ROMANCES MENSAIS

LIVRO V – MENTIRAS DE MAIO

CAPÍTULO XXIV – SAUDADES

Meu pai sempre foi considerado um herói. Não apenas por mim, mas por todos que o conheciam e o admiravam. Lester Dawson era um homem gentil, corajoso e justo. Ele esteve em inúmeras guerras, lutando bravamente para trazer a paz e salvar vidas. E mesmo presenciando cenas terríveis, todas as vezes que ele retornava para casa, carregava consigo um sorriso amável e a esperança de que o mundo um dia poderia se tornar um lugar melhor.

Ainda que passasse meses longe de casa, eu nunca senti a ausência afetiva de meu pai. Eu me lembro das tardes em que as brincávamos sob o olhar atento de minha mãe diante das peripécias do meu pai. Ao lado dele eu me sentia grande, única. Com suas mãos em minha cintura, jogando-me com o destino ao céu, eu voava alto e longe, sem mesmo me importar com o meu medo de altura. Porque eu não precisava ter medo. Meu pai jamais me deixaria cair.

Não havia limite para a nossa diversão. Quanto maior minha gargalhada, mais entusiasmado meu pai ficava. Foram muitas as experiências ao seu lado, sempre cheias de emoção e desafios. Casinhas de boneca construídas ao lado dele, o equilíbrio na bicicleta e uma engenhosa casa na árvore, onde passávamos inúmeras noites observando as estrelas, enquanto ele contava com um sorriso animado no rosto todo o seu conhecimento sobre o espaço sideral.

Quando minha mãe morreu, eu ainda era uma criança entrando na adolescência. Eu estava confusa e amedrontada. Durante cinco anos, ele abriu mão do seu trabalho no exército para cuidar de mim e garantir que eu jamais ficasse sozinha e de que não me faltaria amor. Ele era o meu confidente e melhor amigo. Com sua personalidade estranha, ele conseguia arrancar risadas minhas mesmo quando eu sentia a dor de não ter minha amada mãe comigo.

E de repente ele não teve escolhas além de ir para a guerra. O governo havia o convocado e não havia nada que ele pudesse fazer. Meu pai me garantiu que aquela seria a última vez e de que voltaria para mim. Eu tinha recém completado meus dezessete anos. Com o coração na mão, eu me despedi dele na base do exército sem imaginar que aquela era a última vez que veria meu pai com aquele sorriso brincalhão, que ouviria o doce som de sua risada e de sua voz amorosa, afirmando que me amava e que tinha orgulho de mim, que sentiria o calor de seu abraço apertado garantindo que tudo ficaria bem.

Receber a notícia de que meu pai havia levado um tiro da cabeça enquanto salvava uma família que estava sendo mantida como refém de terroristas me destruiu. Milagrosamente, ele não havia morrido, mas a região onde a bala atingiu seu cérebro trouxe inúmeras sequelas. Sua saúde se tornou extremamente frágil. Ele perdeu o domínio da fala e a sensibilidade das pernas. Seu raciocínio foi a parte mais comprometida. Por mais que tentássemos nos comunicar, ele não respondia aos chamados.

Durante seis meses, ele ficou em um estado vegetativo, onde ele precisava até mesmo de aparelhos para respirar. Não era fácil cuidar de um homem com quase o dobro do meu peso. Já que ele não conseguia se locomover, eu tinha que me virar para dar banho, trocar a fralda dele, alimentar e dar os remédios. Perdi as contas de quantas noites eu passei aos prantos, implorando forças para conseguir cuidar do meu pai e estudar.

Com a indenização que recebemos do governo, eu consegui sustentar o tratamento mais caro do meu pai, as despesas de casa e conseguir pagar alguém para cuidar dele enquanto eu estava na escola. No entanto, não demorou muito para que o dinheiro acabasse. Recebendo apenas a sua aposentadoria, eu não poderia arcar com todas as despesas, então consegui uma clínica psiquiátrica onde ele pudesse ficar internado com conforto e me mudei para um lugar bem inferior à nossa casa.

