ROMANCES MENSAIS

LIVRO V – MENTIRAS DE MAIO

CAPÍTULO XXII – DOR

O choro desesperado da mãe de Brooke era o único som audível no corredor do hospital enquanto esperávamos o médico aparecer para saber o estado de saúde de Brooke. O marido a abraçava, também com os olhos cheios de lágrimas, completamente desolado pela incerteza sobre o estado de saúde da única filha. Já fazia mais de duas horas que esperávamos por notícias de Brooke e isso nos deixava cada vez mais apreensivos.

Mimi andava de um lado para o outro no corredor, roendo as unhas. Mike estava de pé com os braços cruzados, encostado na parede, enquanto encarava o teto de maneira pensativa. Austin estava sentado ao meu lado, com o olhar distante. Eu segurava sua mão, tentando transmitir um pouco de apoio, ainda que eu soubesse que naquele momento, isso não surtia efeito algum.

Apesar de tudo o que Brooke fez, eu estava muito preocupada e sentia muito mal pela garota. Ela amava Aaron e como eu já previa, ele não sentia nada por ela. Nem mesmo gostava dela. Para o irmão mais velho de Austin, Brooke era apenas uma ferramenta. Saber disso e ainda ser exposta em público pela segunda vez na semana por Clint foi realmente chocante para ela. Tudo isso somado aos problemas que estava enfrentando na gravidez mexeu bastante com a garota.

Assim que chegamos ao hospital bastante moderno da ilha para acompanhar Brooke, Mimi Moon informou ao médico que atenderia a garota que ela estava sofrendo com hiperêmese gravídica, uma ocorrência de vômitos incontroláveis durante a gestação, resultando em desidratação, perda de peso severa e cetose, que é quando o corpo começa a usar a gordura como combustível principal ao invés de usar carboidratos. Por causa disso, ela estava passando mal com frequência, desmaiando diversas vezes ao enfrentar constantes quedas de glicose e pressão durante a semana. Ela estava bastante fraca e sua gravidez já era considerada de alto risco.

Essa informação parece ter deixado o médico mais preocupado ainda. Brooke estava bastante machucada e tinha sangrado muito quando a ambulância apareceu para socorrê-la. A confusão se tornou ainda maior quando a mídia resolveu registrar fotos da atriz, que estava inconsciente e quase irreconhecível. O rosto com um corte terrível na testa, fratura exposta no braço e diversos outros ferimentos causados no momento da colisão do corpo com o asfalto após ser lançada há vários metros de distância pelo carro que vinha em alta velocidade.

Felizmente a polícia e os bombeiros não demoraram mais do que cinco minutos para aparecerem no local e prestarem socorro. Enquanto Mimi, Mike, Austin, os pais de Brooke e eu seguimos para o hospital com Brooke, os avós maternos de Austin permaneceram no local para tentar controlar todos os inúmeros convidados e a mídia que tentava a todo custo obter declarações de Aaron, que permaneceu na pousada ao ser impedido de acompanhar a esposa ao hospital pelos pais da atriz.

Não que ele tivesse insistido muito, mas assim que ele se aproximou de Brooke, a mãe da garota começou a bater em Aaron, gritando que a culpa da filha dela ter sofrido aquele acidente era culpa dele. O irmão mais velho de Austin permaneceu calado, sem esboçar qualquer reação enquanto era atingido pela mulher. Isso parecia a enfurecer ainda mais ao ponto de ser necessário que a polícia interferisse antes que a Sra. Taylor cometesse uma loucura.

Suspiro, encarando meu vestido azul completamente manchado com o sangue de Brooke. Austin me encara preocupado e desfaz o aperto de nossas mãos, retirando o terno que ele usava. O loiro então cobre os meus ombros, provavelmente imaginando que eu estaria com frio. Aperto o tecido e dou um fraco sorriso em agradecimento, sentindo-me frustrada por não saber o que fazer para consolar o rapaz.

Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, o médico que fez os primeiros socorros em Brooke assim que chegamos ao hospital aparece no corredor acompanhado de uma enfermeira. Todos se levantam apreensivos, esperando que ele trouxesse boas notícias. O Dr. Payton, como estava escrito em seu crachá, nos encara com seriedade e isso faz meu estômago se revirar em nervosismo. O homem se aproxima de forma cautelosa, carregando uma prancheta em mãos e assim que nos alcança é abordado de maneira eufórica pelos pais de Brooke.

— Como está a minha filha e o meu neto, doutor? — Questiona a Sra. Taylor, sem esconder o desespero que sentia.

