Mentiras de Maio

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ROMANCES MENSAIS

LIVRO V – MENTIRAS DE MAIO

CAPÍTULO III — CONDIÇÕES

Ally Dawson havia atraído minha atenção no instante em que as cortinas do palco do Hawkeye se abriram e ela mostrou todo o seu talento musical. A forma como ela parecia se divertir na plataforma elevada do palco foi ainda mais surpreendente. Era nítida a liberdade que ela sentia diante de toda a agitada e hipnotizada plateia. Ally estava dando o seu melhor naquela apresentação e aquilo foi encantador.

Tio Mike também não poupou esforços para elogiar a mais jovem e doce funcionária do Hawkeye. Como um pai, ele elogiava de maneira orgulhosa todo o talento da cantora. E sendo sincero, Mon-El Mike Matthews dificilmente elogiava alguém mais jovem que ele sem acrescentar um "pirralho" ou "pestinha", como foi o caso dessa vez. Ele realmente parecia gostar muito de Ally e a forma como falava dela demonstrava todo o cuidado paternal que ele tem por ela.

Depois de ouvir sua história, eu entendia o motivo de tanta preocupação com a garota. Ally é jovem demais para suportar tantos problemas assim sozinha. E o mais impressionante ainda é que ela nunca demonstra isso. Na escola, mesmo sendo bastante tímida e reservada, Ally está sempre sorrindo de maneira doce e é muito amável com todos. Mesmo agora, contando sobre sua situação, ela permanecia de cabeça erguida e os lindos olhos castanhos brilhando em esperança e carinho.

É inevitável não rir da expressão chocada que ela faz ao descobrir o motivo de querer conversar com ela, quando nunca trocamos mais do que uma ou duas palavras e isso só ocorreu porque os melhores amigos dela da escola são da minha sala. A verdade é que nem mesmo eu entendia o motivo de achar que seria uma boa ideia propor algo tão estranho assim a alguém que não conheço.

— Namorada de mentira? — Comenta Ally, encarando-me com curiosidade e surpresa. — Por que precisa de uma namorada de mentira? Você é Austin Moon! Você é bonito, divertido e popular. Não deveria ser tão difícil assim achar uma namorada e de verdade, eu suponho.

— Ah, eu tinha uma. Só que ela engravidou do meu irmão e vai se casar no fim do mês com ele. E para completar, eu serei padrinho de casamento deles. Melhor ainda, eu serei obrigado a passar sete dias com os pombinhos em uma ilha no meio do oceano Atlântico, vendo eles mostrarem para todos o quanto estão apaixonados. Ah, e o convite para ser padrinho foi feito com direito a agradecimento por ser cupido deles, enquanto estava sendo o corno da história. — Conto com ironia e ela parece ainda mais surpresa. — Ai o otário aqui simplesmente prometeu que iria e ainda levaria uma acompanhante, porque o adorável do meu irmão ainda tentou me humilhar mais do que já estava sendo humilhado na frente de mais de duzentos ricos estúpidos e esnobes que não tinham mais do que fazer além de ir a uma festa só para um babaca apresentar a namorada misteriosa dele, que advinha só? Terminou comigo no mês passado sem qualquer explicação depois de um ano de namoro.

— Ah, entendi. — Balbucia Ally, parecendo tentar absorver todas as informações. Suspiro e me repreendo mentalmente ao ver que havia despejado todas as minhas frustrações em cima de alguém que não tinha nada a ver com isso.

— Desculpa. É bobagem. Eu não deveria estar incomodando você com isso. — Lamento e ela me encara surpresa, antes de balançar a cabeça em negação.

— Sinto muito pelo que passou. Não deve estar sendo fácil lidar com essa situação. Eu... — Antes que ela continuasse a falar, alguém bate na porta da sala onde nós estávamos. Não demora muito para que Elena abrisse a porta e desse um sorriso sem graça para nós.

