Mercenários
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Mercenários
by Amanur
19
...
“Você desceu as escadas de pernas bambas. Não por que estivesse com medo do que eu poderia estar fazendo em nossa sala de estar, mas pelo que estivera prestes a fazer. Era estranho para você pensar em tocar no rosto de outro homem que não fosse o do seu marido. Aquilo não fazia sentido para você; era algo que ainda estava um pouco além dos seus conceitos. Mas ao mesmo tempo, você não entendia o motivo pelo qual o seu corpo reagira daquela maneira. Foi algo involuntário, contra suas razões...
Enfim, enquanto você se engraçava com outro, no andar de baixo eu havia deixado um copo escapar das minhas mãos enquanto o restante dos meus convidados, já mais a vontade, riam das piadas que eu contava.
—... Ah, merda, olha só o que eu fiz... — resmunguei, olhando para os cacos de vidro no chão. Em seguida, sem dar muita bola para aquilo, voltei minha atenção aos meus convidados, continuando a piada — Por que mulher é que nem circo! Debaixo do pano é que está o espetáculo!E vocês sabem qual a semelhança entre a mulher e o macarrão? Em ambos os casos, você enrola primeiro e depois come. Ah! Tenho mais uma... Mulheres são como moedas... Ou são caras, ou são coroas. E acreditem, a minha é cara! Muito cara, por sinal!
Você dilatou as narinas, bufando de raiva e ao mesmo tempo morta de vergonha. Sasuke viu que você trincou os dentes e apertou o pulso, e não pôde deixar de concordar com você que aquilo era repulsivo. Ele acreditada no se humano, sem distinção de sexo, raça ou classe. Claro, por que ele passou pelo pior, ele sentia mais... De qualquer forma, ele não fez nada para defendê-la. E você notou que, embora ele não tivesse dito ou feito algo, não achava graça.
— O jantar está servido, senhores. — Jiraya anunciou.
— Ótimo, ótimo... Espero que tenhamos algo de qualidade para comer... Já que minha mulher passou há tempos desse nível. — eu comentei maldosamente, me levantando de minha confortável poltrona.
E mais risadas ecoaram em seus ouvidos lhe enchendo de raiva e repulsa...
A mesa retangular da nossa sala de jantar estava cheia de carnes, saladas, sucos, petiscos e frutas. Eu sentei numa ponta, com você à minha esquerda e Neji à minha direita. Sasuke ousou sentar-se ao seu lado, e eu notei sua cara amarrada para mim. Mas eu não disse nada a fim de observá-lo mais durante a noite. Depois que os empregados nos serviram, começamos a comer em silêncio, até eu me lembrar de trazer à tona um assunto importante.
— Vamos para o Japão... Daqui a dois dias. — eu cortava tranquilamente um pedaço de carne enquanto falava.
Você me olhou espantada.
— Nós vamos?
— Sim, nós vamos. Eu, você, ele — apontei para o Sasuke, acreditando que ele se chamasse, na verdade, Asuke —, e uma colega.
Sasuke me olhou surpreso, mas não disse nada; manteve sua concentração em sua refeição, embora parecesse sem apetite — ele revirava os legumes no prato, sem nenhuma empolgação.
— Uma colega? — você indagou ultrajada pela minha falta de sensibilidade ao mencionar descaradamente uma mulher como colega de trabalho. Mas eu estava relaxado, nem um pouco a fim de discutir com você naquele momento, e simplesmente a ignorei.
— Que bom saber que você não está surda ainda, querida.
Você ficou puta da vida, com aquele meu tratamento nada cortês na frente dos outros.
— No entanto, fico triste em ver que você perdeu a educação e o bom senso. Se é que algum dia os teve... — Admita, você também iria adicionar mais um comentário, ainda mais maldoso que o meu, sobre o fato de eu vir de uma classe social mais baixa em que você nasceu, e só para me humilhar na frente dos outros; mas por respeito a eles você preferiu fechar a matraca naquele instante.
E eu não ia dar continuidade àquela picuinha ridícula, até ver o sorrisinho do Sasuke, que continuava a revirar sua comida, mas olhando para o próprio prato.
