Mentira
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Definitivamente eu havia tido a melhor aula de biologia de toda minha vida. A partir de hoje eu não odiava mais biologia, pelo menos não muito. Eu havia passado a aula inteira ensinando Pedro a matéria, nunca tinha visto ele sorrir tanto em uma aula como hoje, ele na escola era sempre quieto e frio com tudo e com todos, porém, não sei se é porque estou apaixonada e quero acreditar que foi diferente, mas hoje foi diferente. Por alguns momentos eu podia acreditar que ele realmente estava feliz, então o sinal tocou e o momento mágico acabou.
— Mais uma vez obrigado. – ele falou apoiando sua mão em meu ombro, acho que era a primeira vez que tínhamos um contato físico, pelo menos nesses dois anos que eu gostava dele essa era a primeira vez.
— Foi um prazer. – sorri boba deixando de lado a pessoa indiferente que todas as pessoas da escola estavam habituadas, ele retribuiu meu sorriso, pegou a mochila e saiu da sala.
— De nada. – Alana sorriu presunçosa enquanto terminava de guardar suas coisas.
— Eu não te agradeci. – respondi voltando ao meu estado natural.
— Mas deveria, porém, não precisa dizer obrigada, só basta me comprar um cupcake, com bastante chocolate. – rebateu indo em direção a porta e eu a segui.
— Não vejo o porquê de você merecer isso, mas vou comprar, porque estou de muito bom humor hoje. – peguei minha carteira na mochila e fui andando em direção a cantina para comprar o cupcake na esfomeada.
— Você pode até não saber o porquê de eu merecer um cupcake, mas eu sei muito bem o porquê do seu bom humor. – ela falou para me provocar, mas eu a ignorei e continuei andando.
— O cupcake que tiver mais chocolate, por favor. – fiz o pedido a moça da cantina, que assentiu e entrou na cozinha para pegá-lo.
— Olá! – Plínio falou sorridente se aproximando de mim.
Ele era muito diferente do irmão, sua pele era bem mais claras, seus olhos verdes escuros bem diferentes do tom alaranjado dos de Pedro, seus cabelos eram mais compridos, chegando altura dos ombros e tinha um tom de castanho claro, seu sorriso era fácil, mas claramente suspeito. Além das diferenças físicas, sua personalidade também era bem diferente ao irmão.
— Olá, Pinóquio. – respondi sem me virar para ele.
— Plínio, por favor. – ele me corrigiu em um tom amigável.
— O que você quer, Pinóquio? – frisei bem o nome Pinóquio, mas ele não pareceu se irritar.
— Eu sei que não vai me ajudar, mas eu tinha que tentar. – ele parecia nervoso.
— Fala logo! – eu já estava ficando impaciente.
— Eu queria que você me ajudasse a ficar com a Alana. – virei minha cabeça para observá-lo e ele se encolheu como se eu fosse bater nele.
— Claro... – fiz uma pausa usando uma cara simpática que o fez relaxar esperançoso. – Que não. – respondi por fim, fechando a cara.
— Por quê? – ele questionou desolado.
— Por que você achava que eu não iria te ajudar, mesmo? – ele suspirou cansado.
— Por que eu sou um mentiroso idiota? – ele perguntou já sabendo a resposta.
— Aqui está! – a moça da cantina voltou, me entregando o cupcake, a paguei e me virei para Plínio.
— Exato. E além do mais, ela prefere caras mais velhos. – disse me retirando e indo até Alana que estava sentada em um banco no canto do pátio.
— O que o seu futuro cunhado queria? – Alana me questionou com um sorriso debochado assim que me sentei ao seu lado.
— Você! – repeti seu sorriso e ela em contra partida fechou a cara na hora, o que me fez gargalhar descaradamente de suas feições atuais.
— Como assim? – questionou muitíssimo irritada com minha resposta e minhas gargalhadas.
— Ele obviamente está a fim de você e isso não é de hoje, mas a gente trata disso depois. Vamos esclarecer uma coisa sobre a qual estou muito desconfiada, você armou para o Pedro se sentar ao meu lado? – o sorriso presunçoso e debochado voltou aos seus lábios.
— Bem, eu percebi que o Tiago tinha faltado, então me sentei no canto e esperei que o Pedro sobrasse, para chamá-lo e oferecer a incrível oportunidade de se juntar a gente no trabalho. Não chega a ser uma armação, apenas aproveitei uma boa oportunidade que surgiu. – seu tom era natural e despreocupado.
— Você é maquiavélica! – ela sorriu abertamente com minha exclamação.
— Obrigada! Assumo que a maior parte aprendi com você. – eu tive que sorrir com isso.
— Agora que você já resolveu suas questões sobre minha "armação", me esclareça. O que exatamente o Plínio queria com você? – falou voltando a ficar séria.
— Como eu já tinha dito, ele está a fim de você e quer que eu o ajude a te conquistar. – falei como se fosse óbvio.
— Eu não acredito! Nunca ficaria com ele. – Alana quase gritou enquanto fazia uma cara de desprezo.
— Ah! Que isso, Alana? Isso tudo só porque ele é um mentiroso idiota? Coitadinho. – soei irônica.
