Mentiras de Maio
24 Culpa
ROMANCES MENSAIS
LIVRO V – MENTIRAS DE MAIO
CAPÍTULO XXIII – CULPA
Quando eu era criança, logo após a morte de Sara, ouvi tio Clint dizer que a morte não é a maior tragédia do ser humano. É pior quando algo vital dentro da pessoa morre enquanto ela ainda está viva. Essa morte é certamente a coisa mais temível e trágica¹. Enquanto eu encarava Ally chorar silenciosamente, eu via a dor em seus olhos. Ela era incapaz de dizer qualquer palavra. Ainda assim, era como se ele estivesse morrendo aos poucos. Perdendo todo aquele brilho único de esperança e otimismo que ela reproduz em seus gestos mais discretos.
Imediatamente, pego o celular de suas mãos, enquanto as lágrimas desciam silenciosamente, naquele choro sufocante, onde o grito de socorro parecia preso em sua garganta. Ela se envolve em seus próprios braços, em uma tentativa de consolo, de algum mísero conforto para a alma destruída. Meus chamados entravam pelos seus ouvidos mas não atingiam seu coração. É desesperador e torturante.
— Alô. Quem fala? O que aconteceu? — Pergunto alarmado a pessoa do outro lado da linha. Eu precisava de respostas.
— Olá. Bom dia. Meu nome é Gina Coller e falo do Instituto Psiquiátrico McLean. — Apresenta-se uma mulher com a voz polida. Ao reconhecer o nome do instituto como o local onde o pai de Ally está internado, sinto meu estômago se revirar.
— Olá, Gina. Bom dia. Eu sou Austin Moon, o namorado da Ally. Ela está chorando sem conseguir me dizer nada. Poderia me explicar o que aconteceu? — Pergunto, acariciando as costas de Ally, enquanto ela se apoiava os cotovelos nos joelhos e as mãos no rosto. — Algum problema com o Sr. Dawson?
— Como eu havia informado para a Srta. Dawson, Sr. Moon, infelizmente o Sr. Dawson veio a óbito essa manhã após sofrer um infarto fulminante. — Revela a atendente, confirmando as suspeitas que eu tinha. Como eu gostaria de estar errado naquele momento.
— Como isso aconteceu? O Sr. Dawson estava respondendo bem ao tratamento. Até mesmo fomos informado ontem de manhã que em poucos dias ele seria capaz de ficar em pé sem precisar da ajuda de alguém. — Relembro da animação de Ally ao me contar sobre os avanços do pai no tratamento. Isso não fazia sentido algum. A garota intensifica seu choro. Ela tremia, completamente desolada.
— Essa madrugada, o instituto foi vítima do ataque de alguns repórteres. Não sabemos ao certo o motivo, mas diversos fotógrafos tentaram entrar no quarto do Sr. Dawson para tirar fotos do paciente. Nossa equipe de segurança agiu imediatamente, mas entrada brusca e os gritos dos repórteres em busca de alguma informação sobre o Sr. Dawson o assustou. Como já deve saber, Sr. Moon, o Sr. Dawson possuía uma saúde muito frágil e não podia passar por fortes emoções. Nós tentamos de todas as formas o trazer de volta, mas infelizmente nossos esforços não surtiram efeito. — Relata Gina, surpreendendo-me. Prendo minha respiração sem acreditar no que havia acontecido. — Nós lamentamos muito, Sr. Moon. E infelizmente, precisamos que a Srta. Dawson compareça ao instituto para realizar os procedimentos fúnebres.
— Repórteres? — Sussurro, sentindo o peso em meu coração.
— Sim. Nós tentamos conter todos, mas jamais tivemos que lidar com uma situação como essa e menos ainda em um horário tão cedo. — Responde a atendente do instituto, suspirando. — Nós chamamos a polícia e todos foram encaminhados para a delegacia de Hawkins. Eles responderão por invasão de privacidade e é provável que precisem pagar uma indenização para a Srta. Dawson. Mas creio que nesse momento, esse é o assunto que seja de menor prioridade.
