Mercenários

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Boa leitura.

Mercenários

by Amanur

5

...



A enfermeira que costuma tomar conta de Sakura nos Domingos entrou no quarto, trazendo um carrinho com uma bandeja prateada cheia de comida. Fiquei surpreso, pois da última vez em que estive aqui, Sakura ainda se alimentava por meio de agulhas. Então, olho novamente para ela, sentada na cama, e percebo que realmente parece ter ganhado um pouco de peso. Parece mais saudável, na verdade. As olheiras parecem ter diminuído, e suas bochechas parecem mais coradas. Fico aliviado, mas o peso não sai por completo dos ombros. Tenho medo. Tenho medo do dia em que ela volte a falar, e suas primeiras palavras sejam de rancor e ódio por mim...


A enfermeira senta na beirada da cama para lhe dar colheradas na boca, como se fosse um bebê. Sakura mastiga bem de vagar, com o olhar perdido em algum ponto do quarto, como se estivesse pensando em algo. Mas sei que está perdida dentro de sua cabeça, imersa nas lembranças do passado.


— Desde quando ela voltou a comer? — pergunto.

— Na verdade, desde sua última visita. — a enfermeira responde.


Não sei o que isso significa; se seu quadro está melhorando graças as minhas vindas, ou se a repetição da nossa historia tem surtido algum efeito sobre ela.


Então, aproveito a oportunidade para sair dali e pegar um pouco de ar fresco. Como não sinto fome, dou uma volta na quadra enquanto fumo. As nuvens estão se aglomerando, mas algumas pessoas ainda caminham nas ruas, outras andam de bicicletas, enquanto alguns poucos carros passam pelas ruas.


Quando retorno ao quarto, a enfermeira está colocando a Sakura numa cadeira de rodas, para levá-la ao pátio do hospital. Então, me ofereço para fazer o serviço, e aproveitar para continuar a história.


— Onde foi que parei mesmo? — indago. A nossa volta, há mais dois pacientes “passeando” no pátio com suas enfermeiras. Paro sua cadeira num canto mais afastado, perto de um canteiro de flores, onde ninguém pudesse me ouvir. Sento-me na grama, com um tanto de dificuldades — minha artrite atrapalha. E, então, Sakura encara as flores, como se elas fossem inimigas, por alguma razão que não me vem em mente, no momento. Acho que ela não gostou da minha escolha, mas não estou com ânimo para me levantar agora, e muda-la de lugar.


“Você ficou uma semana sem tirar os pés da cama, naquela depressão dissimulada — Pois eu sabia muito bem que você estava apenas se fingindo, para pregar alguma peça em mim. E eu fingi não me importar, é claro. Eu não podia mostrar a ninguém que tinha fraquezas. Especialmente a você, que sempre se mostrou tão forte. Além disso, eu tinha coisas mais importantes a tratar. Por isso, saía cedo de casa e voltava à noite, sem trocar palavras com você. Eu estava decidido a não dar o primeiro passo em nossa reconciliação. Mas depois de sete dias trancada no quarto, logo após eu sair, você pulou da cama, vestiu seu melhor sobretudo, colocou as luvas, os sapatos, e saiu de casa. Você estava preparada para encarar o mundo novamente, e mais! Estava decidida também. Decidida a contar a suas amigas que seu casamento não era o melhor. Estava decidida a contar que seu casamento era uma farsa. E isso era algo terrível para você, não é mesmo? Pois sempre sonhara com o príncipe encantado, que fosse lhe tirar da redoma em que seus pais lhe puseram em casa... Mas então, ao pôr os pés na rua, eis que dá de cara com aquele mendigo fedorento, encostado nas grades do nosso portão. Uma centelha de pânico e terror se passou pelo seu rosto. Você ficou ali, encarando as costas dele, enquanto se perguntava sobre o que fazer. Deveria chamar alguém para lhe acompanhar? Ligar para a polícia?