— Desculpa atrapalhar a conversa de vocês, mas Ally, nós precisamos de você. O salão está ficando cada vez mais cheio e eu não faço ideia onde a Cait se meteu. Mon-El está para enlouquecer com os pedidos se acumulando e ninguém para servir. — Explica Elena, parecendo exausta. — Que tal você levar a Ally para casa quando ela terminar o turno de trabalho dela? Assim vocês podem conversar mais calmamente e ainda evitar que ela pegue ônibus nesse horário tão perigoso.

— Elena! — Ally repreende minha prima, extremamente envergonhada. Elena ri e me lança aquele olhar que eu conhecia como "deixa de ser trouxa e aproveita a oportunidade ou eu faço questão de te esfolar". — Não precisa, Austin. É sério. Eu saio muito tarde daqui e amanhã nós temos aula. Por que você não vai para casa e amanhã no intervalo nós conversamos?

— Você mora longe daqui? — Pergunto, curioso.

— Não...

— Sim. Ela mora na periferia da cidade e por causa disso, tem que andar um tempão para chegar na parada onde passa o ônibus que vai para a casa dela. Como demoraria muito tempo para ela ir em casa e depois ir para a escola, geralmente ela vai daqui direto para a escola e troca de roupa no banheiro da escola. Por chegar cedo demais na escola, ela dorme um pouco na sala de aula esperando dar o horário para a lanchonete da escola abrir e ela tomar o café da manhã dela. — Revela Elena, recebendo um olhar repreendedor da amiga. — O quê? Não adianta me olhar assim. É a verdade!

— Não dê ouvidos a ela, Austin. Não precisa se preocupar com isso. Amanhã nós conversamos com mais calma na hora do intervalo. — Afirma a garota, dando um doce sorriso. Elena me lança aquele olhar ameaçador dela, mas nem mesmo precisava daquilo tudo. Eu a levaria de qualquer forma. Ainda mais depois de saber sobre a rotina dela.

— Eu te levo. — Respondo e ela abre a boca para nega, mas eu sou mais rápido. — Eu insisto. Por favor, Ally. Eu quero te levar em casa.

A garota me encara com os olhos arregalados e a boca levemente aberta. Ela parecia ainda mais jovem do que geralmente aparenta ser. Elena ri baixinho, divertindo-se com o comportamento da amiga e isso parece fazer ela despertar. Ally suspira, dando-se por vencida. Sorrio, satisfeito.

— Obrigada. — Agradece, dando um fraco sorriso. — Agora eu preciso voltar ao trabalho.

— Tudo bem. Ficarei esperando. — Afirmo e ela assente, saindo da sala, mas não sem antes lançar um olhar nada amigável para Elena, que ri e dá de ombros.

Aproximo-me então de minha prima e dou o meu melhor sorriso. Elena me encara desconfiada. Apesar de não sermos primos de sangue, ela me conhecia bem o bastante para saber que eu queria alguma coisa. Estendo a minha mão e ela alterna o olhar dela entre minha mão e o meu rosto, sem entender o que eu queria.

— O quê? — Pergunta, cautelosa.

— A chave do seu carro, por favor. — Peço e Elena começa a rir, provavelmente pensando que eu estava brincando.

— Você... você está falando sério? — Questiona, quando percebe que eu continuava com a mesma expressão e com a mão estendida. Sua expressão chocada e indignada era realmente divertida. — Por que logo o meu precioso carro?

— Bom, foi você quem deu a ideia de levar a Ally em casa. Eu vim no carro de Barry com o Ben. Qual seria o sentido de levar Ally se fossemos de ônibus? Além disso, o Barry provavelmente vai levar a Cait, já que eles também precisam conversar. E se eu quero falar sobre a nossa família, não para pegar um táxi. — Respondo e ela faz um bico, frustrada por não poder argumentar contra aquilo. Desanimada, ela vai até um armário que havia na sala de descanso, usa a digital para abrir o que pensei ser o dela e tira uma bolsa de lá. Resmungando, Elena revira a bolsa até encontrar a chave e me entregar quase chorando. — Obrigado.

— E como é que eu vou para casa agora? — Pergunta, choramigando.

— Chama o Damon. Eu tenho certeza de que ele viria sem problema alguma. — Respondo e Elena me encara como se eu estivesse falando a maior idiotice que ela já ouviu na vida dela.

