Mercenários
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Boa leitura.
Mercenários
by Amanur
4
...
“Você parecia mais bonita, naquele dia. Não sei bem o que era; se o cabelo estava mais sedoso, se o brilho no olhar radiava excitamento, ou a aura que lhe cobria havia mudado de cor. Só sei que havia algo diferente em você, de modo que parecia enfeitiçar ainda mais o Sasuke. Então, ele tinha que lhe seguir...
O rapaz que entregava jornais na Quinta Avenida gritava algo sobre um marido que espancara a esposa — ela havia fugido de casa algumas semanas antes, mas o homem a encontrou e a trouxe de volta ao seu lugar. Imediatamente, você pegou o jornal das mãos do rapaz, e foi marchando em direção ao velho prédio abandonado em que você se reunia com suas amigas.
Indignadíssima, você jogou o jornal com a página da notícia aberta, sobre a poltrona vazia. Você estava bufando de raiva, enquanto as outras mulheres a olhavam sem muito entender o que acontecia.
— Não leram o jornal? — você perguntou.
— Lá vem mais uma notícia ruim! — alguém murmurou, sem muita empolgação. Havia certo desprezo naquele tom, na verdade. Porque, apesar de estarem ali, nem todas as mulheres aceitavam todas as ideias que você e Temari tinham sobre a liberdade feminina. Mas a verdade é que algumas delas estavam acomodadas com a vida fácil que seus ex-maridos lhes davam, e tinham alguma resistência em aceitar que mulheres tivessem os mesmos direitos que os homens, como vocês pregavam.
— Mas é claro que temos mais notícias ruins! — Temari retrucou, furiosa —Enquanto ficarmos aqui com nossas bundas coladas nessas poltronas, é o que acontecerá pelo resto da história da humanidade! Alguém precisa fazer alguma coisa. Alguém tem que dar o primeiro passo! Qual é a dificuldade em entender isso? — para ela tudo era lógico.
— E o que você sugere, Temari? — alguém perguntou.
— Um protesto.
Todas as mulheres se olharam, receosas.
— Vamos acabar na cadeia! — disseram.
— Não agora, sabichona. Antes, precisamos espalhar nossas ideias, trazer mais mulheres para nossa causa. Quando tivermos gente o suficiente para chamarmos a atenção da sociedade, aí sim, damos a cara. Faremos tanto barulho, que terão de nos ouvir.
— E como vamos espalhar nossas ideias?
— Eu posso ajudar com isso! — você, então, se ofereceu, tendo algo em mente — Meu marido trabalha no jornal. Tenho certeza de que conseguirei convencê-lo a nos ajudarmos. — só que você não tinha! Mas, a princípio, a ideia lhe pareceu tão fantástica, que conseguiu convencer a todos de que sua ideia era brilhante. Afinal, eu te dava tudo o que você pedia, e não desconfiava de que eu pudesse lhe negar isso.
Vocês passaram aquele dia bolando panfletos para distribuírem pela cidade. O tempo passou tão rápido, que quando você percebeu, já estava anoitecendo; e tinha esquecido completamente de que combinara de almoçar comigo. Você me deixou sozinho naquele casarão. Se não conhecesse a cabeça de vento com quem havia me casado, eu poderia ter ficado muito fulo, e pensado besteira sobre você. Mas não. Eu sabia que você havia se esquecido de mim. Afinal, não era a primeira vez.
Enfim, eu passei o resto do dia em casa, lhe aguardando.
E Sasuke, do lado de fora, do outro lado da rua, esperando ao relento ver você sair daquele prédio onde sabia que se encontrava meio as escondidas com outras mulheres. Você saiu a tempo de ele lhe ver mais uma vez, e voltar para os companheiros fedorentos, e fazer parte do plano sujo que haviam tramado. E assim, então, dar início a uma sucessão de planos desonestos, a fim de sobreviverem.”
Sakura finalmente desviou o olhar da janela. Seus olhos bateram nos meus como duas lâminas frias que cortam uma generosa fatia de carne num só golpe. Mas havia um misto de raiva com mágoa, e talvez um pouco de culpa naquele olhar. Não que ela tivesse culpa pelas escolhas que ele fizera naquela época, quero dizer... Ninguém realmente teve.
— A escolha foi inteiramente dele. — resmunguei, pegando aquele copo de água — Ele podia ter continuado com aquela vidinha, e até procurando algum emprego... Mas o idiota escolheu aquilo.
Nesse instante, uma enfermeira entrou para dar um dos seus medicamentos para pressão. A jovem moça ainda espetou uma agulha no braço da minha ex-esposa, injetando mais alguma coisa, e disse que voltaria em alguns instantes trazendo o almoço de Sakura. Ela ainda me perguntou se eu a acompanharia na refeição, e eu respondi que sim; afinal tinha aquela historia para contar. Assim que ela nos deu as costas, Sakura começou a tossir, e lhe ajudei a sentar na cama.