— Eu lamento muito, Sra. Taylor, mas infelizmente não conseguimos salvar a vida do seu neto. O impacto do acidente foi muito forte e devido a fragilidade que a paciente estava enfrentando com a hiperêmese gravídica, como informado anteriormente, a criança não resistiu. — Revela o médico, fazendo a mulher chorar ainda mais agarrada ao marido. Mimi também chora arrasada, abraçando Mike, que parecia igualmente desolado.

Arfo, sentindo um nó se fazer em minha garganta. Ainda que eu imaginasse que algo assim poderia acontecer pela brutalidade do acidente, eu tinha esperanças que eles conseguissem salvar o bebê de alguma forma.

— E como está a Brooke, doutor? — Pergunta Austin, parecendo fazer um grande esforço para se manter firme. — Ela está bem?

— Dada a intensidade do impacto da queda e da batida do carro, foi realmente milagroso que a paciente tenha sobrevivido. A vida dela ainda corre riscos e identificamos uma lesão C5, na qual ela precisará passar por uma cirurgia de emergência para reverter o quadro, além da retirada da criança que já estava de vinte e três semanas. Nós precisamos da autorização da família para realizar os procedimentos cirúrgicos . — Explica o médico e dessa vez é o Sr. Moon que parece o mais assustado.

— O que é uma lesão C5? O que isso significa? — Pergunta o pai de Brooke, preocupado. — Minha filha vai ficar bem?

— Lesão cervical na quinta vértebra. — Responde o Sr. Moon, suspirando. — Lesões nessa região geralmente fazem o paciente ter paralisia nas pernas, tronco e pulso, além de comprometimento nos músculos que movem o ombro e o cotovelo. Em outras palavras, dependendo da gravidade da lesão, ela ficará tetraplégica.

— Não! — A mãe de Brooke se desespera ainda mais, jogando-se no chão, enquanto grita abraçada ao marido, que parecia ter dificuldade para sustentar a esposa. Mimi também estava bastante fragilizada e chorava ajoelhada, provavelmente se sentindo culpada pela situação. Austin corre para ajudar a mãe, enquanto o Sr. Moon ajudava a acalmar a mãe de Brooke.

Eu observava a tudo, completamente em choque. Tudo era desesperador. A Sra. Taylor gritava, questionando o porquê disso ter acontecido com sua amada filha. A cena era de cortar o coração. O pai de Brooke também chorava desolado, abraçando a esposa. E tudo o que eu conseguia fazer era chorar em silêncio, imaginando o que seria da vida da garota de agora em diante. Brooke é só uma jovem de dezenove anos com um futuro brilhante pela frente. Uma atriz talentosa e inteligente o bastante para entrar em uma das melhores faculdades de medicina do estado enquanto continuava seu trabalho como atriz e modelo.

A vida da garota já não seria fácil após a exposição feita no casamento. Por ser uma pessoa pública, ela teria que enfrentar os ataques das pessoas tanto pela internet quanto pessoalmente. Agora ela ainda precisará lidar com a dor da perda de um filho e da liberdade de se locomover. Pior ainda é pensar que enquanto ela enfrenta essas duras batalhas contra a culpa e a raiva, Aaron provavelmente apenas dará as costas a garota ou será indiferente ao sofrimento dela, assim como se mostrou no momento do acidente.

[...]

A chuva caía intensamente pela ilha. Sentada no banco do corredor, observo-a melancolicamente pela janela do hospital. Austin estava com a mente tão distante, que nem mesmo parecia notar o que ocorria. Médicos e enfermeiros andavam de um lado para o outro, conversando ou indo atender a algum novo paciente que chegou na emergência. Meu celular começa a tocar e ao tirá-lo da bolsa vejo o nome de Elena brilhando na tela.

— Eu já volto. — Aviso a Austin, que me encara por alguns instantes e acena concordando. Levanto colocando minha bolsa no ombro antes de seguir para a janela, buscando um pouco de privacidade. Suspiro, cansada por ficar tanto tempo sentada e atendo a ligação. — Oi Elena.

Oi Ally. Está podendo falar? — Questiona a garota de maneira cautelosa.

— Estou sim. — Respondo, encostando minha cabeça na janela do corredor. — Tudo bem por aí?

Sim. Quer dizer, todos estão apreensivos, querendo notícias de Brooke. Ninguém conseguiu dormir. Como era de se esperar, a mídia não foi nada empática com a situação de Brooke e a notícia sobre suas ações e o acidente se espalhou rapidamente. A família inteira se reuniu para tentar contornar a situação, mas as filmagens da exposição e do atropelamento foram divulgados em todos os meios de comunicação possíveis. Nós estamos quase enlouquecendo com toda essa confusão. — Elena suspira, demonstrando todo o seu cansaço. — Mas enfim, Brooke está bem? Alguma novidade sobre o estado de saúde dela?

