– Por que você fez isso comigo? – Alana falou pela primeira vez desde que eu a tinha levado da escola a força.

Ela tinha ficado de cara emburrada o caminho todo e também estava com aquele olhar de acusação, odiava quando ela me olhava assim, porém só quando tinha feito algo de errado, e esse não era o caso, mas, mesmo assim, seu olhar ainda me incomodava.

— Não me olha desse jeito! E eu te trouxe a força, porque você parece que é maluca, fica se jogando para cima de um completo desconhecido. – falei de maneira um tanto quanto exaltada entrando no Restaurante da Vovó, que no caso, era o restaurante da minha avó que se localizava atrás da nossa casa.

Alana atravessou à porta do restaurante com a cara amarrada e agora ainda mais irritada por causa do meu comentário, respirei fundo tentando não me irritar com ela. Mas parecia ser algo impossível não ser tirada do sério por Alana. Ela tem horas que parece uma criança mimada e birrenta, além de toda sua infantilidade e ser tão superficial. Não consegue ver que alguém que pareça bom nem sempre é, que beleza, dinheiro e poder não são sinônimos de ser confiável.

As vezes, sinto meu estômago gelar ao ver Alana com atitudes iguais de agora, meu estômago gela pelo simples motivo de que morro de medo dela fazer uma besteira ou cair em armadilhas por causa dessa ingenuidade irritante. Eu me sinto tão responsável por Alana, afinal, crescemos juntas e ela é muito mais que uma amiga, ela é uma irmã, e como uma irmã mais velha super protetora, acho que nunca me perdoaria, se eu a deixasse se machucar.

— Desculpa! Eu sei que foi imprudência da minha parte agir daquele jeito. – Alana falou agora mais calma. – Mas é verdade! Eu estou completamente apaixonada por aquele homem. – revirei os olhos ao escutar a conclusão da sua fala.

— Boa tarde! – Vovó nos cumprimentou simpática assim que nos alcançou próximas a cozinha.

— Olá, Vovó. – eu e Alana respondemos ao mesmo tempo, só que meu tom era de irritação.

— O que houve? – Vovó logo questionou ao perceber o clima de briga.

— Alana! – respondi sem rodeios empurrando a porta da cozinha.

— É a sua neta que implica comigo! – Alana se defendeu antes de me seguir até a cozinha.

Hoje era quarta-feira e todas as quartas Alana almoçava comigo no Restaurante da Vovó, porque seu pai trabalha fora o dia todo e sua mãe fazia algum tipo de caridade neste dia da semana e a Alana como uma perfeita filhinha única, mimada de mamãe, não sabe fritar um ovo, nem mesmo ferve água. Na última vez que ela tentou ferver água, ela deixou a mesma secar na panela e por sorte não aconteceu um acidente. Então para evitar acidentes seu pai deixa pago o almoço de quarta-feira para ela.

— Olá meninas! Fiz minha lasanha especial, eu sei que é sua preferida Sofia! – Piccolo falou em seu típico sotaque italiano.

Ele era o cozinheiro chefe do restaurante, ele veio para o Brasil a uns quatro anos, porque havia se apaixonado pela sua atual esposa que é brasileira daqui de Santa Ágata mesmo, ela havia ido a Itália fazer um intercâmbio pela faculdade. O romance dos dois fez com que Piccolo largasse tudo na Itália e viesse atrás dela, ele nunca se arrependeu nem um pouco disso, ainda mais quando o pequeno Luigi, o garoto mais fofo de todo mundo, seu filho, nasceu.

— Obrigada, Piccolo! – agradeci me sentando a mesa que ficava na cozinha, bem longe das panelas.

— Melhorou o humor? – Alana questionou se sentando a minha frente.

— A lasanha especial do Piccolo sempre causa esse efeito em mim, mas ainda estou irritada com você. – Alana apenas revirou os olhos irrita com meu comentário e se manteve calada.

O resto do almoço seguiu bem, enquanto lavamos as mãos, Piccolo serviu nossos pratos com sua mágica e comemos em paz sem mais nenhuma briga, apenas conversando sobre banalidades.