— Cale a merda da sua boca, ou eu a calarei. — disse. Eu tinha o meu orgulho que, aliado ao álcool, admito que se tornasse um tanto insuportável. Mas mais insuportável ainda era ver o sorrisinho daquele estranho sentado em minha mesa, me defrontando daquela maneira. Eu tinha que mostrar que, de alguma forma, eu ainda tinha controle sobre a minha casa e minhas possessões; eu tinha que demonstrar que ainda tinha alguma autoridade (o que era muito importante para os homens naquela época, você deve admitir). Por que aquele rebaixamento que o Itachi havia me dado baixou minha superioridade, e isso foi algo que aprendi a manter em alto nível, depois que ele me recrutou para trabalhar.
E como esperado, no mesmo instante, você se calou; tanto pelo medo da ameaça como pela vergonha e humilhação. Você quis sumir, desaparecer, mas tinha a obrigação de me fazer companhia durante aquele jantar estúpido, pelo qual você não fazia idéia do motivo de todos aqueles homens estarem ali. E também nem fez questão de saber. No entanto, apesar do medo, você manteve seu nariz empinado e aquele seu olhar glacial, que por pouco me cortava.
Ignorei, e voltei minha atenção ao Sasuke.
— Então, de onde você veio? — perguntei.
Mas o idiota do Suigetsu, bêbado, se meteu na conversa.
— Esse aí? Deve ter vindo do inferno, por que tudo o que ele faz é com tal precisão e perfeição que só o diabo seria capaz de fazer.
Como ele se manteve calado, espetando com o garfo um pedaço de carne, resolvi atiçá-lo, partindo para o confronto direto; ignorando por completo o outro.
— Mas falando sério, de onde você vem?
Ele me olhou de esguelha, mas sem se deixar abalar. Já os outros, trocaram olhares uns com os outros, disfarçadamente. E, calmamente, Sasuke resolveu levar o garfo à boca e mastigou sua comida lentamente para engoli-la, enquanto eu esperava sua resposta. Em seguida, ele bebeu um copo com água (recusara a taça de vinho), e arrumou o lenço sobre seu colo, para então falar tranquilamente me olhando nos olhos.
— Fui deixado ainda bebê na porta da casa de uma velha senhora. Então, não posso dizer com certeza onde exatamente nasci, senhor... Uzumaki.
— Hum... Que coincidência... Fui deixado também. Não na porta de uma senhora, mas num orfanato de uma ou duas senhoras.
— O número de órfãos no mundo é assustador, realmente. — ele comentou aquilo da forma mais natural possível, como se estivesse apenas passando uma informação qualquer. Eu apenas concordei, mas deixei bem claro em meu olhar que eu não estava indo muito com a sua cara. Você percebeu, mas continuou comendo sem dizer nada, mas se perguntando o motivo da minha atitude para com ele.
Já Sasuke, permaneceu tranqüilo. Isto é, na medida do possível. Pois em seguida, se sentindo novamente enjoado, pediu licença para ir ao toalete. Ele foi se apoiando nas paredes, meio às pressas e respirando fundo. Suigetsu e Juugo não se sentiam tão maus, pois já estavam mais habituados à erva, mas para Sasuke aquilo era novidade.
Assim que ele deixou a sala de jantar, me curvei sobre Neji.
— Ele não lhe parece familiar? — sussurrei.
Neji me olhou de canto, dando de ombros.
— Ele é mendigo a quem surramos, certa vez.
— Uhummm...
Por hora, me convenci de que era somente esse o motivo da estranheza que ele me causava. Mas eu não conseguia negar que houvesse algo mais... Analisando melhor a situação, devo dizer que o Sasuke realmente não era mais o mesmo menino que conhecemos no orfanato. Quando foi levado por aquele homem, ele era um garotinho tristonho, mas que ainda mantinha a inocência de quem nunca vira o mundo real presos nos olhos. Ele olhava para as pessoas com curiosidade e a esperança contida de que as coisas poderiam melhorar. E ali, naquela mesa de jantar tínhamos apenas uma sombra negra daquele menino, coberta pela mascara da solidão, do ressentimento, das dúvidas e da raiva. Ele não era mais o mesmo, nem em seus passos, no jeito de mexer nos cabelos, e menos ainda no olhar.
E era justamente isso o que estava o atraindo a você. Havia aquele manto escuro sobre ele que começou a lhe fascinar. Ele não parecia ter medo nada, e ao mesmo tempo havia aquela tranqüilidade que transmitia ao falar, além do silêncio de seus passos que lhe davam aquele ar de mistério a ser desvendado. Acho que até seus amigos pensavam o mesmo... Mas aquela frieza calma que o cobria estava começando a falar com você, porque você se identificava um pouco com aquilo... A única diferença é que, no fundo, você tinha medo de tudo.