— Ainda na sala de cirurgia. — Respondo e suspiro ao olhar o horário em meu celular e ver que já se passavam das seis da manhã. — Acho que eles ainda devem permanecer no centro cirúrgico por mais umas duas horas. O médico tinha nos informado que seriam pelo menos umas cinco horas de cirurgia.

É tão surreal pensar que algumas horas atrás ela estava toda sorridente, enquanto seguia para o altar e agora está entre a vida e a morte. Brooke pode ter sido uma vadia, mas não merecia isso. Eu realmente espero que ela sobreviva e que volte a andar. — Elena suspira e eu nem sabia o que dizer. — Como estão Austin e meus tios? E os pais de Brooke?

Deram alguns sedativos para a mãe de Brooke e ela está dormindo. O pai dela está fazendo companhia a esposa e bem... está sem chão. Ele chorou bastante quando recebeu a notícia de que Brooke poderia ficar tetraplégica, mas depois de alguns calmantes, ele está mais calmo. Os pais de também tomaram calmantes e estão lidando melhor com a situação. Eles ainda estão se sentindo muito culpados pelo que houve com ela. Como estavam cansados de ficar sentados de braços cruzados, eles pediram para participar das cirurgias de Brooke. Como a Mimi era a obstetra da Brooke e Mike é um importante ortopedista, os médicos acabaram concordando. E Austin... — Suspiro, encarando o loiro de longe. — Ele está se fazendo de forte, mas eu consigo ver como ele está sofrendo.

— Ele nunca soube muito bem como demonstrar seus sentimentos. Eu fico mais aliviada por você estar ai com ele. — Confessa Elena. Suspiro, fechando os olhos. — E como você está?

Ah, eu... eu estou bem. Preocupada com Brooke. Eu me sinto muito mal por ela. — Respondo, voltando a abrir meus olhos. — E também me sinto frustrada por não saber o que fazer ou dizer para fazer Austin se sentir melhor.

Não acho que tenha que faço algo além de ficar ao lado dele. Quer dizer, não há nada que ninguém possa fazer além de torcer para que Brooke fique bem. E Austin é o tipo de pessoa que quer carregar todos os problemas nas costas sozinho. Ele se culpa até mesmo pelas coisas que não é culpa dele. Se eu o conheço bem, nesse exato momento ele deve estar pensando que deveria ter insistido mais em alertar a todos sobre Aaron ou que deveria ter corrido mais rápido para evitar que Brooke fosse atropelada. Você é a única pessoa que pode dar algum apoio para ele nesse momento. Eu tenho certeza de que só o fato de você estar com ele já o faz se sentir melhor. — Afirma Elena com convicção. — Está tudo bem apenas segurar a mão dele, Ally. Acho que isso é o bastante para ele saber que não está sozinho.

— Espero que você esteja certa. — Digo, suspirando mais uma vez.

— O que me preocupa agora é a sua exposição. Não foram apenas Brooke, Aaron e Austin que se tornaram alvos da mídia. Como Gavin foi citado por Aaron naquela gravação e todos descobriram que o motivo da briga de Austin com Aaron foi para te defender, vocês dois também estão sendo bastante procurados. Você precisa tomar muito cuidado, Ally. Gavin é uma pessoa pública e está acostumado a lidar com a invasão de privacidade da impressa, mas você não. Então fique atenta. Inclusive, evite entrar nas redes sociais. As pessoas já descobriram quem é você e podem acabar sendo muito maldosas. — Alerta Elena, preocupada.

— Eu vou ficar bem. De certa forma, eu esperava ter minha vida exposta no momento em que aceitei ser acompanhante de Austin no casamento. Não é como se eu tivesse algo a esconder e eu não me importo com o que as pessoas dizem de mim. — Afirmo com sinceridade. — E Aaron? Alguma notícia dele?

Ah, depois que ele apanhou da mãe da Brooke e foi bombardeado pela mídia, querendo uma declaração dele, Aaron foi vaiado pelos convidados da festa. As pessoas começaram a jogar comida e várias outras coisas nele, completamente revoltados com o comportamento dele. Foi preciso que os seguranças aparecessem para conseguir lidar com a multidão. Tio Clint apareceu para colocar ordem no lugar e o levou para a sua sala de reunião. O vovô Richard e a vovó Marta foram juntos e os quatro estão lá desde então. Eu não faço ideia de qual será a punição do tio Clint, mas Aaron com certeza está bastante encrencado. E sinceramente? Eu acho pouco. Ele merecia sofrer muito mais depois de ter feito tudo o que fez com o Austin e com você. — Responde Elena, dando uma risada irônica. — Por mim ele podia ser torturado até a morte.