Passei a trabalhar o máximo que conseguia e estudei ainda mais para não perder a minha bolsa de estudos. Tudo na esperança de um dia ver o meu pai bem outra vez. Eu não me importava em ter que dormir menos, sacrificar minha vida social ou até mesmo ir dormir diversas noites com fome, apenas porque precisava pagar um medicamento mais caro do meu pai, deixando-me sem qualquer dinheiro. Nada disso importava. Eu só não queria desistir tão fácil assim do meu herói. Eu apenas não queria ficar sozinha.

Agora, enquanto observo o caixão do meu pai ser enterrado com a marcha fúnebre tocada pelos colegas que serviram ao lado do meu pai, meu coração estava em pedaços. Naquele momento eu sentia uma dor sem igual. A saudade me corroía. E ainda assim, eu era incapaz de chorar. Mesmo todos a minha volta lamentando aos prantos a partida de um grande homem, eu assistia a tudo como uma espectadora.

Eu não conseguia dizer nada, muito menos ter alguma reação. As pessoas me abraçavam, proferindo palavras vazias de afeto, algo como ele estar em um lugar melhor ou que Deus sabe o que é melhor, mas nada disso diminuía a minha dor. Nada disso me ajudava a aceitar que ele se foi e que eu preciso seguir em frente. Nenhuma dessas palavras amenizava a saudade e a tristeza que dizimava meu coração.

E ao fim do velório só restou Austin e eu, que sem dizer nada permaneceu ao meu lado. Eu observava a foto de meu pai em seu túmulo e a frase "Um herói que será lembrado por seus grandes feitos e que viverá para sempre em nossos corações". A chuva fraca que caía de forma melancólica soava como um choro do céu pela partida dele. Encaro as nuvens carregadas e respiro fundo, implorando a qualquer entidade divina que lavasse a minha alma e levasse para longe de mim toda a culpa e o arrependimento por não ter feito mais por ele.

— Ally... — Sussurra Austin, colocando o guarda-chuva sobre mim.- Vamos embora. Você vai acabar ficando resfriada.

— Tudo bem. — Concordo, suspirando cansada.

Austin passa o braço por cima do meu ombro e me puxa para mais perto. Abraço sua cintura e fecho os olhos ao sentir ele beijar a minha testa. Ele me conduz pelo cemitério, enquanto a chuva continuava a cair calmamente. Inspiro seu perfume, aproveitando o calor de seus braços. Eu realmente não sei o que seria de mim sem Austin.

Ele havia cuidado de tudo desde que chegamos a Hawkins. Como eu estava abalada demais para pensar e fazer qualquer coisa além de chorar, Austin foi quem cuidou de toda a papelada do enterro, escolha de caixão e avisou a todos conhecidos do meu pai sobre o velório. O loiro ficou ao meu lado o tempo todo, cuidando para que eu comesse e descansasse também.

— Está com fome? — Pergunta o loiro e eu nego, dando um fraco sorriso. — Ally, você precisa comer.

— Eu sei. É só que... — Suspiro, frustrada. Encontro seus olhos me encarando com preocupação. Deixo um beijo em sua bochecha e volto a abraçá-lo. — Eu vou ficar bem. Eu só preciso de um... de um tempo para assimilar tudo. Acho que eu nunca me senti tão... perdida.

— É compreensível. Você estava vivendo sua vida em função do seu pai. Todas as suas escolhas até agora foram baseadas no bem-estar dele. — Afirma o loiro, acariciando minha cabeça. Ele suspira e seu olhar se torna distante.- Mas você é uma pessoa incrível. Qualquer decisão que você tome agora, eu tenho certeza de que você vai se sair bem.

— Obrigada. — Agradeço e suspiro, esperando que ele realmente estivesse certo.