Enfim, você viu que ele continuava a passar mal e fez menção em se levantar para segui-lo, assim que terminei de consultar Neji. Mas eu pus a mão em sua frente, lhe dando meu olhar de repreensão. Eu ia dizer para deixar que Jiraya fosse vê-lo, mas o próprio apareceu na porta me chamando.
— Há uma ligação do hospital para o senhor Uzumaki... — ele disse.
Achei estranho, pedi licença e me levantei para ir até ao aparelho que ficava no corredor da sala de estar.
— Sim? — indaguei, com o fone no ouvido.
— Senhor Uzumaki? — no mesmo instante, reconheci a voz.
— O que houve, Kakashi? — nesse momento, a vi passando por mim com aquele seu nariz empinado, sem sequer me dirigir o olhar. E eu dilatei as narinas e virei de costas, para demonstrar que a conversa seria particular, e você passou reto, indo direto ao banheiro.
Contra a minha vontade, você foi ver o Sasuke. Ele estava debruçado sobre o vaso sanitário, colocando o dedo na goela para vomitar.
— O que está fazendo? — você indagou, se aproximando.
— Preciso expelir o remédio que me deram... — ele respondeu. Em seguida, enfiou o dedo novamente e vomitou. Você o ajudou a se levantar e, enquanto ele se limpava debruçado sobre a pia, você se virou para pegar de dentro do seu decote aquele pedaço de papel que ele havia lhe entregado antes.
“Em uma noite fria, no meio daquele deserto, o soldadinho sem perna procurava um lugar para dormir. Mas tudo o que ele encontrava era aquele mesmo mar de areia que o cercava, onde quer que fosse. Exausto, cansado por tanto caminhar, ele acabou desabando ali, no chão. Se acomodou de barriga para cima, olhando as estrelas no céu. Naquela imensidão, entre o céu e a terra, se sentiu pequeno como uma partícula.
E, então, o soldadinho caiu no sono. Teve pesadelos com a época em que era apenas um brinquedo ignorado no fundo de um armário, naquela escuridão do isolamento. Às vezes, ele ouvia a caixa de músicas da bailarina tocar, mas era raro ouvir aquela melodia, pois o menino não gostava dela... Depois de tanto tempo ali, jogado naquele armário, o soldadinho não conseguia mais se lembrar de como havia perdido a perna. As memórias se misturavam com os sonhos, até ouvir uma voz em seu pesadelo lhe perguntar:
— Você deu sua perna, para que pudesse ter seu coração. Mas devolverei sua perna, se me devolveres seu coração.
O soldadinho se perguntou de onde teria vindo aquela voz. Novamente, ele estava naquele deserto sem fim. Sua única perna estava machucada, com os dedos doloridos por forçá-la a pular por aí. E ao rever a face da bailarina em seu pesadelo, ele desejou ter suas duas pernas para correr mais depressa, e poder encontrá-la.
Sem saber, ou lembrar, das conseqüências de não se ter o coração, ele arriscou a dizer, para quem quer que fosse o dono daquela voz:
—Eu quero minha perna de volta!
O soldadinho sentiu algo o empurrar de volta para o chão. Com o susto, ele sentou-se, respirando fundo. Sentiu como se tivesse acordado de um sonho, num solavanco. E então, lá estava sua outra perna.
E dentro dele, apenas o vazio oco.”
Sasuke estava sentado no chão, respirando fundo, com as costas contra a parede. Ele estava lhe observando, notando o modo como você mexia os lábios enquanto lia em voz baixa. Ao mesmo tempo, aquela sensação ruim que sentia foi passando aos poucos, e já não se sentia tão mal. Seu coração estava voltando a bater no ritmo certo, mas ainda custava um pouco a manter os olhos abertos — ele estava com sono, exausto por ter passado por aquela maratona de tatuagem, sem ter conseguido pregar os olhos ainda.
Você se virou para olhá-lo nos olhos.
— Pobre soldadinho... — você murmurou.
Ele soltou um suspiro pesado e fechou os olhos, encostando a cabeça na parede.
— Ele terá seu final feliz. — ele respondeu. Mas havia tanto ceticismo e amargura no modo como disse aquilo, que você se perguntou sobre o que ele estaria pensando.”
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