— Bom, sabemos que Clint pode ser bem severo em suas punições. Apenas espero que ele aprenda a lição e se torne uma pessoa melhor, porque por mais que fuja, Aaron vai levar para sempre a culpa de ter destruído a vida de Brooke. Ele até pode não se incomodar com isso, mas as pessoas vão o culpar pelo atropelamento dela, a perda do bebê e pela tetraplegia dela. — Comento, pensativa.

Ele é o Aaron. Não sei se ele realmente vai se importar com isso. Mesmo sendo linchado, ele permaneceu com a cabeça erguida. Em momento algum ele se desculpou ou mostrou qualquer tipo de arrependimento. — Conta Elena, indignada. — De qualquer forma, vamos esperar para ver o que acontece.

— Sim. — Concordo, desanimada.

Bom, Ally, eu liguei apenas para saber como estão as coisas por ai. Qualquer novidade me ligue, não importa qual seja o horário. Eu ficarei com o celular perto de mim o tempo todo. — Avisa a garota.

— Ligo sim. Não se preocupe. Beijos e obrigada por ligar. — Agradeço e logo a ligação é encerrada.

Suspiro, colocando o celular no bolso do terno de Austin que eu ainda vestia. Espreguiço-me, cansada e vou até a máquina de bebidas que havia no corredor. Compro dois cafés expressos e volto para onde Austin estava. Assim que estendo a bebida, ele dá um fraco sorriso, agradecido.

— Obrigado. — Ele bebe um gole do café e suspira satisfeito.

— Tudo bem? — Pergunto, sentando-me ao seu lado.

— Sim. — Responde o loiro, cansado.

— Que tal dormir um pouco? — Sugiro, dando um fraco sorriso. — Você está correndo atrás de resolver todos os problemas desde cedo. Precisa descansar um pouco. Eu fico aqui até o pai de Brooke voltar. Você precisa estar descansado para dar forças aos seus pais quando eles voltarem do centro cirúrgico.

— Eu não vou conseguir dormir, mas você deveria voltar para a pousada. Depois de tudo, precisa descansar. Passou a noite toda aqui no hospital comigo. Pode ir. Eu vou ficar bem. — Afirma Austin, sorrindo gentil.

— Não se preocupe comigo. Eu já estou acostumada a virar as noites trabalhando. Eu estou bem. — Digo, acariciando o rosto bonito do loiro. Ele bebe mais um pouco café e suspira. — Tem certeza de que você está bem?

— Sinceramente, eu não sei. Ainda não acredito que Brooke perdeu o bebê e ainda está tetraplégica. E pior ainda foi ver a frieza do Aaron diante da situação. Ele nem mesmo se importou quando ela foi atropelada. Brooke estava esperando um filho dele e tudo o que Aaron fez foi assistir a tudo com a mesma prepotência de sempre. — Conta Austin, entristecido. Elena estava certa. Eu sentia a culpa em seus olhos, ainda que ele fosse apenas mais uma das vítimas de Aaron. — Eu realmente não sei o que pensar.

— Austin, eu... — Antes que continuasse, meu celular começa a tocar. Suspiro e pego o aparelho que eu havia colocado no bolso do terno de Austin. Estranho ao ver o número da clínica onde meu pai está internado. Ao constatar isso, sinto meu coração acelerar. Aquilo com certeza deveria ser algo importante. — Alô.

Srta. Dawson? — A voz do outro lado da linha é polida e séria. Eu já tinha passado muitos anos convivendo em hospital para saber que aquela forma de falar significava problemas.

— Sim. — Respondo de maneira preocupada.

Meu nome é Gina Coller e falo do Instituto Psiquiátrico McLean. — A atendente se identifica soando mais tensa ainda. Ela respira fundo e meu coração já se prepara para o pior. — Sinto informar, mas o Sr. Lester Dawson faleceu às cinco e quarenta e dois de hoje após sofrer um infarto. Nós fizemos tudo o que podíamos, mas infelizmente, o Sr. Dawson não resistiu. Sabemos que é um momento muito difícil, mas sendo o único contato familiar que temos do Sr. Dawson, nós precisamos que compareça ao instituto para realizarmos procedimentos funerários.

A notícia me pega desprevenida. Austin me encara preocupado ao ver as lágrimas descerem pelo meu rosto em silêncio. Aquilo não poderia ser verdade. Era impossível. Meu pai estava bem no dia anterior. A dor me atingir como um tiro no peito. Eu não conseguia dizer nada. As palavras estavam presas em minha garganta. Austin pega o celular da minha mão, provavelmente sabendo que eu não conseguiria explicar o que tinha acontecido. E tudo o que faço é me permitir chorar alto, entregando-me a dor do luto.