Mentira
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Acordei bem cedo e disposta, duas coisas que definitivamente não faziam parte da minha rotina, mas algo me dizia que esse dia de fato seria atípico. Me arrumei bem rápido e desci as escadas correndo em direção a cozinha, que estava vazia, preparei um copo de café com leite e tomei rápido acompanhado de um pedaço de pão, peguei minha mochila e fui embora sem nem mesmo me despedir de Vovó que devia estar no estoque do restaurante verificando as mercadorias.
Cheguei na escola antes do horário, não tinha muitas pessoas no local, até mesmo a inspetora não estava na porta, mas eu sabia que o professor de geografia chegava bem cedo e era ele quem eu procurava.
Ao entrar na sala dos professores encontrei quem eu procurava, Maurício o professor de geografia estava sentado em um sofá velho bem no canto da sala, com uma revista em uma mão e uma xícara de café na outra, havia outros três professores na sala muito entretidos em suas leituras assim como Maurício.
— Professor Maurício! – chamei sua atenção assim que me aproximei, ele voltou sua atenção para mim com um sorriso simpático nos lábios.
— Bom dia! Posso te ajudar? – Maurício era um dos professores mais simpáticos da escola, seu sorriso era sempre tranquilizador, era um bom professor.
— Bom dia! E sim, o senhor pode me ajudar. – ele indicou o lugar ao seu lado para eu sentar.
— Senhor está no céu, Sofia. Mas então, em que posso te ajudar?
— Bem, eu li suas propostas de tema para o trabalho de recuperação e eles realmente chamaram minha atenção, eu fiz uma pesquisa sobre esses assuntos e me surgiram algumas dúvidas sobre o tema. Você poderia me respondê-las?
— Se estiver ao meu alcance, será um prazer.
— A primeira questão é sobre a Reforma Agrária, eu li que há uma lei de desapropriação de terras improdutivas, desde 1988. Se existe essa lei desde 1988... Então, por que parece que nada mudou? Por que parece que as coisas ainda estão fora do lugar?
— Bem, é incorreto afirmar que nada mudou, é óbvio que a desigualdade na distribuição de terras ainda existe e que ainda há vários hectares de terras sem uso, mas algumas mudanças já foram alcançadas, a própria lei já é um avanço dentro de um país em que desde sua formação é dominada por latifundiários. E a existência do Movimento dos Sem Terra tem trazido um maior movimento para mudança desse quadro desigual de distribuição de terras.
— Sim professor, mas pelo tempo desta lei, pelo tempo das ações do MST, não era pra ter mudado mais coisa?
— Sim, era. Mas você também pesquisou sobre Bancada Ruralista, não pesquisou? – sua pergunta era muito mais uma resposta.
— Sim eu pesquisei.
— Eles são poderosos, Sofia. Eles criam as leis que lhes favorecem, eles vetam as que os desfavorecem, eles são impiedosos, eles calam pessoas que lutam pela justiça, de forma definitiva.
Senti um frio percorrer minha espinha.
— E outra coisa, antes de você pesquisar sobre os temas que eu indiquei, você tinha noção de tudo isso? – outra pergunta que mais parecia uma resposta.
— Não.
— Imagine quantos milhares de pessoas nesse país não tem noção dessas coisas. E quando não se sabe do problema, não há problema.
Sua última frase era a explicação perfeita e a solução perfeita era fazer as pessoas ficarem cientes. Mas como? Uma sensação de inquietação começou queimar em mim, mas essa sensação logo foi substituída por outra totalmente diferente e mais forte, ao escutar "A voz".
— Professor Maurício! – Pedro chamou da porta da sala, me virei junto com o professor para encará-lo, nossos olhos se encontraram me fazendo derreter por dentro.
— Bom dia, Pedro! Veio ver como está sua situação na minha matéria? – Pedro assentiu um pouco envergonhado.
— Sim, eu fiz o trabalho. – ele se aproximou do professor com o trabalho na mão.
— Olha só, você realmente fez o trabalho. Isso já é um começo. – o professor brincou enquanto folheava o trabalho de Pedro.
— Eu estou decidido a não repetir esse ano. – Pedro falou tentando não olhar em minha direção, de alguma forma ele parecia incomodado com minha presença.
— Professor, depois a gente continua nossa conversa sobre os temas, eu tenho que ir para aula. – eu não queria ir, mas também não queria deixar Pedro desconfortável.