Continuamos a andar calmamente até a saída do cemitério. Assim como ocorreu na hora em que chegamos, somos cercados por inúmeros fotógrafos e repórteres em busca de alguma declaração sobre meu pai ou Brooke. Austin fazia o possível para me esconder da investidas brutais da mídia. Meu coração doía e a raiva me atingia cada vez mais ao pensar que os responsáveis pela morte do meu pai foram pessoas insensíveis como essas. Eles nem mesmo conseguiam respeitar a dor das pessoas.

— Allycia!

— Allycia, uma declaração, por favor!

— Austin! Austin! Austin, poderia nos informar sobre o estado de saúde de Brooke Taylor?

Austin empurrava a todos que entravam em nosso caminho sem dizer nada. Eu sentia seu corpo tenso e ele estava se esforçando bastante para não criar uma confusão com aqueles sanguessugas. Eu permanecia com a cabeça contra o peito de Austin, evitando ao máximo qualquer contato visual com os flashes das câmeras e os microfones sendo pressionados contra nós a espera de qualquer declaração.

— O que pretendem fazer quanto a invasão ao instituto onde seu pai estava internado?

— Allycia! Allycia!

Quando enfim conseguimos entrar no carro de Austin, o loiro sai em disparada para longe da multidão que ainda nos perseguiu por algum tempo até os despistarmos. Encosto minha cabeça na janela do carro e deixo um suspiro frustrado escapar de meus lábios. Essa situação já estava saindo do controle. Desde que chegamos a Hawkins, tudo o que Austine e eu temos feito é fugir de paparazzis e jornalistas irritantes. Eles não davam espaço.

Não importa onde estamos, sempre tem alguém pronto para tirar fotos nossas. Foi assim no aeroporto, no Instituto Psiquiátrico McLean, na casa de Austin, no restaurante em que fomos para almoçar e no cemitério. Eu tive que pedir para Mal ir na minha casa buscar minhas roupas porque era provável que a mídia estivesse no local.

— Você está bem? — Ouço Austin perguntar de maneira cautelosa. — Alguém te machucou enquanto estávamos vindo para o carro?

— Eu estou bem. — Afirmo, abrindo os olhos para encarar a paisagem melancólica da cidade pela janela do carro. — Apenas cansada desses carrapatos que estão nos perseguindo sem qualquer descanso. Eu só queria ir para casa, deitar na minha cama e ter um pouco de paz. Não estou com cabeça para lidar com as perguntas indiscretas deles e os flashes desconfortáveis das câmeras.

— Ally, eu... — Austin suspira e eu desvio o olhar para encarar seus olhos. Eles estavam carregados de culpa. Sorrio levemente e nego, sabendo o que ele ia me dizer.

— Austin, você não tem culpa de nada. — Respondo com sinceridade. Ele me encara incerto, expondo toda a insegurança que sentia. — Não tem porquê você se desculpar. Esqueça isso, está bem? Eu vou ficar bem. Não se preocupe. Eu só preciso de um tempo para me acostumar com a ideia de que eu não sou mais uma desconhecida. Pode ser que eu tenha que mudar meus hábitos e rotina, mas eu vou pegar o jeito.

— Esse é o problema. — Ele sussurra para si mesmo.

Eu o encaro confusa enquanto ele dirigia com o pensamento distante. Decido deixar para lá. A verdade é que eu tinha tomado muitos calmantes e estava cansada demais para pensar. O dia tinha sido longo e doloroso. Então, tudo o que faço é fechar meus olhos e me entregar ao mundo dos sonhos na esperança de que eu possa ver os meus pais ao menos em meus sonhos.

[...]

Duas semanas se passaram desde que retornei para Hawkins. Muita coisa mudou desde então. Após descobrir que Brooke ficou tetraplégica, Clint resolveu que Aaron ficaria na ilha Thunderbolts e assumiria a responsabilidade de cuidar da esposa. Como um bom marido, ele teria que fazer de tudo para garantir toda a assistência que Brooke precisasse para fazer com que a garota voltasse a ter os movimentos do corpo. Os pais de Brooke não ficaram muito felizes com a decisão no início, mas depois de explicar como seria difícil para a garota viver em Hawkins com a mídia em cima, eles concordaram. Clint também garantiu que ela receberia os melhores tratamentos do mundo para voltar a se locomover.