Mas então, um gesto dele lhe chamou a atenção. Ele moveu o braço, e o som de uma página sendo folheada bateu em seus ouvidos. Discretamente, então, você se aproximou o suficiente para perceber que o mendigo estava escrevendo algo, num pequeno caderninho. Ao chegar ainda mais perto, notou que se tratava de palavras-cruzadas. As palavras cruzadas que eu tinha lhe dado para passar o tempo, e você esnobou jogando no lixo.


E ali, você ficou surpresa. Muito surpresa, na verdade. Afinal, desde quando mendigos sabem ler e escrever? E desde quando eles têm algum conhecimento para preencher aquelas palavras cruzadas, com perguntas sobre politica, arte e cultura? Até onde se sabia, mendigos eram os excluídos da sociedade que tinham que trabalhar quase como escravos, e nunca puseram os pés numa escola. Ou são pessoas levadas para o mau caminho da bebida e do fumo, antes mesmo de entrarem para a sociedade. Era raro ver um mendigo que fosse de boa família, expulso por indecoro, ou alguma outra razão cabulosa o suficiente para sua família. Afinal de contas, pessoas bem educadas não fazem isso.


— Até quando vai ficar me espiando? — o mendigo, de repente, diz — Você já sabe que não vou morder, certo?

— É claro que não. Você não é um cachorro.

— Exatamente. Sou apenas um homem, dormindo na rua como se fosse um cachorro.


Surpresa, você empinou o nariz, e saiu pelo portão sem dizer nada. Mas tremia da cabeça aos pés, com medo de que ele lhe seguisse. Só que Sasuke, pelo contrário do que costumava fazer, não lhe seguiu. Por algum motivo, naquele dia, ele não se sentia mais motivado a seguir em frente com aquele flerte ridículo. Afinal, quando é que uma dama da sociedade, como você, e ainda casada, lhe prestaria alguma atenção? Ele estava cansado. Exausto. Só queria lhe ver uma última vez.


Mas sabe o que é mais engraçado nessa história? É que ali estava ele, determinado a te esquecer; a abandonar toda e qualquer esperança que pudesse nutrir por algum futuro melhor para si — e se focar apenas no passado que precisava ser desvendado e vingado —, quando você, em sua teimosia e curiosidade detestável, resolveu voltar atrás. Foi nesse exato instante em que nossa vida mudou! Você e sua maldita vontade de querer salvar o mundo.


Sasuke já estava se levantando para ir embora e nunca mais voltar para a calçada daquele casarão, quando a viu dando a meia volta e caminhando em sua direção com aquele seu ar de superioridade.


— Ok, qual é a sua história? — você indagou, sem o mínimo escrúpulo.

— Perdão, o que disse? — Sasuke ficou tão surpreso, que achou que estivesse delirando.

— Você sabe ler... Como? Onde aprendeu a escrever? — você insistiu. Mas Sasuke desconfiou desse interesse repentino, e achou melhor não dar detalhes sobre si. Se havia uma coisa que podia aprender nas ruas, era a desconfiar de todos. Até mesmo de uma bela dama. Aliás, principalmente, delas. Afinal, naquela época, as mulheres tinham artimanhas para enfeitiçar os homens e usá-los a seu favor. Quero dizer, mulheres de índole duvidosa, é claro. E como não a conhecia, realmente, preferiu manter aquela distancia em suas palavras. Sasuke apenas deu de ombros, e foi seguindo seu caminho de volta. Mas você, é claro, foi correndo atrás. — É falta de educação dar as costas para quem está falando com você, sabia?!

— Imagines, então, que não desfrutei de educação em toda minha vida... — ele respondeu, sem dizer nada.


Ainda por cima, você notou que ele não tinha aquela maneira horrível de falar, cheio de gírias e erros, como a maioria dos mendigos tem.


— Mas você foi. De onde você é? O que aconteceu? Quem é sua família? Por que está aqui?


Sasuke, de repente, ficou irritado, e se virou bruscamente, lhe assustando. Não era a intenção dele, mas percebeu que poderia usar isso a seu favor.