— Sim... nós... nós estamos fora da cidade, mas iremos retornar imediatamente para Hawkins. — Explico, fazendo um esforço para me manter o mais racional possível. — Até o horário do almoço devemos chegar.
— Tudo bem. Estaremos esperando. Obrigada, Sr. Moon. E mais uma vez, lamento pela perda. — A ligação é encerrada.
— Ally... — Chamo a garota mais uma vez, ajoelhando-me a sua frente. — Eu... eu sinto muito.
Ally então levanta o rosto e finalmente consegue colocar para fora o grito de dor que mantinha preso em sua garganta, enquanto se joga contra mim. Eu a aperto, escondendo seu rosto em contra meu peito. Eu sentia meu coração despedaçado. Havia tantas coisas que eu queria dizer, mas nada parece ser o suficiente. Nada poderia amenizar aquela dor que estraçalhava seu coração. Nada que eu dissesse diminuiria o peso das lágrimas que desciam pelo seu bonito rosto, tampouco o soluço desolado de Ally.
— Austin? O que aconteceu? — Minha mãe aparece no corredor, encarando-nos com preocupação. E as lágrimas de repente se formam em meus olhos. — Ally, querida, o que houve?
— O que aconteceu? Por que a Ally está chorando? — Pergunta meu pai, aproximando-se de minha mãe. Ela nega, mostrando não saber o motivo e corre em nossa direção. — Pessoal, vocês estão nos deixando assustados.
— O... o meu pai... ele... — Ally tenta dizer, mas a cada palavra proferida mais dolorosa se tornava sua fala. — Ele morreu!
— O quê? — Balbucia minha mãe, ajoelhando-se ao nosso lado. Ally chora ainda mais e não demora muito para que minha mãe a acompanhasse, abraçando-nos com todo o seu calor maternal. — Oh, querida, eu... eu não sei nem o que dizer. Sinto muito, muito mesmo.
— Nós estamos aqui com você, Ally. Para o que precisar. — Afirma meu pai, colocando a mão sobre o ombro da garota, que assente, dando um fraco sorriso.
— Obrigada. — Sussurra, tentando controlar o choro em vão. — Eu...
— Está tudo bem. Não precisa dizer nada. Chore. Coloque todo essa dor que está sentindo para fora. — Consola minha mãe, quando Ally se afasta de mim para encará-los. A loira acaricia o rosto de Ally, dando um sorriso compreensível. — Você tem todo o tempo do mundo. Fala o que achar melhor. Grite, chore, bata. Nós não iremos a lugar algum. Estamos aqui com você.
Ally volta a chorar e dessa vez é minha mãe quem a abraça, consolando-a. A garota corresponde ao abraço, escondendo o rosto no ombro da mulher. Minha mãe acaricia o cabelo de Ally, enquanto fecha os olhos, parecendo absorver toda a dor que minha namorada colocava para fora. Eu observo a tudo, sem saber o que eu deveria fazer.
— Eu vou pegar um pouco de água para ela. — Avisa meu pai e acabo sorrindo agradecido. Ele não demora a sair, indo em busca do bebedor mais próximo. Instantes depois ele estava de volta e me entrega o copo, esperando o momento em que eu deveria entregar a garota.
Ally permanece naquela posição por mais alguns minutos. Quando parece um pouco mais calma, a garota se afasta de minha mãe e eu entrego o copo. Ela bebe a água aos poucos, enquanto inspira e expira várias vezes de olhos fechados, tentando controlar suas emoções. Quando Ally volta a abrir os olhos, ela nos encara agradecida.
— Obrigada. — Sussurra Ally com a voz soando extremamente dolorosa. Ela respira fundo mais uma vez e engole em seco. — E Brooke?
— Fora de perigo de vida. — Responde meu pai, dando um fraco sorriso. — Nós tentamos de tudo, mas como imaginávamos, a lesão cervical comprometeu os movimentos dos membros superiores e inferiores de Brooke.
— Então ela... — Começo, sem ter coragem de continuar.
— Sim. Ela ficou tetraplégica. — Revela minha mãe com pesar.