Eu gostava de ter esses momentos com Alana, eram nesses momentos que eu me lembrava plenamente do porquê de sermos amigas e, não era só pelo fato de nos conhecermos desde criança, era porque Alana me fazia sorrir, ela me deixava confortável, ela não esperava muito de mim, ela me aceitava, apesar do meu jeito nada sociável. E mesmo sendo uma crítica ferrenha do seu jeito de ser, eu jamais a abandonaria, ou a deixaria ir embora.

— Eu vou para casa, Sofia. – Alana colocou a mochila no ombro ao se levantar da mesa.

— Já?

— Lembra que estou de recuperação em matemática? Eu tenho que estudar para me recuperar e ir para as férias sem o medo de ficar reprovada.

— Você está certa. Se eu pudesse até te ajudaria, mas você sabe que essa é uma matéria que eu mal posso me ajudar.

— Sem problemas! Eu já peguei alguns exercícios e achei uma vídeo aula na internet para me ajudar.

— Então só me resta lhe desejar, boa sorte.

— Obrigada! – Alana sorriu grata, se despediu de Piccolo e Júlio o subchefe que tinha acabado de chegar.

— Bem, eu também já estou indo. E pelo que parece o tempo voou para Júlio já ter chegado. – comentei me levantando da mesa e pegando minha mochila.

— Já são três da tarde. – Júlio informou terminado de vestir seu uniforme impecavelmente branco, que fazia contraste com sua pele negra igualmente impecável.

— Nossa! Eu nem vi a hora passar. – me assustei ao perceber que eu e Alana havíamos passado quase que três horas ali.

— Quando vocês bambinas se juntam para fofocar nem veem a hora passar. – Piccolo brincou em seu jeito espirituoso.

— Principalmente quando estão a falar de garotos. Aí, é que elas perdem o tempo. – Júlio acrescentou com um sorriso largo e bem alinhado no rosto, sua marca registrada.

— Vocês estão certos, não há como discordar disso, mas agora farei algo mais útil. – respondi ao me direcionar à porta dos fundos que daria caminho para os fundos de minha casa.

— Por favor, porque não se ganha a vida falando de meninos, roupas, unhas e maquiagens. – Júlio continuou de forma debochada, pois sabia bem que essas não eram pautas das minhas conversas, nem mesmo com Alana, pelo menos não os últimos três assuntos que ele citou

— Até mais! – me despedi passando pela porta.

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Assim que entrei no quarto, peguei minhas roupas para tomar um banho, aproveitando que a essa hora da tarde não fazia frio. Ao sair do banho vestida confortavelmente em uma calça de moletom preta, com uma camisa de mangas compridas cinza, calcei um par de meias grossas, me deitei na cama ainda do mesmo jeito que a deixei quando acordei hoje de manhã e puxei o livro que estava lendo, ontem a noite, da cabeceira.

O livro era Senhora de José de Alencar, eu já o tinha lido e estava lendo pela segunda vez, eu realmente gostava desse livro, admirava a inteligência e a força da personagem principal Aurélia e me identificava de certa forma com ela, não que minha vida fosse igual a dela, pois não era, mas eu acreditava que tínhamos algo em comum.

Aurélia era uma mulher diferente das demais de sua época, era linda, esperta, rica, imponente, sua presença era respeitada e invejada, mas ela tinha uma fraqueza, o amor, ela era apaixonada por Seixas, e sabia muito bem que disso ela não podia fugir, ela estaria presa a ele para sempre e mesmo todas suas qualidades não poderiam mudar esse fato, a única coisa que ela podia fazer era esperar que ele a amasse de volta.

E eu me sentia como Aurélia por vezes. Todos diziam como eu era inteligente, esperta e outras qualidades, mas eu não conseguia deixar de derreter ao simplesmente lembrar de Pedro, mas talvez nem isso eu tinha em comum com Aurélia, porque ela conseguira comprar Seixas para que fosse seu marido e eu nem ao menos consigo passar a aula de biologia ao lado Pedro sem tremer.

