos cabelos compridos.
— Está tudo perfeito, como tinha que ser. Apenas vim para entregar um recado de um dos nossos colegas, já que Naruto saiu um pouco mais cedo. Ele estava ansioso para estar de volta com sua esposa. — ele sorriu, dissimuladamente, é claro. — E, você sabe. Hoje é sexta, eu estava na verdade, tentando persuadi-lo a ir a um bar conosco, celebrar o sucesso de nossas vendas.
— Neji... — eu intervim.
— Oh, não! Tudo bem, já entendi o recado. — o cabeludo respondeu — Sexta feira é dia de se dedicar a sua esposa!, ele me disse. — lentamente, ele levou seu garfo com um pedaço de carne à boca, e mastigou-a sem pressa, olhando para mim.
Você soltou uma risadinha sarcástica, e me lançou aquele olhar cheio de audácia e provocação.
— Ah, sim... E ele faz isso tão bem! — e você bebericou o vinho de sua taça, me encarando.
Neji, é claro, notou que havia uma tensão mais pesada entre nós, e resolveu se calar. E assim, portanto, terminamos nossas refeições em silêncio. Eu me senti como o monstro da vila, com todas as acusações apontadas para mim, mas tive que manter as aparências. Afinal, ninguém se importava com o que acontecia comigo. Ninguém perguntava sobre como fora o meu dia, ou se eu precisava de algum descanso. Então eu lidava com a situação ao meu modo. Acho que eu tinha o direito a isso, pelo menos...
Quando você terminou, pediu licença para se retirar da mesa, alegando estar cansada. E foi para o quarto. Eu, no entanto, acompanhei meu convidado até o portão.
— Ele me disse que você ainda pode se redimir, se ainda conseguir fazer aquele venda. Meu conselho é: faça essa venda a todo custo. E se lembre de que Sakura não pode saber de nada... — Neji pôs seu chapéu Fedora na cabeça, mas antes de sair caminhando pela rua e acender seu charuto, se virou mais uma vez para mim — Mas que merda aquele sarnento está fazendo aqui? — ele apontou para o mendigo sentado do outro lado da calçada, comendo um pedaço de pão velho, que só então percebi — Fiquei sabendo que andam assaltando esta área. Acho que esse bairro não é mais tão bom quanto costumava a ser.
— Talvez eu me mude mesmo... — comentei, encarando o mendigo.
Sasuke fingiu que não percebeu nada, e mastigava lentamente aquele pedaço de pão. Ele estava magro, com ossos salientes, por que era tudo o que conseguia comer nos dias em que a empregada do casarão roubava as sobras das nossas refeições para si. E ali, comendo o seu pão de cada dia, observava os dois cavalheiros do outro lado da rua, com desinteresse dissimulado, se perguntado como pode uma pessoa se deixar levar pelo poder e mudar completamente. Se não fosse a aparência física, não reconheceria seus antigos companheiros do orfanato. Até parecia que nós nunca conhecemos a miséria, e a dor que ela causa no estômago e na pele.
Eu e Neji nos aproximamos dele, lentamente, sem fazer a menor ideia do que se passava na cabeça dele. Enquanto nos dirigíamos em sua direção, olhamos em volta para certificarmos de que não havia ninguém por perto. Era mais de meia noite, e todos os bons cidadãos se recolhiam cedo, naquela época. Vagavam pelas ruas somente os bêbados e sem tetos. Como não vimos ninguém, apressamos o passo, e ele se levantou alarmado.
— Pensei ter deixado claro a você que não queria vê-lo. — eu disse.
Sasuke me encarou, sem dizer nada.
— Estamos falando com você, fedorento. — Neji deu a volta por trás dele, para verificar se o maltrapilho não carregava alguma arma consigo.
Mas Sasuke estava “limpo”.
— A rua não tem dono. — apenas disse.
Eu dei uma risada, e Neji lhe deu uma rasteira, derrubando-o de quatro no chão.
— Acredite se quiser, mas esse bairro inteiro tem. Esta cidade inteira tem um dono, na verdade. — eu lhe informei.
Sasuke nos olhou de canto, sem entender sobre o que eu estava falando. Ele sabia algumas coisas sobre mim, mas não tudo. Ele tinha apenas uma vaga e leve suspeita sobre o tipo de coisa em que eu estava metido.
Neji deu um pontapé nas costelas dele, o fazendo beijar o chão. Meu subordinado ainda olhou para os lados, para certificar-se, mais uma vez, de que estávamos às sós. Fizemos uma troca de olhares, e o cabeludo avançou com tudo para cima do mendigo esfarrapado, com mais chutes. Os chutes eram tão fortes contra aqueles ossos que o som era ouvido pelos nossos cães que começaram a ladrar. Ao se dar conta de que estava fazendo barulho demais, Neji resolveu encher a cara de Sasuke com pisões, enquanto o homem se encolhia, gemia e se contorcia no chão frio. Para finalizar, o cabeludo ainda cuspiu em cima dele.