— Eu prefiro ir andando e ser assassinada por algum psicopata tarado na rua do que me humilhar para aquele maldito prepotente! — Exclama, batendo a porta do armário com força para fechar. Era sempre engraçado ver a reação exagerada de Elena todas as vezes que citamos Damon.

— Você que sabe. — Respondo, rindo. Ela me encara com raiva. Abraço a garota e dou vários beijos na bochecha dela, fazendo-a gritar irritada. — Obrigado, prima.

— Definitivamente você é muito irritante, Austin Moon. — Resmunga, quando finalmente consegue se soltar. Ela arruma o cabelo preto, antes de suspira e me olhar com um sorriso preocupado. — Toma conta dela. Ally é uma garota muito especial. Sinceramente, você foi um idiota por ter caído nas provocações de Aaron. Ele é um manipulador de primeira. Mas já que você falou que levaria uma acompanhante, eu apoio que essa pessoa seja a Ally. Ela é uma pessoa maravilhosa e acho que essa pode ser uma experiência interessante para vocês.

— Obrigado. — Agradeço, surpreso pela reação de Elena, que ao contrário de tio Mike, parece mesmo querer que Ally seja a minha acompanhante.

— Mas se você fizer a Ally sofrer, eu não vou me importar de que você é o meu adorável primo de coração. Eu juro que vou quebrar todos os seus dedos e arrancar a sua pele. E você sabe que eu sou louca o suficiente para fazer isso com facilidade. — Ameaça a garota, olhando de maneira intimidadora. Encolho-me diante da ameaça. Elena é louca. Eu não tenho dúvidas de que ela realmente poderia fazer isso comigo.

— Eu... — Engulo em seco quando a aura assassina de minha prima se torna ainda mais intensa. — Eu prometo que farei o meu melhor.

— Ótimo. — Responde, sorrindo satisfeita. — Eu...

— Elena! — Grita Ally da porta da sala de descanso. — Se você não vier agora, acho que o Mon-El vai ter um ataque nervoso.

— Estou indo. — Afirma, alarmada. Ela me encara e faz sinal de que estaria de olho em mim antes de sair da sala. Ally dá um sorriso envergonhado.

— Você está bem? — Pergunta preocupada e eu acabo rindo, concordando.

— Nós nos conhecemos desde que eu nasci. Não se preocupe. Eu já estou acostumado com as loucuras da minha prima. — Afirmo e ela parece surpresa, mas ao mesmo tempo aliviada.

— Então você é um dos sobrinhos de Clint. — Comenta Ally, pensativa.

— Sim. — Respondo, enquanto seguia a garota de volta para o salão do Hawkeye. — Como você...?

— Bom, eu preciso voltar ao trabalho. Como pode ver, a casa está realmente cheia hoje. — Comenta a garota, assim que chegamos a pista de dança. Ela sorria sem graça e parecia um pouco hesitante.

— Tudo bem. Ficarei no balcão com o tio Mike até o fim do seu expediente. — Afirmo e ela assente, parecendo ainda incomodada com o fato de que eu a levaria para casa.

Não demora muito para que Ally volte ao trabalho. Observo a garota até ela desaparecer em meio as mesas e pessoas que se divertiam pelo salão da casa de shows. Guardo a chave do carro de Elena em meu bolso antes de voltar para o balcão e somente nesse momento eu me lembro de Ben. Ele com certeza quer me matar.

[...]

— Desculpa a demora. — Lamenta Ally, assim que retorna do vestiário.

Observo-a por alguns instantes. Diferente da aparência mais extravagante que usava até poucos minutos atrás. Ally usava uma calça jeans clara, um moletom rosa e tênis brancos. Em suas costas, a mochila da escola, comprovando que o que Elena disse sobre a rotina de Ally era verdade. Sem toda aquela maquiagem, noto as maçãs do rosto avantajadas e levemente coradas com os lábios rosados. Ela é realmente muito bonita.

— Não tem problema. Já está pronta para ir? — Pergunto e ela assente, sorrindo sem graça.