Coloquei o livro na cabeceira novamente sabendo que não iria me concentrar mais, levantei da cama indo em direção a escrivaninha que ficava colada na parede oposta a janela, me sentei na cadeira tentando ficar o mais reta o possível, apesar de boa postura não ser meu forte e que logo, logo eu estaria toda torta na cadeira. Abri o notebook, para ver se eu encontrava algo de interessante na internet, que me fizesse esquecer um pouco Pedro.

A primeira coisa que vi foi que eu tinha acabado de receber um novo e-mail, ao abrir a caixa de mensagens percebi que o e-mail não era exatamente para mim, mas o assunto me chamou atenção, o e-mail era para os alunos que estavam com notas baixas em geografia, por isso o professor tinha enviado uma proposta de trabalho para recuperação de nota, e ele deveria ter adicionado todos os contatos da turma automaticamente, para poupar tempo.

Havia três propostas de tema no e-mail, Reforma agrária no Brasil, Bancada ruralista e Agronegócio: Exportação, todos os temas me causaram uma curiosidade inquietante, como se as letras me saltassem aos olhos, não me contive, abri três novas abas para começar uma pesquisa sobre os temas, digitei os temas, um em cada aba e não demorou nem um segundo direito para as primeiras informações saltarem na tela.

Resolvi começar pela ordem que foram apresentadas no e-mail, Reforma Agrária no Brasil, as primeiras informações encontradas sobre o tema, não eram nenhuma novidade, a reforma agrária se dava como necessária pelo fato da grande concentração de terras na mão de poucos, enquanto um grande contingente de pessoas não tem onde plantar seus alimentos e até mesmo morar.

A consequência da não divisão das terras são várias, êxodo rural, o que causa inchaço populacional nos grandes centros urbanos, improdutividade de grandes lotes de terra, terras onde não se planta e nem se habita, e que poderia solucionar o problema de habitação de milhares de pessoas e até mesmo o problema da fome.

Todas essas informações não me eram novas. Em algum momento na escola ou assistindo televisão eu já havia ouvido falar sobre isso, mas então li algo que eu ainda não tinha me integrado.

Havia uma lei para que ocorressem a divisão das terras, de fato existe um Plano Nacional de Reforma Agrária. A lei de desapropriação prevista na Constituição de 1988, assegura o direito da União à desapropriação de terras ditas particulares, que fossem improdutivas em decorrência da utilidade pública, especialmente para fins de Reforma Agrária.

Se existe essa lei desde 1988 então por quê parece que nada mudou? Por quê parece que as coisas ainda estavam fora do lugar? Resolvi anotar essas questões em um bloco e continuei a pesquisa.

Bancada ruralista era o segundo tema sugerido, as informações sobre esse tema, me pareciam ainda mais interessantes, as informações eram marcadas de opiniões fortes e denúncias que não podiam ser ignoradas, a medida que eu ia lendo, um sentimento muito forte crescia dentro de mim, era uma mistura de raiva e tristeza nauseante.

Como era possível, meus olhos estarem vendados a tanto tempo para tudo o que eu lia agora? Ou melhor, como a maior parte da população ainda não vê isso?

Os dados diante dos meus olhos me mostravam vilões de verdade, monstros reais, deputados e senadores, homens e mulheres que deveriam pensar no bem do seu país e de seu povo, mas que só fazem o contrário, passam por cima do bem maior para satisfazer seus próprios interesses, ameaçam áreas indígenas, quilombolas e de reservas florestais em prol do lucro próprio. Pessoas sem caráter que se aproveitam de trabalho escravo, se apoiando no argumento de que o conceito de trabalho escravo previsto em lei, não abrange as situações injustas, degradantes e opressivas que esses canalhas submetem seus "trabalhadores".

Após a pesquisa do segundo tema eu tive que parar um momento para respirar, era impressionante a minha reação a essa leitura, que para algumas pessoas iria se passar como exagerada, porém pra mim tudo aquilo era extremamente revoltante, afinal é o meu povo, é o meu país. Como não se indignar de frente para tamanha agressão?