Pela primeira vez, depois de tanto tempo, vi Sakura dar mais um sinal de vida e consciência. Ela suspirou, longa e pesadamente, como se quisesse me dizer que estava cansada de tudo aquilo. Só que eu não soube como reagir àquele sinal. O que é estranho, porque, depois de tantos anos, eu deveria estar mais sábio, mais preparado, mais experiente... Mas, pelo contrário, eu me sentia mais estupido.
Então, apenas continuei contando a história para ela.
“Sasuke chegou ao local de encontro, no horário combinado. Suigetsu ficou surpreso, mas Juugo parecia não se importar com nada. O grandalhão estava escondido, tentando disfarçar, na verdade, atrás de uma árvore. Não era um bom disfarce, devido seu tamanho grotesco, mas a ideia era não serem vistos juntos. Enquanto isso, Suigetsu ficou numa esquina roendo unha, fingindo que apenas observava as pessoas passarem. De vez em quando, ele ainda pedia esmola para alguma velhinha que passasse — o máximo que conseguiu foi uma nota de uma prata. Sasuke, então, deu a volta pela pequena padaria. O velhinho, dono do empreendimento, sempre fechava primeiro a porta dos fundos, caso mais algum freguês entrasse — e, assim, pudesse fazer mais uma venda no dia. Mas como era final de tarde, o movimento pelas ruas diminuía drasticamente, devido aos inúmeros relados de assalto pelas redondezas.
O rapaz não teve que esperar muito. Cinco, ou dez minutos depois, o senhor apareceu com sacolas de lixo, para jogar no latão. Foi o momento perfeito. Sasuke tinha um pedaço de pau que conseguira na rua, e apunhalou o velhinho na cabeça; mas sem aplicar muita força. Sua intenção era apenas desacordá-lo, e arrastar o homem para dentro da padaria. Assim que seu plano foi executado, rapidamente, ele fechou as portas restantes. Seus companheiros, que embora parecessem distraídos, viram tudo, e logo seguiram seus caminhos para o interior da loja.
— Estou meio nervoso! — Suigetsu comentou, enquanto tirava o dinheiro do caixa. Ele entregava as notas para Juugo, que carregava uma velha sacola de lona, onde costumava juntar comida que encontrava pelos latões de lixo. Mas para aquela ocasião, é claro, ele havia limpado como pôde, e pôs um cobertor velho dentro da sacola, para disfarçar. Com o dinheiro dentro do saco, ele o cobriria com o cobertor, caso alguém o abordasse. Mas a probabilidade de alguém querer se aproximar de mendigos como eles era muito pouca. As pessoas sempre querem distância de gente imunda.
— Não confunda nervosismo com empolgação. — o grandalhão respondeu — Você está tremendo, de tão empolgado que está.
— Estou tremendo de fome, isso sim! — praguejou o mais novo — Mas tudo ao seu tempo. Ainda veremos dias melhores.
Sasuke havia sido encarregado de cuidar do velho, e ao mesmo tempo vigiar a entrada pelas frestas da janela. Não havia muito dinheiro no caixa da padaria — não tanto quanto eles imaginavam. Então, ainda levaram mais alguns pães na sacola.
Tudo ocorreu tranquilamente, como planejado. Os três correram em direções diferentes, e se encontraram no mesmo local em que costumavam dormir. Suigetsu era o mais contente com o sucesso do plano.
— Hahahaha! Nem acredito! Nem acredito! — dizia — Ninguém viu, ninguém desconfiou! Somos donos do mundo! — delirava.
— Deveríamos pensar no próximo assalto. Deveríamos pegar alguém com mais poder. — Juugo comentou. Ele contava as notas, distraidamente, enquanto Suigetsu se deleitava no sabor dos pãezinhos da padaria, misturado com o sabor da vitória.
— Calma, calma. Tudo ao seu tempo. — repetiu — Devemos começar por baixo. Mas vamos procurando pelas pessoas que possui, seja como for, alguma conexão com o governo. Seja pagando impostos, ou seja servindo diretamente a eles. Não concorda, Sasuke?
Ele não sabia exatamente o porquê do ódio pelo governo que Suigetsu nutria, e nem lhe interessava saber. Tudo o que lhe importava, naquele instante, era obter algum poder a fim de atingir os que lhe atingiram no passado. Por isso, ele apenas pegou um pão, e deixou os dois às sós para caminhar pelas ruas.
Enquanto isso, em casa, eu te aguardava pacientemente... Na medida do possível. Eu me lembrava da noite em que nos conhecemos, naquela festa em que seu pai deu no casarão. Eu tinha recém escrito uma matéria para o jornal sobre a vacina para a febre amarela*. Era um marco e tanto para a história da nossa sociedade, e o povo precisava saber dessa incrível invenção. Seu pai, um dos maiores farmacêuticos, quis comemorar, e fui convidado. Eu estava conversando com alguns conhecidos, quando você surgiu esbelta e elegante, chamando a atenção de todos com aquele olhar fatal que só você tem. Imediatamente fui capturado por seus encantos. Você era a criatura mais bela que já havia visto. Exalava feminilidade e prepotência pelos poros. Parecia o tipo de mulher forte, que nunca sofreu nada na vida, mas que, ao mesmo tempo, achava conhecer tudo, porque teve a melhor educação, sabe? E isso me fascinava, de um modo tão ruim quanto bom. Por que eu me perguntava como era estar em seu lugar. Como é desconhecer, como é ser ignorante das dores do mundo? Eu tinha raiva ao mesmo tempo por aquele seu nariz empinado. Eu quis você imediatamente.