Aceno para Ben, que estava no balcão esperando de maneira um pouco deprimente tio Mike terminar de organizar a casa de shows para ir para casa. Ele me dá um falso sorriso e acena lentamente. Ele estava furioso e eu já havia perdido as contas de quantas mensagens amaldiçoando Barry e eu ele havia mandado naquela noite.

Eu sabia que ele tinha motivos para estar assim. Primeiro não fomos embora cedo como havíamos dito que faríamos. Segundo, Barry e eu esquecemos dele e ficamos longe a maior parte da noite. Por fim, ele iria embora de moto com tio Mike e, bom, ele odeia motos. Então é claro que ele ficaria possesso. Se fosse em outra ocasião, eu tentaria me desculpar com ele naquele momento, no entanto, minha prioridade naquele dia era a linda garota que me encara com os olhos cheios de culpa.

— Ele vai ficar bem? — Pergunta Ally, preocupada com Ben.

— Vai sim. Ele ama andar de moto. Eu só não sei se ele irá para a escola. Mas tudo bem. Ele anda bastante estressado ultimamente e merece ter um dia de folga. Então pense que isso é para o bem dele. — Respondo em tom brincalhão e Ally ri. Seguimos para o estacionamento do Hawkeye, onde Elena havia me avisado que deixou o carro estacionado. Olho para o relógio e vejo que já eram mais de cinco horas da manhã.

— Sinto muito pelo horário. Era por isso que eu não queria que você me esperasse. Eu sempre saio tarde daqui. — Fala, parecendo se sentir culpada.

— Esse é mais um motivo para te levar em casa. — Afirmo e ela suspira. — Mas se isso faz você se sentir melhor, pense que eu também fiquei por motivos egoístas como o de tentar ganhar pontos com você para te convencer a se tornar a minha namorada de mentira.

— Pensei que tivesse desistido dessa ideia. — Comenta, parando de andar. Ela me encara com seriedade e um pouco hesitante. — Por mais que eu entenda seus motivos, não acho que eu possa ser de alguma ajuda. Eu sou uma péssima mentirosa, Austin. O mais provável de acontecer se eu for junto com você é que todos descubram a mentira no mesmo instante em que me virem. Além disso, nós pertencemos a mundos diferentes. Você sabe. Eu sou só uma garota comum e pobre. Sua família é extremamente rica e influente.

— Você está longe de ser uma garota comum. — Respondo, voltando a andar. Destravo o alarme do carro de Elena e abro a porta do passageiro para que Ally entrasse. Ela continuava a me encarar, parada no mesmo lugar. — E dinheiro não tem nada a ver com isso, Ally. Não espero que seja como as pessoas da minha família. Sinceramente, prefiro de verdade que não seja. Apenas seja você mesma e isso será o suficiente para mim.

Ally suspira e se aproxima, entrando no carro em seguida. Fecho a porta e vou para o lado do motorista. Não consigo evitar um revirar de olhos ao ver como o carro de minha prima parecia ter de tudo dentro dele. Até mesmo copos vazios de refrigerante estavam jogados pelo lugar. A garota ao meu lado parece perceber o meu descontentamento e ri.

— Pelo visto você se arrependeu de pegar o carro de Elena. — Comenta Ally com divertimento, quando eu pego o par de sapatos que estava no piso do banco do motorista e jogo para o banco de trás com evidente desconforto.

— Agora me sinto menos culpado por ter feito ela ir de táxi para casa. — Respondo, dando uma piscadela para Ally, que revira os olhos e volta a rir. — Bom, que tal me falar o seu endereço?

— Você sabe onde fica a Isle of the Lost? Eu moro naquela região. — Questiona e eu a encaro surpreso. — O quê?

— Você mora na região mais perigosa da cidade? — Questiono e ela dá de ombros.

— O aluguel é muito mais barato e não é tão ruim assim. O prédio onde eu moro pode ser velho e a vizinhança um pouco intimidadora, mas meus vizinhos de apartamento são muito gentis. Eles me dão comida com frequência e como eu passo o dia todo fora, ele sempre tomam de conta do meu apartamento. — Afirma, parecendo estar sendo sincera. Novamente, eu não conseguia entender a capacidade dela de ver o lado positivo da situação.