— Tudo bem, tenha uma boa aula e é muito bom saber que tenho uma aluna tão interessada quanto você. – Maurício sorriu mais uma vez, enquanto Pedro ainda tentava fingir que eu não estava ali, sua atitude começava a me machucar, então sai rápido antes que eu fizesse algo de que eu me arrependesse depois.
Corri para sala na qual eu teria aula, que ainda estava vazia, me segurando para não chorar, eu não conseguia entender porque Pedro tinha me ignorado daquela maneira, era certo que não éramos amigos ou algo assim, mas ele tinha sido tão gentil na aula de biologia. Por que agir com tanta indiferença hoje? Eu não conseguia entender sua atitude e isso só me dava mais vontade de chorar.
Isso era tão idiota! Por que eu estou com vontade de chorar? Nós não temos nada, nem somos amigos. Tentei apagar esses pensamentos da minha mente enquanto os alunos começavam a entrar.
Pedro entrou na sala, nossos olhos se encontraram como na sala dos professores, mas ele desviou rapidamente voltando a me ignorar de cara fechada, minha tristeza por sua atitude começou a ser substituída pela raiva, outro sentimento que parecia que eu também não tinha direito de sentir.
— Que milagre foi esse de você estar aqui na hora certa? – Alana questionou se sentado ao meu lado, me tirando do meu estado de distração.
— Nem te vi chegar.
— Eu cheguei exatamente agora, atrasada como sempre, só entrei antes da professora porque essa está mais atrasada do que eu.
— Pois é.
— O que aconteceu com você?
— Nada.
— Como nada?! Chegou cedo, esta olhando intensamente para o Pedro, na verdade isso é normal, mas hoje você não está babando por ele, você parece estar com raiva. – agora eu a olhava com raiva.
— Eu já disse que não aconteceu nada.
— Sofia!
— Está bem. O que você achou do jeito que o Pedro me tratou na aula de biologia? – Alana sorriu torto ao perceber minha fragilidade, ela amava quando eu parecia uma menininha apaixonada.
— Eu achei que ele agiu bem diferente do jeito que ele age normalmente, ele foi simpático e até parecia estar feliz. – ela não estava falando aquilo só para me agradar.
— Eu também achei isso. Não consigo entender porque ele me ignorou hoje. – eu não conseguia deixar de sentir raiva.
— Te ignorou? Quando?
— Hoje, eu estava conversando com o professor de geografia e ele entrou na sala dos professores para falar com o Maurício e agiu como se eu não tivesse na sala.
— Você tem certeza disso?
— Absoluta.
— Você fez alguma coisa que pudesse deixá-lo zangado?
— Não.
— Então ele é realmente maluco como muitos pensam.
— Eu não acredito nisso.
— Sofia, ele pode estar em um dia ruim, não se preocupa com isso, ok?
— Ok.
As aulas passaram e Pedro continuou a me ignorar, resolvi seguir o conselho de Alana e não me preocupar, mas era óbvio aquilo me incomodava.
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— Vou almoçar com você hoje. – Alana informou saindo comigo da escola.
— Não que eu esteja reclamando. Contudo, por que você vai almoçar comigo hoje, sua mãe não está em casa?
— Não, ela teve um compromisso hoje e disse para eu almoçar na Vovó.
— Sem problemas, você sabe que é sempre bem-vinda.
— Que bonitinho! Eu amo quando você é gentil comigo. – ela quase ronronou me abraçou de lado.
— Como pode caber tanta carência em uma pessoa só?
— Não seja chata! Não acredito! – Alana parou subitamente olhando para o outro lado da rua.
— O que foi? – antes que ela pudesse me responder obtive minha resposta.
O homem que Alana tinha quase que agarrado ontem, estava do outro da rua conversando com um homem um pouco mais alto que ele, todo de preto que parecia ser um segurança.
— Nem pense em começar seu espetáculo, Alana! Nós vamos embora agora. – a puxei pelo braço sem dar tempo dela reagir.
— Sofia! – ela gritou me seguindo obrigada.
— Não adianta fazer escândalo.
— Ok! Eu vou fazer a sua vontade só porque você ainda está triste pela história com o Pedro. – ela realmente sabia me tirar do sério.
— Você é tão solidária. – soei debochada.