Além de cuidar de Brooke, Aaron foi obrigado a trabalhar no hospital da ilha como clínico geral, atendendo pessoas carentes que vinham de várias partes do mundo para receber os tratamentos de preços acessíveis oferecido na ilha. Ele também teve que fazer um discurso de joelhos, implorando perdão para todas as pessoas que machucou em uma coletiva de impressa. Mesmo diante de todas as vaias e dos tomates que recebeu como resposta, ele permaneceu no local até que Clint aceitasse que era o suficiente.

Surpreendentemente, Clint era a única pessoa que Aaron jamais desafiava. Segundo Mon-El, Clint havia lhe contado que Aaron estava passando por maus bocados na ilha. Longe de toda a mordomia que recebia em Hawkins, ele agora precisava não apenas trabalhar, como limpar casa, preparar as próprias refeições e cuidar de Brooke, que estava bastante depressiva. Como era de se esperar, ela se culpava pela morte de seu bebê e chorava todos os dias pela sua condição. Aparentemente, essa tem sido a parte mais difícil para Aaron lidar, já que ela o culpa por tudo o que aconteceu e não tem facilitado sua vida.

A minha vida virou também mudou completamente nessas duas semanas que se passaram. Não estava sendo fácil lidar com a saudade que sentia do meu pai e tampouco com a presença constante da mídia. A situação estava tão complicada que Mon-El achou melhor que eu entrasse de férias do Hawkeye até que a impressa cansasse de mim e parasse de me perseguir. Ele temia que eu acabasse sendo atacada por algum dos paparazzis enquanto saía tarde da casa de show.

Para a minha segurança, eu tive que trocar meu número de telefone e me mudar para a residência estudantil da Auradon High School. Agora que eu não tinha mais que pagar os caros tratamentos, alimentação e remédios do meu pai, eu conseguia alugar o quarto confortável do prédio ao lado da escola até eu me formar e me mudar para Nova York para estudar na Universidade de Música de Nova York, se tudo ocorrer como o planejado.

Como estou morando no mesmo andar que Mal, quando ela não está treinando para o campeonato de patinação com o Ben, passamos o restante do tempo juntas. Ela tem me ajudado a passar o tempo, cuida de mim como se fosse uma irmã mais velha e a me distrai com suas loucuras. Elena e Cait também faziam questão de estarem sempre presente para que eu nunca me sentisse sozinha. Com as férias no trabalho, eu estava conseguindo dormir mais e me focando muito mais nos meus estudos. Eu também estava usando todo o tempo livre para transformar minha tristeza e frustrações em música. Era uma boa forma de me manter a minha mente ocupada.

No entanto, nem tudo estava indo muito bem. Desde o enterro do meu pai que tenho sentido Austin distante. Nosso maior contato tem sido nos intervalos na escola, onde nos escondemos na cobertura do prédio principal da Auradon. Basicamente, nosso contato tem sido por mensagens, já que nem mesmo temos as mesmas aulas. E por mais que eu pergunte o que está acontecendo com ele, Austin sempre foge do assunto.

Se estamos na sua casa ou no meu quarto na residência estudantil, ele sempre consegue me fazer esquecer do assunto. Infelizmente eu sou fraca demais para resistir aos charmes e carícias dele. Na escola, ele usa a comida ou qualquer coisa idiota para me distrair e escapar das minhas perguntas. Isso estava começando a me deixar insegura. Por mais que eu tente entender o que se passa em sua mente, é como se ele estivesse me afastando aos poucos.

Suspiro ao olhar sua última mensagem avisando que não iria me visitar hoje. Não é que eu queira que ele fique o tempo todo comigo. Eu sei que ele vive em um mundo complicado que exige muito dele, mas essa distância que vem se formando entre nós pouco a pouco tem me machucado cada vez mais. É quase como se eu estivesse lutando em uma batalha perdida e eu odeio essa sensação de incerteza.