— Você é realmente surpreendente. — Comento, ligando o carro. Sigo para o destino que a garota havia dito. Apesar de nunca ter ido a Isle of the Lost, por ser uma zona perigosa da cidade, todos sabem muito bem onde fica o local para nunca irem até lá.

— Por que está dizendo isso? — Pergunta Ally, confusa.

— A forma como você enxerga o mundo parece sempre tão positiva. Parece ver sempre o melhor de cada situação independentemente do quão ruim ela seja. — Explico e ela me encara com um fraco sorriso. — É como se nada pudesse te abalar. Você é muito forte, Ally.

— Você está enganado. Eu não sou tão forte assim. Mas é exatamente por isso que tenho que dar o meu melhor para não me deixar abater pelas dificuldades. Minha mãe sempre me dizia que o trabalho duro algum dia sempre será recompensado, então tudo o que eu preciso fazer é sorrir, levantar a cabeça e dar o meu melhor, porque chorar ou me esconder não vai mudar nada. Faz muito mais sentido procurar uma solução para os nossos problemas do que ficar sentada esperando um milagre acontecer. — Responde a garota com o rosto sério e os olhos brilhando em determinação. — É por isso que acho que você também será capaz de encontrar alguém que seja ideal para ser a sua namorada de mentira enquanto você der o seu melhor.

— Isso só me faz querer ainda mais que você seja a minha namorada de mentira. — Sussurro para mim mesmo, mas isso não parece ter passado despercebido por Ally, que suspira e balança a cabeça em negação.

— Austin, você é muito bonito, é uma pessoa maravilhosa e estuda em uma escola cheia de garotas lindas e que podem te ajudar muito mais do que eu. — Argumenta Ally e dessa vez sou eu que suspiro, frustrado por ela não enxergar que estava muito acima de qualquer garota rica, fútil e esnobe daquela escola.

— Eu tenho quase certeza de que essas mesmas garotas de que você está falando não pensariam duas vezes antes de cair de amores pelo meu irmão mais velho. — Resmungo e ela me encara sem entender o que eu queria dizer. — Você não conhece Aaron. Desde que eu era criança, ele conseguiu atrapalhar todos os relacionamentos que eu já tentei ter em minha vida. Fosse amizade ou interesse romântico, meu irmão sempre aparecia para seduzir a pessoa e a levar para longe de mim. Para a minha infelicidade, o que Aaron tem de beleza, ele tem em dobro a maldade e o dom da manipulação.

— Quem te garante que o mesmo não pode acontecer comigo? Nós não nos conhecemos. Eu poderia muito bem acabar me apaixonando por seu irmão enquanto estivermos na ilha. — Comenta a garota, cruzando os braços, enquanto me encara em desafio. Rio, achando adorável a forma como ela tentava parecer durona.

— Tem razão. Nós não nos conhecemos. No entanto, somente essa noite eu recebi duas ameaças de morte de duas das poucas pessoas em quem eu confio de olhos fechados, alegando que eu se eu te fizer sofrer, acabarei arcando com altas consequências. E você trabalha para o tio Clint. Não acho que ele te contrataria se fosse uma pessoa tão influenciável assim. — Explico à garota, que bufa, encostando a cabeça no vidro da janela do carro. Encaro a garota brevemente antes de voltar minha atenção para as pistas vazias da cidade. — Meus primos disseram que eu deveria confiar nos meus instintos e que ainda existem pessoas muito boas no mundo. E meus instintos dizem que você é a alguém em quem não vou me arrepender de confiar, Ally.

— Eu realmente fico grata pela confiança, Austin, e entendo como deve ser difícil para você confiar nas pessoas. Mas como eu poderia ficar sete dias longe de Hawkins? Eu preciso trabalhar para pagar minhas contas e estudar. É o meu último ano e eu preciso de notas altas se quiser ganhar uma bolsa de estudos para Universidade de Música de Nova York. Mas mais do que isso, meu pai precisa de mim. Não posso deixá-lo sozinho por uma semana inteira. É muito tempo. — Ally dá um fraco sorriso e eu finalmente entendo os maiores motivos de sua hesitação. — E eu não tenho condições de bancar uma viagem de uma semana, Austin. Eu mal consigo me manter no mês, quem dirá realizar algo tão extravagante quanto uma viagem para fora do país.