— O que a senhora quer? Experimentar a vida nas ruas? Contrair alguma doença contagiosa, fatal? — ele fez uma pausa para atenuar sua expressão, ao notar que sua atuação fora boa demais e havia realmente te assustado. Ele coçou a barba comprida, e soltou um longo suspiro — Olhe, o melhor que tens a fazer é manter-se longe de pessoas do meu naipe. Já pensastes no que seus vizinhos irão dizer se nos vir conversando?

— Que você está me agredindo... — você murmurou, tão constrangida quanto temerosa. Realmente não tinhas pensado no assunto, mas ao mesmo tempo se admirava com o raciocínio rápido e lógico daquele pé-rapado.


Sem dizer mais nada, você olhou a sua volta, e viu um dos nossos vizinhos, que passeava com seu cachorro olhar na direção de vocês. Então, você baixou a cabeça, e continuou seu caminho. Mas a cada passo que dava, sentia como se algo de errado houvesse acontecido. Só não sabia explicar bem o que era.


Já Sasuke, ficou mais um tempo arrastando os pés pela rua, a fim de mostrar que não estava atrás da boa senhora, para mais tarde ir se encontrar com seus companheiros. E ao encontra-los, o brilho em seu olhar não passou despercebido.


— Sasuke, seu mané, você está sorrindo ou isso é uma careta de dor? — Suigetsu indagou, sarcástico. Mas Sasuke deu de ombros, decidido a não se deixar incomodar com os comentários maldosos do outro. Se pudesse, daria piruetas no ar, tamanha era sua felicidade por ter conseguido chamar a sua atenção, Sakura. — Seja como for, já combinamos de assaltar a tabacaria na Rua 17,a amanhã. Juugo disse que o dono chega na loja às seis e meia da manhã. O horário é ótimo, porque a maioria ainda está dormindo.


De repente, Sasuke foi obrigado a pôr os pés de volta no chão, e se dar conta de que era um mendigo miserável sem futuro algum. E por isso, para ele, não fazia a menor diferença do que fazer com a própria vida. Desde que, de alguma forma, conseguisse reencontrar o irmão. E talvez, quem sabe, aquele fosse, na verdade um bom caminho... De repente, ele teve uma ideia.


— Suigetsu, você gostaria de ficar famoso? — perguntou. O outro, é claro, olhou de canto, estranhando a pergunta.

— Quem não gostaria de ser reconhecido nas ruas, e ganhar dinheiro fácil?

— Tenho um plano, para ganharmos dinheiro fácil. — a parte ruim do plano, Sasuke preferiu omitir. Provavelmente, era o mesmo plano que o mais novo tinha, mas Sasuke tinha um trunfo nas mangas que ele não conhecia.


Enquanto isso, você continuou se encontrando com suas amigas naquele clube idiota. Assim que chegou no prédio, com aquela expressão abatida, desanimada, elas a cercaram com perguntas.


— O que aconteceu com você, Sakura? Por que está com essa cara? Por que não veio mais aqui? Por que não mandou noticias? Por que não nos deixaram vê-la? Era contagioso? Já passou? Ou você ainda se sente mal?

— Nenhuma dessas perguntas é relevante, no momento. — você disse — Nós devamos agir o quanto antes, ao invés de ficarmos perdendo tempo com trivialidades... — e então, você começou a andar de um lado para o outro, atrás dos rascunhos que haviam feito anteriormente. Além de algumas poltronas, havia uma mesa grande no centro, e alguns armários contra parede. E você saiu revirando todos eles.


Temari, estranhando sua atitude, seguiu atrás.


— Você falou com seu marido? Ele vai nos ajudar com as divulgações? — a loira indagou.