— E não há como reverter o quadro dela? — Pergunta Ally, encarando meu pai com esperança.
— É difícil dizer. Pode ser que sim. Pode ser que não. Tudo vai depender da recuperação de Brooke. Em casos como esse 60% dos pacientes recuperam os movimentos dos braços, mas tudo isso depois de passar por uma lenta recuperação com muita fisioterapia e força de vontade. Ela ainda é jovem, então as chances são favoráveis. — Responde meu pai, pensativo. Ele suspira, entristecido. — No entanto, Brooke precisará ser forte para superar essas dificuldades e a família dela ainda mais para conseguir lidar com toda a fúria, a dor e tristeza dela. Brooke perdeu o bebê que tanto amava e a liberdade de locomoção. Ambas as situações são extremamente delicadas e dolorosas.
— Droga. — Sussurro, sem acreditar. Levanto-me e encaro Ally, que continuava extremamente abalada. Respiro fundo e encaro meus pais. — Nós precisamos voltar imediatamente para Hawkins. Nós temos muito o que resolver.
— Ah, claro. — Concorda minha mãe, levantando-se do chão com Ally. Ela suspira e limpa o rosto da garota, deixando um selar carinhoso em sua testa. — Ally, querida, estamos aqui para o que precisar. Nós só não voltaremos como vocês para Hawkins, porque...
— Porque precisam cuidar de Brooke. Está tudo bem, Sra. Moon. Muito obrigada por todo o apoio. — Agradece Ally, dando um fraco sorriso. Minha mãe a abraça apertado mais uma vez. — Eu realmente não sei como agradecer.
— Nós é que precisamos agradecer a você, meu amor. Você foi responsável por trazer muita felicidade na vida do meu menino. Eu nunca vi os olhos de Austin brilharem tanto como brilham quando ele fala de você. Como mãe, eu não poderia estar mais realizada. — Responde minha mãe, afastando-se de Ally. Ela a encara com intensidade. — Cuide bem do meu menino.
— Farei o meu melhor. — Afirma Ally, encarando-me com um sorriso amoroso.
— Agora vão. Aproveite que ainda é cedo e talvez vocês consigam usar o avião de Clint. — Alerta meu pai, colocando a mão em meu ombro. — Assim que chegarem em Hawkins nos avise. Se precisarem de qualquer coisa não hesitem em nos procurar. Qualquer coisa mesmo.
— Obrigada, Sr. Moon. — Agradece Ally, abraçando meu pai, que corresponde com carinho.
— Vamos, Ally. — Digo, assim que eles se afastam. Encaro meus pais com um pouco mais de confiança. — Qualquer coisa me avisem também. Eu mando mensagem assim que embarcar.
— Certo. — Concorda meu pai, acenando.
Assim que me despeço dos meus pais, corremos para pegar um táxi e voltar para a pousada. Mando uma mensagem para Barry, Ben e Elena, avisando sobre a morte do pai de Ally e não demorou muito para que minha prima ligasse desesperada para a amiga. Enquanto as duas conversavam e Ally chorava conversando com Elena e Cait, que aparentemente também ouvia a conversa, conto por mensagem a Barry e Ben a explicação que recebi da atendente do Instituto Psiquiátrico McLean.
Felizmente o hospital não ficava muito longe da pousada e chegamos em no máximo quinze minutos. Assim que descemos do carro, vejo todos os meus primos na porta da pousada, prontos para dar todo o apoio a Ally.
— Vocês poderiam fazer companhia a Ally e ajudando a arrumar as nossas malas, enquanto eu vou conversar com tio Clint? Preciso pedir um avião para nos levar. — Peço a meus primos, que nos encaram sérios.
— As malas estão prontas. Nós arrumamos assim que a Elena nos avisou sobre... bem... — Responde Nancy, dando um fraco sorriso.
— Obrigada, pessoal. — Agradece Ally, observando a todos com os olhos brilhando em gratidão.