Ao ver que a minha bateria descarregaria muito em breve, guardo o celular em minha bolsa e volto a procurar os produtos que estavam faltando em casa. Mesmo sabendo que era arriscado sair sozinha para fazer compras, eu estava cansada de ficar em casa e de ter uma escolta atrás de mim todas as vezes em que coloco o pé para fora do quarto. Eu nunca pensei que sentiria falta de fazer as compras do mercado, uma das atividades que mais tenho preguiça de fazer, mas eu sentia falta da minha liberdade.

E foi por isso que eu coloquei roupas de academia — mesmo que eu odeie fazer qualquer tipo de atividade física -, amarrei meu cabelo, coloquei um boné e óculos de sol, e segui para o supermercado mais distante dos pontos que eu costumo frequentar, então dificilmente acabaria trombando com mais um paparazzi ou com algum conhecido que acabasse revelando a minha identidade, como ocorreu da última vez que tentei ir a loja de música para tentar me animar.

Assim que termino de encher o carrinho de compras com tudo o que precisava, sigo para o caixa do mercado. Para a minha sorte, o lugar estava praticamente vazio e consegui passar as compras e sair do mercado sem problema algum. Mas enquanto eu ajeitava as sacolas em minhas mãos para tentar pegar um táxi, acabo esbarrando em alguém com brutalidade.

E no momento em que pensei que iria cair de maneira nada discreta, sinto a pessoa em quem eu esbarrei me puxar contra ela. Em seu movimento rápido, meu boné acaba indo ao chão e instintivamente encaro a pessoa que me salvou de uma queda nada agradável. Surpreendo-me ao reconhecer Gavin, que também me encarava em uma mistura de confusão e surpresa. No mesmo instante, empurro o rapaz para longe e tento me recompor.

— Ally? O que você está fazendo aqui? E por que está vestida desse jeito? — Questiona o outro, encarando-me de cima até embaixo. Lanço o meu pior olhar de repreensão e isso o deixa ainda mais confuso. — O quê?

— Cala a boca. Eu não quero que as pessoas me reconheçam. — Resmungo, colocando as compras no chão para colocar o boné em minha cabeça novamente. Ele dá uma risada irônica e balança a cabeça negativamente. — E o que você está fazendo aqui?

— Eu moro aqui perto e como é meu dia de folga, resolvi comprar algumas cervejas para beber enquanto assisto a partida de basebol que vai passar mais tarde. — Responde, dando de ombros. Ele então olha para algum ponto atrás de mim e suspira. — Bom, se você queria fugir de paparazzi, veio ao lugar errado.

— O quê? De novo? Como foi que eles me encontraram? — Sussurro, olhando disfarçadamente para trás. Eu definitivamente odeio paparazzi! Será que nem compras eu posso fazer em paz?

— Esse bairro é um lugar onde moram muitas estrelas. Não acho que eles te reconheceram, mas é melhor sairmos daqui se não quiser aparecer nas revistas como minha suposta nova namorada. — Ironiza Gavin, dando aquele olhar convencido.

— Ei! Você não é o Gavin Young? — Alguma garota grita próximo de nós e eu já sinto o frio na minha espinha.

— Ninguém merece. — Resmungo, irritada.

— Por aqui. — Gavin pega em meu pulso e me puxa para a rua em que ele tinha vindo antes. — Aja naturalmente. Não queremos que as pessoas desconfiem que você é Ally Dawson.

— Por que diabos você está me levando? Isso só vai chamar ainda mais atenção. — Retruco entredentes, tentando me soltar desesperadamente.

Gavin ri e como eu imaginava, não demorou muito a aparecer mais pessoas para tirar fotos do idiota, loucos para descobrir quem era a garota misteriosa que estava sendo levada pelo o cantor country de maneira tão suspeita. Não sei quanto tempo tivemos que correr para não sermos parados pelas fãs malucas de Gavin ou pegos pelos paparazzis, mas quando ele finalmente me solta, nós estamos de frente a um condomínio luxuoso.