E foi exatamente nesse momento, em que me lembrava do vestido azul de seda que vestia, que você entrou no quarto sem fazer ruído algum. Somente fui retirado das lembranças quando você acendeu as luzes, e me encontrou na poltrona com meu charuto.
— Por Cristo, Naruto, você ainda vai me matar do coração! — você não tinha se assustado com minha presença, e se quer fez questão de fingir isso. Calmamente, foi retirando suas luvas, e jogando a pequena bolsa de mão sobre o sofá maior. E como se não tivesse mais nada a dizer, tirou os sapatos, e foi desfilando pelo corredor até nosso quarto.
Eu tentei manter a calma; juro que tentei. Mas a maneira com que você caminhava de nariz empinado me irritava profundamente, porque me lembrava da forma com que minha mãe fazia ao me ignorar... É, aquela mulher que havia me abandonado no orfanato, e você nunca soube. Você nunca se importou em perguntar sobre o meu passado, na verdade. E eu te odiei por isso.
Então, perdi o controle sobre minhas ações. Pela primeira vez. Talvez o álcool tivesse ajudado, mas no fundo eu sabia que era aquilo o que eu queria fazer há muito tempo. Te agarrei pelo pescoço, e a empurrei na cama com todas as minhas forças.
Não lembro bem o que passou na minha cabeça, naquele exato momento, mas eu sabia que aquilo tinha que ser feito. Havia muitos motivos para aquilo. Meu patrão já estava percebendo que você não comparecia nas ocasiões públicas, e me cobrava por isso. Seu descaso comigo me chateava, ainda mais quando eu tentava ser o melhor marido para você. Mas você nunca se importou. E eu não poderia suportar ver outras pessoas comentarem sobre minha vida particular naquele momento. E havia outros motivos... Alguns segredos. E os boatos de que você estivesse me traindo — o que na verdade não me preocupava, pois eu sabia que você não seria capaz de fazer isso. Você era uma mosca morta, sem vontades próprias, que só fazia o que lhe era mandado.
Bom, eu pensava que era...
Então, lhe sufoquei com as mãos, enquanto você chacoalhava as pernas embaixo de mim, tentando se livrar da minha força bruta. Um homem furioso fica duas vezes mais forte, e você pensou que iria morrer ali, da maneira que mais temia — assassinada pelas mãos de um machista.
Mas eu não a matei. Quando a vi revirar os olhos, larguei seu pescoço e a socorri.
— Sakura, respire! Respire fundo! —eu fiquei genuinamente preocupado, sabia? Ao mesmo tempo senti que o peso que carregava nos ombros foi liberado. Um pouco. Mas eu realmente fiquei preocupado e com medo das consequências que aquilo pudesse acarretar em nosso casamento.
E você se trancou em seu mundinho durante dias, sem falar comigo. Sequer me olhava. E seu silencio me torturava, apesar de eu demonstrar o contrário.
Além disso, suas amigas telefonavam e mandavam correspondências para cá, querendo saber o motivo de seu sumiço. Aquela Temari chegou a bater na porta de casa, preocupada, mas mandei a nossa governanta despachá-la, dizendo que você estava se sentindo indisposta, com uma pneumonia.
Até Sasuke, notou sua ausência, e resolveu aparecer na minha frente, pela primeira vez — depois de tanto tempo, é claro. Só que eu não o reconheci, tão imundo, barbudo, fedorento e desgrenhado ele estava. Quando me preparava para sair na charrete, o encontrei com as mãos imundas nas grades de casa, olhando para o nosso jardim, como se fosse um cão perdido pedindo um lar.
— Dê a meia volta, seu fedorento, ou chamarei a polícia. — resmunguei. Eu tinha medo que ele estivesse contaminado com alguma doença grave, contagiosa.
Ele lançou um olhar de desprezo que pouco me importei, e soltou as grades, mas não se afastou. Enquanto o cocheiro terminava os preparativos para dar partida no automóvel, eu arrumava a gravata em meu colarinho.
— Não estou brincando, fedorento. Se eu vir sua cara novamente perto da minha casa, considere-se morto. — entrei no carro, e permiti meu motorista me levar para onde eu era esperado, deixando aquele sujeito para trás.
Não sei o que o Sasuke pensou naquele momento. Só sei que ele não arredou os pés daquela calçada, até vê-la novamente. Ele já desconfiava de que algo pudesse ter acontecido, por que já viu para onde você ia uma vez por mês, mentindo para mim que ia ao clube das desocupadas.
Notas finais
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