Depois de um curto tempo absorvendo as informações, anotei mais algumas perguntas no bloco e me concentrei no último tema. Agronegócio: Exportação, esse tema não me causou nenhum desagrado pelo menos não no começo, as primeiras notícias eram aquelas já muito ouvidas, grandes números de exportação a base da economia, o de sempre, porém as consequências não eram nada boas.

O cultivo da soja, carro-chefe da exportação, é um dos maiores motivos do desmatamento junto a criação de gado, outro produto de exportação, mas isso também não é grande novidade, sempre nos é apresentada esse tipo de informação nos jornais e na escola.

O que realmente despertou minha curiosidade foi a observação que anotei em meu bloco de forma destacada. Se o Brasil é um grande produtor de alimentos, porque os alimentos parecem tão caros?

Em minha pesquisa surgiram duas respostas as quais eu discutiria com o professor amanhã, a primeira é que o Brasil é um grande produtor agrícola, mas não é nenhuma potência industrial, possuímos matéria-prima, porém não conseguimos processá-la com eficiência e eficácia e a segunda resposta é a deficiência na distribuição dos suprimentos.

O sistema de distribuição fundamentalmente rodoviário traz mais transtornos do que por exemplo o ferroviário, que consegue comportar uma maior quantidade de suprimentos, com menor risco de acidentes e maior fluidez no caminho por não haver grandes chances de congestionamento de via, além desses motivos também tinha os altos impostos.

Anotei mais algumas questões no bloco e só então percebi quanto tempo eu havia dedicado aquela pesquisa, o lusco-fusco já realizara seu trabalho de escurecer o céu e os primeiros sinais de fadiga começavam a se manifestar em mim, desliguei o computador e sai do quarto em busca de algo pra comer.

— Vou servir o jantar agora mesmo. – Vovó informou assim que cheguei a sala.

— Ok. _ respondi simplesmente a seguindo até a cozinha.

— Você estava estudando?

— Digamos que sim. – Vovó me encarou questionadora como se minha resposta não fosse o bastante.

— O professor de geografia enviou alguns temas de trabalho para recuperar nota e eu estava dando uma olhada.

— Você está precisando de nota? Pensei que já tinha garantido nota em todas as matérias. – seu tom era preocupado, Vovó não se importava com meus atrasos, faltas ou problemas de comportamento na escola, mas minhas notas para ela era assunto sério.

— Não, eu tirei boas notas em todas as matérias, mas os temas me chamaram a atenção e como ainda estamos tendo aula junto com as recuperações, eu resolvi anotar algumas questões sobre a pesquisa para debater com o professor.

— E por que você ficou interessada? Pensei que sua matéria preferida fosse literatura. – Vovó prosseguiu com as perguntas enquanto terminava de arrumar a mesa.

— E é minha matéria preferida, mas os temas de geografia abriram os meus olhos para uma realidade que eu nunca tinha observado antes. – me sentei a mesa e Vovó me acompanhou.

— E que temas tão interessantes são esses?

— São sobre a questão rural no país, os temas abrangem reforma agrária, bancada ruralista, agronegócio, trabalho escravo. – Vovó soltou a colher que pegava o arroz em um movimento súbito ao ouvir minha resposta, mas logo a pegou novamente como se nada tivesse acontecido.

— Vovó, você nasceu em área rural, interior do Mato Grosso do Sul, não é? – sua reação foi tão estranha quanto a última.

— Eu vim de Mato Grosso do Sul. Agora coma antes que esfrie. – ela respondeu cortando e encerrando o assunto de forma incomum.

Eu não sabia quase nada sobre o passado da Vovó e da Marina, eu nem ao menos sabia se Marina havia nascido em Mato Grosso do Sul ou aqui, a única coisa que eu sabia era que o vovô tinha morrido e ela tinha vindo para o Rio, e só, eu nem fazia ideia de como meu avô tinha morrido nem o porquê.

O jantar passou rápido e silencioso, não havia mais assunto, era como se um muro fosse construído instantaneamente entre mim e Vovó, depois de sua resposta, eu não me esforcei para derrubar o muro, pelo menos não hoje. Subi para o quarto logo após terminar de comer e me arrumei para dormir, muito mais cedo do que meu habitual, mas eu me senti cansada e queria chegar na escola na hora para variar.