— Que lugar é esse? — Pergunto, afastando-me do cantor.

— Meu prédio. — Responde Gavin, enquanto coloca o dedo no controle de acesso biométrico que havia na porta de entrada da portaria do luxuoso condomínio. Encaro-o desconfiada, quando ele abre a porta e faz sinal para que eu entrasse. — Não vai entrar?

— E por que eu entraria? Você é o mau caráter do Gavin Young. O cara que me enganou duas vezes e ainda tem a cara de pau de agir como se nada tivesse acontecido. — Respondo friamente.

— Bom, eu ia te levar em casa, mas você que sabe. Fique a vontade para tentar conseguir um táxi por aqui e ainda fugir dos paparazzis. — Fala o rapaz, lançando o olhar convencido dele.

Olho em volta e eu não faço ideia de onde estou. Eu também estou cansada depois de ter corrido tanto. Coloco minhas sacolas de compras no chão e pego meu celular para tentar contato com alguém, mas como era de se esperar, a bateria tinha acabado. Suspiro frustrada e encaro Gavin, que continuava a segurar a porta com aquela expressão irritante.

— Se você aprontou qualquer coisa, eu vou espalhar para a mídia o que você fez comigo e farei questão de acabar de uma vez por todas com a sua carreira. — Ameaço, entrando a passos duros. Ele ri e faz sinal de redenção.

— Sim, senhora. — Responde de maneira sarcástica, antes de me seguir.

Para evitar ainda mais problemas, eu me recuso a subir para seu apartamento e fico esperando ele voltar com a chave do carro. Quando ele finalmente retorna, descemos para o estacionamento do condomínio de luxo. Deixando claro que eu não estava nada feliz com a situação, assim que ele destrava o carro, eu sento no banco de trás, o mais distante possível dele. Gavin ri e revira os olhos.

— E qual é o seu destino, madame? — Questiona Gavin, encarando-me pelo retrovisor do carro.

— Auradon High School. — Respondo, enquanto pego meu celular dentro da bolsa, na esperança de conseguir ligá-lo.

Gavin não demora a ligar o carro e partir, provavelmente em direção ao meu colégio. Um silêncio pesado se instala entre nós. Desistindo de ligar meu celular, volto a guardá-lo na bolsa e observo a paisagem pela janela do carro, imaginando a bronca que levaria de Mal. Ela e Austin parecem competir para ver quem tem mais ódio do cantor.

— O que você estava fazendo sozinha em um mercado que fica do outro lado da cidade? — Pergunta Gavin, atraindo a minha atenção. Dou de ombros, sem realmente ter vontade de responder ao rapaz. — Deixa eu adivinhar. Já está enfrentando problemas em seu relacionamento com Austin Moon.

— Meu namoro com o Austin vai muito bem, obrigada. — Retruco, encarando-o com tédio. — Nem todos os homens são tão mau caráter como você e o Aaron. Aliás, acho que você já pode largar a música e se tornar ator. Você conseguiu me enganar direitinho com a história de que estava com câncer em estágio terminal.

— Olha, você pode falar o que for, mas eu fiz isso porque eu não tive escolha. — Responde, suspirando. — Acha mesmo que eu ia mesmo arriscar a minha carreira voltando a te incomodar? Eu não sou tão idiota, Ally.

— Não teve escolha? — Rio de sua resposta. Eu realmente não conseguia acreditar em como ele conseguia ser tão cara de pau.

— Depois que eu fui embora...

— Roubando as minhas músicas. — Ressalto e ele bufa, balançando a cabeça como se isso não tivesse importância.

— Enfim, depois que eu te deixei em Hawkins, eu comecei a namorar com a atriz Aubrey Hill. Ela era bastante famosa e eu vi a oportunidade de aumentar a minha fama se estivesse com ela. — Revela e era incrível como ele não parecia sentir vergonha ou remorso algum por dizer essas coisas. — O problema é que depois de dois anos de namoro, ela descobriu que eu estava me encontrando com a presidente de uma grande agência de publicidade.