Você era vista por aquelas mulheres como a mais sortuda do planeta, por ter se casado com um marido como eu. E quebrar aquele encanto, de repente, lhe pareceu algo inadmissível. Inaceitável. Além disso, você já desconfiava do tamanho do meu poder, e se perguntava do que eu realmente seria capaz, caso você levasse à tona aquele assunto. Se eu fui capaz de lhe enforcar, do que mais eu não seria? Então, resolveu manter-se calada por mais um tempo, até descobrir qual era realmente a verdade.


— Ele não vai poder nos ajudar. — você disse, sem olhar nos olhos dela — As páginas já estão todas compradas pelas empresas, fazendo suas propagandas, e não há mais espaço disponível. Mas ele disse que assim que abrir uma brecha, me avisará. — você achou melhor dar essa desculpa, para que eu não parecesse tão desligado para a causa de vocês, e ao mesmo tempo para que você não saísse como a fracassada, que sequer conseguiu falar com o marido a respeito de um projeto próprio. — Sugiro que, por enquanto, façamos uma vaquinha para as impressões dos panfletos, e distribuiremos nós mesmas pelas ruas e caixas de correio das residências. Acho que o melhor a fazermos, por enquanto, é usarmos o que temos ao nosso alcance. E acredito que devemos agir o quanto antes, sim.


Temari estranhou aquela sua urgência, e ainda achou que você estava nervosa, falando demais. Mas ficou quieta, decidida a prestar mais atenção em você, antes de se pronunciar. Então, sem te contradizer, ela se prestou a ajudar com o que precisasse. Alí mesmo, todas vocês juntaram os trocados que tinham em suas bolsas, e foram correndo para a gráfica mais próxima, e pediram para imprimir duas centenas de panfletos. Temari ainda comentou achar exagero, mas você disse que era melhor sobrar do que faltar. Os papéis ficariam prontos somente no final do dia, e Temari se prontificou a buscá-los para que pudessem distribui-los no dia seguinte.


Quando você voltou para casa, eu não tinha voltado ainda. Então, se aproveitou para trocar de roupa, e pular de volta para a cama, e fingir que não tinha saído de casa. Bom, claro que eu perguntava aos nossos empregados que me relatassem todos os seus passos dentro de casa, de modo que logo soube que você havia saído. E como fora a primeira vez que eu havia te agredido fisicamente, fiquei preocupado com a repercussão da noticia. Suas amigas eram umas fanáticas, cheias de ideias sem sentido, sem cabimento. Se algo estragasse minha reputação, colocaria muita coisa no ralo, e seria a minha cabeça a sair rolando pelo chão.


Mas eu quis te dar uma segunda chance. Quando entrei no nosso quarto, fingi que nada sabia apenas para testá-la.


— Sente-se melhor? —perguntei. Você mal me olhou, escondendo o rosto no travesseiro. — Você parece melhor. Saiu do quarto?

— U-hum. — resmungou, fazendo não com a cabeça.


Me perguntei por que você mentiria para mim, se eu sabia dos seus encontros idiotas com aquelas mulheres desocupadas. Talvez estivesse com medo de mim... Ou talvez tivesse se dado conta da cagada que havia feito. E eu realmente estava sem paciência! Eu havia passado um dia do cão com meus superiores. Naquela época você ainda não sabia de nada, e achava que eu realmente trabalhava no jornal. Mas aquilo tudo era apenas uma fachada. Na realidade, eu tinha perdido uma das maiores negociação da minha vida, e meu chefe me esculachou. Me humilhou na frente dos meus subordinados, e ainda me ameaçou. Uma ameaça real, com revolver apontado na minha cabeça! Você não sabe o quanto isso é aterrorizante! E eu estava estressado com tudo isso, e ainda tinha que lidar com sua infantilidade? E ainda mais essa! Deus sabe o que aquelas suas amigas paranoicas poderiam fazer.


Tsc! Eu não consegui. Sem querer, acabem explodindo toda minha raiva e frustração em você, pela segunda vez... E você pode não acreditar mais em mim, Sakura, mas eu havia jurado jamais tocar em uma mulher dessa maneira.”

Notas finais
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