— E principalmente mais novo. – ela falou como se esse fosse o maior defeito que uma pessoa poderia ter em todo universo.
— Você deveria ser menos preconceituosa com esse negócio de idade. – ela nunca ficava com garotos mais novos e nem mesmo da mesma idade ou próximo.
— Não é preconceito, é preferência. – se defendeu.
O sinal indicando o fim do intervalo ressoou pelo pátio, o que fez muito alunos bufarem descontentes, principalmente os da minha turma que teria aula de matemática no último tempo. Eu e Alana fomos para sala e nos sentamos no mesmo lugar onde havíamos sentado na primeira aula, lá Alana poderia dormir sem intervenções do professor.
A aula não me agradava em nada, eu só não odiava matemática mais do que biologia. Mas após minha aula de hoje com Pedro, matemática tinha ganhado o novo título da matéria mais indesejada por mim. Minhas notas em matemática eram sempre medíocres, eu não conseguia gostar, me dedicar e com toda certeza não escolheria a área de exatas para minha vida profissional.
Contudo, havia uma coisa boa nessa aula, podia ficar olhando para Pedro sem as provocações de Alana, que dormia a aula toda, e sem que ele notasse também, já que estava super concentrado na aula, como se o professor ministrasse a disciplina só para ele.
O sinal tocou novamente indicando agora o fim das aulas, mas apesar do barulho estridente Alana nem fez menção de acordar, eu poderia deixá-la pra trás como vingança por ter armado pra mim, mas no final tinha sido ótimo e eu não era vingativa.
— Acorda! – gritei perto do seu ouvido a sacudindo.
— Apocalipse zumbi! Não me comam, eu não tenho cérebro! – ela exclamou assustada acordando.
— É. Eu tenho certeza que você não tem cérebro. – falei gargalhando.
— Isso não se faz! – ela começou a reclamar ao mesmo tempo que fazia beicinho como se fosse um bebê.
— Você deveria me agradecer, por não ter te abandonado.
— Você podia ter me acordado com mais carinho. – ela pegou a mochila se levantando um pouco irritada.
— Vou pensar no seu caso.
Caminhamos em direção a saída e Alana ia um pouco mais a frente ainda irritada com o jeito que a acordei na sala. Já estávamos do lado de fora da escola, quando ela parou de repente me fazendo bater contra suas costas.
— O que foi? Por que parou do nada? – questionei sem entender, após contorná-la ficando de frente para ela.
— Olha aquele cara encostado no carro.
Virei-me em direção à rua e pude vê-lo imediatamente, ele tinha acabado de tirar os óculos escuros de marca, os quais deviam pagar toda a roupa que eu estava usando, ele os colocou preso na gola "v" da camisa preta que fazia contraste com sua pele branca.
Ele realmente era um homem muito bonito, era alto e forte, seus bíceps muito bem contornados se realçaram ao cruzar os braços, seu cabelo era escuro e tinha um corte jovem e sério ao mesmo tempo, seus olhos pareciam ser tão escuros quanto os cabelos, pelo menos de longe. Ele parecia ter uns 35 anos por sua postura altiva e séria, mas seu físico lhe dava uns 27 anos facilmente e estava encostado em um carro lindíssimo que provavelmente era dele.
— É bem bonito. – falei sem muito interesse.
— Bonito?! Ele é lindo!
Alana o secava sem a menor vergonha, sem se importar se outras pessoas estavam vendo seu comportamento inapropriado e até mesmo sem se importar com o homem, alvo de sua mira, que poderia se sentir constrangido com sua falta de senso. E eu já começava ter aquele sentimento de vergonha alheia.
— Dá para você parar de encarar o cara dessa forma tão descarada? – cutuquei-a de leve em uma falha tentativa de fazê-la voltar a realidade.
— Eu acho que acabei de encontrar o amor na minha vida, o meu futuro marido, o meu príncipe encantado. – Alana só faltava se atirar nos braços do desconhecido sem medir as consequências.
— Para com isso! Vamos embora, antes que esse cara ache que você é uma louca perigosa e ligue para a polícia. – tentei ficar em sua frente novamente para tampar seu campo de visão, mas ela conseguiu me empurrar para o lado.
— Olha! Ele está olhando para cá. – ela abriu um sorriso gigante e acenou para o estranho, que sorriu de volta e acenou com a cabeça.
Sinceramente, é minha amiga, mas não posso negar que Alana é muito oferecida e inconsequente.
— Toma vergonha nessa sua cara de pau, garota! – comecei a andar a puxando pelo braço.
— Sofia! – Alana protestou, fazendo força comigo para continuar no mesmo lugar, porém eu a puxei mais forte fazendo ela se mover.
Voltei a olhar para trás e pude ver o desconhecido nos observando atentamente, mas ele não parecia simplesmente se divertir com a aquela cena patética, ele nos olhava com atenção, como se gravasse em sua mente cada gesto que eu e Alana fazíamos, nossos olhos se encontraram por um instante e pude perceber seus olhos se estreitarem como se quisesse me ver melhor, virei o rosto rapidamente voltando minha atenção ao caminho, enquanto puxava Alana ainda relutante, pelo braço.
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