— Você é realmente um lixo humano. — Resmungo, enojada com o rapaz.

— Quando a Aubrey descobriu, ela me processou. Eu teria ido a falência se não fosse por Aaron. Ele conseguiu convencer a Aubrey a desistir do processo e pagou uma enorme quantia para ela esquecer que eu existia. Em troca da ajuda dele, ele me disse que eu precisava ir ao casamento dele e fazer você se afastar do irmão mais novo dele. Se eu não fizesse isso, ele iria me expor para todos e eu ainda teria que pagar toda a quantia que ele desembolsou para calar a boca da Aubrey. — Conta, parecendo frustrado. — Ele me deu também o exame com o resultado de câncer. Não foi algo difícil dele conseguir, já que ele era neurologista. E foi assim que fui parar naquela maldita ilha. Por causa daquela exposição ridícula, eu perdi um monte de patrocínio e até mesmo cancelaram a minha participação em diversos programas.

— Bem feito. Isso é pouco para tudo o que você já fez. — Respondo, rindo.

— Fica rindo, mas você também saiu prejudicada por causa das duas exposições. Agora você é conhecida como a ex-namorada de Gavin Young e a atual namorada de Austin Moon, o herdeiro de um dos maiores hospitais do país. Todo mundo também te associa ao acidente da Brooke e depois do que aconteceu com o seu pai, o país inteiro ficou de olho em você. É por isso que os paparazzis continuam a te perseguir. — Afirma Gavin e eu o encaro com seriedade. — O que foi? Eu disse alguma mentira?

— Você deveria calar a boca. — Digo, irritada.

— Tudo bem. Mas eu vou te dar um conselho de amigo. — Fala o cantor e eu reviro os olhos para o comentário ridículo do idiota. Felizmente, estávamos próximos da escola. — Não vai demorar muito para que o sonso do seu namorado termine com você. Ele não deve estar suportando toda a culpa por ter exposto você e matado indiretamente o seu pai. Eu conheço tipos como ele. Covardes incapazes de lidar com as próprias responsabilidades. Então, aproveite que as pessoas vão ficar com pena de você e lance a sua música.

— Você me dá nojo. — Respondo e suspiro aliviada quando ele para o carro de frente ao meu colégio. Ele me encara entendiado, enquanto eu pego as minhas compras e desço do carro. — O Austin não é como você, Gavin. Ele é um homem íntegro e que esteve ao meu lado quando eu mais precisei diferente de você que só soube se aproveitar dos meus sentimentos. Então faz um favor para mim, Gavin. Vá embora e esquece que eu existo.

— Claro. Foi um prazer te dar carona mais uma vez. — Ironiza o outro e eu bato a porta de seu carro com todas as minhas forças.

Bufo irritada, vendo-o partir cantando pneu. Cega pela raiva que sentia de Gavin e de mim por ter acreditado em um ser tão asqueroso quanto ele, nem mesmo noto quando chego na entrada da residência estudantil. Surpreendo-me ao encontrar Austin encarando o celular com seriedade. Respiro fundo, tentando me acalmar e me aproximo de meu namorado.

— Austin? O que está fazendo aqui? Pensei que não conseguiria vir hoje. — Falo, atraindo a atenção do meu namorado que me encara com seriedade.

— Onde você estava? Eu te liguei diversas vezes. Por que não me falou que ia sair? E se alguém te perseguisse? Você sabe que não é seguro sair sozinha, Ally! — Responde o loiro, analisando-me como se procurasse algum ferimento em mim.

— Eu apenas fui fazer compras. — Respondo, frustrada. Ele suspira cansado e se afasta. — E você não me respondeu o que veio fazer aqui.

— Eu... — Austin se interrompe, parecendo nervoso. Encaro-o com desconfiança. Ele respira fundo, como se estivesse reunindo toda a sua coragem e me encara. — Ally, nós precisamos conversar.