— Não precisa agradecer, Ally. Você é da família. — Afirma Thea e todos concordam, fazendo Ally soltar um fraco sorriso, envergonhada. Ela então estende uma pequena mala a Ally, que a pega, sorrindo agradecida. — Nós colocamos algumas roupas e calçados mais confortáveis para vocês se trocarem antes de partirem em viagem. Elena foi quem escolheu, então acho que está no gosto de vocês.
— Obrigado. — Digo, realmente grato por meus primos pensarem em todos os detalhes. Ally e eu ainda usávamos as roupas do casamento, completamente sujas de sangue.
— O grande problema é o avião. — Revela Ben, suspirando.
— O que quer dizer com isso? — Pergunto, preocupado.
— Tio Clint mandou o avião para revisão ontem de manhã e ele ainda não está pronto. Aparentemente, ele só estará aqui no fim da tarde. Os outros aviões que pousaram na ilha já partiram com a maior parte dos convidados do casamento. Tio Clint solicitou um novo avião, mas deve chegar apenas daqui cinco horas, já que eles precisam abastecer. — Explica Oliver, cansado.
— Nós tentamos contato com todos os aeroportos mais próximos da ilha Thunderbolts, mas todos os voos também estão seguindo o mesmo horário do avião que tio Clint solicitou. — Conta Ben, encarando-nos com frustração.
— Não tem nenhum avião nessa ilha que esteja perto de sair? — Questiono, inconformado.
— Bom... tem um. — Responde Damon, cauteloso.
— Então vamos usar esse. — Digo, determinado. Vejo meus primos um pouco hesitantes. Aquilo não era um bom sinal. — Qual é o problema?
— É que...
— O avião é do Gavin Young. É um jatinho particular dele que cabe até cinco pessoas. Como ele veio só com o agente e o piloto, ainda têm dois lugares no jatinho dele. — Elena revela de uma vez, interrompendo a enrolação de Barry. Ele suspira, incomodada. — E bem, ele também está indo para Hawkins.
— Gavin? — Sussurra Ally, surpresa.
— Só pode ser brincadeira. — Resmungo, sem acreditar. — De todas as pessoas, essa é a única com um avião disponível aqui na ilha?
— É ele ou o esperar cinco horas até o jatinho do tio Clint chegar. — Responde Sam, cruzando os braços.
— Austin... — Ally sussurra, separando-se de Cait, que a abraçava com carinho.
Suspiro, inconformado. Pedir ajuda de Gavin era a última coisa que eu gostaria de fazer. No entanto, essa não é uma situação comum. Eu não posso deixar meu orgulho falar mais alto que a razão. Ally acabou de perder o pai. A pessoa que ela mais ama no mundo. Pouco importa com quem iremos. Nós só precisamos chegar rápido em Hawkins.
— Vocês sabem onde Gavin está? — Pergunto, dando-me por vencido.
— Eu estou aqui. — Fala Gavin, aparecendo de repente. Todos nós nos viramos para a entrada da pousada e vemos o rapaz se aproximando com uma mala pequena de rodinha, óculos de sol, calça jeans preta e camisa xadrez vermelha e preta aberta com uma camiseta cinza por dentro. Ele retira os óculos de sol e encara Ally. — Eu fiquei sabendo sobre o seu pai, Ally. Sinto muito por isso. Eu estou indo agora para Hawkins. Ainda tem dois lugares vagos no meu jatinho. Podem vir comigo se quiserem.
— Obrigada, Gavin. — Agradece Ally, dando um suspiro cansado em seguida. Ela se vira para mim. — Austin?
— O que você está aprontando? Por que está sendo tão bonzinho? — Não resisto a fazer a pergunta. Parecia ironia demais do destino o avião dele ser o único disponível naquele momento. Eu realmente não conseguia confiar em Gavin.
— Olha, eu estou oferecendo para vocês as duas vagas que ainda restam no meu jatinho. Se não quiserem, eu não me importo. De qualquer forma, eu saio em trinta minutos. Fica a critério de vocês. — Responde Gavin, dando de ombros. — No avião normal, vocês levariam de três horas e meia a quatro horas. No meu são duas horas.