Alana não criou mais nenhum estardalhaço até chegarmos ao restaurante, ela realmente parecia compadecida da minha tristeza por causa da atitude de Pedro comigo, ela sabia bem que eu estava muito mais triste do que eu aparentava.
— Boa tarde, meninas. – Vovó nos recepcionou.
— Boa tarde Vovó.
— Boa tarde Vovó, eu vou almoçar aqui de novo hoje, depois é só acertar com a minha mãe.
— Sem problemas, minha flor. Hoje você come aqui por conta da casa.
— Vovó, é por isso que eu te amo. – Alana abraçou Vovó carinhosa.
— Que melação desnecessária. – reclamei.
— Não precisa ficar com ciúmes, Sofia. – Alana provocou.
— Sofia, você saiu cedo hoje, nem se despediu. – Vovó falou curiosa.
— Desculpa, Vovó. Eu tinha que ver algumas coisas com um professor, por isso tive que chegar cedo.
— Sendo assim está perdoada. Agora vão lá almoçar.
Ao entrarmos na cozinha tomamos um susto enorme, uma das panelas de sopa caiu do fogão espalhando o conteúdo para todo lado e ao tentar deter a queda um dos assistentes de cozinha acabou queimando a mão com o metal quente.
— Dio mio! Sofia, chame sua avó aqui rápido! – Piccolo começou a falar alto tentando controlar a situação.
— Eu já volto! – respondi rápido largando minha mochila na mesa e saindo da cozinha em busca de Vovó.
Quando avistei Vovó, percebi que estava conversando com um homem, o homem que Alana tinha cismado, o mesmo que estava na frente da escola ontem. Vovó parecia extremamente nervosa com sua presença e ele parecia gostar do seu desconforto.
— Eu não acredito! – Alana exclamou logo atrás de mim.
— Você não estava na cozinha? – questionei olhando fixamente para Vovó e o cara.
— Eu vim ver se você precisava de ajuda para achar a Vovó, ela podia ter saído... – a deixei falando sozinha e fui até minha avó.
— Algum problema? – questionei me colocando bem ao lado de Vovó de forma protetora.
— Não. Volte para cozinha. – ela estava muito nervosa.
Eu não a obedeci, me mantive firme ao seu lado, eu só sairia dali quando aquele cara fosse embora.
— Você deveria escutar sua Vovó. – ele falou em um tom debochado.
— Desculpa, mas eu não estou falando com você. – falei ríspida, o mirando com um olhar irritado.
— Realmente você é muito parecida com sua mãe, mas parece ser mais durona. – ele me analisava calmamente com os olhos.
— Você conhece a minha mãe? – agora ele tinha conseguido minha atenção.
— Sai daqui agora! – Vovó quase gritou enquanto apontava a saída para o estranho, visivelmente angustiada.
— Eu já vou. – ele acenou para alguém atrás de nós, provavelmente Alana, que devia estar babando por ele, e foi embora sem resistência.
— Quem é esse cara? – questionei Vovó que parecia um pouco menos angustiada, mas tinha o rosto muito pálida.
— Ninguém importante. – ela tentou respirar pausadamente querendo se acalmar.
— Você está bem?
— Estou, mas preciso descansar, eu vou para casa. – ela se virou e começou andar até a cozinha, eu a segui e Alana veio logo atrás de nós.
— Senhora, aconteceu um acidente na cozinha. – Piccolo começou a falar sobre a queda da panela, que eu já havia me esquecido.
— Eu não posso ver nada disso agora Piccolo, não estou me sentindo nada bem. Você pode resolver isso sozinho?
— Sim, senhora! Deixa tudo comigo. Melhoras! – respondeu voltando sua atenção para a limpeza da cozinha.
— Quer que eu vá com você Vovó?
— Não precisa, fique aqui, ajude Piccolo e almoce com Alana. Qualquer coisa eu prometo que te chamo. – ela sorriu fraco em uma tentativa de me tranquilizar e saiu pela porta dos fundos.
— O que o bonitão queria? – Alana questionou sem toda aquela empolgação que ela tinha quando se referia ao cara que havia deixado Vovó daquele jeito.
— Não sei, mas vou descobrir agora mesmo. E você nem pense em vir atrás de mim, fique aqui e ajude Piccolo, por favor. – falei por fim, saindo da cozinha em direção a saída principal do restaurante, na esperança de conseguir alcançar o cara.
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