Sasuke ficou com o rosto todo manchado de sangue e ferimentos. Quebrou o nariz, e acho que mais a ponta de um dente. Os lábios ficaram inchados, com certeza teve uma costela quebrada.
Mas a verdade é que ele poderia ter revidado e acabado com a nossa raça... se quisesse. Mas deixou que aqueles chutes lhe servissem para aumentar o proposito para o que tinha planejado. Ele queria mais motivos para revidar. Ele queria ter mais razão para fazer o que tinha de ser feito, como uma desculpa pelos próprios atos.
Quando nos demos por satisfeitos, eu o chutei uma vez, também.
— Que aprenda a lição, e não ponha essa cara imunda na minha frente, entendeu? — eu disse — E espero, sinceramente, que você não esteja envolvido com os furtos que andam acontecendo. Pois já fiquei sabendo que se trata de um grupinho pequeno de perebentos como você.
Deixamos ele caído no chão, naquele estado. Neji seguiu seu caminho pela rua, e eu voltei para casa, sem perceber que você tinha assistido a tudo da janela do nosso quarto. Não sei se foi o latido dos cachorros que a alertaram, ou se você já estava na janela, desde o início... Só sei que quando cheguei ao nosso quarto, você estava sentada na poltrona com um livro nas mãos, fazendo de conta de lia. E eu acreditei naquela farsa. Na verdade, nem dei muita bola para o que você fazia, e me fui direto para o chuveiro, lavar a sujeira do dia.
Assim que você ouviu o barulho do chuveiro, correu para a janela. O mendigo ainda estava deitado na rua, imóvel. Você ficou o tempo todo me que passei no banheiro olhando para ele. Assim que me ouviu desligar a água, foi correndo para sua poltrona. Saí alguns minutos depois, enrolado na toalha e penteando os cabelos.
— Não está com sono? — perguntei.
— Não.
— Bom, eu estou. Não demore a apagar as luzes. — vesti a calça do pijama, apenas, e me deitei na cama.
Eu estava muito cansado. Havia sido um dia cheio de fortes emoções, tanto no trabalho, quanto em casa. E eu ainda não compreendia como você conseguia manter aquela frieza, e não explodir sua raiva e frustração em cima de mim, pelo que havia feito a você. Na verdade, custei a dormir um pouco, pensando nisso. Mas a exaustão era tanto, que acabei apagando de verdade, e nem vi quando você apagou as luzes.
Até porque você só apagou depois que ouviu minha respiração ficar mais pesada. Aí, você apagou todas as luzes e, nas pontas dos pés, com sapatos nas mãos, você saiu do quarto. E foi correndo com sua perna manca até a rua.
Sasuke já estava cambaleando na esquina, quando você abriu o portão de casa. Mas ele levava tanto tempo para dar um passo, que você não se preocupou em perdê-lo de vista. Foi caminhando em direção a ele, se perguntando sobre o que estava prestes a fazer; se não estaria cometendo um erro, indo até ele. Mas quando se deu conta, já estava parada na frente dele, com a mão na boca para esconder o espanto. Sasuke estava com o rosto deformado pelo inchaço. E ele parecia feder mais do que nunca. Mas havia algo na maneira em que ele a olhava, que a fez esquecer qualquer temor que tivesse.
— Eu conheço alguém que pode te ajudar... — você disse, sem pensar duas vezes.
Sasuke ficou olhando para você, sem saber o que pensar. Seu corpo todo doía, e tudo o que queria era desabar numa cama confortável e dormir. Mas tudo o que tinha esperando era um papelão sobre um chão frio. Então, não disse nada. Apenas olhou para seus pés descalços, doloridos e de unhas sujas, e continuou a caminhar naqueles passos erráticos.
Você olhou para o casarão, e ao constar que as luzes continuavam apagadas, resolveu levar adiante aquilo que tinha em mente. O caminho seria um pouco longo a pé, mas era melhor do que deixar aquele homem ali, na sarjeta, sem cuidados. Afinal, como ele mesmo dissera, ainda era um homem, não um cachorro.
Você respirou fundo, e pegou o braço dele, fazendo-o se apoiar em você.
— Eu o ajudo.
Sasuke se comoveu com a sua atitude, e nem percebeu que você estava com problemas para caminhar. Em todo aquele tempo em que estivera nas ruas, ninguém havia se aproximado tanto dele, como você fazia. E mal podia acreditar que você estivesse ali, com ele. Sasuke sentia seu perfume, seu toque, como se fosse algo divino, e se permitiu àquele momento de fragilidade. Além disso, sua curiosidade lhe dizia para deixá-la levá-lo para onde dizia.
E você, em toda sua inocência, sem se preocupar devidamente com quem estava lidando ali, o levou à casa de seu melhor amigo. Aquele a quem eu repudiava, e queria distância. Aquele miserável inútil, a quem você saia correndo sempre que podia para chorar suas mágoas. Eu odiei aquele cara no mesmo instante em que fomos apresentados. ”
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