Mercadores das Sombras
2 Lembranças
Notas iniciais
Quando acordo no outro dia, olho para o relógio. Estou atrasado. Droga de relógio. Penso, mas sei que a culpa não é do relógio, não deveria ter passado a noite em claro ontem, pensando no que havia acontecido.
Minha casa não é grande, só o suficiente para caber uma pessoa não mais que isso. Sento na mesa para tomar café, como uma fatia de pão com maionese e pego a caixa de leite, o leite coalhou, então me contento só com o pão. Quando vou escovar os dentes, paro e me olho no espelho. Não sou bonito, mas também não sou feio. Visto minha camisa, pego a mochila e saio de casa.
Paro no ponto de ônibus perto da minha casa. O ônibus chega. Com a mão segurando a barra de metal da porta, entro com um salto rápido e logo procuro um lugar para me sentar.
− Andrew, aqui − esse é Mike, meu único amigo no colégio. Ele continua − guardei um lugar pra você.
− Valeu Mike.
− Ah é... fiquei sabendo o que aconteceu ontem, por que não me contou?
− Porque você me deixou sozinho lá − ele riu e depois disse:
− Foi mal cara é que... eu fui com o meu pai visitar a antiga faculdade dele, você sabe, já estamos quase nos formando.
− É eu sei, ainda não sei o que vou fazer depois de me formar.
− Então é melhor se decidir, porque cada dia que passa é um dia mais próximo da formatura.
− Eu acho que nem sou desse planeta, não me encaixo em nada, não consigo achar o meu lugar. É por isso que estou tão indeciso.
− Cara não se preocupa, você vai conseguir − ele tenta me consolar, mas não consegue.
+ + +
Quando desço do ônibus, vejo Ed e seus amigos à minha esquerda. Ele está com uma garota. Jéssica. Encaro-a.
− É melhor não ficar secando ela − diz Mike − ouvi dizer que o último cara que secou a namorada do Ed, teve o braço quebrado − engulo um seco.
Começo a by Text-Enhance\">andar, tento seguir o conselho de Mike, e não olho para os dois. Paro de andar. Minha visão fica borrada, perco o equilíbrio e caio usando minha mão como apoio do meu corpo. Vejo uma mulher alta na minha frente, de costas para mim, e um homem a sua frente. A mulher olha para mim. Seus olhos são azuis, ela usa óculos, é loira e está com uma espécie de faca na mão, uma adaga. O homem está com um olhar preocupado. A mulher se vire e volta-se para o homem novamente, eles discutem alguma coisa, mas não consigo ouvir, meus ouvidos estão sangrando. O homem procura alguma coisa em seu bolso, ele tira a mão serrada para à fora e, uma espécie de areia brilhante sai junto e a areia se transforma em uma... foice.
O homem corre em direção a mulher, lançando a foice contra ela. Ela desvia e segura a foice com força. Sangue começa a escorrer do seu braço, ela foi ferida. Com o outro braço ela atinge o homem com a adaga. Tudo começa a evaporar, e então, me vejo caído na calçada, do lado de fora da escola. Minha visão volta novamente.
− Andrew, Andrew! − Mike está agachado na minha frente, gritando, chamando meu nome − Andrew...
− Mike?
− O que aconteceu cara, você está bem?
− Estou − tento me levantar, minha cabeça não para de girar. Quando olho para frente, vejo Jéssica a alguns metros de mim. Ed está a seu lado, me encarando.
− Precisa de ajuda? − pergunta Mike. Levo alguns segundos para responder.
− Não, eu estou bem, posso andar sozinho.
Começo a andar novamente, dessa vez, não me preocupo em olhar para Jéssica e Ed. Eles continuam me encarando, Jéssica me encara com um olhar estranho, não é o mesmo olhar de ontem, um olhar preocupado. Enquanto Ed, me encara querendo acabar comigo. Desvio deles e entro no colégio.
+ + +
O sinal do intervalo toca. Mike corre em direção a porta e faz um sinal de mão me chamando. Saio da sala sigo ele pelo corredor.
− Cara, pode me dizer o que aconteceu lá? − diz ele − Quer dizer, você apagou por um tempo, eu chamei por você varias vezes e você não respondeu. − Não respondo a pergunta dele. Nos sentamos numa mesa, no canto do refeitório.
− Se eu te contar, você promete guardar segredo? − Digo finalmente.
− Prometo!
− Eu vi uma mulher.
− Uma mulher?
− É, uma mulher. Ela era loira, e tinha um homem também. Eles pareciam estar lutando.
− Lutando, como assim lutando?
− Ela estava com uma faca na mão, e ele com uma, por incrível que pareça, uma... foice.
− O que, uma foice?! − Mike fica de boca aberta, e repete − uma foice?!
− Shiu! Fala baixo, senão os outros vão pensar que eu estou louco.
− Foi mal. Mais isso é esquisito, você andou tomando alguma coisa?
− Mike! Eu não andei tomando nada, isso é sério, me pareceu... tão real.
− Mesmo assim, é estranho. Visões assim, não são um bom sinal.
− Como assim?
− Eu já vi em filmes que pessoas tinham visões, horas depois, pessoas morriam.
− Você anda vendo muito filmes de suspense! − Mike pode estar certo, pode ser um mal sinal, ou pode ser apenas um sonho. Apenas um sonho.
Me levando e começo a andar, Ed aparece na minha frente com os braços cruzados.
− Olha se não é a bela adormecida, como está a cabeça? Ta com dodói ta? − Não digo nada, apenas o encaro. Ele agarra minha camisa. − Você vai se arrepender do que fez ontem, guarde essas palavras − solto sua mão da minha camisa e a empurro contra ele. Ele, então, me empurra. Perco o equilíbrio e caio. Apoio as mãos no chão para me levantar, mas hesito por um instante. Encaro o chão, meu corpo começa a esquentar, um impulso de adrenalina invade meu corpo. Me levanto e rapidamente dou ou um soco no rosto de Ed. Ele perde o equilíbrio, mas não cai. Ele tenta me acertar, mas desvio. Não sei o que está acontecendo comigo, meu corpo esquenta, me da uma vontade de arrancar a cabeça do Ed. Não sou assim, não quero ser assim. Me retiro do refeitório rapidamente.
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