— Nós vamos aceitar a sua oferta, Gavin. — Responde Ally, determinada.
— Ally... — Suspiro, incomodado. Eu sabia que eu estava sendo irracional, mas meus instintos gritavam para não confiar nesse maldito cantor.
— Austin, meu pai acabou de morrer. Se você não quer ir com o Gavin, então você fica e eu vou. O que eu não posso fazer é ficar mais tempo aqui. Eu preciso ver o meu pai pela última vez e... — Ally respira fundo, tentando controlar o choro que parecia prestes a vir. — Eu tenho um velório para cuidar. Então eu não me importo se o avião é com o Gavin, Aaron ou qualquer outra pessoa. Eu só quero voltar para Hawkins.
— Você não vai sozinha! De jeito nenhum que eu vou deixar você voltar para Hawkins sozinha enquanto tem um bando de urubus rodeando a sua casa, prontos para te atacar em busca de informações. — Responde Cait, contrariada. — Além disso, nesse momento, tudo o que você menos precisa é ficar sozinha.
— Austin, se você não for com ela, eu vou. — Avisa Elena, encarando-me com seriedade. Aquele era o olhar que dizia que ela ia me castrar se eu não tomasse a decisão correta.
— Tudo bem. — Concordo, suspirando. Gavin me lança aquele olhar entediado que me faz querer querer quebrar a cara dele. Respiro fundo, tentando manter a calma, enquanto ele volta a colocar os óculos de sol. — Nossas malas estão no quarto?
— Na recepção. Já realizamos o check-out de vocês também. — Responde Beth.
— Obrigado, Beth. — Agradeço e contrariado, corro para a recepção da pousada para pegar minhas malas com Ben e Barry. Converso com a recepcionista que não demora muito a aparecer com meu violão, a mala de Ally e a minha mala.
— Mantenha a calma, Austin. — Aconselha Barry, assim que pego a última mala. — Ignora ele e se concentra na Ally. Ela precisa de você.
— Não caia nas provocações dele. Lembre-se que a Ally te ama. Ele não significa mais nada para ela. — Continua Ben, ajudando-me a leva meu violão.
— Eu sei. Não precisam se preocupar. — Afirmo, suspirando. — Eu vou me controlar.
— Acho bom mesmo. — Alerta Elena, aproximando-se de mim. Ela leva o dedo ao meu peito e me encara de maneira ameaçadora. — Cuida dela. Não vai ser nada fácil quando vocês chegarem em Hawkins. A mídia vai em cima e ela ainda vai precisar lidar com a perda do pai. Se eu souber que você foi negligente com ela, eu vou te esquartejar, cozinhar e dar para os cachorros comerem. Você entendeu?
— Eu vou cuidar dela. Não se preocupe. — Respondo com sinceridade e ela assente, antes de me abraça apertado. — Vejo vocês em Hawkins amanhã.
Ally e eu nos despedimos de todos os meus primos e, depois de guardar as malas, fomos com o carro de Gavin ao aeródromo em completo silêncio. Assim como na vez em que viemos para a ilha Thunderbolts, Ally tomou um sonífero ainda no carro. Eu realmente esperava que ela conseguisse dormir a viagem inteira. Ela precisaria estar descansada pelo menos fisicamente para lidar com a realidade que iria enfrentar assim que pousarmos em Hawkins.
Quando finalmente chegamos ao aeródromo, encontramos o jatinho branco com listras laranja de Gavin. O agente do cantor e o piloto já estavam no local, parecendo apenas nos esperar para partir. Respiro fundo algumas vezes assim que ele estaciona o carro. Descemos do veículo e eu observo a ilha pela última vez. Havia sido uma semana bastante agitada. E apesar de inúmeros acontecimentos ruins, eu não poderia ser mais grato a esse lugar pelos momentos incríveis que ele me proporcionou. Eu sentiria falta da ilha Thunderbolts.
