Mente pra mim
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Ele estava impecável, com um terno azul marinho que mais parecia ser feito sob medida para ele, a camisa branca e a gravata combinando perfeitamente. No rosto, a barba por fazer deixava o conjunto menos formal. E muito sexy. Tinha a postura de um lorde.
Oliver puxou a cadeira bem devagar, abriu os botões do paletó e sentou-se lentamente, colocou os cotovelos sobre a mesa e o queixo em cima das mãos, olhou Elena fixamente nos olhos. Ela abaixou o livro devagar e suspirou, percebendo que tinha prendido a respiração todo o tempo.
Foi ele quem quebrou o silêncio.
– E então, o que está lendo? – Oliver ergueu a sobrancelha e pendeu a cabeça para o lado, a fim de ver o livro que repousava no colo dela, mas não viu nada.
– Não vai querer saber. – ficou corada ao se lembrar dos detalhes de seu livro e abaixou a cabeça.
– Ou... Você não vai querer me contar? – Elena abriu a boca para responder. – Okay, não é da minha conta mesmo.
Oliver deu um sorriso torto mostrando que aquilo não tinha importância e chamou o garçom.
– I want a coffe, please.
– Você já tomou o café daqui?
– Na verdade, é a primeira vez que venho.
– Bom... – ela se inclina para chegar mais perto. – Se eu fosse você, pediria um suco. – sussurrou.
Oliver olhou com curiosidade para Elena, se recostou na cadeira e cruzou os braços.
– Acho que posso me arriscar, gosto muito de café! – disse em um tom despreocupado.
Ela deu de ombros e se posicionou na cadeira, sorriu e pegou seu suco.
– Você é quem sabe, eu tenho coisa melhor aqui. – tomou um gole do suco. – Huum!
Oliver olhou com malicia para ela, depois sorriu abertamente.
Como ele consegue fazer isso, pensou Elena. Ela só se lembrou de como respirar depois que seus pulmões pediram por ar. Suspirou.
– Então, você vestiu seu terno sob medida para vir tomar um café no hall? Uau.
– Nunca se sabe quem vamos encontrar no caminho. – ah, aquele sorriso de novo! – Às vezes pode ser bem melhor do que um café.
Elena quase engasgou com o liquido. Oliver pareceu se divertir com aquilo.
– Considerando o café daqui, isso não é muito difícil.
– Eu estava trabalhando.
O garçom chega com o pedido de Oliver.
– Vamos ver então. – ele leva o café à boca e faz uma careta, Elena ri alto e a expressão de Oliver vai de desagrado à fascínio em um instante.
– Eu sei. – ela olha para o relógio, 17:13h. John já devia ter chegado.
– O que você está tomando? – perguntou, deixando o café ruim de lado.
– Suco de laranja e hortelã.
– Parece bom. – Oliver pega o suco da mão de Elena e toma um grande gole. – Bom mesmo. Isso é por não me avisar do café.
Elena olha incrédula para ele, que se diverte com a situação. Ela sorri também, e tenta se lembrar da última vez que sentiu aquilo. O que era mesmo? Parecia... Felicidade.
O segundo suco veio rápido. Ela olha a hora outra vez, 17:28. Cadê você John.
– Em que você trabalha?
– Como? – Oliver se distraiu por um momento.
– Você disse que estava trabalhando. E aqui por perto?
– Mais do que imagina.
– Eu não quis ser intrometida. – fica sem graça.
– Não foi o que quis dizer. – ele explica. – Trabalho aqui mesmo, no prédio anexo a este.
O edifício Paradise era composto por dois prédios, um era o residencial, este em que moravam. O outro, um pouco mais baixo, era comercial. Elena sabia que a sede das empresas James Carter ficavam naquele prédio também, os dois eram interligados por um lindo jardim, com muitas flores e um pequeno lago.
– Bom, não precisa pegar o metrô! Sei como é.
– Então você também trabalha por perto.
– Mais do que imagina! – repetiu.
Elena olha a hora no celular mais uma vez, 17:35. Desta vez fica preocupada.
– Você está esperando alguém? Estou atrapalhando alguma coisa?
– Sim, não... É o meu irmão, ele já deveria ter chegado há mais de meia hora.
– Você tem um irmão. Deve ser mais novo, pela sua preocupação.
– Sim, dezesseis anos. John é o nome dele.
Algumas pessoas começam a se aglomerar perto da televisão do café. O atendente aumenta o volume.
“os bombeiros dizem que, provavelmente, foi uma explosão causada por curto-circuito, no laboratório de ciências, o fogo já destruiu uma parte dessa ala da Morris Heights School...”
Elena levanta da cadeira violentamente, derrubando-a no chão.