— Por que não fazemos um acordo? — Proponho e ela me encara, rindo em descrença.

— Você não desiste, não é mesmo? — Pergunta, parecendo um pouco incrédula com a minha teimosia e insistência.

— Seja teimoso e inteligente como um Barton. — Respondo Ally com o lema de minha família e vejo os olhos da garota se arregalarem levemente. — Posso não ser tão inteligente quanto as pessoas de minha família, mas compenso tudo em teimosia. Eu realmente quero que você se torne a minha acompanhante, Ally, então farei o que estiver ao meu alcance para te convencer a aceitar a minha proposta.

— Clint me disse a mesma coisa quando me recebeu no Hawkeye pela primeira vez. — Comenta e eu a encaro confuso. — Seja teimosa e inteligente como uma Barton.

— Tio Clint te disse isso? — Pergunto, surpreso. Ela assente, nostálgica. Sorrio, satisfeito. Eu conheço tio Clint há tempo o bastante para saber que ele apenas diria isso a alguém em quem ele realmente confia. — Tudo bem, Ally. A minha proposta é a seguinte. Faremos exatamente como tio Clint faz.

— O que quer dizer com isso? — Questiona a garota, confusa.

— Eu vou providenciar alguém para cuidar de seu pai enquanto estivermos na ilha, que vai te manter informada sobre o estado dele e fazer tudo o que for necessário para garantir a saúde e conforto dele. Minha família é dona do maior hospital da cidade. Eu tenho certeza de que não será tão difícil assim encontrar alguém. Melhor ainda, eu o levarei para a melhor clínica especializada no tratamento que seu pai precisa e vou pagar por tudo. Quanto as suas contas, eu te darei o valor triplicado que você ganha nesse período de sete dias e vou arcar com todos os gastos da viagem. E sobre a bolsa para a Universidade de Música de Nova York, eu conseguirei uma carta de recomendação de um ex-aluno honorável. Isso com certeza vai ajudar e muito você a conseguir a bolsa de estudos deles. — Exponho todas as soluções possíveis que pude pensar para os problemas apontados por Ally, assim como tio Clint havia me ensinado.

— Você está tentando me comprar, Austin? — Ally parecia ofendida e isso me deixa confuso. — Eu não sei que tipo de pessoa você acha que eu sou, mas eu não estou à venda. Não importa o quão difícil seja a minha vida, eu jamais...

— Não, Ally! Eu nunca pensei que estivesse a venda ou algo assim. Eu sinto muito se pareceu que eu estivesse fazendo isso. — Interrompo a garota, preocupado por ela ter entendido errado as minhas intenções. — Eu apenas gostaria de fazer troca de favores, assim como tio Clint trabalha. Você me ajudaria a lidar com a minha família e em troca, eu faria o possível para te ajudar. Em momento algum eu quis te tratar como um objeto ou tentei te comprar. Eu realmente peço perdão se dei a entender isso. Se você não está satisfeita com esse acordo, podemos sentar e conversar sobre um acordo que te agrade. A única coisa que quero em troca é que finja ser minha namorada durante esses sete dias. Nada além disso.

— Tudo bem. — Ela responde, suspirando cansada. — É só que eu não acho que essa troca esteja sendo justa. Eu... eu realmente não sei se posso fazer isso.

— Você não precisa me responder agora. Apenas peço que pense a respeito. — Sorrio para Ally, tentando transmitir toda a minha sinceridade. — Por favor.

— Certo. Mas eu não garanto que vou concordar. — Responde e eu suspiro aliviado. — E me prometa que se eu disser não, você não vai mais insistir nessa história.

— Está bem. Eu prometo. — Concordo, animado. Ela ri e parece um pouco mais calma.

Eu não faço ideia do que vai acontecer agora, mas eu torço com todas as minhas forças para que Ally concorde com essa loucura toda. De alguma forma, eu sinto que se eu estiver com ela, serei capaz de conhecer um mundo até então desconhecido por mim.