— Ally e Austin, esse é Jeremy McCoy, o meu agente. E esse é o piloto Connor Hodges. — Gavin apresenta os homens que esperavam ao lado do jatinho. Eles acenam em cumprimento, um pouco confusos. — Jeremy e Connor, esses são Ally Dawson e Austin Moon. Eles vão nos acompanhar na viagem de volta a Hawkins. O pai de Ally faleceu, então se puder ir mais rápido do que de costume, eu agradeceria, Connor.
— Lamento pela sua perda, Srta. Dawson. Farei o possível para chegarmos em no máximo duas horas e dez minutos. — Responde o homem de cabelos e olhos pretos. Ele era baixo e tinha pele bronzeada pelo Sol intenso da ilha.
— Obrigada, Connor. — Ally sorri levemente para o homem.
— Ally, por que você não sobe com o Jeremy, enquanto Austin e eu guardamos as bagagens? — Sugere Gavin, encarando minha namorada. — Pode escolher o assento que você quiser. E pode trocar de roupa no banheiro. Não é muito grande, mas é melhor do que ficar com essas roupas desconfortáveis.
— Está bem. — Concordo, suspirando, antes de me encarar brevemente. Balanço a cabeça, em um sinal de que ela deveria ir. Ela pega a mala que Thea havia preparado para nós e se vira para o agente de Gavin.
— Por aqui, Srta. Dawson. — Jeremy conduz Ally para o jatinho, assim como orientado por Gavin.
— Connor, nos ajude a tirar as malas e leve o carro de volta para a loja em que eu o aluguei. Austin e eu vamos colocando as bagagens no jatinho. — Fala Gavin, abrindo o porta-mala do carro.
— Como desejar, Sr. Young. — Responde o piloto, ajudando a tirar as malas do carro.
Assim que retiramos todas as malas, Gavin entrega a chave do carro para Connor, que segue com ele para a loja de aluguel de carros que havia ao lado do aeroporto. Incomodado por estarmos sozinhos, pego o máximo de bagagens possíveis para levar o compartimento que havia atrás do avião para guardar as malas. O cantor vem logo atrás, trazendo também seu violão e a mala dele e a minha.
— A vida é realmente irônica. — Comenta Gavin de repente, assim que coloca sua última mala no compartimento do avião.
— O que você quer dizer com isso? — Pergunto, fechando o compartimento do avião. Eu conseguia ver um sorriso divertido em seus lábios.
— Você me odeia por ter quebrado o coração de Ally. — Começa, encarando-me intensamente. — Mas é por sua causa que o pai dela está morto.
— O que você...
— Os boatos correm rápido. Eu sei que o pai dela teve um infarto depois que a clínica onde ele estava internado foi invadido por paparazzis. Isso aconteceu porque ela é a namorada de Austin Moon. Se você não tivesse a inserido no seu mundo, Ally não teria que enterrar o único familiar dela vivo por causa de algo tão estúpido como pessoas em busca de informações sobre a sua família. — Gavin me interrompe, jogando na minha cara, aquilo que eu estava evitando ao máximo pensar. — Eu posso ter sido um babaca com ela, mas pelo menos eu nunca coloquei a vida dela em perigo. E você? Acha mesmo que é capaz de proteger a Ally do que está por vir? Porque você e eu sabemos que isso foi apenas o começo. Ela agora vai ter que mudar de casa, de trabalho e talvez até mesmo de escola. E não importa o que ela faça, Ally sempre será conhecida como a namorada de Austin Moon, o herdeiro do IU Health Methodist Hospital, e não como a talentosa cantora e compositora Ally Dawson. Está pronto para destruir o futuro dela?
Gavin então segue para o jatinho, deixando-me para trás com a culpa consumindo meu coração. Eu queria ser capaz de ignorar suas palavras. De pensar que tudo não passava de sua tentativa de contaminar a minha cabeça, mas eu sabia que boa parte do que ele disse era verdade. Meus avós já haviam me alertado sobre as diferenças de nossos mundos. E agora... agora o pai de Ally morreu por causa da minha ingenuidade. Eu achei que fosse forte o bastante para proteger a mulher que eu amo de qualquer mal. Mas o que eu faço se a pessoa que está trazendo sofrimento para ela sou eu?
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