– Nossa – diz Oliver, ele olha para Elena que está aterrorizada.
– No, no, no, no! – ela deixa o celular cair quando tenta digitar o número do irmão. – Oh Deus, por favor!
– O que foi Elena? – ele pergunta enquanto pega o aparelho no chão.
John, eu preciso ligar para John. Oh God! É a escola dele. – Ela tremia dos pés à cabeça.
– Okay, Elena. Tente ficar calma e me diga o número que eu ligo pra você. Tudo bem?
– É... Droga, o número é...
– Está em sua agenda, certo? – ela assente. – É este? – mostra a tela do celular para ela.
– Sim.
Ela olhava de um lado paro outro, da TV até a porta do café na esperança de que John estrasse a qualquer momento.
– Está dando desligado. – Oliver tenta outra vez. – Droga! Caiu direto na caixa.
Elena sai correndo pela porta e passa pelo hall até a entrada do prédio como um tornado.
– Taxi! Taxi! – ela gritava da calçada – Taxi! Já estava quase no meio da rua.
– Hey, Elena! – por um instante ela pensou ser John, mas aquela voz não era a dele. – Meu carro está bem aqui, venha, eu te levo.
Ela nem pensa uma única vez, só corre até o carro de Oliver e entra, olha para o lado onde Oliver está, no banco do motorista. Ele liga o carro, mas, antes de partir, seca uma lágrima que descia pelo rosto de Elena com o polegar.
– Ele está bem, você vai ver. – disse calmamente. – Vamos pela Harlem River Drive, será mais rápido. – Entregou o celular a ela – Continue tentando.
O carro saiu com uma arrancada brusca, as pessoas nos outros veículos buzinavam e xingavam. Infelizmente, não foram muito longe, parecia que tinham tido a mesma ideia quanto a Harlem.
– Droga! Está tudo parado.
– Eu vou a pé! – Elena colocou a mão na maçaneta, mas Oliver a impediu de sair.
– Ainda estamos muito longe. Esteja certa de que, se isso fosse o melhor, eu mesmo iria a pé com você. – ele olhou no fundo de seus olhos e disse – Continue tentando.
Elena discou o numero e antes que apertasse o “send” seu celular vibrou. John!
– Graças a Deus! Você está bem? Onde está? Porque não ligou e por que o seu celular estava desligado?
– Calma Elena! Estou bem...
O carro parou, ela nem sabia onde estavam. Elena só se preocupava em falar com seu irmão. Ele disse que todos os alunos estavam no ginásio e saíram a tempo, os ônibus não podiam se aproximar da escola, pois os bombeiros fecharam todas as ruas. John foi para a casa de Mathew, seu melhor amigo, que é perto de lá. Elena conversou com ele por vários minutos, até se certificar que estava realmente bem.
– E então, está tudo bem? – ele parecia preocupado de verdade.
– Yes, está. Phil vai trazer John para casa assim que liberarem o transito.
Sua voz foi apenas um sussurro entrecortado, abafado pelo choro que começava a cair como uma enxurrada.
Oliver a abraçou, Elena tentou se afastar com a surpresa, mas ele não a soltou. O abraço era forte, apertado. Não o bastante para sufocar, mas o bastante pra que, se ela fraqueja-se, ele deixaria cair. E ela chorou. Chorou pelo susto com John, chorou com a dor, chorou por tudo que vinha passando e tudo que havia perdido no tempo. Chorando como alívio para tudo o que sentia e pelo que tinha guardado.
Ficaram assim por alguns momentos, logo ela se acalmou e soltou-se daquele abraço.
– Sorry! Eu não queria te envolver nisso, a gente mal se conhece e...
– Não tem que se desculpar. – ele a interrompeu. – Eu vi seu desespero e precisava ajudar. Eu queria ajudar. – tirou um lenço do bolso de dentro do paletó e a entregou, Elena enxugou o rosto e estendeu para devolvê-lo. – Fique com ele, pode me entregar outro dia. Você está melhor?
– Estou, obrigada. Você me ajudou muito.
– Bom, eu estava de carro e você...
– Sim, mas... Não foi o que quis dizer... – ela o interrompeu. – Eu só... Bem, obrigada, de verdade.
Ela queria dizer obrigada por deixa-la chorar como uma criança nos braços dele. Havia muito tempo que Elena estava transbordando e não se permitia esvaziar-se de toda a porcaria que vinha passando. Aquilo foi uma pequena abertura nas comportas de sua represa.
Oliver olhava para Elena com compaixão e admiração, não pena. Ela podia ver, ficou fascinada com aquilo. E foi, naquele momento, que se apaixonou por ele.
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